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Porta do Cerco, (ex-) fronteira de Macau com a China

A ver as imagens publicadas no grupo Antigas Fotos de Macau II (Macau Old Photos II) no Facebook, administrado por Jon Doo, vi várias da Porta do Cerco publicadas pelo seu maior colaborador Luís Dias, que todo dia lá envia diversas fotos.  Isso me deu o ensejo de fazer esta postagem das imagens capturadas das postagens do Luís Dias, juntando-as com o texto sobre a antiga fronteira de Macau com a China – Porta do Cerco – do livro Toponimia de Macau de Padre Manuel Teixeira. Na prática, ainda é uma fronteira com controle pela alfândega chinesa, uma forma de administrar a migração dos chineses do Continente para este novo eldorado da China, com muita riqueza nos casinos.

Porta do Cerco antigamente nos tempos dos portugueses

Porta do Cerco na atualidade. Foto do blog Orient’Adicta

Publico abaixo trechos do texto de Pe. Teixeira para facilitar a leitura, e no final desta, na sua totalidade, para quem queira se inteirar das curiosidades da Porta do Cerco:

“António Feliciano Marques Pereira, em As Alfândegas Chine­sas de Macau, p. 24 e segs., informa que a primitiva Porta foi cons­truída em 1573: «Muitos escravos dos portugueses de Macau fugiam a seus donos e iam praticar roubos nas povoações da ilha de Hian Chan (Heung-Shan, hoje Chong-Shan). Este facto deu motivo, em 1573, à construção da muralha e bairreira do istmo, a que os nos­sos ficavam chamando «Porta do Cerco» e os chinas «Kuan-Chap» …

… A 18 de Março de 1928 foi inaugurada pelos governadores de Macau e Hong Kong, Artur Tamagnini Barbosa e Sir Cecil Clementi e autoridades chinesas a Estrada que vai das Portas do Cerco a Seak-Kei, com uma procissão de milhares de pessoas, que mar­charam da aldeia de Tch’in-San até Macau.

O actual arco da Porta do Cerco foi levantado para honrar a memória do Governador Ferreira do Amaral, a 31 de Outubro de 1871, durante o governo de Antônio Sérgio de Sousa (1868-1872).

Nele se lê esta inscrição:

«A Pátria honrai que a Pátria vos contempla»

O director das Obras Públicas, ten.coronel Francisco Jerónimo Luna, no seu relatório acerca das obras realizadas em Ma­cau, em 1871-1872, escrevia acerca do Arco das Portas do Cerco:

«Obra construída segundo o plano que achámos delineado, tendo sido inaugurado o seu acabamento, por ordem do governo da colônia, no dia 31 d’Outubro (1871) anniversario natalicio de S. Magestade Fidelissima El Rei o Sr. D. Luis 1.° Este cerco construido no caminho principal, que de Macau segue a varias povoações chinas é dedicado á memória do benemérito exgovernador — João Ferreira do Amaral, á tomada de Passeleão, conforme se acha publicado no Boletim Official do governo n.° 44, de 30 do referido mez».

No mesmo ano 1871 concluiram-se as obras da Praça da Victoria.

Texto completo publicado no livro Toponimia de Macau de Padre Manuel Teixeira

Rua do Cerco

Começava ao lado do Arco da Porta do Cerco e seguia parale­la ao Istmo de Ferreira do Amaral, devendo ir a terminar, segundo o Cadastro de 1925, na Estrada da Areia Preta.

A primeira parte desta via pública está hoje dentro do Aquartelamento da Porta do Cerco, do qual faz parte, e a segunda parte tem hoje o nome de Estrada dos Cavaleiros. Deixou, pois, de exis­tir o nome de Rua do Cerco.

António Feliciano Marques Pereira, em As Alfândegas Chine­sas de Macau, p. 24 e segs., informa que a primitiva Porta foi cons­truída em 1573: «Muitos escravos dos portugueses de Macau fugiam a seus donos e iam praticar roubos nas povoações da ilha de Hian Chan (Heung-Shan, hoje Chong-Shan). Este facto deu motivo, em 1573, à construção da muralha e bairreira do istmo, a que os nos­sos ficavam chamando «Porta do Cerco» e os chinas «Kuan-Chap».

Construída a «Porta do Cerco», foi acordado com os mandarins de Hian-Chan que ela se pudesse abrir somente dois dias em cada lua, que nesses dias os chinas fizessem mercado para os portugueses irem fornecer-se dos géneros que precisassem, que aos chinas fosse proibido entrar no estabelecimento e aos portugueses e mais es­trangeiros sair ao território chinês, e que a dita porta fosse guarda­da por soldados e um oficial chinês. Passados anos, e já depois existir o Senado, estabeleceu-se o mercado semanal, e o procurador recebia dos mandarins uma lista que designava os chinas a quem era permitido vir à cidade, continuando, porém, a ser proibido a todos habitar nela. Os que se encontravam sem licença, ou não mencio­nados na referida lista, eram presos à ordem do procurador como vagabundos. Afinal a Porta do Cerco passou a abrir-se todos os dias, o mercado internou-se e fixou-se: pouco a pouco, o zelo dos pro­curadores enfraqueceu, a brilhante e industriosa actividade chinesa insinuou-se, fez-se benquista, e foi construindo e multiplicando casas, lojas e oficinas».

A asserção de Marques Pereira de que o Porta do Cerco foi construída em 1573 tem sido seguida por todos os historiadores: mas o Ou Mun Kei-Leok (Monografia de Macau), a pág. 37, diz que foi no ano seguinte: «Os cumes de Chi’in-Sán enfrentam os cu­mes das colinas de Macau pelo lado sul e do mar. O norte do istmo é atravessado por um dique de areia de 10 lei (5,Km.36) de comprimento e 5 a 6 braços (21,m48) de largura. Na extremidade do istmo surge um monte que se desenvolve enroscando-se e forman­do como que o cálice de uma flor de loto. Este monte é conhecido por Lin-Fá-San (Monte de Loto). O istmo adoptou portanto o nome do monte.

No 2.° ano do reinado de Man-Lek (1574) construiu-se uma barreira a meio do istmo e os guardas incumbidos de a abrir e fe­char edificaram residências na sua parte superior, as quais com o tempo ficaram arruinadas.

No 12.° ano de Hon Hei (1674), o Magistrado Distrital, Sân–Leong-Hón, mandou repará-las e construir ao lado uma casa de governo para servir de alojamento aos que vigiavam os que passa­vam pela barreira».

A mesma Monografia diz a pág. 89: «Pela barreira da Porta do Cerco se deixavam passar todos os anos uns poucos de séàks (72 quilos) de arroz e, para isso, era ela aberta seis vezes ao mês depois de ser conjuntamente inspeccionada pelas autoridades civis e mili­tares».

Peter Mundy, que esteve em Macau em 1637, escreve: «Uma muralha entre os chinas e os portugueses; o fim a que se destina.

A cerca de 3/4 de milha de distância, existe um braço estreito de terreno, que liga com o resto a parte da ilha onde fica Macau. Neste estreito local, está levantada uma muralha que se estende de mar a mar, numa extensão de cerca de meio tiro de espingarda. Na dita muralha existe uma porta ou passagem com guardas chinas, que nenhum português pode transpor sem licença especial. E os escravos, que planeiam fugir de seus senhores se conseguem transpô–la, ficam livres de ulterior perseguição, e não são poucos que o fazem. Estes guardas exigem e cobram alguns direitos da gente do interior que traz provisões, etc. E em certas ocasiões de descon­tentamento com os portugueses essa porta é fechada, sendo im­pedida pelos chineses toda a forma de provisões, que os portugueses recebem deles, como nos foi contado» (C. R. Boxer, Macau na época da Restauração (Macau, 1942), p. 72.

Lyunsgstedt escrevia, em 1834, no seu Esboço Histórico dos Estabelecimentos Portugueses na China: «No meio do muro há uma porta de comunicação, chamada a Porta do Cerco, guarda por alguns soldados e um oficial, para que nenhum estrangeiro possa passar além deste limite. No princípio, a porta, segundo Navarrete, era aberta só duas vezes ao mês; depois, cada cinco dias, para vender mantimentos aos degredados; agora abre-se ao romper da aurora».

R. Marim escreve em O renascimento do Município Macaense, 2.° Vol. p. 148-150: «Mas o desenvolvimento da população tais engulhos ocasionava às reacionárias autoridades cantonenses, que estas olvidando os valiosos serviços que anos antes lhes havíamos prestado, conseguiram em 1573 que o novo imperador (Van-Li) nos impusesse o pagamento anual de quinhentos taéis de foro pelo ter­reno que estávamos ocupando. Ao mesmo tempo, ergueram no istmo da península um muro com uma pequena porta abobadada ao centro, afim, diziam eles, de marcar o limite do território macaense. Era a Porta do Cerco que os chinas apelidam de Kuan-Chap, edificada pouco mais ou menos no local onde actualmente se encon­tra.

Reparavam os mandarins, com certo receio, no crescimento da população. Sabiam, por observação direta, que os portugueses não se levavam de vencida com facilidade em combate franco e leal. A Porta do Cerco, com o rótulo de marco divisionário de fronteiras, servir-lhes-ia admiràvelmente para travar qualquer pretensão da nossa parte de nos tornarmos independentes da sua autoridade ou qualquer instinto nosso de lhes conquistarmos o poder.

E tanto assim era que a Porta do Cerco, depois de construída, passou a abrir-se unicamente de quinze em quinze dias.

De modo que, como, pela via marítima, os víveres de que neces­sitávamos estavam já sujeitos ao controle e às alcavalas dos vários mandarins do mar, nada podendo ser importado em Macau sem o respectivo salvo-conduto, a Porta do Cerco era o meio excelente de que eles se serviriam para subordinar o nosso estômago às suas exigências. Enquanto pagássemos o foro ao imperador (o que era uma insignificanciã) e todas as contribuições que o vice-rei de Cantão e os mandarins de Hian-Chan nos lançassem (e a violência estava nisto), Macau teria arroz, carnes, hortaliça e todos os mais gêneros alimentícios de que necessitava para o seu consumo; no caso contrário, a porta deixava de se abrir (o que várias vezes su­cedeu) e a população citadina correria o risco de morrer à míngua…

Vê-se evidentemente o fim a atingir com a edificação da Porta do Cerco: 1.° — O estabelecimento de um único mercado onde os portugueses teriam de adquirir os gêneros de consumo em dias determinados pelas autoridades de Cantão; 2.° — Tolher o desen­volvimento da progressiva Amacau com a proibição de nela entrarem os chineses que voluntariamente escolhessem a civilização moralizadora dos europeus de preferência à jurisdição venal das autori­dades do seu país; 3.° — Impedir a penetração dos portugueses no seu território».

A 25 de Setembro de 1828, o mandarim da Casa Branca proi­biu os chineses de atirar pedras às casas vizinhas do Forte de S. An­tónio e de cometer outros distúrbios para exigirem a abertura das Portas do Cerco antes do tempo determinado, as quais costumavam ser abertas às 5h. a. m. e fechadas às 20 h., conservando-se as cha­ves em poder do Governo.

A Estrada das Portas do Cerco foi construída em 1875, segun­do se lê no Boletim Oficial de 13 de Fevereiro desse ano: «Vão bastante adiantados os trabalhos da estrada das portas do cerco; já se pode passar de carro desde a rampa dos cavalheiros (aliás cava­leiros) até ao ponto em que a estrada se liga com a denominada do Coelho do Amaral, que vem a S. Antônio.»

A 18 de Março de 1928 foi inaugurada pelos governadores de Macau e Hong Kong, Artur Tamagnini Barbosa e Sir Cecil Clementi e autoridades chinesas a Estrada que vai das Portas do Cerco a Seak-Kei, com uma procissão de milhares de pessoas, que mar­charam da aldeia de Tch’in-San até Macau.

O actual arco da Porta do Cerco foi levantado para honrar a memória do Governador Ferreira do Amaral, a 31 de Outubro de 1871, durante o governo de Antônio Sérgio de Sousa (1868-1872).

Nele se lê esta inscrição:

«A Pátria honrai que a Pátria vos contempla»

O director das Obras Públicas, ten.coronel Francisco Jerónimo Luna, no seu relatório acerca das obras realizadas em Ma­cau, em 1871-1872, escrevia acerca do Arco das Portas do Cerco:

«Obra construída segundo o plano que achámos delineado, tendo sido inaugurado o seu acabamento, por ordem do governo da colônia, no dia 31 d’Outubro (1871) anniversario natalicio de S. Magestade Fidelissima El Rei o Sr. D. Luis 1.° Este cerco construido no caminho principal, que de Macau segue a varias povoações chinas é dedicado á memória do benemérito exgovernador — João Ferreira do Amaral, á tomada de Passeleão, conforme se acha publicado no Boletim Official do governo n.° 44, de 30 do referido mez».

No mesmo ano 1871 concluiram-se as obras da Praça da Victoria.

“Um Pouco de História” de Macau, contada por Dona Alda

A macaense Alda Carvalho Ângelo, residente em São Paulo, no seu livro Fragmentos do Oriente publicado no Brasil em 1965, nos conta “Um Pouco de História” da Macau em meados dos anos 40 (por volta de 1946, pós II Guerra, quando deve ter emigrado) até 1950.  Para quem é da época, boas lembranças, e para quem não conhece a história de Macau, uma boa leitura e conheça a nossa terra. (Veja outras postagens sobre a Dona Alda e saiba que livro é esse e quem ela é).

Macau anos 60, Porto Interior e um dos barcos de carreira que fazia a linha Macau-Hong Kong

Farol da Guia

O Sui Tai, um dos barcos de mil e poucas toneladas de calado da British Steamship Company Ltd., que faz a carreira regular entre a colônia inglesa de Hong-Kong e a da portuguesa de Macau, diminuiu a marcha, como de costume, ao avistar os molhes do porto exterior que, de intervalos eram iluminados por uma faixa de luz emanada do mais antigo farol da China, o farol da Guia, o primeiro que iluminou as costas da China. Nessa noite, como no primeiro dia de sua aparição, em 1868, cumpria também sua missão de guia aos mareantes.

O barco singrava suavemente rio acima. Tudo era convidativo a uma meditação: a Lua, como para minorar a ausência do Sol, aparecera toda cheia e brilhante, banhando com sua luz argêntea a superfície do rio, transformando-a em um manto de prata; as Estrelas cintilantes, livres do atropelo das nuvens, tremulavam nesse magnífico firmamento tropical, como que executando suaves movimentos de uma valsa; e o Vento, como que compreendendo a beleza desse conjunto, tinha resolvido nessa noite, apresentar à Lua e às Estrelas sua encantadora filha, a Brisa.

Os passageiros, uns encostados à amurada, outros deitados em cadeiras de vime, no convés, admiravam encantados essa maravilhosa noite de verão. Ouviam-se de quando em vez, risadas alegres e despreocupadas de passageiros de ambos os sexos, de várias nacionalidades, que vinham passar o “week-end” na amena cidade portuguesa que uns chamam de “Monte Carlo do Oriente”; outros de “Antro de Perdição”; outros de “O Inferno do Jogo”, preferindo  contudo, os mais românticos denominá-la “A Pérola do Oriente”.

Outro barco de carreira dos anos 70. Foto de/photo by Karsten Petersen

Macau, quatro vezes centenária, teve início em 1553, quando alguns portugueses abordaram à praia de Amagau para a secagem das mercadorias molhadas por uma tempestade. Esses punhados de portugueses que faziam suas transações na Ilha de Lampacau, distante umas trinta milhas da Ilha de Sanchuan (hoje chamada de São João), eram os remanescentes de um grupo de cerca de quinhentos portugueses que se tinham escapado das perseguições e devastações, em 1545 em Liam-pó e, em 1549, em Chin-Cheu; e que, na fuga, tinham-se rumado para o sul e desembarcados uns em San-Chuan e outros, em Lampacau.

Macau, perspectiva em 1598

Tendo encontrado na praia de Amagau um bom abrigo para suas embarcações, os portugueses começaram, então, a construir cabanas nessa localidade e a comerciar com os nativos chineses de quem tiveram boa acolhida.

Naquela época, as costas sul da China eram frequentemente infestadas por piratas chineses que guerreavam e pilhavam as embarcações do Governo de Cantão, tornando, portanto, perigoso o tráfego naqueles mares. O governo de Cantão era impotente contra essas constantes pilhagens. Comandava os piratas o terrível corsário do delta do Rio Cantão, Chan-Si-Lau, que fazia o que mais bem entendia naquelas paragens, causando prejuízos consideráveis tanto aos mercadores chineses como aos portugueses.

Os comerciantes de Lampacau, vendo-se na necessidade de pôr cobro àquelas constantes pilhagens, entenderam-se com os mandarins de Hian-Chan por intermédio do comissário Leonel de Sousa, conseguindo autorização do Nianpó (inspetor das Costas) para que seus compatriotas se fixassem definitivamente em Amagau, dando em troca dessa autorização a garantia do auxílio dos portugueses na supressão dos piratas de Chan-Si-Lau,

Uma vez conseguida a autorização, começaram as caravelas portuguesas a dar caça aos piratas, o que se prolongou até 1556, com o extermínio dos mesmos.

Amagau, que, por deturpação da língua, passou a chamar-se Macau, era uma vila chinesa salpicada de choupanas construídas de bambus e palmeiras secas. Seu nome teria sido dado em honra da deusa A-má, cujo templo, ainda hoje existente, é a mais velha relíquia da colônia.

A população, naquela época, composta em sua maioria, de pescadores e mercadores, diferenciava-se dos portugueses tanto nos trajes como no porte. De estatura menor, trajavam cabaias; cobriam-lhe a cabeça um barrete por onde saía, na parte posterior da cabeça, uma trança de cabelos. O rosto, de uma compleição totalmente diferente da dos europeus, apresentava dois olhos estreitos e puxados para os lados; o nariz chato e largo, aparecendo entre as duas maçãs de rosto salientes. A cor da pele era amarela, dando-lhes uma aparência doentia. Os pés largos eram calçados em sandálias de cordas ou em sapatos de pano com solas de cordas, quando não descalços,

A doação de Macau aos portugueses foi feita verbalmente em 1557 pelo imperador Kiat-Sing do reinado dos Mings, tendo sua confirmação sido feita somente em 1887.

Ao abrigo, então de tempestades e de piratas, a colônia, que não passava de uma povoação, começava a progredir. Em 1557-1568 era composta de mais ou menos 700 portugueses, tendo por capitão de terra um rico comerciante de nome Diogo Pereira. O governo verdadeiramente dito era administrado sob a forma de um triúnviro. O capitão de terra era auxiliado em seu governo por dois dos mais notáveis e influentes cidadãos da colônia. A administração do Santo Sacramento era feita por um vigário. De intervalos mais ou menos longos, Macau recebia a visita de um capitão mor, que, anualmente, viajava para Japão. Era costume dos comerciantes portugueses se cercarem de missionários que ministravam a religião e, bastas vezes, acompanhavam os embaixadores portugueses a Cantão ou a Pequim.

Em 1594, sob os auspícios do Pe. Francisco Peres, fundou-se a primeira residência do culto católico a que mais tarde se transformou no primeiro e célebre Colégio de São Paulo, também conhecido por Colégio dos Jesuítas. Esse colégio, situado num promontório donde se divisa toda a povoação, fora edificado com a coadjuvação dos jesuítas Manuel Teixeira, Gil Góes e André Pinto. O colégio foi destruído em 1835 por um terrível incêndio, deixando de pé apenas a fachada.

Anos depois, desembarcava em Macau, Dom Melchior Carneiro como bispo para China e Japão. Em 1568 foi fundada a primeira casa de assistência social denominada Santa Casa de Misericórdia bem como dois hospitais: o de São Lázaro e o de São Rafael.

Vida a bordo de um dos barcos de carreira Macau-Hong Kong no início dos anos 60. Na foto, o autor do blog com a sua mãe Marcelina da Luz a caminho de Hong Kong. Observem na lateral direita as cadeiras de descanso de lona.

Vamos, então, dar um passeiozinho pelo convés? –  sugeri ao Leitor Amigo, meu companheiro de viagem, com quem eu palestrava desde a saída de Hong-Kong sobre a história de Macau. – Vamos! — me respondeu ele — Estou curioso por conhecer a terra, depois que teve a gentileza de me pôr a par de sua história.

O Sui Tai, como eu dizia, tinha diminuído a marcha, deixando entrever cada vez mais os contornos da cidade iluminada a luz elétrica, os globos elétricos projetando sua luz sobre as barracas de banho, denotando que os banhistas ficavam até bem tarde, a beira-mar, deleitando-se com a brisa marítima ou banhando-se na água,

- Venha ver a cidade. — convidei meu companheiro. –  Venha! Olhe ai!  Estamos passando pelo porto exterior.

- Como é linda a cidade assim de longe! —exclamou ele.

- Estamos, neste momento, na foz de dois rios. — expliquei.

- A cidade é, então, banhada por dois rios?

- Sim, ela está privilegiadamente situada no delta comum de dois rios: Chu-Kiang  (rio de leste, ou rio da Pérola) e Si-Kiang (rio de Oeste). O Chu-Kiang é também chamado de Rio de Cantão. Macau está a oitenta milhas da cidade e porto de Cantão, a capital do Sul, a capital da grande província de Kwang-Tung.

- Macau é uma ilha?

- Não, ela é uma península. E’  ligada  por um pequeno istmo — o istmo da Porta do Cerco — ao distrito de Heóng-Sán* (montanha aromática). E, como vê – apontei para as ilhas em volta — Macau é cercada de ilhas: a da Lapa, a da Taipa, a de Coloane e, mais ao sul, a de D. João e a  de Vong-Kâm…

- E qual a população?

— Em 1950, isto é, segundo o censo do ano de 1950, a população era de 187.772 habitantes, sendo a maioria chinesa.

Praia Grande - Porto Exterior / Ermida da Penha na lateral esquerda - Macau anos 60

Nesse instante, o barco seguia em linha reta, paralelo à baía da praia grande, em toda sua extensão, tomando a direção da Avenida República, preparando-se para contornar a “meia laranja”.

- Olhe aí a ermida da Penha! — chamei a atenção do meu companheiro. — A ermida da Penha está situada no cume da Colina da Barra. É  aí  que   se   encontra  a imagem de Nossa Senhora   da  Penha,  venerada  ainda hoje  como naqueles  tempos pelos nossos primeiros navegadores. No sopé dessa mesma colina está o Pagode da Barra, freqüentado principalmente pela gente do mar (pescadores chineses), onde se venera uma   das mais importantes  divindades  da China, a “Rainha do Céu”, a deusa A-Má, donde proveio o nome de Macau. — Leitor Amigo me escutava com interesse. — Não acha você, Leitor Amigo, curioso, como homens tão diferentes e de religiões tão opostas tenham escolhido o mesmo local para venerar cada qual seus santos preferidos?

- Curioso, sim.

-  Você tem que conhecer a gruta da Penha. Tem que subir até ao alto da colina e de lá desfrutar os mais belos panoramas.

- Devo ir na parte da manhã ou da tarde?

- Na parte da manhã, você verá o maravilhoso nascer do sol, verá dezenas e dezenas de

barcos de pesca deslizarem-se suavemente por sobre as ondas, as velas desfraldadas, afastando-se do porto…

- E na parte da tarde?

- Na parte da tarde, verá outro maravilhoso panorama.    O pôr do sol, o belíssimo pôr do sol macaense… os barcos de pesca, regressando para o porto, carregados de peixes de todos os tamanhos e feitios …

Porto Interior para onde regressam as embarcações de pesca - Macau em 1973 - foto de/photo by Karsten Petersen

- Tenho que subir até lá…

- Mas agora vamos descer — atalhei — Vamos descer e preparar-nos para o desembarque.  Já estamos chegando.

- Já?!

- Já!

De fato, o barco estava a poucos metros do cais, depois de passar pela Fortaleza da Barra, pela doca e rumado reto ao longo do Porto Interior. Dirigia-se lentamente para o ancoradouro.

Nesse instante, o relógio do salão batia dez horas. Meia hora depois, eu me despedia do Leitor Amigo.

- Magnífica viagem. — exclamou ele. — Inda nos encontraremos?

- Acho que sim. — respondi.

- Algo me diz que nossos caminhos não tardarão a se cruzar novamente…

- Faço votos.   Tenho ainda muito que contar. O Oriente é vastíssimo. A China é grande, enorme e… a cidade de Macau é pequeníssima de tamanho — não mais de dez quilômetros  quadrados de terra, mas…

- mas sua história…

- essa, não tem fim! — e acrescentei sorrindo. – Mas cuidado com o tufão! …

Juncos e sampans - embarcações de pesca chineses - Macau 1973 - foto de/photo by Karsten Petersen

* Heóng-Sán: Atualmente este distrito é chamado de Chông San, em homenagem ao felecido Dr. Sun Chong San, mais conhecido por Sun lat Sen, o fun­dador da República Chinesa.

A história de fundação de Macau, segundo Padre Teixeira

Perspectiva de Macau, 1598 (Th. De Bry)

No Caderno – Primórdios de Macau – Padre Manuel Teixeira escreve a sua versão sobre a Fundação de Macau, que, segundo ele, custou-lhe 4 décadas de procura por uma solução do mistério da origem de Macau.  E a conclusão foi essa:

FUNDAÇÃO DE MACAU (por Padre Manuel Teixeira)
Há cerca de quatro décadas que procuramos ansiosamente a solução de um mistério: qual a origem de Macau? Uma tradição quadrissecular afirma que Macau foi concedido aos portugueses em 1557, como prêmio pela repressão de piratas chineses que infestavam os mares da China do sul.
Mas, depois do exame atento dos documentos chineses e portugueses e de todas as versões até hoje apresentadas, chegámos às seguintes conclusões:
1.  Os portugueses estabeleceram-se em Macau à roda de 1557 para comerciar com os chineses, com o conhecimento e consentimento destes;
2.  Este estabelecimento não foi o prêmio de batalha alguma;
3.  Deu-se realmente um encontro com os piratas, não em 1557 mas em 1564;
4.  Este encontro com os piratas em 1564 veio confirmar a posse de Macau pelos portugueses;
5.  Tendo-se confundido estes dois acontecimentos, antecipou-se para 1557 o incidente de 1564 e daqui nasceu a tradição de que Macau foi concedido em 1557, como recompensa pela vitória contra os piratas;
6.  Não houve chapa alguma imperial pela qual fosse reconhecida oficialmente a posse de Macau.
O que realmente se deu foi o seguinte: os portugueses pretendiam comerciar com a China, mas esta estava hermeticamente fechada aos estrangeiros; houve que recorrer ao comércio de contrabando.
Tendo falhado as tentativas de Liampó (Ningpó), província de Chekiang e de Chincheo (Ch’uan-Chau), província de Fukien, os nossos comerciantes vieram para a ilha de Sanchoão (Seung-Chuan ou Seung-Chuen), província de Cantão, onde comerciaram até 1553, e para a ilha de Lampacao (Lam-Pak-Kau), província de Kuangtung, onde estiveram até 1560. No entanto, já desde 1555 freqüentavam Macau e, como verificaram ter melhor clima, abandonaram Lampacao em 1560 e continuaram em Macau, agora com a tolerância das autoridades de Cantão.
Aqui, como nas outras localidades, levantavam barracas provisórias. Concorriam ao comércio os chineses do continente e, sobretudo, os de Cantão. Terminado este, destruíam as barracas e regressavam a Malaca. Mas, pouco a pouco, foram-se fixando em Macau com o consentimento dos chineses, que tiravam lucro do negócio com os estrangeiros.
Em 1564, com a derrota dos piratas, os chineses não mais incomodaram os portugueses.

Perspectiva de Macau, 1626 (John Spencer)

Porto de Macau, gravura de 1641 do Livro das Plantas das Fortalezas, Cidades e Povoações do Estado da Índia Oriental

Macau e a Sé Catedral, anos 1870 e 1900

Macau, vista da Praia Grande em 1870.  Observem na lateral esquerda, o Palácio do Governo.  Quase no centro da foto, mais para a esquerda, a Igreja da Sé ou a Sé Catedral que ainda tinha as 2 cúpulas originais.  Segundo a Wikipédia, a Igreja foi construída em pedra e consagrada em 1850.  Antes, era uma pequena ermida de madeira. Porém foi seriamente danificada por um tufão 24 anos depois (1874) e sofreu grandes reparações. Talvez as cúpulas foram danificadas tendo que ser refeitas, porém modificadas.

Esta foto tirada da Fortaleza do Monte em 1900, mostra as 2 novas cúpulas da Igreja da Sé após a reconstrução relatada acima e similares ou iguais às de hoje. Nesta época, a Praia Grande ainda não tinha sofrido aterros, o que mostra a Igreja mais próxima do mar.  Do lado direito pode-se ver o prédio do Leal Senado, imponente, destacando-se no meio de construções menores.

Cronologia:

1870 – foi fundado o Grémio Militar, mais tarde Clube Militar.

1900 – em 18 e 19 de Julho, foram bombardeadas posições dos piratas e seu desalojamento da ilha de Coloane pelas guarnições da canhoneira Pátria e da lancha-canhoneira Macau (veja a história no Projecto Memória Macaense – na página-guia Macau), e em 5 de Outubro foi implantada a República em Portugal.

(clicar nas fotos para aumentar)

*fonte: Álbum Macau/Fundação Oriente/Cecília Jorge/Beltrão Coelho

Macau, bandeiras históricas

A continuar a celebrar a memória lusitana de Macau, no mês de Junho, abaixo estão 3 bandeiras históricas de Macau que tiveram pouco uso naqueles tempos:

Bandeira proposta em 1967.  É uma bandeira portuguesa com o escudo de Macau.  No centro inferior estão as ondas verdes, simbolizando o mar de Portugal, e na parte superior direita, o dragão dourado com o escudo azul.

Uma variante da bandeira do Leal Senado com fundo branco.  Foi pouco utilizada como dito.

Uma das bandeiras que serviu também para representar Macau, utilizada em alguns eventos esportivos

Macau, Geografia e População em 1999

Em Junho, para celebrar em conjunto com o PMM, a memória da bandeira do Leal Senado (vista ao lado) e o Dia de Macau, o Crónicas Macaenses publica o que constava do site oficial do antigo Governo português de Macau, actualizada em Julho de 1999.  Mate as saudades e veja como era Macau antes da transição.  A imagem acima era divulgada no site. Observe o destaque dado ao Farol da Guia, que hoje briga com os prédios para não ter a visão tampada quando visualizado do Rio das Pérolas:

GEOGRAFIA E POPULAÇÃO

O Território de Macau está localizado na orla meridional da China, na margem Oeste do delta formado pelo Rio das Pérolas (Zhu Jiang) e pelo Rio do Oeste (Xi Jiang), junto à província chinesa de Guangdong. Encontra-se à distância de 60 quilômetros de Hong Kong e de 145 quilômetros de Cantão. A hora local regista um avanço de oito horas em relação ao meridiano de Greenwich e 12 horas do Brasil.

Área: O Território tem uma área total de 23,6 quilômetros quadrados, distribuídos pela península de Macau e pelas ilhas da Taipa e de Coloane. Macau está ligado ao continente chinês por uma fronteira terrestre. Duas pontes, uma inaugurada em 1974 e a outra em 1994, ligam a península à ilha da Taipa: a Ponte Nobre de Carvalho (2 600 metros) e a Ponte da Amizade (4 380 metros). A ligação entre a Taipa e a ilha de Coloane faz-se através de um istmo de dois quilômetros, cuja margem direita é hoje um extenso aterro em fase de consolidação .

A área global do Território tem sido progressivamente alargada por aterros na orla marítima adjacente. A península de Macau, por exemplo, tinha em 1840 apenas 2,78 quilômetros quadrados, ou seja, 2,8 vezes menos do que hoje. Em espaço físico, a título de comparação, Macau é cerca de 63 vezes menor que Hong Kong, 37 vezes menor que Singapura e 5.111 vezes menor que Portugal.

Clima: O clima de Macau é quente e úmido, chegando as temperaturas a ultrapassar os 30 graus centígrados nos meses de Junho a Setembro. As temperaturas mais baixas raramente descem dos 14 graus, que é a média registrada nos meses de Janeiro e Fevereiro. Macau vive, durante o Verão, exposta às tempestades tropicais, com origem no Pacífico Sul.

População: A população estimada para Macau, no final de 1998 era de 430.500, verificando-se um acréscimo de 1,5% em relação ao período homólogo do ano de 1997. O acréscimo da população no final do ano de 1997, face a 1996, foi de 1,5%.

A densidade populacional de Macau é superior a 18 mil habitantes por quilômetro quadrado e a zona norte da península concentra a que é considerada a mais elevada densidade populacional no mundo.

O sexo feminino continua predominante na repartição por sexos, sendo 52,5% do total. Quanto à estrutura etária, verifica-se que 24,0% são jovens (0-14 anos), 68,4% adultos (15-64 anos) e 7,6% idosos (65 anos e mais).

A população de Macau tem vindo a registar nos últimos 20 anos um forte crescimento, próximo dos quatro por cento, e revela uma enorme mobilidade: Mais de 20 mil pessoas desembarcam todos os dias no Porto Exterior, provenientes de Hong Kong, e quase 50 mil cruzam diariamente as Portas do Cerco para trabalhar no Território.

Macau é um território aberto. Salvo casos muito especiais, associados a questões de segurança, as portas são franqueadas a todos os cidadãos do mundo. Assim mesmo, a população residente é altamente variável. O sentido errático do seu crescimento está normalmente associado a contingências externas, em especial na República Popular da China ou em Hong Kong.

No final do primeiro trimestre de 1998, estavam registrados em Macau 23.621 estrangeiros autorizados a residir e 29.159 trabalhadores não residentes.

Em resultado da pressão dos vários fenômenos migratórios e das transformações positivas que têm vindo a ocorrer nas estruturas da mortalidade (a diminuir) e da natalidade (a aumentar), a base da pirâmide etária no Território é marcada pelo rejuvenescimento: cerca de 70 mil nascimentos contra 15 mil óbitos, na última década, enquanto se registrou a diminuição da taxa de mortalidade infantil, para menos de 7,5 por mil, um dos níveis mais baixos em toda a Ásia, revelando os progressos de Macau nos planos social, da saúde e da assistência. Daí, naturalmente, o aumento da esperança de vida para cima dos 70 anos, em ambos os sexos, uma das maiores da Ásia, a seguir à registrada no Japão.

Macau tem, pois, uma população marcadamente jovem, com cerca de 60 por cento dos habitantes entre os 15 e os 50 anos de idade.

Em relação à língua, 96,1 por cento da população utiliza a língua chinesa e apenas 1,8 por cento declara fazer uso da língua portuguesa. Admite-se, no entanto, que uma maior percentagem saiba português mas não o utilize.

Principais indicadores demográficos

1996

1997

1998

População em 31 de Dezembro

milhares

415,9

422,0

430,5

Taxa de crescimento efetivo

%

+0,2

+1,5

+2,0

Homens

milhares

200,2

202,7

204,7

Mulheres

215,6

219,4

225,8

Com menos de 15 anos

25,3

24,8

24,0

De 15 a 64 anos

67,3

67,6

68,4

Com 65 e mais anos

7,4

7,5

7,6

Estatísticas Vitais
Natos-vivos

unidades

5468

5031

4434

Óbitos

1413

1293

1356

Casamentos

2106

1678

1451

Divórcios

320

304

260

Indicadores Demográficos
Taxa de Crescimento Natural

%

1,0

0,9

0,7

Nascimentos por 1 000 habitantes

unidades

13,2

12,0

10,4

Óbitos por 1 000 habitantes

3,4

3,1

3,2

Casamentos por 1 000 habitantes

5,1

4,0

3,4

Divórcios por 1 000 habitantes

0,8

0,7

0,6

H + M

H

M

Esperança de vida à nascença (1993-1996)

anos

76,57

75,11

79,98

*Publicado pelo ex-Governo Português de Macau (última atualização em 30.07.99)