A Deolinda Cordeiro escreveu no campo de mensagens do meu site Projecto Memória Macaense, o texto abaixo, que posso dizer “doces e singelas memórias do passado em Macau”. Uma linguagem simples, do jeito como falavamos em Macau, mas que fala forte no nosso coração, de quem viveu aqueles bons e velhos tempos. Anos de ouro, duma Macau sem modernidade, provinciana, mas … humana!!! Não sei a idade da Deolinda, mas se calhar fomos vizinhos, pois eu “nasci” na Rua Nova São Lázaro, que muitos, até eu, a chamava sem a “Nova”. Minha época foi de 1950 a 1958 (por aí). Vamos então ler a simples e bela mensagem da Deolinda:
foto: Rua (Nova) São Lázaro. Moramos num desses casarões preservados (Graças a Deus)
“Sou da família de Cordeiro, descendente de avós paternos que já descendiam, acho que, de francês ou holandês. ou coisa parecida, porque minha avó disse-me isto.
Minha avó materna chama-se Edwiges Placé Cordeiro e avô Eduardo Cordeiro. Minha avó materna é chinesa natural de uma aldeia de Seak Kei e o avô natural de Macau. Minha família Cordeiro tem muita devoção ao Senhor dos Passos e todos os anos quando há procissão, os de Cordeiro e Colaço (primos) ocupam maior praça na procissão de Senhor dos Passos. Também (Cordeiro e Colaço) são muito desportistas. Gostam muito do hóquei em campo. Foram da direcção do Clube Lusitânia que até à data era conhecida pelo seu hóquei em campo.
Recordo-me que, quando era ainda muito pequena, meu pai costumava levar-me para seu treinamento ou qualquer jogo no campo Tap Seac.
Até hoje lembro-me como era então o campo de hóquei, que tanto suor deixaram estes prestigiosos hoquistas naquele sítio. Lembro-me que quando jogavam, no descanso, costumavam comer umas rodelas de limão que sempre traziam ao campo para matar a sede.
Meus avós paternos são uns autênticos “gente de Macau” e “Macaenses” porque quando começei a entender este mundo, eles já falavam “Patuá” comigo que era uma língua muito antiga falada em Macau. Eu acho que aqueles que são Macaenses antigos sabem o que é falar Patuá. Mas infelizmente no meu tempo já não se falava, mas entendia-se um pouco.
Lembro-me que minha avó paterna costumava dizer: “aquela nhonha daquele bairro, cuza quere ….. que saião, é uma boniteza mas uma garridinha” … Mas naquele tempo minha avó era muito boa cozinheira e a minha tia Heti também. Cozinhavam balichão, pato cabidela, tacho, cuscús, feijoada, etc….e quando faziam bolo, perguntavam a quem antes de entrar na sua casa “se estás limpa” porque dizem que se estás com menstruação, o bolo não sobe e fica mal. Também era boa para fazer chouriço picante, empada de peixe, alua, bolo de mármore e bolo bicho bicho. São umas autênticas cozinheiras Macaenses.
Agora já não se come o mesmo sabor de antes. Nós vivíamos na Rua de (Nova) S. Lázaro nº. 28, que fica logo na esquina e à noite quando meus pais e tios estavam a jogar Ma Cheok e nós ainda éramos pequenas, costumávamos brincar na porta de rua, como dizem, com os primos e sentar-nos na esquina a conversar e “tomar fresco” porque naquela altura não tínhamos o ar condicionado.
Quando passava o homem de cana de açúcar ou de doce mole, comprávamos, compartilhávamos e divertíamos brincando com os primos. Naquela altura não havia tantos carros e podíamos muito bem brincar qualquer jogo na rua e quando terminava a festa, lembro-me que íamos a casa de riquexó. Lembro-me também do “Teng Teng Lou” homem que passava por casas para comprar coisas velhas. Levava duas cestas com um pau no ombro e com um metal redondo a tocar teng teng, passeando nas ruas a ver se havia alguém que quisesse vender coisinhas….. Hoje em dia, uns vão e outros também, deixando perder as melhores receitas culinárias que elas então não querem deixar. Se aprendestes antes, muito bem, senão, paciência, já não há, realmente! São as melhores cozinheiras macaenses que, hoje em dia, não encontras o autêntico sabor …. Bem, é mais ou menos o que eu tenho a dizer sobre uma memória passada dos meus avós, tios, tios primos e familiares e em especial uma memória do meu pai Amadeu Cordeiro, que Deus chamou e que está agora sentado ao lado de Ele ….. Cumprimentos a todos. De Deolinda Cordeiro…”
foto: folheto de oração distribuída na procissão de Nosso Senhor dos Passos (Santo do meu nome – dos Passos) em 1965
