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Macau no passado, de 1900 a 1930

Pesquisando os meus e-mails antigos de 2004 para cá, achei estas 14 fotos que mostram a Macau de 1900 a 1930. Procurei aumentar o tamanho e melhorar um pouco mais a imagem com mais brilho e contraste.  Infelizmente não conheço a escrita chinesa e não saberia dizer o que está escrito nas fotos.  Para os visitantes que não conhecem Macau, vai legenda a título de informação. Boa viagem ao passado:

Ruínas de São Paulo (informação: incendiou-se a igreja sobrando apenas a fachada Hoje é a principal atração turística de Macau)

O antigo Hotel Bela Vista que hoje é a residência oficial do cônsul português em Macau

mulheres a fazer os seus trabalhos manuais na calçada da rua, um velho costume chinês

A Fortaleza do Monte que hoje é o Museu de Macau. Foi daqui que um jesuíta, com boa pontaria, acertou com um tiro de canhão uma nau com farta munição, de uma frota de navios holandeses que pretendiam apoderar-se de Macau nos tempos antigos.

Vendia-se de tudo, inclusive selos. O ambulante deveria ser chinês, mas a sua aparência parece meio ocidentalizada, observem!

Deveria ser uma família rica portuguesa com suas criadas e um cúlei devidamente uniformizado e que seria o "motorista" particular.

O Leal Senado que seria equivalente à Câmara Municipal com escudo português acima da inscrição. Após a devolução de Macau para a China, o letreiro e o escudo foram retirados. Abriga uma rica biblioteca e um jardim interno português preservados até hoje. Para quem conhece, observe o telhado à mostra que hoje já não é mais visível.

Imóveis residenciais e de diversos usos muitos no estilo português que hoje estão substituídos por prédios de todos os tamanhos, sem preocupação com a preservação.

Mercado Vermelho que ainda existe até hoje com a mesma função.

Desconheço, porém uma certeza, no lugar do campo, residências e vegetação estão prédios e mais prédios para abrigar os seus mais de 500 mil habitantes de Macau

Tenho cá minhas dúvidas sobre estas edificações de onde seriam???

Pode-se ver a Igreja de São Domingos e a Rua do Campo. Veja a foto abaixo, pois tirei uma similar, por coincidência, em 2010.

Extrato das memórias do 25 de Abril em Macau

“25 de Abril” ou a Revolução dos Cravos, significou o fim do regime ditatorial do Estado Novo vigente desde 1933 em Portugal. Foi um golpe de Estado militar que ocorreu em 1974. Os jornais da distante Macau somente noticiaram o golpe dois dias depois, no dia 27.

Trago aqui um extrato das memórias do 25 de Abril em Macau publicadas na Revista Macau, edição de Abril de 1994, de autoria de João Guedes sob o título “A Oriente da Revolução”.

UM CANTOR DEU AS NOVIDADES

Em 25 de Abril de 1974, as notícias da revolução portuguesa foram conhecidas em Macau com quase o mesmo atraso que as da implantação da República, 64 anos antes. Os jornais noticiaram o facto apenas a 27 de Abril, quase como os seus antecessores de 1910, e mesmo a rádio, novidade que não existia nos tempos da República, teria sido batida pelos diários se não se fosse um famoso artista do nacional-cançonetismo levar as notícias ao conhecimento do noticiarista da Emissora. O portador de tão inesperadas novas foi Rui de Mascarenhas, vedeta portuguesa que actuava todas as noites no palco do luxuoso restaurante Portas do Sol, do Hotel Lisboa. Invariavelmente, depois do show, dirigia-se aos estúdios da Rua Francisco Xavier Pereira, juntando-se ao animado grupo que, habitualmente, acompanhava Alberto Alecrim no seu “Vamos Jogar no Totobola”, espaço radiofónico que não tratava do futebol e, sim, recebia as novidades, retransmitindo-as com humor para a cidade.

Dessa vez, porém, o caso era sério e necessitava da confirmação que os telexes, sobre os quais o grupo se debruçou ansioso, não forneciam. Para além do telefonema militar chegado ao chefe de gabinete, o público teve acesso às notícias através do serviço radiofônico mundial da BBC (retransmitido pelas rádios de Hong Kong, que registavam largas audiências em Macau). Só depois de feitas as traduções foi possível a Alecrim transmitir o pouco ainda que se sabia sobre a Revolução dos Cravos à comunidade portuguesa, em casa, colada aos receptores.

Como soube Rui de Mascarenhas das novidades, ninguém se recorda, e talvez já não se possa saber.

Rui de Mascarenhas morreu em 1990…

O SEGUNDO TELEGRAMA

O Conselho Legislativo de Macau enviou um telegrama de apoio incondicional ao regime de Marcelo Caetano que chegou no dia da Revolução dos Cravos.  E assim que souberam das notícias do golpe de Estado, mandaram novo telegrama com texto semelhante ao anterior, só que, desta vez endereçado à Junta de Salvação Nacional.

O Conselho Legislativo de Macau tinha tido azar. Por unanimidade e aclamação enviara ao Governo de Lisboa um telegrama de apoio incondicional ao regime de Marcelo Caetano. Telegrama falaz que arribou a S. Bento precisamente no dia em que Marcelo Caetano se refugiava no Carmo, nunca dele tendo tido conhecimento. Sabidos, em Macau, os desenvolvimentos subsequentes, o mesmo conselho decidiu enviar para Lisboa um texto semelhante ao anterior, mas desta vez dirigido à Junta de Salvação Nacional que dirigia agora os destinos da pátria. Tal como antes, a Assembléia aprovou de pé e por unanimidade a nova manifestação de fé. Por unanimidade, não! Uma deputada, Graciete Batalha, ficou sentada…

É ela própria que regista nas suas memórias o que aconteceu nesse dia 29 de Abril de 1974:

Quem aprova levanta-se, quem não aprova deixa-se ficar sentado – diz o Governador, como é costume nestas votações.

Toda a Assembléia novamente de pé (o proponente do primeiro telegrama teve o bom senso de ficarem casa)- toda a Assembléia de pé, menos uma mulher caturra que se deixou ficar sentada ante os olhares estarrecidos duma fila de assistentes à sessão, mesmo def

Henrique de Senna Fernandes revela "fui até eu que redigi o telegrama (o primeiro) que seguiu para Lisboa .. eu fi-lo com convicção ..."

ronte da sua cadeira. Ainda agora me divirto ao lembrar aqueles olhares de espanto. “Estará louca?”, pareciam dizer.

Quando todos se sentaram levantei-me eu e disse mais ou menos isto, como deve constar nas gravações do dia: – Senhor Gover

nador, peço licença para explicara minha atitude. Eu não tenho nada contra a Junta de Salvação Nacional, mas termos mandado há cinco dias um telegrama a apoiar a política do Primeiro Ministro Marcelo Caetano e mandarmos hoje outro, apoiando uma política completamente

oposta, é contra a minha maneira de ser. Além disso, não creio que fôssemos constrangidos a aprovar o primeiro telegrama. Se o Sr. Vogai A. M. foi constrangido, não sei; eu não fui. Concordo plenamente que se agradeça a manutenção de V. Exa. em Macau, porque isso é certamente motivo de regozijo para todos nós. Mas acho muito cedo para dizer mais do que isso. Claro que tal actuação, como a que eu estava a sugerir, era absolutamente inviável em boa política… O Governador, olhava para mim, siderado, mas, diga-se a verdade, recompôs-se rapidamente e não alterou a sua costumada gentileza: – Não reparei que tinha ficado sentada…

in Bom Dia, S’tora!, Macau, 1991

38 Democratas de Macau subscreveram o telegrama abaixo de apoio ao novo regime, num jantar no restaurante Fat Siu Lau (foto acima) a 30 de Abril

MACAU É UMA JÓIA RARA

Tanto para os democratas como para os conservadores de Macau, as notícias da eclosão do 25 de Abril de 1974 causaram generalizada satisfação. Para os primeiros, abria-se uma nova era de liberdade. Para os outros, entreabria-se a possibilidade de conseguir a tão almejada autonomia do território ansiada desde os idos da revolução de 1822. No entanto, passada a euforia inicial, uma parte da população, incluindo a comunidade chinesa, começou a ter alguns receios pelo futuro. A descolonização tomava a prioridade em todas as agendas de Lisboa e nenhuma indicação chegava que permitisse claramente depreender que Macau seria tratada de maneira diferente de Angola, Moçambique, Guiné, ou Timor.

É neste contexto de receio que o ministro da Coordenação Interterritorial do primeiro Governo provisório efectua a sua primeira deslocação ao Oriente, uma deslocação vista com ansiedade não só por Macau, como também pela vizinha Hong Kong, onde o governador enviou insistentes telegramas a Almeida Santos para se encontrar com este antes de embarcar no hydrofoil para Macau. Almeida Santos encontrou-se de facto com o governador britânico e procurou tranqüilizá-lo.

Foi em razão dos receios crescentes que se sentiam em Macau que Almeida Santos, depois de ter estado em Timor, onde se colocava de facto um problema de descolonização, decidiu passar por Macau. Quando chegou, constatou as informações que possuía:

Quando cheguei havia uma grande ansiedade de facto. A pataca tinha baixado de cotação e as pessoas estavam preocupadas. Qual vai ser o futuro de Macau? E eu pude fazer uma comunicação pública num teatro da cidade em que afirmei: Macau é uma jóia rara. É um caso especial, para nós não é uma colônia. Para Macau não se põe o problema de nenhum processo de descolonização. Isso aquietou os ânimos.

O MFA – Movimento das Forças Armadas após a revolução substituiu o Governador Nobre de Carvalho por Garcia Leandro

Os tempos de Pen Pals e Fab Young, Macau e HK 1967

O Fabulous Young era uma publicação mensal de Hong Kong cujo tema era principalmente a música e um pouco da moda.  Falava dos grupos musicais de Hong Kong e internacionais, e às vezes dos músicos de Macau.  Nele procuravamos por Pen Pals (amigos por correspondência) cujo perfil era do nosso agrado, ou então por notícias e endereços de fãs clubes desse ou daquele conjunto musical, e tantas outras coisas relacionadas ao mundo musical e dos jovens.  O preço do exemplar era muito barato, mesmo na época.  Se convertido à cotação de hoje, de HK$ para US$, o preço seria de US$ 0,05, que mesmo se multiplicarmos por 10x por conta da inflação, ficaria em US$ 0,50, ou MO$ 4,00 ou R$ 0,90.

Este era o formulário para preencher os seus dados e preferências/passatempos (hobbies) para ter o seu anúncio publicado.

Os chineses gostavam de adotar nomes de artistas e músicos como Mc.Cartney, Lennon, Hanky Panky, Anka, etc. como aparece na imagem acima, ou abaixo,  Era moda e o é ainda, de um certo modo, os chineses adotarem nomes de “guerra” estrangeiros, como Alice, Thomas, Cynthia etc. Gostavam muito de se “ocidentalizar”.  Os chineses de Hong Kong eram sempre mais modernos que os de Macau, assim como as mulheres eram mais bonitas e elegantes:

Na última página aparecia a escolha do Pop Group (grupo de música Pop) do mês.  Nesta edição o escolhido foi o afamado grupo Lotus com o seu mais recente traje:

Enquanto isso, havia anúncios dos últimos lançamentos de discos em vinil disponíveis nas lojas:

Havia uma seção para notícias e os dados de Fan Clubs (fãs clubes) com os nomes dos seus membros.  Veja a filial de Macau do fã clube dos Thunderbirds:

Nesta edição, a falar sobre moda, traz as fotos dos filhos do magnata Stanley Ho, dono de vários casinos em Macau.  Conta o jornal que Robert e Jenny Ho estavam de passeio a Hong Kong, após terem se graduado em Millfield, uma das mais caras universidades na Inglaterra, em Sommerset.  Vestiam a última moda da Inglaterra e de Paris, onde Robert comprava suas roupas na Pierre Cardin:

Músicas dos anos 60 que ouviamos em Macau

Sou um saudosista, motivo das minhas publicações na Internet, e a música dos anos 60, a internacional, desperta uma saudade enorme dos velhos tempos da minha infância e juventude em Macau.  Tal como no Brasil com a “Jovem Guarda” ainda na moda e sempre relembrada.  Só que em Macau, não tinhamos na época “música nacional”, já pensou se houvesse MPM-Música Popular Macaense?  Ouviamos música americana e inglesa, preferencialmente, mas também a italiana era muito apreciada.

A respeito, tenho feito postagens de vídeos dos anos 60, com base nos livrinhos de músicas publicadas em Hong Kong, que eram o Hit Songs e o Hit Parade, no fundo a mesma coisa do mesmo editor.  E como já faz um mês que publiquei a última, novamente abro outra postagem, dando preferência àquelas menos conhecidas para desafiar a memória.  Pode ser que um ou outro de vocês da época dos 60, vão dizer … huummm que música é essa??? … mas depois de ouvirem ou verem o vídeo da You Tube, vão dizer … aaahhh, lembro dessa … então, vamos lá? Matar as saudades dos tempos dourados dos anos 60, de música internacional?

Este é o livrinho Hit Songs da qual me baseei para selecionar as três músicas abaixo. A época da publicação era de 1965

Esta música BECAUSE do Dave Clark Five é uma melodia daquelas que mais gosto deste conjunto inglês.  Aliás, praticamente gosto de todas as músicas deles, e da banda, tanto quanto dos Beatles.  Veja o vídeo com as letras da música abaixo publicadas:

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Agora esta, THE CRYING GAME de Dave Berry, tive que ver o vídeo para lembrar-me dela.  Depois, então, eu disse … aaahh, agora lembro, gostava dela, até tenho gravado no meu inoperante gravador de rolo, uma pena ..

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Esta dos Honeycombs a cantar HAVE I THE RIGHT lembro bem, porém não sabia que a baterista era uma mulher.  Parece que era uma das pioneiras.  Veja o excelente performance dela:

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Macau 1992, vista aérea e densidade demográfica: saiba

Macau 1992. Foto de Wong Wai Hong

Passaram-se 20 anos desde que o fotógrafo Wong Wai Hong a bordo de um ultra-leve sobrevoou Macau a pouco mais de mil metros de altura.  Foram tiradas mais de mil fotos em vários sobrevoos.  O resultado do trabalho foi publicado em postais que comprei em 1994 em Macau.  A série foi patrocinada pelo Instituto Cultural de Macau e consta o editor como San Yu Tang, de Hong Kong.

Na foto abaixo, de autoria estampada e época desconhecida, podem ter uma idéia da evolução de Macau desde 1992,como os novos aterros (mais à direita), pontes, vias públicas e muitos prédios.  Macau aumentou de tamanho, e não para de aumentar.  Digamos que aumenta “a cada minuto” com as barcaças trazendo terra da China e despejando no mar, num trabalho de formiga, para formar novos aterros.

A seguir podem ver a única ponte que, em 1992, ligava a península de Macau às suas duas ilhas, Taipa e Coloane.  Taipa hoje em dia está ligada a Coloane por uma avenida.  Praticamente as duas ilhas ficaram uma só, e os aterros continuam … Taipa hoje abriga os mais modernos e espetaculares casinos de Macau, e se não bobear, supera Las Vegas como de fato já é uma realidade em termos de receita.  Na foto abaixo, podem ver que a primeira ilha, que é Taipa, era pouco habitada.  Hoje em dia, está entupida de casinos monumentais, um aeroporto e muitos prédios, estádios etc etc.  Torna-se opção de moradia por falta de espaço na península.  Além dessa ponte da foto, foram construídas mais duas para ligação a Macau. A ilha do fundo é Coloane e, por enquanto, está um tanto preservada com as suas áreas verdes.

Macau 1992. Foto de Wong Wai Hong

Macau, em 1992, ainda sob a administração portuguesa (foi devolvida para a China em Dez/1999) deveria ter cerca de 400 mil habitantes.  Hoje tem em torno de 570 mil.  Agora, aos leitores que não conhecem Macau, saiba que é um dos lugares do mundo com a maior densidade demográfica, com cerca de 19.000 pessoas por quilómetro quadrado.  Veja a foto abaixo de 1992, com a parte escurecida para delimitar a área da península Macau, para imaginar como os seus habitantes “se espremiam” neste pequeno espaço de cerca de 22 km2 (? em 92?).  A área escurecida já faz parte do continente da China, porém, mesmo que Macau hoje faça parte da nação chinesa, há uma fronteira para se cruzar, necessitando de visto.  O mesmo se aplica aos residentes chineses do outro lado da fronteira.  Isto é a China e este esquema de fronteiras também se aplica a muitas cidades dentro do continente.  Entre outras coisas, serve para controlar o fluxo migratório.

E, como diz o poeta macaenseAdé no nosso dialecto patoá: Macau Sã Assi … (Macau é assim)

* Agradecimentos ao fotógrafo e editores

LILAU, um texto de Cecília Jorge, Macau

Vejam o belo texto da macaense Cecília Jorge sobre Lilau, escrito em 1988 e publicado na edição de Outubro de 1996 da Revista Macau.  Fala daquele antigo Lilau que foi parcialmente demolido, conforme poderão ver nas primeiras fotos, e depois, poderão ver as fotos que fiz em 2010 na viagem para o Encontro, de como ficou nos dias de hoje.  O que foi preservado, acho, dá uma idéia do que era antes, mas tal igual, com certeza, não o é! Diante da volúpia para construir prédios mais prédios, acho que antes isso do que nada.  Só resta a gente conformar-se lamentando:

Lilau

A brisa

já não encontra o caminho

por entre os labirintos de prédios

que sitiam o casarão.

Brechas rasgam o cinzento em tufos de musgo verde

nos cantos húmidos

que plantas esconderam.

Abacates caem roídos pelos pássaros e insectos

abrindo-se estrepitosos no chão.

Romãs e anonas ressequiram nos ramos.

O que é feito?

Que é feito dos jasmins que

espalhados ao sabor do vento

nos perfumavam as madrugadas

e os crepúsculos?

(poema de Cecília Jorge)

Goiabas e carambolas são fruto proibido para os garotos que trepam às árvores saltando o muro que já não cumpre a função, arruinado pelas sevícias dos tufões e pelo abandono. Vale-lhes apenas o desafio da conquista, para se arrepiarem com a acidez da fruta. De lá do alto dos ramos, lançam-na, agastados a cada dentada, fazendo pontaria para ao menos acertar nos gatos que em baixo miam.

Nas traseiras do casarão deambulava-se dantes pelos magros passeios marginados de pedrinhas, por entre canteiros, arbustos e árvores, e de onde as crianças respondiam ao chamado dos pais, espreitando de soslaio pelas janelas escancaradas do salão.

Sorviam o café aromático de Timor e fumavam recostados em cadeiras de verga, distendidos, enquanto as ventoinhas chiavam emprestando frescura. Ouvia-se o noticiário, trazido pela voz radiofónica, roufenha, da Vila Verde. O velho Philips era caixote de ébano, com um olho verde de poder hipnótico para quem, às escondidas, e de cima de uma cadeira, rodasse curioso o botão das estações só para o ver piscar, com o silvo arrepiante da dessintonia.

Era a hora também da conversa mole, terminado que fora o almoço na mesa grande, a mesma que serviu três gerações, para depois sentir definhar a família, no curso apressado do destino.

Foram-se os pais. Os irmãos e filhos se seguiram… emigrando, morrendo, morrendo e emigrando. Silenciado o último chefe de família, precisamente aquele que mais enchera o vazio da sala com o seu vozeirão e jeito desbragados, nas anedotas e relatos picarescos das viagens de embarcadiço, o tecto ruiu, vedando para sempre o acesso ao salão.

Isolada ficou também a deserta gaiola dos canários, onde dúzias deles foram enchendo de chilreio alegre um casarão cada vez mais vazio de juventude.

Aos poucos se foram selando, uma a uma, cinco portas por onde durante tantos anos passaram adultos e crianças, velhas beatas da novena e da missa do bairro, rapazes vivaços em traje formal a caminho dos “assaltos”, desportistas, donzelas casadoiras, padres, hóspedes, negociantes e criadas. Por ela entraram porteiras e saíram ataúdes.

Não me dês pobreza vil,

Nem riqueza que me tente

Dá-me o necessário à vida

E viverei contente.

Um singelo azulejo trazido de Coimbra, junto à entrada, parecia predestinar o futuro da casa, que não o dos que nela viveram. Não houve muitos elementos comuns no percurso de quantos albergou e aos quais ultrapassou na lei da morte.

Trepadeiras e cactos colocados nos muros e a adornar um tanque de pedra onde chegaram a nadar peixes dourados, e cágados, para gáudio da pequenada, aguardavam apenas a derrocada do salão para tomar de assalto a zona de onde antes eram vigorosamente expulsos pelas tesouras do jardineiro, ao mínimo sinal de invasão.

A rainha da noite, aí plantada, era o orgulho da tia solteirona e um dos maiores mistérios da casa, para os mais pequenos, que todos os anos, ao findar do Verão, lutavam em vão contra o sono e o cansaço para a ver florir, imaculada e soberba, apenas por uma noite. Murcharia ao nascer do sol.

E a cascata de pedra? Ruiu, sob o peso dos escombros do salão que os operários, apressados, atiraram para o canto mais próximo, que era o tanque.

O matagal com várias tonalidades de verde, que hoje cobre os passeios, cresce com gosto, impante, pela reconquista final de uma zona de onde fora banido durante quase dois séculos, com a construção do casarão. Ocuparam-no mosquito vespas e cobras-capelo, tendo por sentinelas gigantescos cactos. As trepadeiras invadiram a casa, entrando pelas vidraças partidas com pedras lançadas dos prédios vizinhos, sobranceiros. num gozo selvático de destruição.

Dois pinheiros imponentes, que cresceram obedecendo somente aos ventos, guardavam os dois lances de escada encimados pelo terraço, palco da mal-contida indisciplina de dezenas de netos que. em dias de festa, pontuavam em fotos de família com a avó nonagenária. Ali enfrentaram, serenamente, os tufões, durante mais de três décadas, e ali continuaram, à espera do fim, não lhes cabendo prevê-lo, numa orgulhosa indiferença.

Um dia, o portão será fraco para manter ao largo máquinas e homens, ávidos a demolir, a ceifar, a aplanar, sem dó nem pausa. Em Macau, arrasa-se uma casa em poucas horas… Depois, outras máquinas se seguirão, mais violentas ainda, perfurando o jardim com vigas, desfigurando-o com muros, paredes de cimento e betão.

Onde havia a harmonia das paredes com as plantas, o vento e o sol, crescerá a selva cinzenta de dezenas de apartamentos, limitados e espremidos em

Um dia, o portão será fraco para manter ao largo máquinas e homens, ávidos a demolir, a ceifar, a aplanar, sem dó nem pausa. Em Macau, arrasa–se uma casa em poucas horas… Depois, outras máquinas se seguirão, mais violentas ainda, perfurando o jardim com vigas, desfigurando-o com muros, paredes de cimento e betão.

Onde havia a harmonia das paredes com as plantas, o vento e o sol, crescerá a selva cinzenta de dezenas de apartamentos, limitados e espremidos em escassa cubicagem, ao sabor da pataca.

Contra isso, nada valerá, sequer o matagal, porque a selva de betão é mais forte. No seu seio, nada cresce, a não ser a angústia de quem olha todos os dias através da pequena janela quadrada para uma floresta cinzenta e suja, onde o ruído das buzinas, dos motores e das britadeiras esconde o cantar de pássaros engaiolados. A verdura surge então submissa, contida em pequenos vasos, nas varandas e terraços.

Ao cheiro fétido da humidade mistura-se o odor oleoso dos fritos da vizinha e o escape de uma

viatura que acelera no rés-do-chão.

No Lilau, a humidade confundia-se antes com o perfume da relva molhada e das plantas, do musgo aveludado das pedras do muro, junto ao poço. A humidade estava na roupa imaculada que a lavadeira, A-Tchan, recolhia dos arames, ao fim da tarde, num cesto de verga. A humidade chiava e transformava-se em nuvens de vapor, enquanto ela a engomava, serena e sábia, contando histórias aos miúdos quedos e ansiosos, que faziam um cerco de banquinhos, em redor da tábua de “passar a ferro”, junto aos pivetes de incenso que ardiam no altar da Kun Iam. Escola da harmonia e do equilíbrio cósmico, onde se aprendia a cultivar virtude não importa em que religião.

E o sol entrava a jorros pelas varandas, frestas, portas e janelas, porque havia então espaço entre casas vizinhas, e as paredes eram caiadas. De branco, e verde, bege ou rosa.

Lilau: lendária pela água da sua fonte, hoje cantada até pelos que nunca a provaram mas juram seu feitiço.

A original fonte, dizem, há muito foi desviada. A bica secou, e também o poço do casarão de onde se tirava água fresca para beber, lavar e regar é hoje charco inquinado pela conduta de esgoto, rota de há anos, do prédio vizinho.

Mas no Lilau, apesar de tudo, há vida.

Teimosamente, as árvores continuam a verdejar e a dar frutos.

As magnólias de flores grandes, junto ao abacateiro, viam-se de longe. Os ternurentos chivits, os pardais e as pegas fizeram dali o seu santuário, banqueteando-se com goiabas e carambolas.

Apenas a brisa de sueste conhece o caminho para chegar ao casarão, acariciando de leve as folhas da macupeira.

Um cão rafeiro, vira-latas mas senhor absoluto das ruínas, caça ratos e persegue gatos. Vinga-se nos forasteiros, e ladra ao luar, tal como o fizeram os seus numerosos antecessores, todos eles sepultados ao pé das caramboleiras.

Duas velhas e dedicadas criadas, das que em meio século testemunharam, silenciosas, as histórias de vida e morte no casarão, recusam-se a abandoná-lo.

Tal como os pinheiros, desafiam, serenas, o futuro. Esperando apenas que a morte as livre de males inevitáveis e que o dia de amanhã não seja pior do que o de hoje.

CECÍLIA JORGE

Julho de 1988

Revista Macau Outubro 1996 / fotos acima publicadas na Revista

Nota: O casarão foi demolido, e a colina mais o jardim arrasados, em 1989. / Uma das velhas morreu, e a outra aguarda a sorte, num quarto alugado. / Sete anos depois, reconstruiu-se o Largo do Lilau, zona de patrimônio protegido.

Este é o Lilau que vi e fotografei em Dezembro de 2010

A desmontagem da estátua de Ferreira do Amaral de Macau, saiba …

Já fiz postagens a respeito da estátua do Governador Ferreira do Amaral, abandonada e descuidada num parque em Lisboa, Portugal.  Não tenho informações atualizadas de como ela está, mas tenho cá uma crónica de João Fernandes que nos conta, em 1993, como foi a remoção da estátua da Rotunda Ferreira do Amaral, diante do Banco da China e Hotel Lisboa.  Infelizmente o progresso e a modernidade de Macau, além de um comentário vindo do Continente vizinho: “é evidente que depois de 1999 não poderão ser mantidos em Macau monumentos que exaltem o período colonial“, acabaram sendo o motivo para ela ser despachada para Portugal.

Felizmente aquele comentário não se concretizou totalmente, pois alguns monumentos como as estátuas de Jorge Álvares e Vasco da Gama foram mantidas nos seus lugares. A sabedoria chinesa prevaleceu.

Veja a foto (“não recomendável para quem tem problemas cardíacos pois a imagem pode provocar fortes emoções”), é realmente uma cena muito triste, pois até parece que  o nosso Governador morreu pela segunda vez em Macau.  Até fiquei a pensar, aquando da sua inauguração nos idos tempos, deve ter havido aquele pomposo cerimonial com as tropas perfiladas, e a banda a tocar o hino nacional português além da população de língua portuguesa, pelo menos, a assistir.  E quando foi removida? Como foi? Eu estava aqui no Brasil e na época não tinha internet, não fiquei sabendo, infelizmente …

 

foto de Nuno Calçada Bastos

A ‘Crónica do Acaso’ de João Fernandes, Revista Macau Junho 1993:

FERREIRA DO AMARAL TORNOU A SER POLÉMICO

DENTRO de poucas semanas a nova fisionomia da Rotunda Ferreira do Amaral passará a fazer parte do quotidiano de Macau e não serão precisos muitos anos para que seja já difícil recordar como era antes, exactamente, aquela vasta praça e o local exacto onde estava colocada a estátua  equestre do antigo Governador.

O apear da estátua causou no entanto intensa polémica, que pelo facto de ter abrandado não deixa de continuar latente: deveria ou não retirar-se a estátua?

A pergunta foi posta pela primeira vez quando se encarou seriamente a idéia de dar um novo arranjo ao local, em grande parte servindo apenas para estacionamento de automóveis, o que claramente lhe retirava a dignidade que merecia. A pergunta foi-me mesmo apresentada a título privado, tendo-me, então, pronunciado a favor. Argumentei na altura que um novo arranjo da rotunda era claramente necessário e que se deveria aproveitar a oportunidade para a retirar, sacrificando-a ao progresso, o que sempre seria melhor do que “fechar os olhos” ao “incómodo” que representava, sabendo-se que assinalava um período difícil nas relações entre portugueses e chineses e sem esquecer as tentativas já feitas, no quente dos acontecimentos do chamado “1,2,3″, para a derrubar…

Outras opiniões teriam ido no mesmo sentido e o então secretário-adjunto Luís de Vasconcelos deu indicações aos Serviços de Obras Públicas para elaborarem um concurso de idéias para um arranjo urbanístico da praça. Mantendo a estátua, ou encarando a hipótese de a retirar? — terão perguntado nos Serviços. A resposta foi anódina: encarando as duas hipóteses.

Tudo leva a crer que a partir daí, e embora sem ter chegado ainda à imprensa, o assunto começou a ser falado. Talvez não muito, mas o suficiente para chegar a Pequim, de onde, inesperadamente, o director do Gabinete para os Assuntos de Macau e Hong-Kong junto do Conselho de Estado chinês, Lu Ping, avançou com uma declaração: É evidente que depois de 1999 não poderão ser mantidos em Macau monumentos que exaltem o período colonial.

A afirmação chocou, pelo insólito, e irritou muita gente que a considerou despropositada. E desgostou também os que tinham em mãos o processo de reurbanização da rotunda — e adivinharam-se de imediato os problemas que se iam seguir.

Na verdade, pouco tempo depois — e sopesada mesmo a possibilidade de voltar atrás no projecto em curso… — tornou-se público o concurso de idéias, não faltando então quem ligasse as duas coisas e entendesse que se estava a corresponder apressadamente à “ordem” de Pequim, sem que nada o justificasse. A polémica esteirou, saltou para Lisboa e foram muitas as posições extremadas, quase sempre levando pouco em conta a situação real…

Realizado o concurso e decidido qual seria o novo desenho da rotunda, o processo começou penosamente a arrastar-se. Carlos Melancia pedira já a demissão do cargo de Governador e, como se sabe, foi moroso o processo da sua substituição. A encarregatura do governo terá pensado ser justificável suster a questão da praça, apesar de já se ter dado início aos trabalhos preparatórios da obra, cujo concurso foi também posto em banho-maria.

A nova Administração herdou portanto um problema incómodo, já em fase bastante avançada, que teve de reanalisar nas suas diversas implicações. Um período que terá tido a vantagem de deitar alguma água fria na fervura. Pondo algum bom senso no apreciar da questão, toda a gente é capaz de concordar que a estátua de Ferreira do Amaral nos diz bastante mais a nós, portugueses, do que, necessariamente, aos chineses. Se é verdade que a História é o que é, também é irrecusável que ela é muito a maneira como é encarada. O obelisco que comemora a Restauração da Independência está muito bem onde está, em Lisboa, e não é por acaso que não está em Madrid. E isto para além das relações ibéricas serem as melhores…

Garboso no seu cavalo, de braço bem levantado pronto a ripostar aos golpes dos seus assassinos, Ferreira do Amaral lá seguiu para Lisboa, onde a Câmara há-de arranjar um lugar condigno para o colocar, lembrando aos vindouros mais um episódio da forma como fizemos História nas cinco partidas do mundo….

Em Macau, entretanto, a vasta praça que continua a ter o seu nome vai dentro de algum tempo ser alvo de nova controvérsia — embora agora menos aguerrida: deveria ser assim? Melhorou o trânsito local como se desejava? Os seus elementos decora¬tivos são os que deveriam ser?

Aos poucos, como tudo, a discussão vai perder calor, os cidadãos habituam-se e os turistas farão do local um dos seus pontos obrigatórios e preferidos para as tradicionais fotografias.

Dentro de alguns anos as, então, velhas fotografias, mostrando a saída da ponte Nobre de Carvalho, a estátua equestre e, lá ao fundo, em vez do actual edifício do Banco da China, o sacrificado Liceu, irão parecer tão fora de época como aquelas que agora nos lembram o Macau do antigamente, com muitas árvores e poucas casas…

Macau 2000, os acenos positivos aos macaenses

Faltando pouco menos de um mês para o primeiro aniversário da transição de Macau para a República Popular da China, após cerca de 440 anos de administração portuguesa, foi realizada em Macau a Reunião Preliminar para o Encontro das Comunidades Macaenses Macau 2001, também chamado de Encontro do Novo Milénio.  Ocorrido entre Novembro a Dezembro de 2000, reuniu os dirigentes das Casas de Macau e eu participei como membro da direção da Casa de São Paulo juntamente com o então presidente Armando Sales Ritchie.

Foram momentos históricos e inesquecíveis os encontros, pela primeira vez, com os dirigentes da nova RAEM-Região Administrativa Especial de Macau, criada em 20 de Dezembro de 1999, a saber: o Chefe do Executivo Edmund Ho, Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, atual Chefe do Executivo Chui Sai On e o Comissário do Ministério dos Negócios Estrangeiros da R.P.da China na RAEM Yuan Tao.

Na época, ainda não tinha este blog e nem o site Projecto Memória Macaense, e pouco imaginava que pudesse criá-los a partir de 2003, pois era um iniciante na informática e na Internet, mas redigia o Boletim da Casa de Macau e havia que recolher documentos e tirar fotos para publicação e lembranças.  A rever os meus arquivos, vi as fotos e a documentação da 1ª Reunião Preliminar da era RAEM que publico nesta e futuras postagens.

Assim, para recordar o que aconteceu nesta Reunião, publico em primeira mão, os discursos do atual Chefe do Executivo e do Comissário do Ministério que me foram cedidos pelas suas assessorias.  Neles podemos ver os acenos positivos aos macaenses, e bom que se registe, aconteceu em Novembro de 2000, menos de um ano da transição.  Vejamos:

(clicar nas imagens para aumentar, e depois mais uma vez)

O Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, atual Chefe do Executivo Chui Sai On discursa no jantar oferecido aos participantes da Reunião Preliminar para o Encontro das Comunidades Macaenses Macau 2001, em 27/Novembro/2000.  Veja abaixo o seu discurso traduzido tal qual como me foi entregue pela sua assessoria:

Abaixo, a foto oficial tirada em 30/Novembro/2000 com o Comissário Yuan Tao, e em seguida, o seu discurso traduzido, tal qual como me foi entregue pela sua assessoria:

o autor deste blog é o 3º da esquerda na 4ª fila a contar da última, atrás de Vítor Serra. O Comissário Yuan Tao é o 4º da primeira fila, a contar da esquerda. A foto nos permite matar as saudades dos que partiram para o descanso eterno, de pelo menos cinco dos participantes da Reunião.

Macau: Hit Parade – recordando os anos 60

Na postagem do dia 5 de Março, recordava os anos 60 em Macau quando comprávamos o Hit Songs.  Bom, além de livrinho de música com aquele título, o editor também publicava outro praticamente igual chamado de HIT PARADE, e custava também HK$ 1,00 (iat mân: hôu péang ah).  Para quem não saiba, são livrinhos com letras de música, notas musicais e eventualmente cifras para viola/violão, conforme poderão ver abaixo.

E para celebrar a sua memória, pois não é mais editado, publico duas páginas digitalizadas de músicas dos Hit Parades com os vídeos do You Tube correspondentes , não daquelas muito ouvidas hoje nas seleções musicais da época, mas que certamente quem viveu a época deve lembrar-se bem delas.  Essas músicas me dão uma grande saudade de casa, daquela em que morava em Macau na Calçada de Tronco Velho nº 15, telefone 4430, só quatro números mesmo.  Me faz lembrar de à noite a ouvir a Rádio Vila Verde, única distração, pois ainda não havia televisão em Macau na época.  Talvez sem a TV éramos mais felizes e não sabíamos …

Para vocês, o DJ do Crónicas Macaenses vai lhes apresentar: COME ON DOWN TO MY BOAT do conjunto The Every Mother’s Son (no bom sentido, a tradução: Os Todo Filho da Mãe – era para provocar mesmo, mas não podiam ter arrumado outro nome?). Era música dos parties (bailes). Veja e vídeo (1967) e acompanhe com estas letras da música.  Sorry, no chords!

Ah … talvez por essa vocês não esperavam, talvez … mas gostava muito desta música, especialmente pela voz possante do seu cantor – Jay and The Americans – a cantar: CARA MIA.  Que tal? E que bom que este vídeo live (ao vivo) esteja disponível.  Para quem a conhece, mate as saudades. A gravação é de 1965:

“Este Jornal Acabou”, aconteceu em Macau em 31/08/2001

(não confunda: o jornal Hoje Macau continua a existir – o que acabou é o Macau Hoje)

A edição de 31 de Agosto de 2001 do Jornal Macau Hoje disponível na Internet, trazia estampada na capa: “ESTE JORNAL ACABOU“.  Mas … como? perguntava eu, a falar sózinho diante do computador.  Na época, ainda vivia o trauma com o fim da era portuguesa de Macau, após a transição para a China em Dezembro de 1999.  Ao ler o jornal de Macau em língua portuguesa, no aconchego da minha residência no Brasil, dava a sensação de ainda viver essa era, mas, com o seu fim, como fica??? Senti-me órfão na hora!!!  Achava que Macau acabou mesmo para os macaenses.  De imediato, enviei um e-mail ao João Eduardo Severino, diretor do Macau Hoje.  Queria saber os motivos … eu estava inconformado.  Pensava: acabou a Macau portuguesa, acabou a bandeira do Leal Senado e agora acaba o jornal de língua portuguesa …

O Macau Hoje teve o seu início em 1990. Após o seu fechamento, pouco depois, surgiu outro jornal sob nova direção e com o nome alterado para Hoje Macau, apenas uma inversão de posição do HOJE.

João Eduardo Severino mantinha um blog “Macau Passado“, que lembrava várias passagens da sua vida em Macau, porém deixou de atualizá-lo a partir de 11/08/2011 com a seguinte mensagem,  na sua postagem intitulada “Pouca Esperança”: “Depois de vários contactos no sentido de regressar a Macau, terra que ainda amo como segunda natalidade, cheguei à conclusão que determinadas portas mantêm-se encerradas. Neste sentido, estou a perder a esperança de um regresso desejado e, por esse motivo, quero esquecer o que me está a acontecer. Este blogue fica suspenso até um dia”.

No entanto, João Severino mantém outro blog ativo – pauparatodaobra – que assim o define: “Um blogue onde deixarei simples observações sobre o que vai acontecendo à nossa volta neste mundo global. Também serve de contacto com imensas pessoas que gostaram de mim“.

João Eduardo Severino com o saudoso Padre Teixeira

Macau, tolerância cultural e religiosa (texto de 1999)

O site oficial do Governo Português de Macau, antes da transição para a China em 1999, trazia numa das suas páginas, um texto que falava da Tolerância Cultural e Religiosa, que publico para sua curiosidade e memória da era portuguesa. Graças a Deus que, hoje, Macau sob a administração chinesa, pouco ou nada mudou em relação ao assunto. Disso temos que estar gratos aos novos administradores, pois havia um certo pessimismo prévio.

Igreja de São Lázaro

Templo budista Kum Ian Tong

Macau, Tolerância Cultural e Religiosa

A tolerância cultural e religiosa é um dos traços mais marcantes da identidade histórica de MACAU, lugar onde coexistem gentes das mais conhecidas religiões universais. Poderia dizer-se, até, que no território se acotovelam diariamente católicos, protestantes, budistas, tauístas, confucionistas e ateus, sem que a diferença pareça minimamente incomodá-los. Não há guerras santas nem fundamentalismos.

No âmbito das religiões, as estatísticas não podem ser confiáveis, como se compreenderá. A chamada religião tradicional chinesa é, naturalmente, majoritária entre a população. Trata-se de um sincretismo em que Confucionismo, Tauísmo e Budismo se misturam com antiquíssimas crenças milenares, onde têm lugar o culto dos antepassados e mesmo práticas de adivinhação.

Calcula-se que a percentagem de católicos não atinja os 10 por cento da população. Mas não é possível falar da história de MACAU sem uma referência constante à Igreja (aos jesuítas, nomeadamente nos primeiros tempos da fundação do território) e ao papel difusor de Macau na expansão do catolicismo em toda a Ásia, da Indochina ao Japão e à China. Nesta função desempenhou especial relevo o Colégio de S. Paulo, uma excelente universidade criada por Valignano, há 400 anos, para formar os seminaristas da China e do Japão. Aliás, é ainda na formação e no ensino que a Igreja Católica desempenha uma ação ímpar em MACAU, dinamizando mais de 30 escolas onde estudam mais de 40 mil alunos, muitos deles não-católicos, mas recebendo aí alguns dos principais valores da sua formação humanista e universal. A Igreja tem também um papel de grande relevo no âmbito da assistência social, função desempenhada sobretudo pelas 16 comunidades religiosas de MACAU, dedicadas à solidariedade em lares, asilos e infantários. De entre as manifestações católicas com expressão pública, para lá do culto corrente em inúmeras igrejas da cidade, avultam ainda as tradicionais procissões, em especial por ocasião da Páscoa cristã ou em devoção mariana.

A comunidade protestante local deverá rondar os 2500 fiéis. Atualmente trabalham em MACAU além do grupo evangélico Assembleia de Deus (especialmente dedicado à recuperação de toxico dependentes) duas missões baptistas americanas, além de luteranos e anglicanos. Dedicam-se igualmente ao ensino, através de 9 escolas dinamizadas pelas várias confissões.

Apesar de pequenas, também as comunidades que professam o islamismo e o hiduísmo marcam presença em MACAU. A comunidade islâmica congrega várias dezenas de fiéis que se reúnem semanalmente na sua Mesquita, junto ao reservatório de água, na zona nordeste da cidade, onde se situa também o seu cemitério. Quanto aos vários grupos hindus, sobretudo dedicados ao comércio, detêm menos expressão no panorama religioso local.  (Dados do ano 1999 – divulgados pelo ex-Governo Português de Macau)

Missa na Sé Catedral

Igreja de Santo António

“Um Pouco de História” de Macau, contada por Dona Alda

A macaense Alda Carvalho Ângelo, residente em São Paulo, no seu livro Fragmentos do Oriente publicado no Brasil em 1965, nos conta “Um Pouco de História” da Macau em meados dos anos 40 (por volta de 1946, pós II Guerra, quando deve ter emigrado) até 1950.  Para quem é da época, boas lembranças, e para quem não conhece a história de Macau, uma boa leitura e conheça a nossa terra. (Veja outras postagens sobre a Dona Alda e saiba que livro é esse e quem ela é).

Macau anos 60, Porto Interior e um dos barcos de carreira que fazia a linha Macau-Hong Kong

Farol da Guia

O Sui Tai, um dos barcos de mil e poucas toneladas de calado da British Steamship Company Ltd., que faz a carreira regular entre a colônia inglesa de Hong-Kong e a da portuguesa de Macau, diminuiu a marcha, como de costume, ao avistar os molhes do porto exterior que, de intervalos eram iluminados por uma faixa de luz emanada do mais antigo farol da China, o farol da Guia, o primeiro que iluminou as costas da China. Nessa noite, como no primeiro dia de sua aparição, em 1868, cumpria também sua missão de guia aos mareantes.

O barco singrava suavemente rio acima. Tudo era convidativo a uma meditação: a Lua, como para minorar a ausência do Sol, aparecera toda cheia e brilhante, banhando com sua luz argêntea a superfície do rio, transformando-a em um manto de prata; as Estrelas cintilantes, livres do atropelo das nuvens, tremulavam nesse magnífico firmamento tropical, como que executando suaves movimentos de uma valsa; e o Vento, como que compreendendo a beleza desse conjunto, tinha resolvido nessa noite, apresentar à Lua e às Estrelas sua encantadora filha, a Brisa.

Os passageiros, uns encostados à amurada, outros deitados em cadeiras de vime, no convés, admiravam encantados essa maravilhosa noite de verão. Ouviam-se de quando em vez, risadas alegres e despreocupadas de passageiros de ambos os sexos, de várias nacionalidades, que vinham passar o “week-end” na amena cidade portuguesa que uns chamam de “Monte Carlo do Oriente”; outros de “Antro de Perdição”; outros de “O Inferno do Jogo”, preferindo  contudo, os mais românticos denominá-la “A Pérola do Oriente”.

Outro barco de carreira dos anos 70. Foto de/photo by Karsten Petersen

Macau, quatro vezes centenária, teve início em 1553, quando alguns portugueses abordaram à praia de Amagau para a secagem das mercadorias molhadas por uma tempestade. Esses punhados de portugueses que faziam suas transações na Ilha de Lampacau, distante umas trinta milhas da Ilha de Sanchuan (hoje chamada de São João), eram os remanescentes de um grupo de cerca de quinhentos portugueses que se tinham escapado das perseguições e devastações, em 1545 em Liam-pó e, em 1549, em Chin-Cheu; e que, na fuga, tinham-se rumado para o sul e desembarcados uns em San-Chuan e outros, em Lampacau.

Macau, perspectiva em 1598

Tendo encontrado na praia de Amagau um bom abrigo para suas embarcações, os portugueses começaram, então, a construir cabanas nessa localidade e a comerciar com os nativos chineses de quem tiveram boa acolhida.

Naquela época, as costas sul da China eram frequentemente infestadas por piratas chineses que guerreavam e pilhavam as embarcações do Governo de Cantão, tornando, portanto, perigoso o tráfego naqueles mares. O governo de Cantão era impotente contra essas constantes pilhagens. Comandava os piratas o terrível corsário do delta do Rio Cantão, Chan-Si-Lau, que fazia o que mais bem entendia naquelas paragens, causando prejuízos consideráveis tanto aos mercadores chineses como aos portugueses.

Os comerciantes de Lampacau, vendo-se na necessidade de pôr cobro àquelas constantes pilhagens, entenderam-se com os mandarins de Hian-Chan por intermédio do comissário Leonel de Sousa, conseguindo autorização do Nianpó (inspetor das Costas) para que seus compatriotas se fixassem definitivamente em Amagau, dando em troca dessa autorização a garantia do auxílio dos portugueses na supressão dos piratas de Chan-Si-Lau,

Uma vez conseguida a autorização, começaram as caravelas portuguesas a dar caça aos piratas, o que se prolongou até 1556, com o extermínio dos mesmos.

Amagau, que, por deturpação da língua, passou a chamar-se Macau, era uma vila chinesa salpicada de choupanas construídas de bambus e palmeiras secas. Seu nome teria sido dado em honra da deusa A-má, cujo templo, ainda hoje existente, é a mais velha relíquia da colônia.

A população, naquela época, composta em sua maioria, de pescadores e mercadores, diferenciava-se dos portugueses tanto nos trajes como no porte. De estatura menor, trajavam cabaias; cobriam-lhe a cabeça um barrete por onde saía, na parte posterior da cabeça, uma trança de cabelos. O rosto, de uma compleição totalmente diferente da dos europeus, apresentava dois olhos estreitos e puxados para os lados; o nariz chato e largo, aparecendo entre as duas maçãs de rosto salientes. A cor da pele era amarela, dando-lhes uma aparência doentia. Os pés largos eram calçados em sandálias de cordas ou em sapatos de pano com solas de cordas, quando não descalços,

A doação de Macau aos portugueses foi feita verbalmente em 1557 pelo imperador Kiat-Sing do reinado dos Mings, tendo sua confirmação sido feita somente em 1887.

Ao abrigo, então de tempestades e de piratas, a colônia, que não passava de uma povoação, começava a progredir. Em 1557-1568 era composta de mais ou menos 700 portugueses, tendo por capitão de terra um rico comerciante de nome Diogo Pereira. O governo verdadeiramente dito era administrado sob a forma de um triúnviro. O capitão de terra era auxiliado em seu governo por dois dos mais notáveis e influentes cidadãos da colônia. A administração do Santo Sacramento era feita por um vigário. De intervalos mais ou menos longos, Macau recebia a visita de um capitão mor, que, anualmente, viajava para Japão. Era costume dos comerciantes portugueses se cercarem de missionários que ministravam a religião e, bastas vezes, acompanhavam os embaixadores portugueses a Cantão ou a Pequim.

Em 1594, sob os auspícios do Pe. Francisco Peres, fundou-se a primeira residência do culto católico a que mais tarde se transformou no primeiro e célebre Colégio de São Paulo, também conhecido por Colégio dos Jesuítas. Esse colégio, situado num promontório donde se divisa toda a povoação, fora edificado com a coadjuvação dos jesuítas Manuel Teixeira, Gil Góes e André Pinto. O colégio foi destruído em 1835 por um terrível incêndio, deixando de pé apenas a fachada.

Anos depois, desembarcava em Macau, Dom Melchior Carneiro como bispo para China e Japão. Em 1568 foi fundada a primeira casa de assistência social denominada Santa Casa de Misericórdia bem como dois hospitais: o de São Lázaro e o de São Rafael.

Vida a bordo de um dos barcos de carreira Macau-Hong Kong no início dos anos 60. Na foto, o autor do blog com a sua mãe Marcelina da Luz a caminho de Hong Kong. Observem na lateral direita as cadeiras de descanso de lona.

Vamos, então, dar um passeiozinho pelo convés? –  sugeri ao Leitor Amigo, meu companheiro de viagem, com quem eu palestrava desde a saída de Hong-Kong sobre a história de Macau. – Vamos! — me respondeu ele — Estou curioso por conhecer a terra, depois que teve a gentileza de me pôr a par de sua história.

O Sui Tai, como eu dizia, tinha diminuído a marcha, deixando entrever cada vez mais os contornos da cidade iluminada a luz elétrica, os globos elétricos projetando sua luz sobre as barracas de banho, denotando que os banhistas ficavam até bem tarde, a beira-mar, deleitando-se com a brisa marítima ou banhando-se na água,

- Venha ver a cidade. — convidei meu companheiro. –  Venha! Olhe ai!  Estamos passando pelo porto exterior.

- Como é linda a cidade assim de longe! —exclamou ele.

- Estamos, neste momento, na foz de dois rios. — expliquei.

- A cidade é, então, banhada por dois rios?

- Sim, ela está privilegiadamente situada no delta comum de dois rios: Chu-Kiang  (rio de leste, ou rio da Pérola) e Si-Kiang (rio de Oeste). O Chu-Kiang é também chamado de Rio de Cantão. Macau está a oitenta milhas da cidade e porto de Cantão, a capital do Sul, a capital da grande província de Kwang-Tung.

- Macau é uma ilha?

- Não, ela é uma península. E’  ligada  por um pequeno istmo — o istmo da Porta do Cerco — ao distrito de Heóng-Sán* (montanha aromática). E, como vê – apontei para as ilhas em volta — Macau é cercada de ilhas: a da Lapa, a da Taipa, a de Coloane e, mais ao sul, a de D. João e a  de Vong-Kâm…

- E qual a população?

— Em 1950, isto é, segundo o censo do ano de 1950, a população era de 187.772 habitantes, sendo a maioria chinesa.

Praia Grande - Porto Exterior / Ermida da Penha na lateral esquerda - Macau anos 60

Nesse instante, o barco seguia em linha reta, paralelo à baía da praia grande, em toda sua extensão, tomando a direção da Avenida República, preparando-se para contornar a “meia laranja”.

- Olhe aí a ermida da Penha! — chamei a atenção do meu companheiro. — A ermida da Penha está situada no cume da Colina da Barra. É  aí  que   se   encontra  a imagem de Nossa Senhora   da  Penha,  venerada  ainda hoje  como naqueles  tempos pelos nossos primeiros navegadores. No sopé dessa mesma colina está o Pagode da Barra, freqüentado principalmente pela gente do mar (pescadores chineses), onde se venera uma   das mais importantes  divindades  da China, a “Rainha do Céu”, a deusa A-Má, donde proveio o nome de Macau. — Leitor Amigo me escutava com interesse. — Não acha você, Leitor Amigo, curioso, como homens tão diferentes e de religiões tão opostas tenham escolhido o mesmo local para venerar cada qual seus santos preferidos?

- Curioso, sim.

-  Você tem que conhecer a gruta da Penha. Tem que subir até ao alto da colina e de lá desfrutar os mais belos panoramas.

- Devo ir na parte da manhã ou da tarde?

- Na parte da manhã, você verá o maravilhoso nascer do sol, verá dezenas e dezenas de

barcos de pesca deslizarem-se suavemente por sobre as ondas, as velas desfraldadas, afastando-se do porto…

- E na parte da tarde?

- Na parte da tarde, verá outro maravilhoso panorama.    O pôr do sol, o belíssimo pôr do sol macaense… os barcos de pesca, regressando para o porto, carregados de peixes de todos os tamanhos e feitios …

Porto Interior para onde regressam as embarcações de pesca - Macau em 1973 - foto de/photo by Karsten Petersen

- Tenho que subir até lá…

- Mas agora vamos descer — atalhei — Vamos descer e preparar-nos para o desembarque.  Já estamos chegando.

- Já?!

- Já!

De fato, o barco estava a poucos metros do cais, depois de passar pela Fortaleza da Barra, pela doca e rumado reto ao longo do Porto Interior. Dirigia-se lentamente para o ancoradouro.

Nesse instante, o relógio do salão batia dez horas. Meia hora depois, eu me despedia do Leitor Amigo.

- Magnífica viagem. — exclamou ele. — Inda nos encontraremos?

- Acho que sim. — respondi.

- Algo me diz que nossos caminhos não tardarão a se cruzar novamente…

- Faço votos.   Tenho ainda muito que contar. O Oriente é vastíssimo. A China é grande, enorme e… a cidade de Macau é pequeníssima de tamanho — não mais de dez quilômetros  quadrados de terra, mas…

- mas sua história…

- essa, não tem fim! — e acrescentei sorrindo. – Mas cuidado com o tufão! …

Juncos e sampans - embarcações de pesca chineses - Macau 1973 - foto de/photo by Karsten Petersen

* Heóng-Sán: Atualmente este distrito é chamado de Chông San, em homenagem ao felecido Dr. Sun Chong San, mais conhecido por Sun lat Sen, o fun­dador da República Chinesa.

Macau: Hit-Songs 1965, saudades da juventude

Todo mês é aquela rotina: ir à banca ou livraria para comprar o Hit-Songs, com aquela expectativa “será que vai ter aquelas (tais) músicas com os chords (cifras)?“. É um livro de pequeno formato com cerca de 60 músicas, normalmente as mais populares na rádio, só que, nem sempre vem com chords, tal como o exemplar da imagem.  Aí a gente que toca violão/guitarra e não é daqueles com bom ouvido ou capacidade para apanhar (decifrar) chords para a música, tal como eu, fica chateado.  Vamos ter que esperar por outra edição, ou contar com a ajuda de amigos que são mais músicos de verdade.  Embora em geral o macaense não tenha formação musical e toca de ouvido. Isto vivi em Macau nos anos 60, em plena juventude, os tempos de ouro.

No Brasil também se vendem tais livrinhos, porém menos volumosos.  Hoje em dia, se quisermos letras de músicas com cifras, basta pesquisar sites especializados e temos praticamente tudo o que quisermos.  Penso que esses livrinhos hit-songs impressos em Hong Kong e vendidos a HK$ 1,00 na época, já não existem mais.  Tenho ainda aqui comigo uma coleção deles, razoavelmente conservados, que servem para matar as saudades dos belos tempos na minha terra, e que agora, por acaso, um deles servem de pretexto para publicação de uma postagem.

o verso com o preço do exemplar e umas coisas escritas em chinês para quem sabe ler

Para celebrar a memória dos Hit-Songs, publico duas páginas, sem cifras porém com partituras para os entendidos, com os vídeos do You Tube referentes às canções.  Selecionei-as com a certeza de que acharia os vídeos, aliás o que não se acha no You Tube? A música Downtown ainda é popular, ouve-se regularmente nas programações ou cds dos anos 60, mas essa dos The Bachelors já é um pouco mais rara, que tal?

Downtown – por Petula Clark

I Wouldn’t Trade You For The World - por The Bachelors

Carnaval em Macau … antigamente

Com o passar dos anos. e, mais tarde, com a revolução de 25 de Abril de 1974. aquelas centenas de militares que nos acostumamos a ver pelas ruas, desapareceram. Ficaram os macaenses e os chineses … … Os casamentos realizados entre macaenses. ou entre macaenses e metropolitanos, faziam com que as tradições se perpetuassem através das novas gerações … … os macaenses acabaram por sofrer alguma influência deste convívio mais próximo com a comunidade chinesa, seja na língua, na culinária ou nos costumes. Naqueles casamentos onde a componente chinesa é mais forte, as nossas tradições foram sendo esquecidas. dando lugar a usos e costumes que não são nossos“, assim Mário José Nogueira, em 1993, deu um panorama do que poderia ter sido um dos motivos para a diminuição de interesse pelas Tunas, e consequentemente das festas carnavalescas.

Pode isto ter contribuído para o fim do Carnaval em Macau, bom salientar, um dos motivos, eu acrescentaria que também pela modernidade musical com o Elvis e dos Beatles, essa invasão da música inglesa e americana que acabou gerando uma preferência por parties, como um outro motivo.  Vivi bem os anos 60 em Macau e confesso que de Carnaval, lembro que nessa época, como estudava no Seminário, os padres nos convocavam para um retiro espiritual e de orações, para nos afastar dos dias de pecado.  Além do que por falta de uma melhor comunicação como hoje, só imaginavamos o Carnaval, atribuído ao Brasil, pelos filmes, já que nem tv tinhamos.  Imaginavamos que em cada esquina do Brasil, havia um brasileiro tocando pandeiro e sambando, aliás uma coisa que ainda se imagina até hoje.  Só ver o filme de desenho animado – Rio – onde o cão bulldog aparece com a ridícula fantasia de “frutas na cabeça“, tipo Carmen Miranda nos EUA, ou era brasileiro sambando por tudo quanto é lado, e outras coisas absurdas, etc etc.  O brasileiro curte o Carnaval e sai para a folia, mas nem todos que seriam a maioria.  Prefere-se mais aproveitar o feriadão de 4 ou 5 dias para viajar ou curtir a cidade tranquila com menos gente.  Até poucos assistem aos desfiles pela tv.  Eu insisto em assistir todos os anos, mas cansa-se muito a vista pelo movimento das cenas e logo o cochilo vem.  Uma pena que acaba-se dormindo mais no sofá do que ficar acordado assistindo as belas escolas de samba, cada vez mais sofisticadas, e se me desculpem,  as de São Paulo já estão praticamente no nível do Rio.

Mas voltando ao assunto de Carnaval de Macau, no artigo de Veiga Jardim na Revista Macau de Maio de 1993, publicado no site do Projecto Memória Macaense (As Tunas de Macau), recorda-se como eram os carnavais com as disputas das Tunas e o desfile pelas ruas, tais como os Trios Elétricos do Brasil.  Transcrevo uns trechos do extenso artigo:

“Herança directa das tunas portuguesas, as tunas de Macau sempre foram presença obrigatória no Carnaval e em outras festas populares:  tunas houve muitas, entre os anos 30 e fins de 40, já que nem o período da guerra tirou aos macaenses o gosto pelo convívio e pela folia. Nomes como a Harmonia e a Tuna Macaense são ainda lembrados por quem participou nos assaltos e desfiles carnavalescos.”

As tunas formavam-se por altura do Carnaval e de uma especificidade local – o Micareme (cerca de 40 dias após o Entrudo), nascida do facto das pessoas não se contentarem com uma semana de folia e tentarem prolongar a festança, mesmo contra as críticas dos párocos que achavam muito pouco adequado foliar durante a Quaresma. … … O elemento feminino, que se destacava nos bailes e desfiles de mascarados, surgia nas tunas apenas como porta-bandeira.”

E, o Mário José Nogueira (na foto acima: o 1º à esquerda da fila de frente) comenta:

“De um modo geral a existência das tunas estava condicionada às comemorações do Carnaval. É claro que durante o resto do ano não ficávamos completamente inactivos. A cidade mudou muito. Antigamente realizavam-se enormes feiras, quermesses, festas religiosas e, muitas das vezes íamos lá tocar.”

“… No Carnaval inevitavelmente tocávamos marchinhas. Nos bailes fechados tocávamos música de dança. Mas deixe-me contar-lhe a história: dois meses antes do Carnaval, reuníamo-nos duas vezes por semana para ensaiar. É bom frisar que nenhum de nós recebia um avo. Mesmo os uniformes e as fantasias eram comprados com dinheiro do nosso próprio bolso. Aqueles que não podiam, recorriam ao presidente da tuna que, de um modo geral, era alguém com mais recursos e que garantia este tipo de despesas. Também era através do presidente que os clubes e as pessoas em geral convidavam as tunas para participar dos bailes e festas. Havia em Macau diversos clubes que organizavam grandes bailes, durante os quatro dias do Carnaval. Estes eram o Clube Macau (no Largo de Sto. Agostinho), Clube Militar (no Jardim de São Francisco), Clube dos Sargentos (cujo verdadeiro nome era Clube Recreativo 1° de Junho, situado perto do mercado da Mitra). e o Clube MELCO (situado na Areia Preta. onde hoje é o Bairro Hip-On). Havia os bailes do Sábado Gordo e do Domingo de Carnaval. Na terça-feira havia o Carnaval dos Casados e na quarta-feira de cinzas praticamente já não havia mais nada. Éramos. por exemplo. convidados para tocar no Clube Macau. durante um baile que começava às 9.30 da noite. A tuna saía da sua freguesia de origem e. tocando, marchava pela cidade até o clube, Muitas vezes fizemos longos percursos debaixo de chuva. desde o Tap-Seac até lá em cima. no Largo de Sto, Agostinho. Tinha horário para começar mas não tinha para acabar, Tocávamos até às 5 da manhã e depois ainda íamos à Novena de N.S.dos Passos, que normalmente coincidia com a época do Carnaval. Comíamos qualquer coisa – depois de já termos, durante a noite. comido não sei quantas vezes – e.finalmente. voltávamos para casa. Era divertido, mas muito cansativo.. .”

“Os músicos não se mascaravam, mas havia umas boas dezenas ou centenas de foliões que se fantasiavam e aos quais se poderia, eventualmente. misturar um grupo de agitadores pondo em risco a segurança das pessoas. Em Macau havia um carnaval de rua espontâneo e as tunas eram, de certa forma, o ponto alto destas festividades. Os sócios dos clubes juntavam-se ao grupo, durante a marcha. de modo que quando chegávamos ao fim do percurso a festa já estava bastante animada…”

a mulher como porta-bandeira (tal como nas escolas de samba no Brasil)

Veiga Jardim finaliza a sua matéria sobre As Tunas de Macau, assim:

Após estes depoimentos, plenos de ricas vivências, fica-nos a impressão de que, quase sem sentir, Macau, abrigo provisório de uma cultura tão peculiar, foi perdendo um pouco da sua personalidade com o desaparecimento das tunas. As guerras, a emigração e as revoluções – circunstâncias históricas imponderáveis – conduziram caprichosamente os destinos deste pequeno pedaço de terra que, em breve, não mais pertencerá aos seus filhos. … No entanto, onde estiverem, se cá não puderem permanecer, levá-la-ão consigo, no seu sangue e nas suas memórias, pois na verdade, são eles os protagonistas da sua própria história.” (Veiga Jardim é um maestro brasileiro que residiu em Macau por uns tempos, compôs e executou toda a trilha sonora do filme A Trança Feiticeira de Henrique Senna Fernandes)

É bom ler que há manifestações de pessoas em Macau para o retorno destes velhos costumes.  Torço para que tudo dê certo e que haja adesão da população macaense e portuguesa.

Ruínas de São Paulo: pensaram em reconstruir a Igreja … !!!

foto: Rogério P.D. Luz

As Ruínas de São Paulo em Macau são as ruínas da antiga Igreja da Madre de Deus e do adjacente Colégio de São Paulo.  Exemplo único da arquitetura barroca na China, a fachada em granito foi o que sobrou do incêndio que começou nas cozinhas do colégio em 1835, por volta das 18:00 às 20:15 hrs.  Em 2009, foi classificada como uma das Sete Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo.  Só que não teria obtido essa classificação e nem seria o principal ponto turístico de Macau nos dias de hoje, caso tivessem sido concretizadas as iniciativas em 1904 para a sua reconstrução.

Veja o que o grande historiador Padre Manuel Teixeira conta a respeito no seu livro Toponímia de Macau:

“A igreja começada em 1602, ficou concluída em 1603, sendo inaugurada na noite do Natal, tendo trabalhado nela cristãos japoneses fugidos da sua pátria devido às perseguições contra a religião.

A fachada levou muitos anos a construir. Peter Mundy diz que a obras de cantaria já estava pronta em 1637; Cardim informa que ainda em 1640 se colocou nela uma imagem de N. Senhora; em 1608, fez-se a porta da igreja, da banda de oeste com seu arco de pedra e o corredor do coro.

A 26 de Janeiro de 1835, um incêndio devorou completamente a Igreja e o Colégio de S. Paulo, ficando apenas de pé a fachada da Igreja.

Houve alguém que sonhou na reconstrução de S. Paulo.

O sonhador foi o dr. António José Gomes, que nós muito bem conhecemos.

A 4 de Dezembro de 1904, o bispo de Macau D. João Paulino d’Azevedo e Castro celebrou missa nas Ruínas de São Paulo e lan­çou a primeira pedra para a reconstrução desse antigo e histórico templo, destinado à futura igreja paroquial de Santo Antônio.

Subiu a um púlpito improvisado o Pe. Dr. António José Go­mes, pároco da Santo António que, num sermão empolgante, pediu fundos para essa obra. Dizia ele:

«Este lugar é santo! estas venerandas ruínas, esta mole imensa de granito, aprumada e indestrutível, este majestoso frontispício, este colosso três vezes secular, que a despeito do olvido dos homens e das injúrias do tempo, se ergue ainda em toda a sua envergadura arquitectónica, rasgando as nuvens e desfraldando em pleno céu o lábaro sacrossando da Redenção… tudo isto está clamando que este lugar é santo…

Uma escadaria, a mais ampla, a mais bela, a mais bem lançada que os meus olhos têm contemplado, servindo de escoadouro de lavaduras infectas, transformada em limiar de casas de gentio…

Ai! Quantas injúrias não tens tu sofrido, ó preciosa relíquia da arte cristã! Tentaram roubar-te os santos de bronze, que ador­nam os teus nichos, para os fundirem, mas os santos não cederam o seu posto, foram mutilados, mas ficaram inabaláveis! Estilharam-te as colunas, britaram-te os capiteis, quebraram-te os ângulos, man­charam e poluíram as tuas bases … e, não obstante, tu aí estás ainda em pé, miraculosamente, para pungir a consciência de todos e cada um»!

Na peroração o dr. Gomes convidou os ouvintes a jurar que reconstruiriam a Igreja da Madre de Deus: «Soou a hora solene, chegou o momento crítico, o momento decisivo … o momento de fazermos sobre estas ruínas o mais solene dos juramentos!

«Ah! se no meio de vós está alguém atrabiliário, algum inimigo desta obra santa e patriótica . . . saia! . . . fuja deste recinto . . . não queira ser um perjuro!»

Neste momento, um soldado disse para os que estavam junto dele: — «Não, eu é que não juro»; saltou e fugiu dali para não ser perjuro.

O orador, a quem passou despercebido o incidente, continuou: — «Ninguém sai? . . . Ninguém se retira?».

E então fez o juramento, em nome de todos: — «A cidade de Macau, pela boca do vosso ministro, jura hoje solenemente, à face do céu e da terra, desagravar o Vosso Santo Nome, restituir-vos a vossa herança!»

E terminava entusiasmado: — «Avante, senhores, avante pela reconstrução de São Paulo!»

Organizaram-se lotarias, promoveram-se quermesses e festas para angariar fundos, mas pouco se conseguiu.

Foram mandadas fazer na América várias tapeçarias com as gravuras da fachada, do bispo D. João Paulino e outros motivos religiosos. Mas, quando se abriu a grande remessa, viu-se que os ba­cios tinham no fundo a vera imagem do prelado!!! Foram logo retirados da venda.

Existe ainda na Diocese um fundo dumas $ 20 000,00 em acções, chamado «Fundos da Reconstrução de S. Paulo».

Já antes do dr. Gomes, aparecera outro entusiasta da reconstrução: era o rico proprietário, comendador Albino da Silveira, que tencionava empregar a sua fortuna nessa obra. Chegou a mandar fazer o plano da igreja, aproveitando a fachada, mas com a sua mor­te em 31 de Outubro de 1902 morreu o seu projecto.”

No desenho de Cheong Pow de 1818, pode-se ver a Igreja Madre de Deus ou São Paulo antes do incêndio.  Está na sua lateral esquerda

a Igreja de Madre de Deus/São Paulo e o Colégio São Paulo após o incêndio (fonte: Um Museu em Espaço Histórico do Museu de Macau)

Interior da Madre de Deus depois do incêndio de 1835.  Desenho de George Chinnery, pintor inglês que retratou Macau em centenas de desenhos durante a sua estadia em Macau de 1825 a 1852

Macau: como era no passado e como ficou

Nada contra o progresso e a modernidade, mas … se Macau tivesse preservado mais prédios antigos, teriamos uma terra com mais história, tal como se vê em muitas cidades na Europa etc. Infelizmente a destruição da história começou quando Macau era administrada pelos portugueses.  Está certo que havia pouco espaço e a necessidade de acomodar a população que não parava de crescer, situação que persiste até hoje, mas poderiam ter preservado um pouco mais.  A especulação mobiliária e muito dinheiro rolando por aí não deu tréguas, e construções que tinham histórias para contar foram demolidas para darem lugar a prédios, muitos sem nenhuma beleza visual como poderão se certificar nas fotos abaixo:

a) CADEIA DE MACAU: Inaugurada em 1912 a Cadeia Cetral de Macau foi demolida em 1993.  No seu lugar ergueu-se um edifício multifuncional de grande porte.

Assim era em 1915:

e, como ficou em 1995:

b) EDIFÍCIO RIBEIRO: Herdou apenas o nome da família a que pertencia a moradia que foi, durante décadas era um bom exemplo da arquitetura modernista, de apurado rigor geométrico.  O atual edifício (ao lado do antigo Cineteatro Macau) foi construído nos anos 70.

Assim era em 1960

E como ficou em 1995

c) CASA DO DR. PEDRO LOBO: Construído na Rua da Praia Grande logo a seguir o Palácio do Governo, a casa do Dr. Pedro Lobo foi demolida nos anos 70.  No seu lugar foi construído um prédio de habitação e comércio, na esquina da Rua da Praia Grande com a Travessa da Paiva.

* Pedro Lobo era conhecido na sociedade macaense como maestro e benfeitor por ser um homem de posses.

Como era em 1950

E como ficou em 1995, um prédio feio. Pela localização poderia até ser restaurado para se tornar num museu ou uma instituição governamental.

*Fonte: 100 Anos que Mudaram Macau, um livro do Governo português em 1995.  Participaram da edição: Sérgio Infante, Rogério Beltrão Coelho, Paula Alves e Cecília Jorge.

13 de Maio procissão de N.S.de Fátima, tradição em Macau

13 de Maio

(texto da Revista Macau de Junho de 1990 – não consta o nome do autor e as fotos são da publicação)

“Ave, Ave, Ave Marta…” o cântico encheu as ruas desde o Largo de São Domingos até lá ao aitos à Igreja da Penha. Eram largas centenas de fiéis, que uma vez mais, mantiveram viva a tradição do 13 de Maio. O dia dedicado a Nossa Senhora de Fátima. Em Macau, como de costume, foi dia de procissão…
Na segunda tarde de sábado do mês de Maio, as ruas encheram-se de gente, na cidade do Nome de Deus. Era a procissão de Nossa Senhora de Fátima a unir, de novo, a Igreja de São Domingos com a da Penha.
Foram cerca de três milhares os fiéis que, entoando cânticos de louvor a Maria, vieram para a rua, depois da celebração da missa em São Domingos, percorreram a baixa da cidade, e rumaram ao monte da Penha, já depois do pôr-do-sol.
A imagem de Nossa Senhora, rodeada de flores, era transportada por “meninas da Congregação de Fátima”.
O Bispo de Macau, Dom Domingos Lam, membros do Cabido, Sacerdotes e Missionárias, integraram também esta manifestação de fé, que todos os anos se repete desde 1929.
O culto de Nossa Senhora de Fátima encontrou em Macau um dos primeiros centros de intensa devoção.
O culto público foi anunciado no primeiro dia de Maio de 1929, em S. Domingos, com um tríduo de preparação a começar no dia 10. “Haveria missa de manhã, o Terço, prática e benção do Santíssimo à tarde, concluindo-se cada dia com o hino de N. S. de Fátima”, como rezava então a imprensa da época.
No primeiro dia do tríduo, prossegue o relato, “o Pe. Roliz benzeu a imagem que iria na procissão e fora enviada de Portugal. O dia 13 de Maio foi de romagem de Fé, com Missa de Pontificai pelo então Bispo de Macau, Dom José da Costa Nunes, tendo ficado o SSmo. exposto todo o dia até às Vésperas de Pontifical à tarde, a que se seguiu o Sermão.”
O padre Antônio Roliz, S.J. terá sido o grande entusiasta que trouxe para as ruas de Macau o culto de Nossa Senhora.
Afinal, sempre era mais fácil trazer o culto mariano até Macau do que levar até Fátima, todos os anos, os milhares de fiéis da Cidade do Nome de Deus.
No ano inaugural do culto a Nossa Senhora de Fátima, o primeiro pregador convidado para o Sermão, foi o padre Antônio Maria Alves, jesuíta e superior das Missões de Shiu-Hing. O padre Alves lançou, então, um apelo que todos os presentes prometeram cumprir. O de, todos os anos, haver peregrinação no dia 13 de Maio, até à Penha (que representaria, assim, a Serra d’Aire de Macau), dando-se corpo desta forma, a uma união espiritual com os imensos peregrinos da Cova da Iria.
Nesse ano pioneiro, a procissão fez o trajecto usual. “Sé, Largo do Senado, e São Domingos. A imagem da Senhora levava uma preciosa auréola e pendente das mãos um rico rosário de ouro, obtido por subscrição pública, e durante a procissão contava-se o Terço e hinos à Senhora”.
O êxito da primeira romagem levou os responsáveis a lançar a idéia de criação de uma entidade que assegurasse a continuidade daquela manifestação de Fé.
A 13 de Dezembro de 1929 fundava-se a Congregação de Meninas, designada de N. S. de Fátima, que dura até hoje (1990) e se dedica a organizar os festejos de 13 de Maio.

No ano seguinte, as cerimónias religiosas seriam rodeadas ainda de maior solenidade.
A festa começou a ser precedida de novenas, tendo a procissão, propriamente dita, obtido tal acompanhamento humano que, segundo se falava na altura, desde 1904 que “não se vira em Macau uma procissão tão bem organizada, tão piedosa e tão concorrida”.
Esta procissão tão piedosa, seria também, a primeira que levaria os fiéis até à Igreja da Penha, dando-lhe o contorno que ela mantém ainda hoje.
Esta manifestação de fé não seria sobressaltada pelo decorrer dos tempos. A Segunda Guerra Mundial, que veio a alterar significativamente a forma de viver desta população (de súbito acrescida com largos milhares de refugiados), acabou por avivar a devoção deste povo a Nossa Senhora.
As procissões que se realizaram nos anos de guerra estavam cheias de fiéis devotos, que imploravam graças à Virgem de Fátima. E, de facto, Macau manteve-se durante esses anos conturbados, como terra de paz…
A Procissão contravou inalterável, afinal tal qual como hoje (1990) a conhecemos. Em 1978. já a liturgia começou a ser celebrada em Português e Chinês, de forma a que toda a comunidade de Macau tivesse o ensejo de rezar, de verdade, na sua própria língua.
Desde o já longínquo ano de 1929, que a 13 de Maio as ruas de Macau se enchem de gente de fé. E ninguém quer ouvir falar do ano em que a tradição possa vir a acabar.

Nota: A tradição é mantida em Macau até nos dias de hoje, mesmo após a sua transição pelos portugueses para a China.

Veja o vídeo da procissão em 2011, em Macau, divulgado pelo Jornal Tribuna de Macau no YouTube:

Memórias de Macau: antes em 1973 e depois em 2010

Em 1973 Karsten Peterson, um marinheiro dinamarquês que residiu 6 anos em Hong Kong, foi conhecer Macau e tirou as fotos abaixo.

37 anos depois, na minha viagem para o Encontro das Comunidades Macaenses Macau 2010, tirei as fotos das mesmas localidades:

(clicar nas fotos para aumentar)

Macau 1973

foto de/photo by Karsten Petersen (Dinamarca/Denmark)

Esta ladeira ou rampa que dá acesso (subindo-a) para o Teatro Dom Pedro, a Igreja de Santo Agostinho e a Escola Comercial.  Agora quem for descê-la, vai para a Igreja de São Lourenço e o Seminário de São José, um dos caminhos que eu fazia para ir à escola nos anos 60.  Belos tempos.  Agradeço o Karsten Peterson pela foto que tantas boas memórias me trazem do trajeto para ida/volta da escola.  Interessante que, agora vendo essas casas bem deterioradas, na época, não impressionavamos com isso.  Nem davamos importância!  Hoje diriamos: “uau, que casas velhas e mal conservadas, caindo aos pedaços”.  Essa na verdade era a Macau daqueles tempos.  Não havia muita preocupação em restaurar casas, prédios, monumentos, Igrejas etc.  Eram muito manchadas ou com a pintura mofada e paredes escurecidas.  No entanto, essa era a Macau que gostavamos.  Sentiamos bem.  Era mais humana! Mesmo que Macau hoje impressione pela modernidade.

Macau 2010 – o mesmo local visto do larguinho defronte ao Teatro Dom Pedro

foto de/photo by Rogério P.D. Luz

Macau 1973

foto de/photo by Karsten Peterson

Antigamente era possível passear tranquilamente pelas Ruínas de São Paulo.  Tinha pouca gente.  Hoje, há tanta gente, especialmente turistas da China (além das fronteiras de Macau que hoje também é China), que até nem dá vontade de fotografar as Ruínas.  Os turistas chineses gostam de ver as relíquias históricas ocidentais.  Para quem não saiba, a Igreja de Madre de Deus e o adjacente Colégio de São Paulo foram destruídos por um incêndio em 1835.  Sobrou apenas a fachada que hoje é Patrimonio Mundial da Humanidade da UNESCO, e em 2009 foi classificada como uma das 7 Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo.

Macau 2010

foto de/photo by Rogério P.D. Luz (até que neste dia não tinha muita gente)

Macau 1973

foto de/photo by Karsten Petersen

Esta é a região de Lán Kuai Lau ou Ferro Velho, onde se vendia e ainda vende antiguidades, coisas usadas etc. Uma boa pesquisa acham-se coisas históricas, antiguidades que nem se imagina.  Pouca coisa mudou em 37 anos é o que aparenta.  Talvez um pouco de “modernidade” com os casarões velhos substituídos por prédios.  Mas é uma região interessante pois é tipicamente chinesa, bem tradicional.

Macau 2010

foto de/photo by Rogério P.D. Luz

Memória: Macau antes da transição (02-GP de Macau 1999)

Na edição de Novembro de 1999, um mês antes de Portugal devolver Macau para China, o jornal de língua inglesa “Macau Travel Talk” publicava o anúncio para o último Grande Prémio de Macau sob administração portuguesa: a 46ª edição.  Também trazia imagens do André Couto, piloto português nascido em Lisboa e radicado em Macau, sendo condecorado com a medalha de mérito esportivo pelo então presidente do Leal Senado, José Luís Sales Marques.

André Couto disputava os GPs de Macau de Fórmula 3 inclusive na Europa, ostentando no seu carro o nome de Macau (vide foto).  Porém nunca venceu durante a administração portuguesa e por ironia do destino, veio a vencer logo no 1º GP realizado após Macau ter sido devolvido para a China, no ano 2000.  Assisti esta corrida no Brasil, ao vivo/em directo, pela RTP internacional.  Lembro que o André, ao comemorar a sua vitória, e politicamente correto, agitou a bandeira da RAEM (Região Administrativa Especial de Macau) que era a nova bandeira (chinesa) de Macau, após ouvir o hino chinês pois ele representava a terra agora China.  Os locutores comentaram assim, meio estupefatos ou escandalizados, “olha ele a agitar a bandeira …”, e porque não dizer que eu também fiquei meio chocado, pois ainda ressentia o fim da era portuguesa em Macau. Mas hoje, já acostumado com a idéia da inevitável transição, e porque não dizer “justa” pois colónias dificilmente podem ser justas (a não ser que os colonizadores sejam potências, como os EUA no Hawai ou Havaí, pois ninguém contesta, muito menos o povo, mas convenhamos …), posso dizer que o André agiu corretamente.  Afinal era residente em Macau e era patrocinado pelo governo.  Não havia como ele agitar a antiga bandeira do Leal do Senado, embora não seria muito errado se agitasse a de Portugal pela sua nacionalidade e naturalidade. Digamos, poderia agitar as duas juntas que acho o Chefe não iria achar ruim.

André Couto em 2011 disputou o campeonato japonês de Turismo GT, e em Macau, a última etapa do WTCC – campeonato mundial de carros de turismo com um SEAT.  Dizia ser seu sonho chegar a Fórmula 1, mas infelizmente ficou só no sonho … como tantos outros pilotos!!!

Memória: Macau antes da transição para a China (01)

Assim Macau se apresentava para o mundo em língua inglesa.  O anúncio foi publicado no jornal em inglês “Macau Travel Talk” edição de Fevereiro de 1999.  Como se sabe (ou para quem não o saiba) Macau, colónia portuguesa, foi devolvido para a China em 20 de Dezembro de 1999.  A transição completa 12 anos neste ano.  O anúncio ou cartaz diz tudo, a mistura de culturas, a ocidental com a oriental.  Podem observar que aparece a foto de eleição da Pedruco como Miss Macau, publicada neste blog. Veja também no canto inferior direito a bandeira portuguesa que tremulava no prédio do Leal Senado no último ano da presença portuguesa no Sul da China, após uma missão de cerca de 440 anos.

Abaixo, a foto chamava atenção para o Ano Novo Chinês que ocorreria de 16 a 18 de Fevereiro de 1999.  Naquele ano comemorava-se o Ano do Coelho que de acordo com astrólogos chineses é um ano de paz, diplomacia e justiça, de fato bastante razoável, pois a transição de Macau para a China decorreu naquela forma.  A foto mostra a dança do dragão realizada no Largo do Senado (centro da cidade) como celebração do ano novo que se aproximava.

Jorge Rangel: Mais um depoimento recente sobre o “1-2-3”

Complemento de 09/02/2012: Veja o comentário postado na página – Sua Mensagem a respeito deste tema:

Olá Rogério,
Felicito-o por este espaço que é uma “memória” para todos nós.
Gostaria de fazer um reparo sobre um artigo que publicou – “Jorge Rangel: Mais um depoiamento sobre o 1-2-3″ – Este artigo foi extraído do livro “Há biscoitos no armário” que é sobre a biografia da minha Mãe, que foi professora de francês em Macau (e professora do Jorge Rangel) e foi uma oferta dos filhos pelos seus 90 anos em Outubro de 2011. O autor desta obra foi JORGE PINHEIRO. Posso facultar-lhe um exemplar deste livro com muito gosto. Fará o favor de me indicar uma morada para o meu gmail.
Agradeço que faça a devida correcção.
Cumprimentos

Maria Isabel Machado Fonseca

Jorge Rangel, Presidente do Instituto Internacional de Macau, na sua crónica da série “Falar de Nós” que habitualmente publica no Jornal Tribuna de Macau nas 2ªs. feiras, fala na edição de 05/Dezembro sobre um novo depoimento a respeito dos incidentes de 1-2-3 em Macau, que aqui publico dando sequência à postagem deste blog “O Exército português de Macau intervém …”:

(para quem não saiba: em 1966, durante a Revolução Cultural na China liderada por Mao Tse Tung, os seus simpatizantes “guardas vermelhos” aterrorizaram o País e as cidades fronteiriças, Macau e Hong Kong.  Provocaram tumultos pela cidade nos dias 1, 2 e 3 de Dezembro e fizeram grandes estragos nas instalações do Governo e estátuas.  Diante da incapacidade da polícia, o exército português interviu e 9 pessoas de étnia chinesa acabaram sendo mortas)

Mais um depoimento recente sobre o “1-2-3”

por Jorge Rangel*

O incidente da Taipa’ foi usado como pretexto. Durante 58 dias Macau foi afectado pelo tufão maoísta. Os Guardas Vermelhos impuseram a sua lei”.
De “Há Biscoitos no Armário”, Outubro de 2011

Este espaço foi já usado várias vezes para recordar os graves incidentes que ficaram localmente conhecidos por “12, 3”, quando, no auge da revolução cultural chinesa, o fervor extremado do regime comunista se fez aqui sentir com inusitada força e de forma violenta, pondo tudo em causa, abalando a confiança da população e colocando em risco a própria manutenção da presença portuguesa no território. Diversos depoimentos foram aqui parcialmente reproduzidos e comentados, permitindo ao leitor conhecer perspectivas diferentes na apreciação dos conflitos provocados, bem como das suas causas e consequências.
A recente publicação do livro “Há Biscoitos no Armário”, de Jorge Pinheiro (Outubro de 2011), uma “história de vida”, de homenagem à professora Maria Manuel Pimenta de Castro Machado, proporcionou-me o ensejo de partilhar com o leitor mais uma sucinta descrição desses fatídicos acontecimentos. Com a devida vénia, e também com o intuito de suscitar de novo a atenção para esta obra, que todos quantos se interessam por Macau e pela presença de Portugal no Oriente devem ler, transcrevo mais este depoimento, no 45.º aniversário daqueles incidentes que mudaram profundamente Macau:
“Nesse ano de 1966 a Revolução Cultural chegou a Macau. Chegou sem que as autoridades portuguesas se tivessem apercebido. A Revolução Cultural Chinesa era imparável. Até aí ela não era evidente em Macau. Mas, inevitavelmente, tinha de chegar. Mais do que um protesto contra os portugueses, mais do que a intenção de integrar Macau na China (que nunca houve), os incidentes visavam, tão-somente, mostrar a Mao Tsé-tung que Macau também era revolucionário. Pretendiam mostrar o fervor das gentes de Macau, à causa da Revolução Cultural. Claro que o ?incidente da Taipa? podia ter sido evitado. Os portugueses, por manifesta inabilidade, caíram na armadilha. Mas se não fosse esse, seria qualquer outro pretexto. Macau tinha de ter os seus Guardas Vermelhos. Em Novembro, um grupo de residentes chineses da ilha da Taipa tentou obter uma licença para a construção (ou reconstrução) de uma escola de feição comunista. Na impossibilidade de obter a licença, começaram ilegalmente a edificação. Rui Andrade, o administrador interino das Ilhas saiu de casa. Passou pela escola. Insurgiu-se contra a construção. Resolveu intervir. Apelou à autoridade. E eis como um homem fraco pode fazer história, da pior forma. A 15 de Novembro, a Polícia prendeu, de forma violenta, os responsáveis pela iniciativa, operários de construção, residentes e jornalistas. Foi, obviamente, uma precipitação. Até porque o pedido de licença estava parado numa qualquer gaveta de um qualquer burocrata. Mais, a brutalidade da intervenção foi, manifestamente, desproporcionada, quando era o diálogo e a diplomacia que se exigiam. O 2.º Comandante da PSP, Vaz Antunes, que estava presente durante o incidente, assim não entendeu. A arrogância imperou. A imprensa chinesa, em especial o jornal Ou Mun, e as associações comunistas atacaram em força. De repente, a revolução cultural entrou em Macau. A partir daí, os chineses tiveram necessidade de se manifestar. De provar a Mao Tsé-tung que eram patriotas. Os protestos iniciaram-se e foram sempre em crescendo. Na cidade, os taxistas passaram o sinal. Eram, na sua maioria, indonésios, expulsos por Sukarno. Estavam revoltados contra tudo e contra todos. Buzinavam sem parar. Incendiaram o ambiente. As manifestações sucederam-se. Manifestações com mais de 15.000 pessoas, o que era muito, face à dimensão do território. Em Macau havia cerca de 50.000 estudantes chineses, a frequentarem escolas comunistas. Um potencial revolucionário impressionante. Os Guardas Vermelhos surgiram. O governo ficou debaixo de fogo. De crescendo em crescendo, a contestação aumentou e generalizou-se, provocando um sentimento de verdadeira revolta no seio da comunidade chinesa. Macau estava há alguns meses sem Governador. Lopes dos Santos, um homem ponderado e que conhecia bem o Oriente, tinha regressado à Metrópole, em Julho de 1966. Como Encarregado do Governo ficou Mota Cerveira. Um homem arrogante e militarista, que preferia a bravata à diplomacia. A arrogância ao diálogo. O Comandante da Polícia, o Tenente-Coronel Galvão de Figueiredo, pautava-se pelos mesmos valores. Não podia ter sido pior. Os dirigentes políticos e as forças de segurança de Macau actuaram com manifesta inabilidade e total ausência de sentido diplomático. Pior, usaram de arrogância colonialista. As tensões exacerbaram-se. As posições extremaram-se.
No dia 3 de Dezembro de 1966 as manifestações iniciaram-se pelo meio-dia. As escolas estavam mobilizadas. Estudantes e professores invadiram o Largo do Leal Senado e as ruas circundantes. Uma camioneta carregada de pedregulhos avança pela rua onde se situava o Comando da Polícia. Atrás, protegidos pelo camião, manifestantes entoavam canções revolucionárias e gritavam palavras de ordem, empunhando o Livro Vermelho. Aproximavam-se cada vez mais da esquadra. Lá estavam guardadas armas e munições. Parecia evidente a intenção de tomar a esquadra de assalto. Vaz Antunes, o 2.º Comandante, dá ordem de fogo. Não havia outra solução. O condutor da camioneta é a primeira vítima. O carro segue descontrolado, até embater, com violência, no fundo da rua. A confusão é enorme. Debaixo de uma enorme pressão, os polícias, acantonados na esquadra, mantêm, nervosamente, o fogo. A multidão dispersa-se. Seguem-se perseguições na zona da Praia Grande. O recolher obrigatório é decretado às 16 horas. No dia seguinte ainda havia disparos dispersos por toda a cidade. No final dos dois dias, um saldo final de 8 mortos e cerca de 200 feridos, todos chineses. Foi necessária a mobilização de soldados para controlar a situação. A tensão, no entanto, continuou a crescer. Várias famílias portuguesas começaram a preparar-se para abandonar Macau. O ?1-2-3? é isso mesmo: mês 12, dia 3. E o futuro de Macau nunca mais seria o mesmo.
A violência acabou. A repressão amainou. Começou, então, a pressão política. Uma pressão que assumiu proporções inenarráveis. As exigências não se fizeram esperar. Eram pesadas e inegociáveis. Os mortos de 3 e 4 de Dezembro mantinham-se nas urnas, por enterrar. E assim ficaram até à assinatura do acordo, a 29 de Janeiro de 1967. Todos os dias os chineses lembravam os mortos. Publicavam fotografias dos cadáveres. Uma pressão total. Em 25 de Novembro de 1966, chegou a Macau novo Governador, Nobre de Carvalho. Apenas ao aterrar em Hong Kong, o Governador toma conhecimento da situação em Macau. Até aí nada lhe tinha sido dito. Absolutamente extraordinário. Mal chega a Macau, Nobre de Carvalho tem de iniciar a complexa negociação com os chineses e com Lisboa. O Governo de Lisboa mantinha-se irredutível. Salazar envia um telegrama em que resumia a sua posição: ?Confirmar que, em caso de necessidade, todos cumprirão o seu dever, mesmo com os maiores sacrifícios?. Um telegrama em tudo semelhante ao enviado para a Índia Portuguesa, imediatamente antes da invasão das tropas de Nehru. Um telegrama que não auspiciava nada de bom. No dia 16 de Janeiro, a comunidade chinesa adoptou a ?política dos três nãos?: não entregar impostos; não prestar serviços ao Governo (incluindo abastecimento de água e electricidade); não vender produtos portugueses. Entretanto, emergiram figuras que, até aí, se tinham mantido na sombra. Ho Yin, o líder da comunidade chinesa, é relegado para segundo plano. Emergem dirigentes comunistas. (…). Em Macau, o Conselho de Defesa estava reunido quase em permanência, sob a presidência de Nobre de Carvalho. Eram reuniões contínuas até altas horas da noite. Alinhavam-se argumentos. Definiam-se estratégias. Tudo em vão. As tentativas de chegar a um texto de acordo aceitável pelas duas partes sucediam-se. As negociações eram chefiadas por Mesquita Borges, chefe de gabinete do Governador e integravam, ainda, o Dr. Assumpção, advogado macaense e representante de Macau junto da Câmara Corporativa, em Lisboa e Roque Choi, secretário e braço direito de Ho Yin. Entretanto, por imperativa exigência chinesa, tinham sido demitidos Mota Cerveira, Galvão de Figueiredo e Vaz Antunes. O Comando da Polícia passou a ser exercido, interinamente, pelo capitão Lages Ribeiro.
Finalmente, a 29 de Janeiro, o Governo de Macau e as autoridades da República Popular da China, chegaram a um acordo, assinado na sede da Associação Comercial. Para Portugal, tudo foi humilhante naquele acordo. O local, o conteúdo, a forma. O Governo pediu desculpas à comunidade chinesa. Passou a ser proibido dar apoio ou asilo político aos nacionalistas do Kuomintang. Foram entregues à China cinco guerrilheiros nacionalistas, que foram imediatamente fuzilados. Procedeu-se à indemnização das famílias das vítimas. Ficou claramente marcada a posição da China. Portugal apenas estaria em Macau enquanto a China quisesse.” (…)

A situação, embora continuasse tensa, foi voltando, paulatinamente, à normalidade, ao mesmo tempo que a confiança no futuro voltava a fazer-se sentir. Terra de muitos tufões, Macau sobreviveu também a essa enorme tempestade política. Nasceu e cresceu como o bambu, capaz de se vergar em todas as intempéries, para continuar viçoso, com as hastes apontadas para o céu. E foi fazendo o seu percurso histórico até se transformar, pacificamente, em região especial da China, em Dezembro de 1999.

* Presidente do Instituto Internacional de Macau.

blindado do Exército Português desce a Av. Almeida Ribeiro para impor a ordem

(clicar nas fotos para aumentar)

“guardas vermelhos” entraram no Leal Senado (Câmara Municipal de Macau) e fizeram um grande estrago nas suas instalações e o patrimonio agindo livremente diante da incapacidade da polícia para contê-los.  Em vista, o Exército interviu e “deu no que deu”

Coronel Mesquita, breve biografia

Dando sequência às duas postagens anteriores a respeito do coronel Vicente Nicolau Mesquita (vide), penso que muitos ou alguns macaenses tenham apenas a visão dele como o herói da batalha do Passaleão, que justificava a estátua que ficava no Largo do Senado, mas não conheciam o outro lado escuro da sua vida. Pois, infelizmente, também foi um criminoso.  Assassinou a esposa e a filha, e depois suicidou-se.  Leiam esta breve biografia do Coronel Mesquita, que consta do artigo “O Guardião da Necrópole” de autoria de Amadeu Gomes de Araújo (Revista Macau-Fevereiro 1997)  e conheçam esta triste história:

Realia

À sombra de São Lourenço

A família de Vicente Nicolau de Mesquita fixou-se em Macau, na freguesia de S. Lourenço, na primeira metade do século XVIII. Ali nasceu o seu bisavô, José da Cruz de Mesquita, em 14 de Outubro de 1744; o avô, João de Mesquita, e o pai, Frederico Albino, advogado no auditório de Macau. Ele próprio, Vicente Nicolau, nasceu em S. Lourenço, a 9 de Julho de 1818, ali foi baptizado, viveu, casou e morreu.

Em 9 de Junho de 1835 assentou praça como voluntário no Batalhão do Príncipe Regente. Tinha então 16 anos. Aos 17 casou com a crioula Balbina Maria da Silveira, de quem teve cinco filhas, três das quais faleceram no mês de Maio de 1842, com intervalos de uma semana.

Em 25 de Agosto de 1849, com 31 anos de idade, comandou o assalto ao forte chinês de Passaleão, transformando-se numa figura heróica, prestigiada, da sociedade macaense.

Quando enviuvou, após 24 anos de casamento, desposou Carolina Maria Josefa da Silveira, irmã da primeira mulher, mas 11 anos mais nova. Meses depois, falecia a quarta filha.

Crises de ciúmes e outros graves problemas familiares envolvendo dois dos filhos do segundo casamento, associados a invejas e questiúnculas do pequeno mundo macaense, fizeram de Mesquita um homem atormentado e perturbaram- lhe a mente.

Desnorteado, mas apercebendo-se da aproximação de uma tragédia, procurou o apoio do bispo, D. Manuel Bernardo de Sousa Enes, e do Governador, Joaquim José da Graça. Ambos lhe recusaram a ajuda solicitada. Já sem controlo, pretendendo salvar o que, no seu perturbado código de valores, considerava a honra de pai e de militar, num ataque de loucura, assassinou a esposa e uma filha, suicidando-se em seguida. Era Dia do Pai, S. José — 19 de Março de 1880.

A sociedade recusou-lhe uma campa cristã e lançou-o na terra anônima dos réprobos. Proscrito, aguardaria 30 anos pela reabilitação. Quando, em 14 de Outubro de 1937, falecia no asilo da Misericórdia, com 95 anos de idade, solteira, Leopoldina Rosa, última dos seus oito filhos, extinguia-se a secular geração dos Mesquita.

À sombra de S. Lourenço, cumpriu-se uma triste sina…

Coronel Mesquita – episódio 1 – o fim da estátua

2 de Dezembro de 1966, Macau, assim terminava uma história que era contada todos os dias, a cada vez que se passava pelo Largo do Senado.  A estátua do coronel Vicente Nicolau de Mesquita, natural de Macau, imponente, no centro do Largo, nos contava que na manhã de 25 de Agosto de 1849, três dias após o assassinato do governador de Macau, Ferreira do Amaral, a 300 passos do lado interno da Porto do Cerco (fronteira de Macau com a China simbolizada por uma construção em forma de arco, tal como o Arco do Triunfo em Paris), liderando 36 soldados portugueses/macaenses tomou o Forte do Passaleão, do lado da China, que era ocupado por cerca de 500 soldados chineses com pesada artilharia.  Deste ponto e nas redondezas, mais de 2.000 soldados chineses ameaçavam invadir Macau através da Porta do Cerco protegida apenas por 120 homens das forças portuguesas e mais 3 canhões de curto alcance. O seu feito heróico, que desestimulou a invasão de Macau, foi celebrado com a instalação dessa estátua, dando-lhe o status de “herói macaense” como muitos da comunidade o consideram.

Naquela data, a estátua do coronel Mesquita foi destruída por “guardas vermelhos” e seus simpatizantes da Revolução Cultural na China dos tempos de Mao Tse Tung, nos tumultos chamados de “1 2 3″, que significavam as datas em que ocorreram em Dezembro de 1966.  Para quem não conhece a história, sob o principal pretexto de repressão policial a uma obra clandestina, os “guardas vermelhos” iniciaram uma série de protestos, até a invasão tumultuada do Palácio do Governo a exigir retratação e pedido de desculpas.  Culminou com tumultos generalizados na cidade, principalmente no centro da cidade, obrigando a intervenção das Forças Armadas de Macau, que acabou com a morte de 8 pessoas de étnia chinesa e vários feridos.  Do outro lado da fronteira, soldados chineses impediram a entrada de milhares de simpatizantes dos tais guardas que queriam invadir Macau.  Por fim, o Governo português acabou emitindo Nota Oficial lamentando ou se desculpando do ocorrido. Macau, 33 anos depois, em 20 de Dezembro de 1999, foi devolvido para a China encerrando a presença portuguesa que durou de 420 a 440 anos.

A estátua do coronel Mesquita, imponente, reinava no Largo do Senado, no centro de cidade

Recorte do jornal South China Morning Post, de Hong Kong, mostra o momento em que se começava a derrubar a estátua utilizando-se de um caminhão/camião.  Após, foi arrastada pelas ruas antes de ser abandonada diante do prédio dos Correios, ao lado de onde se encontrava erguida.  A estátua depois – desapareceu – há relatos de que foi jogada no mar. No entanto, segundo Pedro Dá Mesquita no artigo da Revista Macau de Julho 1995, na década de 90, , ela foi despachada juntamente com a do governador Ferreira do Amaral, timidamente (para não dizer, às escondidas), para Portugal. encontrando-se na cidade de Porto “à espera de melhores dias“.  Bom, a estátua de Ferreira do Amaral apareceu numa praça em Lisboa “timidamente” (veja postagem neste blog), porém a do Mesquita … alguém sabe me dizer … onde está? cadê ela?   “Uma tristeza“!!!

A foto do jornal de Hong Kong, The Star, mostra a base sem a estátua, após os tumultos e sob a guarda de um policial/polícia

E, também para quem não saiba, os jornais de língua portuguesa de Macau, na época sob forte censura da época do Governo de Salazar em Portugal, nada publicaram a respeito, apenas a notas oficiais do Governo de Macau.   No entanto, os jornais de Hong Kong, ainda sob o domínio da Inglaterra, circulavam livremente, sem censura ou restrição de venda, bem como os jornais de língua chinesa em Macau.  Engraçado, não? Era uma questão de proibir apenas para quem soubesse falar e ler o português … Era simbólico, pois, a rigor, em Macau, pouco sentimos, ou nada sentimos as restrições de uma ditadura.

Nota: De um modo, há certo desconforto por parte do lado chinês em relação à estátua, o coronel Mesquita e a batalha do Passaleão, pois, talvez lhes fere o orgulho, o que é compreensível. Assim, este blog e o PMM quer esclarecer que a divulgação desta postagem e de outras relacionadas, em nada quer denegrir ou ferir o povo chinês, por quem deve-se ter o máximo de respeito, assim como a qualquer povo do mundo.  São fatos históricos, tais como a independência dos Estados Unidos com a vitória dos americanos sobre os ingleses (hoje grandes aliados nas guerras), ou as relações de Portugal com Angola ou Moçambique, ou Guiné, nas quais ocorreram guerras coloniais com muitas mortes e ódio na época.

Vejam o episódio 2 – “além de tudo, um poeta”

O navio de guerra “Gonçalves Zarco”

Sob o título “A última missão naval de soberania no Oriente”, Eduardo Tomé escreveu para a edição da Revista Macau de Fevereiro de 1997 um relato da etapa final de vida deste aviso de 2ª classe “Gonçalves Zarco”.  Quem viveu em Macau nos anos 50 e 60 deve-se lembrar bem deste navio de guerra que cumpriu a sua missão na Índia portuguesa, Timor e em Macau.  No texto abaixo, Eduardo cita que foi o “último navio da Armada (portuguesa) que esteve em comissão de soberania em Macau“.

Triste é contar a sua melancólica chegada a Lisboa a 16 de Maio de 1964, após ter cumprido a sua gloriosa missão no Oriente.  “A aguadar a tripulação no cais estavam apenas os familiares, nada de entidades oficiais, nem mesmo da marinha, tão pouco a imprensa. Restava-lhes a consolação do dever cumprido e o feito de terem conseguido trazer para Portugal aquela relíquia naval, que, com galhardia, desempenhou durante nove anos consecutivos a última missão de soberania de um navio da Armada Portuguesa, nas águas de Macau e Timor“.  Assim Eduardo Tomé encerra o seu artigo.

(clicar nas imagens para aumentar)

A guarnição do aviso na Parada do Dia de Portugal, protagoniza o último desfile dza marinha de guerra portuguesa em Macau

No mesmo artigo, Eduardo Tomé insere um histórico sobre os dois navios gémeos Gonçalo Velho e Gonçalves Zarco.  Ao ver a foto do navio Gonçalves Zarco transformado no batelão “Olisipo”, totalmente descaracterizado, ocorreu-me na memória o triste fim da estátua do Governador Ferreira do Amaral.  De facto, tristes fim de símbolos nacionais (portugueses).

O TRISTE FIM DE “VELHAS GLÓRIAS” NAVAIS

Encomendados a um estaleiro de New-castle, respectiva­mente em Março e Agosto de 1933, os gêmeos “Gonçalo Velho” e “Gonçalves Zarco” navegaram pela primeira vez, desde a velha Álbion até Portugal, onde na sua qualidade de avisos de 2.a classe, foram aumentados ao efectivo dos navi­os da Armada.

Tratava-se de navios exactamente iguais, que deslocavam 1413 toneladas no máximo; um comprimento de fora a fora de 81,5 me­tros, 10 metros de boca e um calado máximo de 3,3 metros; uma velocidade máxima de 16,5 nós e 11 nós cruzeiro, a que correspondia uma autonomia de 9830 milhas; as máquinas, dois motores movidos a turbinas, duas caldeiras, com uma potência de 2000 SHP e utilizando combustível fuel-oil; o armamento constituído por três peças de 120 mm e duas de 40 mm; a lotação recomendada de 119 homens.

O “Velho” efectuou quatro comissões de serviço em Macau, entre 1937 e 1954, tendo sido abatido ao efectivo em 1961.

Por sua vez, o “Zarco” efectuou três comissões de serviço no território, em 1934,1939, e a última entre 1955 e 1964, portanto nove anos, durante os quais passou 17 meses na então índia portuguesa, 20 em Timor e os restantes na Cidade do Nome de Deus e a navegar. Tendo sido o último navio da Armada que esteve em comissão de soberania em Macau, de onde regressou em Maio de 1964, sendo abatido ao efectivo em Novembro desse ano, seria então o navio de guerra mais velho em serviço, em todo o mundo.

Dos seus 31 anos no activo, o “Gonçalves Zarco” passou 20 fora dos portos do continente; as máquinas trabalharam cerca de 31 mil horas e as caldeiras 37 mil e quinhentas; percorreu 366 mil e quinhentas milhas, o equivalente a 17 voltas à Terra, pelo Equador, tendo suportado dois violentos tufões, o “Glória”, em 1957, em Macau, e o “Wanda”, em 1962, em Hong Kong, causadores de inúmeros naufrágios nesses portos.

Os cascos do “Velho” e do “Zarco” foram adquiridos pela Empresa de Tráfego e Estiva, que os mandou cortar ao nível do convés corrido e adaptar a batelões de transporte de carvão, minérios e cereais. Baptizados respectivamente “Calíope” e “Olisipo” permaneceram em serviço até 1994, ano em que foram vendidos para a sucata e desmantelados. Tão triste fim, para tão gloriosas existências.

Aguarela/aquarela do Gonçalves Zarco pelo capitão-tenente Manuel da Silva Rodrigues

O batelão “Olisipo”, ex-Gonçalves Zarco desmantelado em 1994

Macau 1844 – Fortim de São Pedro

Tirei esta foto em 2007 que mostra a região onde fica a estátua de Jorge Álvares em Macau.  Imagine que há 163 anos atrás, em 1844, lá existia um um pequeno forte – fortim – que nossos avós ou bisavós o viram, quando viviam naquela Macau muito pacata.  O francês Jules Itier lá esteve na época e tirou uma série de fotos, que hoje fazem parte do acervo do Museu Francês de Fotografia.

A Revista Macau de Janeiro de 1999, no excelente artigo de Beatriz Basto da Silva “Fortalezas Extramuros, Baluartes e Fortins”, nos conta brevemente a história deste Fortim de São Pedro:

Fortim de S. Pedro

A meio da Baía da Praia Grande, coadjuvando com as suas operações os Fortes de S. Francisco (a Norte) e do Bom Parto (a Sul), encontrava-se quase rasante e de atalaia ao Porto Exterior este fortim de pequenas dimensões.

Aparece referido em variadas plantas e gravuras antigas de Macau mas nada dele resta, coincidindo o local onde existiu com uma pequena praça onde se levanta hoje a estátua em memória de Jorge Álvares, o primeiro português a chegar à costa da China.

As referências escritas — entre elas a do cronista António Bocarro — permitem-nos datá-lo de 1622 e, em 1775, ainda se conservava a primitiva planta triangular.

A tarefa de assegurar a defesa da ampla baía foi substituída, com o tempo e o modo, pelo uso em casos de pompa e circunstância, quando se impunha saudar com salvas de artilharia a chegada de navios amigos, de novos governadores, de visitantes ilustres ou então nascimentos insignes, enlaces reais e outros acontecimentos de excepção.

Essa finalidade era, todavia, perigosa para a segurança dos edifícios próximos, entre eles a antiga residência do Governo, que teve de ser demolida por causa dos estragos da trepidação a que se juntava a inclemência dos tufões.

Em 1934 o que restava do velho fortim foi arrasado quando se traçou um novo arranjo e aproveitamento da Baía da Praia Grande.

Abaixo, a foto de Jules Itier de 1844 e a seguir a aquarela/aguarelade Georges Chinnery pintada entre 1833 a 1838 retratando o fortim:

Grande Prémio de Macau, bilhete gratuito …

Até que seria uma boa! Ganhar um bilhete gratuito para assistir o Grande Prémio de Macau que se avizinha, mas … o que estou a oferecer, é da edição de 1968, a XV, realizada em 17 de Novembro.  Nestas alturas eu já estava a residir no Brasil há 9 meses, morrendo de saudades de Macau.  Até queria voltar! Coisas de “recém-imigrante”.  Graças à gentileza do meu bom amigo Natalino Couto Wong, ele procurou matar as minhas saudades do Grande Prémio ao enviar-me este bilhete pelos Correios.

Tufão Cora, o Serviço Meteorológico de Macau avisa …

Para Macau, o perigo já passou.  O tufão Cora está prestes a atingir a costa chinesa nas vizinhanças de Foochow, mas está a enfraquecer.  O boletim do Serviço Meteorológico de Macau datado de 7 de Setembro de 1966 assim comunicava.

Este boletim histórico, fazia parte do trabalho do meu cunhado português Manuel Figueiredo Ramos (contrabaixo do conjunto Mário Tomáz) na Fortaleza do Monte.  Dizia ele, um tanto mal assombradoxiça !!! Também … quanta história tinha aquela velha fortaleza !!! E que tal se passarmos uma noite lá para caçar fantasmas, ver as portas se fecharem sózinhas, sentir aquele calafrio que até parece que alguém passou ao seu lado??? … xiça !!! E olha que ele lá trabalhava sózinho nos plantões de madrugada, mas não tinha medo … até que a companhia dos fantasmas da fortaleza não o deixavam sentir aquela solidão danada … hehehe!!!

O Exército português de Macau intervém …

04 de Dezembro de 1966, a situação estava fora do controle.  A polícia de Macau não conseguia controlar as manifestações.  Era necessário a intervenção das Forças Armadas portuguesas para impor a ordem.  Uma coluna de viaturas militares com  blindados à frente, avança pela Avenida Almeida Ribeiro e passa diante do prédio do Leal Senado com o seu interior seriamente danificado.  O fotógrafo do jornal de Hong Kong, The Star, registra o momento …

Gazeta Macaense de 02/12/1966 divulga Nota Oficiosa

Na Gazeta Macaense (visado pela censura) de 02/12/1966, cujo director era Damião Rodrigues e o proprietário, Leonel Borralho, o Chefe da Repartição do Gabinete, Manuel de Mesquita Borges, Major do CEM, divulga Nota Oficiosa datada de 1º de Dezembro de 1966, a respeito dos incidentes na Taipa.  “Vai ser iniciado, muito brevemente, um inquérito …” constava dela, mas, não deu tempo … o 1, 2, 3 (Dezembro de 1966) já estava em curso, culminando na intervenção das Forças Armadas portuguesas para restabelecer a ordem … (veja noutra postagem)

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Video histórico – Macau anos 60/70

O excelente canal de YouTube de Michael Rougge, um grande colecionador de videos que o Projecto Memória Macaense tem falado a respeito, divulgou outro video de Macau que ele diz ser dos anos 60, mas penso que seria dos anos 70 no seu início ou fim dos 60. Vocês visitantes macaenses analisem pela provável ponte Macau-Taipa na procissão e o Largo do Senado com um chafariz. É um video divulgado pela Secretaria de Turismo da época em inglês. Vejam e matem muitas saudades …