Coronel Mesquita, breve biografia

Dando sequência às duas postagens anteriores a respeito do coronel Vicente Nicolau Mesquita (vide), penso que muitos ou alguns macaenses tenham apenas a visão dele como o herói da batalha do Passaleão, que justificava a estátua que ficava no Largo do Senado, mas não conheciam o outro lado escuro da sua vida. Pois, infelizmente, também foi um criminoso.  Assassinou a esposa e a filha, e depois suicidou-se.  Leiam esta breve biografia do Coronel Mesquita, que consta do artigo “O Guardião da Necrópole” de autoria de Amadeu Gomes de Araújo (Revista Macau-Fevereiro 1997)  e conheçam esta triste história:

Realia

À sombra de São Lourenço

A família de Vicente Nicolau de Mesquita fixou-se em Macau, na freguesia de S. Lourenço, na primeira metade do século XVIII. Ali nasceu o seu bisavô, José da Cruz de Mesquita, em 14 de Outubro de 1744; o avô, João de Mesquita, e o pai, Frederico Albino, advogado no auditório de Macau. Ele próprio, Vicente Nicolau, nasceu em S. Lourenço, a 9 de Julho de 1818, ali foi baptizado, viveu, casou e morreu.

Em 9 de Junho de 1835 assentou praça como voluntário no Batalhão do Príncipe Regente. Tinha então 16 anos. Aos 17 casou com a crioula Balbina Maria da Silveira, de quem teve cinco filhas, três das quais faleceram no mês de Maio de 1842, com intervalos de uma semana.

Em 25 de Agosto de 1849, com 31 anos de idade, comandou o assalto ao forte chinês de Passaleão, transformando-se numa figura heróica, prestigiada, da sociedade macaense.

Quando enviuvou, após 24 anos de casamento, desposou Carolina Maria Josefa da Silveira, irmã da primeira mulher, mas 11 anos mais nova. Meses depois, falecia a quarta filha.

Crises de ciúmes e outros graves problemas familiares envolvendo dois dos filhos do segundo casamento, associados a invejas e questiúnculas do pequeno mundo macaense, fizeram de Mesquita um homem atormentado e perturbaram- lhe a mente.

Desnorteado, mas apercebendo-se da aproximação de uma tragédia, procurou o apoio do bispo, D. Manuel Bernardo de Sousa Enes, e do Governador, Joaquim José da Graça. Ambos lhe recusaram a ajuda solicitada. Já sem controlo, pretendendo salvar o que, no seu perturbado código de valores, considerava a honra de pai e de militar, num ataque de loucura, assassinou a esposa e uma filha, suicidando-se em seguida. Era Dia do Pai, S. José — 19 de Março de 1880.

A sociedade recusou-lhe uma campa cristã e lançou-o na terra anônima dos réprobos. Proscrito, aguardaria 30 anos pela reabilitação. Quando, em 14 de Outubro de 1937, falecia no asilo da Misericórdia, com 95 anos de idade, solteira, Leopoldina Rosa, última dos seus oito filhos, extinguia-se a secular geração dos Mesquita.

À sombra de S. Lourenço, cumpriu-se uma triste sina…

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