“Cecília Jorge, eu fiz a minha parte”

A ler a Revista Macau de Dezembro 1993, entre as mensagens para o 1º Encontro das Comunidades Macaenses do Governador Rocha Vieira, Salavessa, personalidades e representantes das Casas de Macau, vi a de Cecília Jorge, que em conjunto com Beltrão Coelho, faziam parte da Redação da revista.

A Cecília escreveu sua mensagem “Deixar bem vincada a identidade macaense“, já visando as consequências da transição de Macau para a China a ocorrer 6 anos depois em 1999, após cerca de 440 anos de administração portuguesa, durante a qual se formou um povo mestiço ou não, chamado Macaense.  Era na sua opinião que “cada núcleo de macaenses deveria esforçar-se por concentrar à sua volta as famílias de emigrantes ligadas a Macau, e organizar e manter, com o seu apoio, bancos de dados, de imagens, de registos das tradições e costumes, para impedir que o tempo as apague de vez”.

Confesso que não sabia do seu teor até esta data.  A ler o texto sublinhado, posso dizer “Cecília Jorge, eu fiz a minha parte“.  Se era a sua preocupação e recomendação que se criasse banco de dados, de imagens e registos/registros …, eu, em 2003, 10 anos depois, criei o site Projecto Memória Macaense, agora reforçado por este blog, mais versátil.  O objetivo era e é , como o título da sua mensagem “Deixar bem vincada a identidade macaense“.  Divulgar pelos 4 cantos do mundo, através deste fabuloso mundo virtual e da internet, que lá em Macau, além dos portugueses e chineses, existe uma gente chamada – Macaense.  No PMM e aqui, falo de nós, dessa gente, dessa identidade macaense.  Espero que por muito tempo, estas publicações se mantenham na internet, mesmo sem apoio ou subsídios, ou que uns apreciem, outros não, mas movido pela força de vontade e idealismo. Isso, contribuindo para que não nos tornemos uma “ficção“!!!

Leiam a mensagem comentada da Cecília Jorge publicada na Revista Macau-Dezembro 1993:

Cecília Jorge (Novembro 1993):

Deixar bem vincada a identidade macaense

A questão da sobrevivência da identidade macaense foi igualmente o tema abordado por Cecília Jorge, como participante convidada pela organização do Encontro.

Ao tentar identificar a identidade do macaense, considerou que esta, nas gerações actuais, estava a ser progressivamente ameaçada pela degradação das ambiências e vivências de Macau, directamente resultantes da sobrepovoação por parte de gentes vindas de outras paragens – ao mesmo tempo que se acentua a diáspora dos macaenses e da destruição de quase todo o seu património arquitectónico, com a evolução vertiginosa que se tem registado na cidade de Macau nas últimas décadas.

Abordando a questão da nacionalidade, considera que a falta de demarcação pública da nossa identidade levou a que nos deixássemos englobar no grande grupo que, a partir de Lisboa, genérica e estatisticamente passaram a designar por macaense, e que, usando-se no sentido lato, passou a traduzir população: portugueses ou chineses recém-chegados e a trabalhar em Macau, luso-descendentes, todos os outros e… os macaenses no sentido restrito.

Tal facto levou a que o macaense (no sentido restrito) fosse esquecido aquando das negociações que precederam a assinatura da Declaração Conjunta Luso-Chinesa sobre o futuro de Macau.

Grosso modo, quem tivesse afinidades com a China ficaria em Macau e quem sentisse afinidades com Portugal regressaria à Pátria. Esqueceram-se, como é óbvio, dos macaístas… mas tão simplesmente porque eles não existiriam, eram ficção.

Cada núcleo de macaenses deveria esforçar-se por concentrar à sua volta as famílias de emigrantes ligadas a Macau, e organizar e manter, com o seu apoio, bancos de dados, de imagens, de registos das tradições e costumes, para impedir que o tempo as apague de vez.

Se os filhos e netos podem hoje parecer pouco preocupados com as suas origens, grande parte deles quererá fazer perguntas quando chegar à idade adulta, quando já não estivermos por perto ou a memória nos começar a falhar. Temos a obrigação de lhes facultar o acesso a um mínimo de informação, clara, correcta e inequívoca.

Não teremos sido ficção se hoje deixarmos bem vincada a nossa identidade – concluiu.

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