Arquivo de Tag | Cecília Jorge

Mais Minchi de Cecília Jorge

Complementando a postagem anterior <Minchi por Cecília Jorge, com 2 receitas> publico mais 3 receitas de minchi (Brasil: carne moída) que foram citadas no final do texto.  Bom apetite:

MINCHI MISTO DE VACA E PORCO

carne de vaca -> 250 gr.

carne de porco -> 250 gr.

Alho -> 2 dentes, picados

Cebola -> 2 grandes, picadas

molho de soja escuro (lou châu) -> 1 colher de sopa

claro (sám châu) -> 2 colheresdesopa

fécula de milho -> 1 colher de chá

banha de porco (ou óleo) -> q.b. (a gosto)

açúcar e pimenta -> q.b.

batata frita, aos quadradinhos -> q.b.

Limpar bem as carnes de vaca e de porco de gorduras, picar e temperar, separadamente, com uma pitadinha de açúcar, pimenta, o molho de soja claro e a fécula de milho.

Aquecer bem num tacho a banha (ou o óleo) com o alho picado e fritar primeiro a carne de porco, juntar minutos depois a carne de vaca, virando e carregando as carnes para as cozer por igual e soltar. Juntar a cebola picada e tapar o tacho, para cozer em lume médio, mexendo para não pegar no fundo. Juntar o molho de soja escuro só pouco antes de retirar do lume, deixando absorver bem. Acompanhar com a batata frita, que se pode misturar à carne ou colocar só por cima.

 

PÃEZINHOS FRITOS

Eram presença obri­gatória nos “chás-gordos” macaenses e são uma das formas de aproveitamento do minchi de porco, ao qual se acrescenta, ao fritar, um pouco de açafrão ou curcuma. Há quem acrescente malaguetas (chile) picadas a esse minchi ou o faça com caril. Os pães, salgados, de preferência redondos e com cerca de seis centímetros de diâ­metro, são generosamente recheados com minchi depois de se lhes abrir uma pequena “janela” quadrada, que é depois de novo tapada. Fritam-se em óleo bem quente e são postos a escorrer antes de servir.

 

LUC-KIT

Croquetes panados que re­sultam de um aproveita­mento do minchi, seja misto, só de porco ou só de vaca.  Faz-se um purê de batata sim­ples e consistente e formam-se croquetes com recheio de minchi e invólucro de purê. Passam-se por ovo batido e pão ralado antes de fritar.

LILAU, um texto de Cecília Jorge, Macau

Vejam o belo texto da macaense Cecília Jorge sobre Lilau, escrito em 1988 e publicado na edição de Outubro de 1996 da Revista Macau.  Fala daquele antigo Lilau que foi parcialmente demolido, conforme poderão ver nas primeiras fotos, e depois, poderão ver as fotos que fiz em 2010 na viagem para o Encontro, de como ficou nos dias de hoje.  O que foi preservado, acho, dá uma idéia do que era antes, mas tal igual, com certeza, não o é! Diante da volúpia para construir prédios mais prédios, acho que antes isso do que nada.  Só resta a gente conformar-se lamentando:

Lilau

A brisa

já não encontra o caminho

por entre os labirintos de prédios

que sitiam o casarão.

Brechas rasgam o cinzento em tufos de musgo verde

nos cantos húmidos

que plantas esconderam.

Abacates caem roídos pelos pássaros e insectos

abrindo-se estrepitosos no chão.

Romãs e anonas ressequiram nos ramos.

O que é feito?

Que é feito dos jasmins que

espalhados ao sabor do vento

nos perfumavam as madrugadas

e os crepúsculos?

(poema de Cecília Jorge)

Goiabas e carambolas são fruto proibido para os garotos que trepam às árvores saltando o muro que já não cumpre a função, arruinado pelas sevícias dos tufões e pelo abandono. Vale-lhes apenas o desafio da conquista, para se arrepiarem com a acidez da fruta. De lá do alto dos ramos, lançam-na, agastados a cada dentada, fazendo pontaria para ao menos acertar nos gatos que em baixo miam.

Nas traseiras do casarão deambulava-se dantes pelos magros passeios marginados de pedrinhas, por entre canteiros, arbustos e árvores, e de onde as crianças respondiam ao chamado dos pais, espreitando de soslaio pelas janelas escancaradas do salão.

Sorviam o café aromático de Timor e fumavam recostados em cadeiras de verga, distendidos, enquanto as ventoinhas chiavam emprestando frescura. Ouvia-se o noticiário, trazido pela voz radiofónica, roufenha, da Vila Verde. O velho Philips era caixote de ébano, com um olho verde de poder hipnótico para quem, às escondidas, e de cima de uma cadeira, rodasse curioso o botão das estações só para o ver piscar, com o silvo arrepiante da dessintonia.

Era a hora também da conversa mole, terminado que fora o almoço na mesa grande, a mesma que serviu três gerações, para depois sentir definhar a família, no curso apressado do destino.

Foram-se os pais. Os irmãos e filhos se seguiram… emigrando, morrendo, morrendo e emigrando. Silenciado o último chefe de família, precisamente aquele que mais enchera o vazio da sala com o seu vozeirão e jeito desbragados, nas anedotas e relatos picarescos das viagens de embarcadiço, o tecto ruiu, vedando para sempre o acesso ao salão.

Isolada ficou também a deserta gaiola dos canários, onde dúzias deles foram enchendo de chilreio alegre um casarão cada vez mais vazio de juventude.

Aos poucos se foram selando, uma a uma, cinco portas por onde durante tantos anos passaram adultos e crianças, velhas beatas da novena e da missa do bairro, rapazes vivaços em traje formal a caminho dos “assaltos”, desportistas, donzelas casadoiras, padres, hóspedes, negociantes e criadas. Por ela entraram porteiras e saíram ataúdes.

Não me dês pobreza vil,

Nem riqueza que me tente

Dá-me o necessário à vida

E viverei contente.

Um singelo azulejo trazido de Coimbra, junto à entrada, parecia predestinar o futuro da casa, que não o dos que nela viveram. Não houve muitos elementos comuns no percurso de quantos albergou e aos quais ultrapassou na lei da morte.

Trepadeiras e cactos colocados nos muros e a adornar um tanque de pedra onde chegaram a nadar peixes dourados, e cágados, para gáudio da pequenada, aguardavam apenas a derrocada do salão para tomar de assalto a zona de onde antes eram vigorosamente expulsos pelas tesouras do jardineiro, ao mínimo sinal de invasão.

A rainha da noite, aí plantada, era o orgulho da tia solteirona e um dos maiores mistérios da casa, para os mais pequenos, que todos os anos, ao findar do Verão, lutavam em vão contra o sono e o cansaço para a ver florir, imaculada e soberba, apenas por uma noite. Murcharia ao nascer do sol.

E a cascata de pedra? Ruiu, sob o peso dos escombros do salão que os operários, apressados, atiraram para o canto mais próximo, que era o tanque.

O matagal com várias tonalidades de verde, que hoje cobre os passeios, cresce com gosto, impante, pela reconquista final de uma zona de onde fora banido durante quase dois séculos, com a construção do casarão. Ocuparam-no mosquito vespas e cobras-capelo, tendo por sentinelas gigantescos cactos. As trepadeiras invadiram a casa, entrando pelas vidraças partidas com pedras lançadas dos prédios vizinhos, sobranceiros. num gozo selvático de destruição.

Dois pinheiros imponentes, que cresceram obedecendo somente aos ventos, guardavam os dois lances de escada encimados pelo terraço, palco da mal-contida indisciplina de dezenas de netos que. em dias de festa, pontuavam em fotos de família com a avó nonagenária. Ali enfrentaram, serenamente, os tufões, durante mais de três décadas, e ali continuaram, à espera do fim, não lhes cabendo prevê-lo, numa orgulhosa indiferença.

Um dia, o portão será fraco para manter ao largo máquinas e homens, ávidos a demolir, a ceifar, a aplanar, sem dó nem pausa. Em Macau, arrasa-se uma casa em poucas horas… Depois, outras máquinas se seguirão, mais violentas ainda, perfurando o jardim com vigas, desfigurando-o com muros, paredes de cimento e betão.

Onde havia a harmonia das paredes com as plantas, o vento e o sol, crescerá a selva cinzenta de dezenas de apartamentos, limitados e espremidos em

Um dia, o portão será fraco para manter ao largo máquinas e homens, ávidos a demolir, a ceifar, a aplanar, sem dó nem pausa. Em Macau, arrasa–se uma casa em poucas horas… Depois, outras máquinas se seguirão, mais violentas ainda, perfurando o jardim com vigas, desfigurando-o com muros, paredes de cimento e betão.

Onde havia a harmonia das paredes com as plantas, o vento e o sol, crescerá a selva cinzenta de dezenas de apartamentos, limitados e espremidos em escassa cubicagem, ao sabor da pataca.

Contra isso, nada valerá, sequer o matagal, porque a selva de betão é mais forte. No seu seio, nada cresce, a não ser a angústia de quem olha todos os dias através da pequena janela quadrada para uma floresta cinzenta e suja, onde o ruído das buzinas, dos motores e das britadeiras esconde o cantar de pássaros engaiolados. A verdura surge então submissa, contida em pequenos vasos, nas varandas e terraços.

Ao cheiro fétido da humidade mistura-se o odor oleoso dos fritos da vizinha e o escape de uma

viatura que acelera no rés-do-chão.

No Lilau, a humidade confundia-se antes com o perfume da relva molhada e das plantas, do musgo aveludado das pedras do muro, junto ao poço. A humidade estava na roupa imaculada que a lavadeira, A-Tchan, recolhia dos arames, ao fim da tarde, num cesto de verga. A humidade chiava e transformava-se em nuvens de vapor, enquanto ela a engomava, serena e sábia, contando histórias aos miúdos quedos e ansiosos, que faziam um cerco de banquinhos, em redor da tábua de “passar a ferro”, junto aos pivetes de incenso que ardiam no altar da Kun Iam. Escola da harmonia e do equilíbrio cósmico, onde se aprendia a cultivar virtude não importa em que religião.

E o sol entrava a jorros pelas varandas, frestas, portas e janelas, porque havia então espaço entre casas vizinhas, e as paredes eram caiadas. De branco, e verde, bege ou rosa.

Lilau: lendária pela água da sua fonte, hoje cantada até pelos que nunca a provaram mas juram seu feitiço.

A original fonte, dizem, há muito foi desviada. A bica secou, e também o poço do casarão de onde se tirava água fresca para beber, lavar e regar é hoje charco inquinado pela conduta de esgoto, rota de há anos, do prédio vizinho.

Mas no Lilau, apesar de tudo, há vida.

Teimosamente, as árvores continuam a verdejar e a dar frutos.

As magnólias de flores grandes, junto ao abacateiro, viam-se de longe. Os ternurentos chivits, os pardais e as pegas fizeram dali o seu santuário, banqueteando-se com goiabas e carambolas.

Apenas a brisa de sueste conhece o caminho para chegar ao casarão, acariciando de leve as folhas da macupeira.

Um cão rafeiro, vira-latas mas senhor absoluto das ruínas, caça ratos e persegue gatos. Vinga-se nos forasteiros, e ladra ao luar, tal como o fizeram os seus numerosos antecessores, todos eles sepultados ao pé das caramboleiras.

Duas velhas e dedicadas criadas, das que em meio século testemunharam, silenciosas, as histórias de vida e morte no casarão, recusam-se a abandoná-lo.

Tal como os pinheiros, desafiam, serenas, o futuro. Esperando apenas que a morte as livre de males inevitáveis e que o dia de amanhã não seja pior do que o de hoje.

CECÍLIA JORGE

Julho de 1988

Revista Macau Outubro 1996 / fotos acima publicadas na Revista

Nota: O casarão foi demolido, e a colina mais o jardim arrasados, em 1989. / Uma das velhas morreu, e a outra aguarda a sorte, num quarto alugado. / Sete anos depois, reconstruiu-se o Largo do Lilau, zona de patrimônio protegido.

Este é o Lilau que vi e fotografei em Dezembro de 2010

“O inconfundível Johnny Reis” em memória …

Estranhei hoje inúmeras visitas à postagem abaixo em 07/09/2011, mais de 80, e a resposta veio há pouco pela notícia dada por uma fonte confiável.  Faleceu nesta data: 22/02/2012 o Johnny Reis, uma referência de juventude de muitos macaenses.  Ainda vou ler a notícia nos jornais de Macau.

Descanse em paz Johnny Reis.  Nossas condolências à família.  Saudades dos tempos de você na Rádio Vila Verde.  Em sua homenagem, republico a postagem:

*um texto de Cecília Jorge – Revista Macau Junho 1998

João Sameiro Afonso ReisJohnny Reis, para a comunidade macaense que o “adoptou” — prepara-se para a reforma ao sol do Algarve, a ocupar-se da neta predilecta.  Ao fim de trinta anos, completados em 1996 como “músico” semi-profissional, além da Função Pública, vai sobejar-lhe tempo para descansar e recordar peripécias na cena do “show-bizz” local, algumas já referidas no artigo de Rigoberto do Rosário que a Revista MacaU publica.  Natural de Braga, veio para Macau em 1939 numa comissão de serviço do pai que acabou por se prolongar por causa do deflagrar da II Grande Guerra e posterior entrada do pai para o Corpo da PSP. Foi adiando o gozo da licença a Portugal e o seu primeiro regresso à terra natal, de onde saíu ainda criança, deu-se só em 1993. Considera-se “macaense”.  “A música ajuda as pessoas a viver a vida”, refere ao explicar a estreita ligação (sua e dos seus “conterrâneos”) a esta forma de passar o tempo.

Com a mesma voz de timbre quente, com que encantou quem o ouviu cantar durante tantos anos em nights-clubs, festas e festivais, e foi apresentando programas radiofónicos e noticiários, diz-nos que a memória o trai quando quer referir datas e alguns nomes. Mas se o diálogo se proporcionar, as cenas avivam-se e a “voz” também, com a fluência das palavras que nunca se deixaram contaminar pela pronúncia típica de Macau.

No início da aventura musical — mais ou menos em 1966, ainda a Rádio Vila Verde se situava na esquina da Francisco Xavier Pereira —, Johnny, Nuno e Alberto Senna Fernandes, Tony Hyndman, Sonny Gomes e Kenny Barnes entretinham-se a “fazer música”. Nessa altura, os dois últimos, mais profissionais, marcavam o ritmo “batendo as palmas”… Os agrupamentos mais certinhos vieram depois, como os uniformes: com camisas axadrezadas com faixas “à toureiro”, a princípio, depois blazers, cinzentos, e mais tarde vermelhos. (Os “Rockers”, assinalados com o monograma R, e os “Four Aces” com quatro ases, de naipe diferente para cada componente).

Tocaram em todos os locais onde era possível tocar — recorda hoje Johnny Reis. Tocavam igualmente todos os instrumentos em que pusessem as mãos, apreendendo todos “de ouvido” e uns com os outros…

A carestia de vida e do equipamento levou inclusivamente a que, uma vez, a avalizar um empréstimo pedido a Guilherme Silva, gerente da Pousada de Macau, para compra dum xilofone, providenciassem música de dança no seu restaurante durante uns tempos.

Mas, se foram muitas as actuações do grupo, que mudou mais de nome do que de componentes — tocando no Hotel Riviera, no Bela Vista, no Estoril, na Pousada de Macau, no “Helena” que ficava na Ponte-Cais nº 16, em todos os Clubes e Associações, no Clube Recreio e até no Indian Club de Hong Kong, mais foram as oportunidades perdidas.  Tratando-se de funcionários públicos que se agrupavam pelo gosto da música, pelo prazer de entreter amigos e um público animado, e para complementar o salário, as limitações da pesada burocracia dos anos 60 e 70 impediram-nos de “voar mais alto”.

Johnny ainda hoje lamenta não terem podido aceitar um convite do “Paramount” de Hong Kong para substituirem “Giancarlo and his Combo” naquela boite de luxo ou mesmo noutras actuações em Hong Kong. E Mário Sequeira lembra-se dos problemas , depois da transferência para “a outra banda” (Ilha da Taipa), com autorizações para ir a Macau actuar em festas, ou por exemplo no Macau Palace. Transportes, só em tancares ou barcos condicionados à maré. Mas vezes houve também que a timidez e relutância dos camaradas do grupo os impediu de actuar em programas de grande audiência da Televisão de Hong Kong.  Estreou-se na emissora VilaVerde, que começou a funcionar em 1948 com Johnny Alvares como engenheiro de som e seu irmão Walter Reis, locutor.  Acabara de sair da tropa. E apresentou programas como os “Hit Parade”, “Yours for the Asking” (em inglês) e os “Request”, de grande audiência, porque dias havia em que o carteiro despejava na emissora quilos de cartas com pedidos de discos e se preenchiam 5 folhas A4 com dedicatórias de cada canção. Eram tantas e tão fiéis as radiouvintes que chegou a ser necessário apaziguar pais que julgaram atentatório do bom nome das filhas a frequência alarmante de dedicatórias públicas dos (múltiplos) enamorados. Alegavam forte “distracção em horas de estudo”. E o meio-termo foi a proibição de inclusão de apelidos.  A voz de Johnny era inconfundível. E contudo, quando uma vez, em desespero de causa, quis evitar o pior no seu programa “Disco-Mistério” (oferta de discos de 45 rotações a quem identificasse o vocalista), e cantou com música de fundo, não houve um único ouvinte que o reconhecesse. É claro que disseram ser batota… mas o certo é que já pesava estar a custear ele próprio os prémios, quando lhe faltou o financiamento prometido. Graça teve também aquela vez quando, habituado a improvisar, e depois de anunciar o início da transmissão do “Terço do Bairro”, teve que fazer as vezes do sacerdote que faltou.

Era indiscutivelmente um bom profissional da rádio, pela experiência, pela dicção, pela voz, pela presença, e simpatia contagiante. Lembra-se das últimas locuções na Vila Verde, quando durante os incidentes de 1966 teve que ler comunicados oficiais à população na qual se minimizava a situação, ao mesmo tempo que, pela janela aberta do estúdio se ouviam disparos e o tiroteio na cidade. O canal em língua portuguesa encerrou pouco depois.  E Johnny passou a funcionar na ERM, localizada na torre do edifício dos CTT.

Ruby de Senna Fernandes, uma das poucas intérpretes locais do fado e música ligeira na década de 60, acompanhada pelos “Rockers”

Daniel Ferreira – pegar no microfone … e cantar

(Daniel 1º à direita com os The Thunders, Armando Ritchie, Rigoberto Rosário Jr., Alex Airosa e Manuel Costa na bateria)

Daniel Ferreira
Pegar no microfone … e cantar

por Cecília Jorge – publicado na Revista Macau em 1998

Daniel Ferreira (de Macau) é mais um caso de talento na juventude dos anos 60 que se entregou à música e se dedicou a fundo ao desporto (hóquei em campo, futebol, karatê). E pouco tempo lhe sobrava para além dos estudos, feitos no Seminário de São José — escola a que deve, decerto, a sua fluência e firme domínio da língua portuguesa, para além do inglês e do cantonense que todo o macaense fala.

É conhecido sobretudo como vocalista, sendo poucos os que,da sua geração e da anterior, não se lembrem da maneira como interpretava canções celebrizadas por Tom Jones, ou o “Unchained Melody” dos Righteous Brothers. E como se não bastasse o ter boa voz, fadou-Ihe o destino ter ainda melhor aparência … pelo que admiradoras e fãs enchiam as audiências. E no entanto, começou “por brincadeira, a tocar bateria com grupos de amigos e em casas de alguns, até um dia se lembrar de pegar no microfone…e cantar”— como nos diz, hoje, ainda divertido com a recordação.

Estava-se em plena febre dos Shadows e dos Beatles, e os irmãos Ritchie já tinham formado uma banda para ensaios e festas, a que ele aderiu.

Estreou-se numa festa do Liceu em 1965 e recorda-se que o reitor, então Énio Ramalho, gostou tanto da sua actuação que o incitou a continuar. O convite para se juntar aos “Thunders” — grupo praticamente consagrado— chegou pouco depois, por insistência do seu amigo Herculano Airosa. Daniel preferiu cantar quase sempre em inglês, o que por vezes lhe valeu algumas discriminações em Macau. Há quem se recorde, porém, de outra linguagem universal em que era exímio, o assobio. Colocavam- lhe habitualmente dois microfones quando interpretava temas dos filmes “For a few dollars more”, “A Fistfull l of Dollars”, ou “The Good,the bad and the ugly” que primavam pela assobiadela cheia de sonoridade… Os “spaghetti westerns” assim classificados por serem realizados por italo-americanos.

Foram muitas as desistências, pela certeza firme de não querer fazer carreira como andarilho da música. O serviço militar apanhou- o assim que concluiu o 5a ano do Seminário de São José, por seis meses, separando-se então dos “Thunders”.

Pouco depois, juntava-se a outro grupo de rapazes — “Midnight Riders”— que actuavam todas as noites no Casino “Macau Palace”, a troco de 25 patacas por noite: “cantar três noites por semana, ou seja, receber semanalmente 75 patacas para quem ganhava 300 patacas por mês como funcionário da Assistência era irrecusável”— comenta.

Nessa altura já Daniel se tinha perdido de amores, casado e passado à condição de pai…

Actuou no Clube Militar e noutros locais, e lembra-se de como Roberto Petrovich passava todas as noites por onde se encontrassem e Daniel lhe ensinava aquilo que também outros lhe ensinaram a ele, “a colocar a voz”, a tirar partido de determinadas canções. E Petrovich, um jovem de ascendência russa e com as capacidades de um Engelbert Humperdink era mesmo talentoso. Acabou por substituir o “professor” nos “Midnight Riders” (que reunia na altura Daniel, Sonny Gomes, Alberto Amante, Jerónimo Hung e Mário Pistacchini).

Foi vocalista de vários outros conjuntos, cantou a solo no Hotel Estoril, no bar “Mermaid” e no “Portas do Sol” do Hotel Lisboa. Foi várias vezes abordado para se tornar profissional (e lembra-se da insistência de Adé dos Santos Ferreira, nesse sentido). E recorda-se sobretudo quando, por uma questão de princípios, perdeu um contrato para actuar mensalmente no “Star Show” da TVB de Hong Kong e em vários clubes nocturnos. O convite contemplava-o só a ele, a solo, e não quis abandonar o grupo. Estava-se em 1971.

Quatro anos depois partiu para Hong Kong, onde foi funcionário do Consulado do Brasil até 1978. Emigrou para os Estados Unidos, experiência gratificante, onde se sentiu realizado profissionalmente, trazendo recordações dos dez anos em que trabalhou no Banco do Brasil em Los Angeles.
Regressou a Macau por circunstância de um acaso, que ainda hoje lhe faz confusão. Vinha passar férias. m em 1988 quando o dr. Car los Assumpção, o presidente da Assembleia Legislativa, por quem tem uma profunda admiração e muita saudade, o desafiou a ser seu secretário pessoal. Aceitou… apenas para o ver morrer pouco depois. A partir daí, foi mudando de emprego e hoje (1998) está como responsável pela segurança na cadeia de Coloane, lugar pouco invejável, mas que ele encara como outro cargo qualquer. E vai-se deixando ficar em Macau… o futuro a Deus pertence!.

Daniel Ferreira não se arrepende de ter preferido “cantar, só por cantar…”. Hoje fá-lo com o mesmo empenho, mas só para os amigos e em salas privadas, com a vida facilitada pelos karaoke.

(Daniel Ferreira, da esquerda com os The Thunders, ao lado de Armando Ritchie, Rigoberto Rosário Jr. e Alex Airosa)

Nota: Tive uma boa conversa com o Daniel na APOMAC quando viajei a Macau para o Encontro de 2010.  Muitas coisas que contou estão de acordo com o texto da Cecília Jorge.  Revelou-se um eterno apaixonado cujo “grande problema” é que quando isso acontece quer casar, motivo de somar mais de um casamento na sua vida. O Daniel estudou comigo no Seminário de São José e ele era uma espécie de “protetor”.  Lá estava ele presente quando a força física era necessária.  Hoje confessa que leva uma vida confortável de aposentado na sua terra natal.  Abraços ao antigo colega de classe.(Rogério Luz)

“Cecília Jorge, eu fiz a minha parte”

A ler a Revista Macau de Dezembro 1993, entre as mensagens para o 1º Encontro das Comunidades Macaenses do Governador Rocha Vieira, Salavessa, personalidades e representantes das Casas de Macau, vi a de Cecília Jorge, que em conjunto com Beltrão Coelho, faziam parte da Redação da revista.

A Cecília escreveu sua mensagem “Deixar bem vincada a identidade macaense“, já visando as consequências da transição de Macau para a China a ocorrer 6 anos depois em 1999, após cerca de 440 anos de administração portuguesa, durante a qual se formou um povo mestiço ou não, chamado Macaense.  Era na sua opinião que “cada núcleo de macaenses deveria esforçar-se por concentrar à sua volta as famílias de emigrantes ligadas a Macau, e organizar e manter, com o seu apoio, bancos de dados, de imagens, de registos das tradições e costumes, para impedir que o tempo as apague de vez”.

Confesso que não sabia do seu teor até esta data.  A ler o texto sublinhado, posso dizer “Cecília Jorge, eu fiz a minha parte“.  Se era a sua preocupação e recomendação que se criasse banco de dados, de imagens e registos/registros …, eu, em 2003, 10 anos depois, criei o site Projecto Memória Macaense, agora reforçado por este blog, mais versátil.  O objetivo era e é , como o título da sua mensagem “Deixar bem vincada a identidade macaense“.  Divulgar pelos 4 cantos do mundo, através deste fabuloso mundo virtual e da internet, que lá em Macau, além dos portugueses e chineses, existe uma gente chamada – Macaense.  No PMM e aqui, falo de nós, dessa gente, dessa identidade macaense.  Espero que por muito tempo, estas publicações se mantenham na internet, mesmo sem apoio ou subsídios, ou que uns apreciem, outros não, mas movido pela força de vontade e idealismo. Isso, contribuindo para que não nos tornemos uma “ficção“!!!

Leiam a mensagem comentada da Cecília Jorge publicada na Revista Macau-Dezembro 1993:

Cecília Jorge (Novembro 1993):

Deixar bem vincada a identidade macaense

A questão da sobrevivência da identidade macaense foi igualmente o tema abordado por Cecília Jorge, como participante convidada pela organização do Encontro.

Ao tentar identificar a identidade do macaense, considerou que esta, nas gerações actuais, estava a ser progressivamente ameaçada pela degradação das ambiências e vivências de Macau, directamente resultantes da sobrepovoação por parte de gentes vindas de outras paragens – ao mesmo tempo que se acentua a diáspora dos macaenses e da destruição de quase todo o seu património arquitectónico, com a evolução vertiginosa que se tem registado na cidade de Macau nas últimas décadas.

Abordando a questão da nacionalidade, considera que a falta de demarcação pública da nossa identidade levou a que nos deixássemos englobar no grande grupo que, a partir de Lisboa, genérica e estatisticamente passaram a designar por macaense, e que, usando-se no sentido lato, passou a traduzir população: portugueses ou chineses recém-chegados e a trabalhar em Macau, luso-descendentes, todos os outros e… os macaenses no sentido restrito.

Tal facto levou a que o macaense (no sentido restrito) fosse esquecido aquando das negociações que precederam a assinatura da Declaração Conjunta Luso-Chinesa sobre o futuro de Macau.

Grosso modo, quem tivesse afinidades com a China ficaria em Macau e quem sentisse afinidades com Portugal regressaria à Pátria. Esqueceram-se, como é óbvio, dos macaístas… mas tão simplesmente porque eles não existiriam, eram ficção.

Cada núcleo de macaenses deveria esforçar-se por concentrar à sua volta as famílias de emigrantes ligadas a Macau, e organizar e manter, com o seu apoio, bancos de dados, de imagens, de registos das tradições e costumes, para impedir que o tempo as apague de vez.

Se os filhos e netos podem hoje parecer pouco preocupados com as suas origens, grande parte deles quererá fazer perguntas quando chegar à idade adulta, quando já não estivermos por perto ou a memória nos começar a falhar. Temos a obrigação de lhes facultar o acesso a um mínimo de informação, clara, correcta e inequívoca.

Não teremos sido ficção se hoje deixarmos bem vincada a nossa identidade – concluiu.

O inconfundível Johnny Reis

*um texto de Cecília Jorge – Revista Macau Junho 1998

João Sameiro Afonso ReisJohnny Reis, para a comunidade macaense que o “adoptou” — prepara-se para a reforma ao sol do Algarve, a ocupar-se da neta predilecta.  Ao fim de trinta anos, completados em 1996 como “músico” semi-profissional, além da Função Pública, vai sobejar-lhe tempo para descansar e recordar peripécias na cena do “show-bizz” local, algumas já referidas no artigo de Rigoberto do Rosário que a Revista MacaU publica.  Natural de Braga, veio para Macau em 1939 numa comissão de serviço do pai que acabou por se prolongar por causa do deflagrar da II Grande Guerra e posterior entrada do pai para o Corpo da PSP. Foi adiando o gozo da licença a Portugal e o seu primeiro regresso à terra natal, de onde saíu ainda criança, deu-se só em 1993. Considera-se “macaense”.  “A música ajuda as pessoas a viver a vida”, refere ao explicar a estreita ligação (sua e dos seus “conterrâneos”) a esta forma de passar o tempo.

Com a mesma voz de timbre quente, com que encantou quem o ouviu cantar durante tantos anos em nights-clubs, festas e festivais, e foi apresentando programas radiofónicos e noticiários, diz-nos que a memória o trai quando quer referir datas e alguns nomes. Mas se o diálogo se proporcionar, as cenas avivam-se e a “voz” também, com a fluência das palavras que nunca se deixaram contaminar pela pronúncia típica de Macau.

No início da aventura musical — mais ou menos em 1966, ainda a Rádio Vila Verde se situava na esquina da Francisco Xavier Pereira —, Johnny, Nuno e Alberto Senna Fernandes, Tony Hyndman, Sonny Gomes e Kenny Barnes entretinham-se a “fazer música”. Nessa altura, os dois últimos, mais profissionais, marcavam o ritmo “batendo as palmas”… Os agrupamentos mais certinhos vieram depois, como os uniformes: com camisas axadrezadas com faixas “à toureiro”, a princípio, depois blazers, cinzentos, e mais tarde vermelhos. (Os “Rockers”, assinalados com o monograma R, e os “Four Aces” com quatro ases, de naipe diferente para cada componente).

Tocaram em todos os locais onde era possível tocar — recorda hoje Johnny Reis. Tocavam igualmente todos os instrumentos em que pusessem as mãos, apreendendo todos “de ouvido” e uns com os outros…

A carestia de vida e do equipamento levou inclusivamente a que, uma vez, a avalizar um empréstimo pedido a Guilherme Silva, gerente da Pousada de Macau, para compra dum xilofone, providenciassem música de dança no seu restaurante durante uns tempos.

Mas, se foram muitas as actuações do grupo, que mudou mais de nome do que de componentes — tocando no Hotel Riviera, no Bela Vista, no Estoril, na Pousada de Macau, no “Helena” que ficava na Ponte-Cais nº 16, em todos os Clubes e Associações, no Clube Recreio e até no Indian Club de Hong Kong, mais foram as oportunidades perdidas.  Tratando-se de funcionários públicos que se agrupavam pelo gosto da música, pelo prazer de entreter amigos e um público animado, e para complementar o salário, as limitações da pesada burocracia dos anos 60 e 70 impediram-nos de “voar mais alto”.

Johnny ainda hoje lamenta não terem podido aceitar um convite do “Paramount” de Hong Kong para substituirem “Giancarlo and his Combo” naquela boite de luxo ou mesmo noutras actuações em Hong Kong. E Mário Sequeira lembra-se dos problemas , depois da transferência para “a outra banda” (Ilha da Taipa), com autorizações para ir a Macau actuar em festas, ou por exemplo no Macau Palace. Transportes, só em tancares ou barcos condicionados à maré. Mas vezes houve também que a timidez e relutância dos camaradas do grupo os impediu de actuar em programas de grande audiência da Televisão de Hong Kong.  Estreou-se na emissora VilaVerde, que começou a funcionar em 1948 com Johnny Alvares como engenheiro de som e seu irmão Walter Reis, locutor.  Acabara de sair da tropa. E apresentou programas como os “Hit Parade”, “Yours for the Asking” (em inglês) e os “Request”, de grande audiência, porque dias havia em que o carteiro despejava na emissora quilos de cartas com pedidos de discos e se preenchiam 5 folhas A4 com dedicatórias de cada canção. Eram tantas e tão fiéis as radiouvintes que chegou a ser necessário apaziguar pais que julgaram atentatório do bom nome das filhas a frequência alarmante de dedicatórias públicas dos (múltiplos) enamorados. Alegavam forte “distracção em horas de estudo”. E o meio-termo foi a proibição de inclusão de apelidos.  A voz de Johnny era inconfundível. E contudo, quando uma vez, em desespero de causa, quis evitar o pior no seu programa “Disco-Mistério” (oferta de discos de 45 rotações a quem identificasse o vocalista), e cantou com música de fundo, não houve um único ouvinte que o reconhecesse. É claro que disseram ser batota… mas o certo é que já pesava estar a custear ele próprio os prémios, quando lhe faltou o financiamento prometido. Graça teve também aquela vez quando, habituado a improvisar, e depois de anunciar o início da transmissão do “Terço do Bairro”, teve que fazer as vezes do sacerdote que faltou.

Era indiscutivelmente um bom profissional da rádio, pela experiência, pela dicção, pela voz, pela presença, e simpatia contagiante. Lembra-se das últimas locuções na Vila Verde, quando durante os incidentes de 1966 teve que ler comunicados oficiais à população na qual se minimizava a situação, ao mesmo tempo que, pela janela aberta do estúdio se ouviam disparos e o tiroteio na cidade. O canal em língua portuguesa encerrou pouco depois.  E Johnny passou a funcionar na ERM, localizada na torre do edifício dos CTT.

Ruby de Senna Fernandes, uma das poucas intérpretes locais do fado e música ligeira na década de 60, acompanhada pelos “Rockers”