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Jantar no Culau, memórias de Alda de Carvalho Ângelo

Os pais do autor do blog, em pé, Marcelina e Álvaro da Luz

No seu livro publicado em São Paulo, Brasil, em 1965, <Fragmentos do Oriente>, a escritora macaense Alda de Carvalho Ângelo recorda os velhos tempos de convívios nos restaurantes chineses: <culau> em Macau, provavelmente nos anos 40.  É um costume que ainda se mantém em Macau (ex-colónia portuguesa na China) com algumas alterações.  As fotos do meu acervo são dos anos 50 e 60 em Macau:

CULAU

(restaurante chinês)

um texto de Alda de Carvalho Ângelo

“Vamos jantar no culau?” — Que frase mais grata ao ouvido! Que infelizmente há muitos e muitos anos não tenho o prazer de a ouvir. “Ah! saudades desses tempos que já lá vão!” — Como gosto de me sentar esquecida num canto, no meu canto preferido e deixar correr o pensamento para os tempos em que essa expressiva frase “vamos jantar no culau” era bem possível, bem praticarei. Não precisava ser festa, data especial, comemorações para nos darmos ao luxo de comer num culau. Qualquer alegria era pretexto. Qualquer pretexto era alegria. Por que não se pode pensar em comer no culau e se sentir triste ao mesmo tempo. Pelo menos, aparentemente, momentaneamente, todas as tristezas são relegadas ao segundo plano e a alegria reina única e exclusiva. Por que?

Ah! o por quê! o por quê de tudo nesta vida. Por quê… Vamos jantar no culau?” — Vamos! É aniversário? Está certo, É aumento de salário? Está certo. É rateio? Também está certo. Não importa quanto venhamos a pagar, contanto que seja uma noite de alegria. E os grupos — 8, 9, 10 — 20 — 100 ou mais — o número também não importa. Contanto que não seja de menos. Porque não se vai só a um culau! Nem a dois, nem a três. nem a quatro. O interessante dez no mínimo! E, quanto mais frio, melhor! Mais vontade de comer! Maior o apetite! Mais necessidade de sentirmos o calor da alegria, o aconchego dos amigos!

Paremos à porta. O restaurante pode ser de luxo, pode ser modesto, pode ser mais ou menos, de aspecto velho e pobre. Não importa. Passemos para o lado de dentro. Subamos a escada ou entremos no elevador. As salas são divididas em reservados, separados por portas desmontáveis e dobráveis. Cada reservado comporta 10 a 12 comensais. Maior número de comensais maior o espaço do reservado. É só desmontar a série de portas que separa um reservado do outro. Uma sala é passível de receber até mais de cem comensais, bastando para isso desmontar todas as separações. Era assim no tempo em que eu estava na China.

Vamos ao nosso jantar. Geralmente entramos num culau às 6,30 ou 7 horas e só daí saímos entre 9 e 10 horas. Isto é, quando alguém, ou melhor, ninguém inventa jogar o Majong. Nesse caso, a ida para o culau é às 5 da tarde ou mais cedo e a saída talvez à meia noite.

O reservado, dependendo do restaurante, é geralmente espaçoso, podendo 10 a 12 pessoas mover-se à vontade. No centro, uma grande mesa redonda, à sua volta, 10 a 12 banquetas (hoje se usam cadeiras). Ao fundo, perto da janela, um grande canapé, sobre o qual se pode estirar, querendo. Ao longo das paredes laterais cadeiras e mesinhas de pau preto, dispostas de forma a que cada mesinha é ladeada por duas cadeiras. Sobre as mesinhas quá-chi à vontade. O quá-chi (pevide – semente de melancia), vermelho ou preto, serve para “fazer-a-boca”, expressão macaense que quer dizer “mordiscar, entreter a boca, enquanto espera”.

O Fó-quei (o garção chinês) anota a lista dos pratos com um ou dois do grupo. Os outros, com uma perícia extraordinária, seguram a parte chata da pevide com os dedos polegar e indicador da mão direita, introduzem o quá-chi pela aresta entre os dentes, dão uma ligeira mordida, entreabrindo assim as duas cascas; giram ligeiramente de modo a que a parte chata fique para cima e, com a ponta da língua, afastam imperceptivelmente as duas metades da casca, e, novamente, com os dentes, como uma pinça, seguram a minúscula amêndoa e, uma vez a amêndoa bem segura pelos dentes… a casca é puxada para a frente estre os dedos indicador e polegar. Toda essa operação é concluída em frações de segundo. E ao mesmo tempo que os dedos e os dentes trabalham, a conversa se generaliza numa alegre vozearia.

O Fó-quei, completamente alheio ao que fazem os comensais, continua sua rotina. Sai com a lista de pratos, volta pouco depois, estende a toalha na mesa, arruma os vun (tigelinhas e os fát-chi (pauzinhos); sai novamente, volta com as toalhas perfumadas e, à cada um dos comensais, oferece uma toalha para limpar as mãos. (As toalhas perfumadas são trazidas novamente no meio do jantar e quase no final).

Os primeiros três ou quatro pratos são para abrir o apetite: um pratinho de pei-tán (ovos pretos transparentes. São ovos que foram envolvidos em cal e enterrados por um mês ou mais. Fazem muito bem à saúde). Esses ovos cortados em oito em sentido longitudinal são servidos com fatias de gengibre. Um pratinho de chouriço china (lap-cheóng) cortado enviesado, bem fininho; um pratinho de peixe salgado…

Segue-se uma sopa ou caldo, geralmente preferimos o gui-chi-tóng (sopa de barbatana de tubarão), e, sem pressa, com todo o vagar, com a lentidão que caracteriza os jantares chineses, um prato após outro é servido: carne, frango, porco, ovos, camarões, miúdos, carangueijos, verduras… sem acompanhamento de pão nem de arroz, Tudo isso para comermos lentamente, acompanhado de vinho de fermentação de arroz e… muitas risadas e conversas.

E, no fim, quando já estamos quase nos rebentando de cheios, é servido o arroz chau-chau, em chinês cháu-fán, arroz frito com ovos, camarão, chouriço china e…

E já cansados de tanto comer, a nós mesmos prometemos que, no futuro, seríamos mais comedi dos, que espaçaríamos os jantares no culau, que…

Esquecidos os primeiros momentos de mal-estar de super-cheios, lá estávamos nós, dias depois combinando novamente para novo jantar no culau…

Padre Manuel Teixeira, 100 anos

Em 15 de Abril de 2012 fez 100 anos que nasceu o Monsenhor Manuel Teixeira, ou simplesmente, Padre Teixeira, um grande historiador de Macau. Natural de Freixo-de-Espada-à-Cinta, faleceu em Chaves no dia 15 de Setembro de 2003.

Para lembrá-lo, vou publicar um texto das suas memórias do Seminário de São José.  Padre Teixeira foi professor dos tempos em que eu era aluno externo nos anos 60.  À sua memória, Mestre:

O SEMINÁRIO DO MEU TEMPO

por Monsenhor Manuel Teixeira – Revista Macau Outubro de 1996

Fui seminarista do Seminário de S. José, de Macau, de 1924 a 1933, e professor de 1931 a 1946. Vou descrever as minhas impressões do edifício e dos seus ocupantes, professores, seminaristas e duas espécies de alunos, internos e externos, de 1924 a 1933.

Galeria de figuras ilustres

O Seminário tem um corredor de 80 metros de comprimento que termina num grande salão. Abrindo-se a porta desse salão, serão 100 metros, ou seja, o maior corredor de Macau.

O Seminário foi fundado pelos Jesuítas em 1728 e foram eles os seus directores e professores, em várias épocas: 1728-1762, 1862-1871, 1890-1910, 1930-1939.

Ciosos das suas sucessivas gerações de gigantes, colocaram na parede desse longo corredor as grandes figuras inacianas, de Macau e da China, sobretudo os grandes astrônomos de Pequim.

Os Lazaristas, que lhes sucederam em 1780, não colocaram nenhum dos seus. E foi pena, porque um lazarista, S. João Gabriel Perboyre, que ensinou francês e aprendeu chinês no Seminário, foi o único professor canonizado, até hoje. O seu professor de chinês, Pe. Joaquim Afonso Gonçalves, da mesma Congregação de S. Vicente de Paulo, foi o maior sinólogo português.

Ao passar por esse longo corredor, eu meditava na vida heróica dessas gerações de gigantes que vinham para o longínquo Oriente desprendidos de tudo e de todos, para aqui trabalhar e morrer, sem intenção de regressarem à terra natal.

Não vinham buscar ouro nem prata, nada queriam nem recebiam do seu Governo. Desejavam apenas que este os deixasse trabalhar, para maior glória de Deus.

E que fez o Governo? Em vez de os ajudar na sua missão de bem-fazer, só lhes punha entraves.

Vede o que sucedeu aos Jesuítas: expulsos em 1762, 1871 e 1910. Em 1939, saíram voluntariamente.

Quantos aos Lazaristas, que para cá vieram em 1780, foram expulsos pelo liberalismo, em 1834.

A vida do Seminário ressentiu-se devido a estes choques brutais, e a educação da juventude macaense sofria tratos duma esfera de futebol.

Até que um dia veio um pé de vento e fez voar até os retratos desses gigantes.

Nem sombra ficou deles.

Essas paredes ficaram nuas.

Caíram no olvido as memórias gloriosas desses homens que foram dilatando a Fé e sustentando o Império.

O longo corredor de 80 metros ficou mudo.

Quando voltarão essas figuras a ocupar os seus lugares?

Árvores seculares

Para recreio dos alunos havia e há duas grandes hortas. Nelas vicejavam gigantescas baneanas, cujas ramadas se tocavam umas às outras, abrigando os jovens do sol tropical.

Eram árvores bicentenárias, as mais antigas e maiores de Macau.

Sentaram-se à sua sombra, durante dois séculos, gerações e gerações de estudantes.

Um dia, passou um pé de vento e tombou esses gigantes, que não mais se ergueram.

E tudo o vento levou!

Professores e alunos

Havia óptimos professores no Seminário. Os Jesuítas haviam sido os grandes educadores da juventude macaense.

O Pe. Gonçalves, lazarista, formara muitas dezenas de sinólogos, que se espalharam pelos consulados portugueses de toda a China e foram os seus intérpretes.

O tufão de 1910 foi fatal para a educação em Macau.

O Seminário apanhou tal choque que nunca mais se restabeleceu completamente.

Em vez de religiosos treinados para o ensino, lançou-se mão de padres seculares, que serviam bem para curas de almas, mas não para o ensino.

O pároco de Santo Antônio, que se tinha licenciado em teologia, em Roma, foi nomeado reitor desse Seminário-fantasma.

Chamo-lhe assim porque a República de 1910 fez andar à roda as cabeças juvenis e um bom grupo de rapazes portugueses trocou o casarão do Seminário pelo casarão do Quartel de S. Francisco.

Saíram roídos de amarguras e gravaram as suas saudades num opúsculo muito sentimental, que eu li com emoção (creio que não existe hoje um único exemplar). Foi uma debandada ordeira, sem fel, nem vinagre, nem ódio ou rancor.

Ficaram no Seminário apenas os chineses e muito poucos portugueses.

Era o tecer e destecer da teia de Penélope.

O reitor, com medo de fantasmas, mascarou-os com um uniforme colegial, tirando-lhes a batina.

Esses poucos portugueses ordenaram-se em 1914, 1917 e 1919.

Estava-se nesta apagada e vil tristeza quando se ergueu uma nova esperança, com a nomeação de D. José da Costa Nunes para bispo de Macau, em 1920.

Mandou vir de Portugal e dos Açores várias levas de candidatos à vida eclesiástica.

De 1924 a 1939

O Seminário estava a cargo do clero secular.

Em 1924, chegou o meu grupo de cinco rapazes, precedido doutro grupo duma dúzia de açoreanos, em 1922. Em 1925, novo grupo de portugueses, continuando este afluxo até 1939.

D. José, vendo que os padres seculares não estavam treinados, confiou, em 1930, o Seminário aos Jesuítas. Mas estes, em geral, também não estavam preparados.

Se os padres seculares tinham vindo das paróquias de Macau e das Missões de Timor, Singapura, Malaca, os Jesuítas também não vieram de colégios nem de universidades; vieram das Missões, e alguns bastante velhos, sem nunca haverem ensinado na sua vida.

De 1924 a 1930, todos os meus professores foram padres seculares. Havia um que era competentíssimo na matéria, mas péssimo na profissão: o meu professor de francês, Pe. Régis Gervaix, que havia abandonado o Instituto das Missões Estrangeiras de Paris. Era tão competente que em 1925 foi nomeado professor de literatura francesa na Universidade do Governo Chinês, em Pequim. Era então o único historiador de Macau.

Publicava óptimos livros em prosa e verso.

Mas essas actividades impediam-no de se dedicar ao ensino. Nada ensinava; mas como não falava português e só falava francês, a sua língua materna, aprendemos melhor o francês.

Quanto ao professor de físico-químicas e ciências naturais, era o cura da sé, Con. João Clímaco do Rosário. Nunca preparava as lições. Nós, sabendo disso, podíamos dar todos os disparates, que ele não tugia nem mugia.

O professor de direito canónico foi o padre jesuíta Manuel Fernandes Ferreira. Tinha ido para Timor como missionário, em 1899, e nunca tinha visto o direito canónico, que só foi publicado 18 anos depois. Nas aulas, lia os cânones em latim, sem comentários, enquanto os alunos dormiam e eu fazia poesias.

O único professor competente foi o Pe. Elias Marcai Pequito, sj, que concluiu os estudos na América e veio para o Seminário em 1930. Fiz com ele toda a teologia e aproveitei muito.

Em 1929, encerrou-se o internato e os colegiais regressaram às suas terras.

Em 1939, os Jesuítas abandonaram o Seminário, que foi retomado pelos seculares, até 1968, ano em que deu o último suspiro.

Seminário-Liceu-Escola Comercial, Internato-Externato

Quando eu lá ingressei, em 1924, o Seminário de S. José era tudo isto: seminário para os candidatos aos sacerdócio, liceu para todos, escola comercial para os candidatos às carreiras profissionais, internato e asilo de órfãos para os rapazes, de várias partes do Oriente, e externato para a juventude macaense.

O Liceu oficial e a Escola Comercial estavam praticamente às moscas; o Seminário regurgitava de alunos: portugueses, timorenses, hongkonguenses, malaqueiros, singaporeanos e até macaenses do Japão. Uma verdadeira Arca do Noé.

E se mais mundo houvera, lá coubera.

Em 1923, freqüentaram o Seminário 122 internos e 343 externos. O curso de língua francesa era dado em francês; o curso de música, por um maestro competentíssimo, vindo de Itália; o curso liceal abrangia todas as matérias do Liceu; o curso de inglês abrangia duas partes, a língua inglesa e o curso comercial.

Em 1898, tomava a direcção desse curso um homem que o elevou ao mais alto nível, o inglês Pe. Arkwright; mas esse homem tinha um pecado original, que é imperdoável ao liberalismo, o de ser jesuíta.

Os bancos e as firmas comerciais inglesas de todo o Extremo Oriente recebiam, de braços abertos, os que tivessem tirado o curso comercial sob a direcção do Pe. Arkwright, mas o seu pecado original era imperdoável e a República maçónica de 1910 deu-lhe o grande prêmio pelos grandes serviços prestados à juventude macaense: em vez de colocar o seu retrato no salão nobre do Senado, na galeria dos cidadãos beneméritos de Macau, escorraçou-o daqui.

Mais, o padre jesuíta italiano Francisco Xavier Rôndina, professor do Seminário de 1862 a 1872, que formara muitos macaenses ilustres, teve o seu retrato no salão nobre do Senado de 1872 a 1910, mas o seu terrível e horrendo pecado original nem após a morte encontrou remissão: esse retrato foi apeado pela maçonaria em 1910.

E até hoje não se repararam estes grandes atentados contra a cultura macaense!

Cultura física e intelectual

Em 1924, foi nomeado reitor o Pe. Francisco Bonito Bragança, natural de Tondela.

Fora durante muitos anos pároco da igreja de S. José, da Missão Portuguesa de Singapura, e ali deixou um grande nome; e, ao sair, muitas saudades.

Era muito rigoroso. Mas como os eurasianos eram, e são, gente humilde, aceitavam de boa maneira todo o seu rigorismo.

No Seminário não sucedeu o mesmo. Criou–se um grande mal-estar; e o Pe. Régis Gervaix dizia que ele era como um veado numa loja de louça: partia tudo.

Não se sentindo bem, vários padres abandonaram o Seminário e a Diocese.

Ele esquecia-se da regra básica que deve nortear todos os superiores: Portiter et suaviter, ou seja, firme nos princípios, mas suave na sua aplicação; ou, como diz a Bíblia: Não por força nem por violência, mas pelo meu Espírito (Zac. 4, 6).

No entanto, como era apaixonado pelo desporto, promovia-o entre os internos e externos.

Em 1926, o Governador de Macau, Manuel Firmino de Almeida Maia Magalhães (a quem chamávamos o Má Má) promoveu o campeonato escolar; o Seminário ganhou quase todos os prêmios, incluindo o das regatas, em que entrou a Escola de Pilotagem.

Manifestações culturais

Sendo o Seminário a única escola de Macau que, além do curso secundário, ministrava as classes superiores de filosofia e teologia, era normal que excedesse todas as escolas no campo da cultura e desporto.

De 1/1/1919 a 1/7/1919, os colegiais publicaram uma revista semanal — Juventude —, de fraco valor literário; os seminaristas abriram a “secção dos novos” no Boletim Eclesiástico.

Por iniciativa do aluno teólogo António da Silva Rego, fundou-se, em 2/9/1925, a Academia da Imaculada, com sessões mensais, nas quais quatro ou cinco alunos recitavam perante todos os seminaristas as suas produções literárias em prosa e verso.

Havia ainda os improvisos.  No mesmo dia da sessão académica, era dado um texto bíblico a um aluno para ele o desenvolver. Havia alunos que desenvolviam brilhantemente  esse  texto. Mas houve um, Norberto de Oliveira Barros, que foi o cavaleiro da triste figura. O texto era: Pauculum et videbitis me, et iterum pauculum et non videbitis me (mais um pouco e ver-me-eis, e ainda um pouco e não me vereis). Ele recitou o texto e fez como a ”lágrima” de Guerra Junqueiro: Tremeu, tremeu, tremeu e caiu silencioso. Ele disse o texto, fugiu do palco e ninguém mais o viu: Et non videbitis me.

Coitado! Foi morrer a Timor, fuzilado pelos japoneses, que queimaram o seu corpo!

Formaram-se na Academia da Imaculada vários escritores, poetas e oradores.

Em Timor, esses rapazes, já padres, fundaram a revista Seara, que durou até à ocupação japonesa; em Singapura, a revista Bally, em inglês, que se extinguiu há pouco.

Em Macau, o professor António José Gomes fundou o diário A Pátria, que começou em 1/12/1925 e desapareceu em 30/4/1928, com a morte do seu fundador.

Historiadores e poetas

O poeta mais famoso foi o Dr. António José Gomes, que publicou a Vida de Cristo num grosso volume, intitulado A Cristíade, em hendecassílabos, à imitação de Os Lusíadas. Consumiu a vida inteira na confecção deste poema.

Outro poeta de grande mérito, o de maior inspiração lírica, foi Mons. José Machado Lourenço, que publicou vários livros de poesia e inúmeros poemas em vários jornais e revistas de Macau e dos Açores.

Poetas secundários foram os padres António da Silva Rego, Ezequiel Enes Pascoal, Jorge Barros Duarte e Artur Basílico de Sá. O historiador máximo foi o Pe. Doutor António da Silva Rego, que publicou em 12 grossos volumes a Documentação para a História das Missões do Padroado Português no Oriente e outros livros sobre as Missões Portuguesas de África.

O seu discípulo Artur Basílico de Sá publicou quatro grossos volumes sobre a Documentação do Padroado na Insulíndia.

As obras destes dois historiadores obtiveram renome internacional, constituindo a base de todos os estudos sobre essas Missões.

O Pe. Jorge Barros Duarte, natural de Timor, passou a vida a publicar livros em prosa e verso sobre a história e a etnografia da sua terra. Mons. Antônio André Ngan editou vários livros pedagógicos sino-portugueses.

Na história bicentenária do Seminário de S. José nunca houve uma floração tão esplêndida e fecunda como a de 1924 a 1939.

Da geração de 1924, só restam três: D. Jaime Garcia Goulart, Benjamim Pedro Shek e o autor destas linhas.

Jovens Macaenses: “Um Grande Salto Para Frente”

Parafraseando o programa de Mao Tsé Tung chamado “Um Grande Salto para Frente”, pensei em assim definir o II Encontro dos Jovens Macaenses 2012 realizado em Macau (China), especialmente ao ver as duas fotos acima publicadas no Jornal Tribuna de Macau.

A princípio procurei por rostos da geração antiga macaense, não os encontrei.  Os mais velhos eram os membros do Gabinete de Ligação do Governo Central (da República Popular da China) na RAEM, que receberam a visita dos jovens macaenses, e tão somente eles, que mesmo sendo uma formalidade em cumprimento a um calendário de eventos, tinha o significado de um registro para todos verem o apoio dos novos mandatários de Macau.

Encostei -me na cadeira giratória e fiquei a recordar os tempos em que passei a ter uma participação mais ativa da nossa comunidade, tanto através da Casa de Macau de São Paulo como pelo meu site PMM, a partir do ano 2000.  Eram as reuniões preliminares para o Encontro das Comunidades Macau, os Encontros em si, as reuniões para formação do Conselho das Comunidades Macaenses e as polemicas que giraram em torno dela, e outros eventos.  Recordava que nas fotos oficiais ou não, lá só tinha gente com mais idade, como eu, num período compreendido entre os meus 50 a 60 anos.  Os jovens eram vistos como um projeto futuro para a preocupante continuidade macaense.

Assim as fotos tiveram um grande significado.  Simbolicamente era o resultado de tudo que se falou e foi trabalhado a respeito dos jovens e o seu papel na “continuidade”.  Lá estavam eles, sozinhos, a comandar o “espetáculo”, a conduzir conversas de alto nível.  Era preciso delegar  e confiar nos jovens, que capacidade têm,  basta “deixar fazer” sem interferir, competindo aos mais idosos o papel de conselheiros  acreditando que terão modéstia suficiente para trocar ideias com os mais experientes, quando necessário.

Quanto à Associação que está em vias de ser formada, penso que seus estatutos estão sendo elaborados e discutidos, assim vou deixar de integrar o time de entusiasmados, embora haja motivo para tal, para avaliar com cautela o que se pretende “nos finalmente”, a sua amplitude e extensão.  Sabe-se que também na diáspora macaense-americana houve apresentação de semelhante proposta, porém não teve seguimento.

Ouvi e percebi que há certa reserva quanto à formação de novas associações na diáspora, nada contra os jovens, mas penso que quanto à atribuição de recursos para sobrevivência das Casas de Macau, porquanto ainda não recebem subsídios pontuais ou periódicos, bastante discutidos desde a transição.  Sobrevivem daqueles fornecidos pela antiga administração portuguesa de Macau, salvo erro meu com relação às Casas de outros países, pelo menos posso afirmar com relação às do Brasil que pagam as despesas com os rendimentos de aplicações financeiras, e ainda vão fazendo as contas de quanto tempo as reservas vão durar.  Os jovens, necessariamente ligados às Casas, perderão as suas ligações com Macau quando estas, com o fim dos seus recursos, fecharem as portas, salvo se houver uma associação paralela que lhes pertença e seja subsidiada.

Por fim, penso que não há como contestar que a esperança da continuidade e preservação da identidade macaense, reside nos jovens macaenses residentes em Macau, onde é o centro de tudo.  Pode-se perceber um melhor envolvimento deles nas atividades em geral, como esta do II Encontro, ou das peças teatrais em patoá entre outras.  Assim, o investimento no jovem macaense deve ser prioridade em Macau.  A diáspora será sua coadjuvante, enquanto existirem Casas de Macau.

Esta é a minha terra natal, MACAU

Já publiquei uns vídeos da minha terra natal, Macau.  E volto a publicar mais um, produzido pelo TravelGuru em inglês.  Gostei dele, é curtinho (6 mins.) mas um vídeo envolvente e dinâmico. Depois de vê-lo, dá aquela vontade de voltar lá para uma visita e matar as saudades. Deus queira, em Novembro de ano que vem, isto, se der …

Aos leitores que visitam este blog e não a conheçam, esta é a cidade de Macau que tanto se fala aqui, embora seja dos tempos atuais, após a transição para a China em Dezembro de 1999.  Boa viagem ao outro lado do mundo onde você vai ver um misto de cultura ocidental com a oriental, afinal foi colônia portuguesa.  Vai ver também muitos e muitos chineses, afinal de contas a população portuguesa e os macaenses, mestiços em geral, a falar o português é o mínimo, cerca de 2% dos por volta de 600 mil habitantes num espaço apertado de pouco menos de 30 km2.  Eramos mais, os falantes do português, mas antes da transição muitos partiram para o mundo exterior, alguns voltaram mas pouco significativo.  A língua portuguesa ainda é uma 2a. língua oficial com bastante visibilidade em anúncios externos, nomes de estabelecimentos etc., mas poucos a falam.  A prefeitura de São Paulo ainda não baixou por lá com a lei de “cidade limpa“.  Lá você vai ver cartazes de todos os tamanhos, anúncios à vontade, enfeites, luzes piscando, etc.  Os chineses gostam disso, faz parte da cultura deles, também, “it’s business“, com tantos casinos por lá.  Tanto que o mandatário nunca iria para lá, pois correria o risco de ter um “enfarte” ao ver toda esta “poluição visual“:

*Obrigado pela dica Maria “Mimi” do Rosário (Espanha)

Johnny Reis: fotos-memória e a notícia do jornal

Em 2003 estive em Macau pelo site Projecto Memória Macaense, a convite da Comissão Organizadora, que novamente agradeço publicamente pelo apoio, para participar da Reunião Preliminar dos Representantes das Casas de Macau para o Encontro Macau 2004.  Nos diversos eventos da Reunião, pude assistir à apresentação do Johnny Reis nos teclados a tocar com o conjunto musical The Rockers.  Um deles foi a missa celebrada na Igreja São Domingos, quando tocaram com o coral do Dóci Papiaçám di Macau.  O outro foi no Clube Militar, no jantar oferecido pelos Organizadores que reuniu também diversos residentes de Macau, momento em que pude rever gente conhecida.

Vivendo este momento de tristeza pela partida do antigo locutor do meu programa favorito – Request (quando se pede para dedicar uma música para determinada pessoa) dos anos 60, e bem que fiz alguns pedidos, queria compartilhar com vocês três fotos que fiz dessas apresentações, nas quais aparecem alguns conterrâneos que também já partiram para o descanso eterno:

(clicar nas fotos para aumentar)

Johnny Reis o 1º à sua direita, de óculos, a tocar o teclado no Clube Militar em Novembro/Dezembro de 2003. Veja o saudoso Neco Barros na bateria

Johnny Reis, o 1º à sua esquerda, com os Rockers na missa da Igreja São Domingos em Novembro/Dezembro de 2003

Com o coral do Dóci Papiaçám di Macau e os Rockers na Igreja de São Domingos em Nov/Dez de 2003.  Johnny é o 5º a contar da esquerda

Não custa nada publicar a foto dos participantes dessa Reunião, no jantar inaugural realizado no Hotel Lisboa em 26 de Novembro de 2003. Certamente vai dar para matar muitas saudades (sou o 11º da direita na fila de pé):

Veja o que o Jornal Tribuna de Macau publicou a respeito do falecimento de Johnny Reis na edição de 23/02/2012 (clicar na imagem para aumentar, e depois novamente com a lupa em +):

“O inconfundível Johnny Reis” em memória …

Estranhei hoje inúmeras visitas à postagem abaixo em 07/09/2011, mais de 80, e a resposta veio há pouco pela notícia dada por uma fonte confiável.  Faleceu nesta data: 22/02/2012 o Johnny Reis, uma referência de juventude de muitos macaenses.  Ainda vou ler a notícia nos jornais de Macau.

Descanse em paz Johnny Reis.  Nossas condolências à família.  Saudades dos tempos de você na Rádio Vila Verde.  Em sua homenagem, republico a postagem:

*um texto de Cecília Jorge – Revista Macau Junho 1998

João Sameiro Afonso ReisJohnny Reis, para a comunidade macaense que o “adoptou” — prepara-se para a reforma ao sol do Algarve, a ocupar-se da neta predilecta.  Ao fim de trinta anos, completados em 1996 como “músico” semi-profissional, além da Função Pública, vai sobejar-lhe tempo para descansar e recordar peripécias na cena do “show-bizz” local, algumas já referidas no artigo de Rigoberto do Rosário que a Revista MacaU publica.  Natural de Braga, veio para Macau em 1939 numa comissão de serviço do pai que acabou por se prolongar por causa do deflagrar da II Grande Guerra e posterior entrada do pai para o Corpo da PSP. Foi adiando o gozo da licença a Portugal e o seu primeiro regresso à terra natal, de onde saíu ainda criança, deu-se só em 1993. Considera-se “macaense”.  “A música ajuda as pessoas a viver a vida”, refere ao explicar a estreita ligação (sua e dos seus “conterrâneos”) a esta forma de passar o tempo.

Com a mesma voz de timbre quente, com que encantou quem o ouviu cantar durante tantos anos em nights-clubs, festas e festivais, e foi apresentando programas radiofónicos e noticiários, diz-nos que a memória o trai quando quer referir datas e alguns nomes. Mas se o diálogo se proporcionar, as cenas avivam-se e a “voz” também, com a fluência das palavras que nunca se deixaram contaminar pela pronúncia típica de Macau.

No início da aventura musical — mais ou menos em 1966, ainda a Rádio Vila Verde se situava na esquina da Francisco Xavier Pereira —, Johnny, Nuno e Alberto Senna Fernandes, Tony Hyndman, Sonny Gomes e Kenny Barnes entretinham-se a “fazer música”. Nessa altura, os dois últimos, mais profissionais, marcavam o ritmo “batendo as palmas”… Os agrupamentos mais certinhos vieram depois, como os uniformes: com camisas axadrezadas com faixas “à toureiro”, a princípio, depois blazers, cinzentos, e mais tarde vermelhos. (Os “Rockers”, assinalados com o monograma R, e os “Four Aces” com quatro ases, de naipe diferente para cada componente).

Tocaram em todos os locais onde era possível tocar — recorda hoje Johnny Reis. Tocavam igualmente todos os instrumentos em que pusessem as mãos, apreendendo todos “de ouvido” e uns com os outros…

A carestia de vida e do equipamento levou inclusivamente a que, uma vez, a avalizar um empréstimo pedido a Guilherme Silva, gerente da Pousada de Macau, para compra dum xilofone, providenciassem música de dança no seu restaurante durante uns tempos.

Mas, se foram muitas as actuações do grupo, que mudou mais de nome do que de componentes — tocando no Hotel Riviera, no Bela Vista, no Estoril, na Pousada de Macau, no “Helena” que ficava na Ponte-Cais nº 16, em todos os Clubes e Associações, no Clube Recreio e até no Indian Club de Hong Kong, mais foram as oportunidades perdidas.  Tratando-se de funcionários públicos que se agrupavam pelo gosto da música, pelo prazer de entreter amigos e um público animado, e para complementar o salário, as limitações da pesada burocracia dos anos 60 e 70 impediram-nos de “voar mais alto”.

Johnny ainda hoje lamenta não terem podido aceitar um convite do “Paramount” de Hong Kong para substituirem “Giancarlo and his Combo” naquela boite de luxo ou mesmo noutras actuações em Hong Kong. E Mário Sequeira lembra-se dos problemas , depois da transferência para “a outra banda” (Ilha da Taipa), com autorizações para ir a Macau actuar em festas, ou por exemplo no Macau Palace. Transportes, só em tancares ou barcos condicionados à maré. Mas vezes houve também que a timidez e relutância dos camaradas do grupo os impediu de actuar em programas de grande audiência da Televisão de Hong Kong.  Estreou-se na emissora VilaVerde, que começou a funcionar em 1948 com Johnny Alvares como engenheiro de som e seu irmão Walter Reis, locutor.  Acabara de sair da tropa. E apresentou programas como os “Hit Parade”, “Yours for the Asking” (em inglês) e os “Request”, de grande audiência, porque dias havia em que o carteiro despejava na emissora quilos de cartas com pedidos de discos e se preenchiam 5 folhas A4 com dedicatórias de cada canção. Eram tantas e tão fiéis as radiouvintes que chegou a ser necessário apaziguar pais que julgaram atentatório do bom nome das filhas a frequência alarmante de dedicatórias públicas dos (múltiplos) enamorados. Alegavam forte “distracção em horas de estudo”. E o meio-termo foi a proibição de inclusão de apelidos.  A voz de Johnny era inconfundível. E contudo, quando uma vez, em desespero de causa, quis evitar o pior no seu programa “Disco-Mistério” (oferta de discos de 45 rotações a quem identificasse o vocalista), e cantou com música de fundo, não houve um único ouvinte que o reconhecesse. É claro que disseram ser batota… mas o certo é que já pesava estar a custear ele próprio os prémios, quando lhe faltou o financiamento prometido. Graça teve também aquela vez quando, habituado a improvisar, e depois de anunciar o início da transmissão do “Terço do Bairro”, teve que fazer as vezes do sacerdote que faltou.

Era indiscutivelmente um bom profissional da rádio, pela experiência, pela dicção, pela voz, pela presença, e simpatia contagiante. Lembra-se das últimas locuções na Vila Verde, quando durante os incidentes de 1966 teve que ler comunicados oficiais à população na qual se minimizava a situação, ao mesmo tempo que, pela janela aberta do estúdio se ouviam disparos e o tiroteio na cidade. O canal em língua portuguesa encerrou pouco depois.  E Johnny passou a funcionar na ERM, localizada na torre do edifício dos CTT.

Ruby de Senna Fernandes, uma das poucas intérpretes locais do fado e música ligeira na década de 60, acompanhada pelos “Rockers”

Ruínas de São Paulo: pensaram em reconstruir a Igreja … !!!

foto: Rogério P.D. Luz

As Ruínas de São Paulo em Macau são as ruínas da antiga Igreja da Madre de Deus e do adjacente Colégio de São Paulo.  Exemplo único da arquitetura barroca na China, a fachada em granito foi o que sobrou do incêndio que começou nas cozinhas do colégio em 1835, por volta das 18:00 às 20:15 hrs.  Em 2009, foi classificada como uma das Sete Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo.  Só que não teria obtido essa classificação e nem seria o principal ponto turístico de Macau nos dias de hoje, caso tivessem sido concretizadas as iniciativas em 1904 para a sua reconstrução.

Veja o que o grande historiador Padre Manuel Teixeira conta a respeito no seu livro Toponímia de Macau:

“A igreja começada em 1602, ficou concluída em 1603, sendo inaugurada na noite do Natal, tendo trabalhado nela cristãos japoneses fugidos da sua pátria devido às perseguições contra a religião.

A fachada levou muitos anos a construir. Peter Mundy diz que a obras de cantaria já estava pronta em 1637; Cardim informa que ainda em 1640 se colocou nela uma imagem de N. Senhora; em 1608, fez-se a porta da igreja, da banda de oeste com seu arco de pedra e o corredor do coro.

A 26 de Janeiro de 1835, um incêndio devorou completamente a Igreja e o Colégio de S. Paulo, ficando apenas de pé a fachada da Igreja.

Houve alguém que sonhou na reconstrução de S. Paulo.

O sonhador foi o dr. António José Gomes, que nós muito bem conhecemos.

A 4 de Dezembro de 1904, o bispo de Macau D. João Paulino d’Azevedo e Castro celebrou missa nas Ruínas de São Paulo e lan­çou a primeira pedra para a reconstrução desse antigo e histórico templo, destinado à futura igreja paroquial de Santo Antônio.

Subiu a um púlpito improvisado o Pe. Dr. António José Go­mes, pároco da Santo António que, num sermão empolgante, pediu fundos para essa obra. Dizia ele:

«Este lugar é santo! estas venerandas ruínas, esta mole imensa de granito, aprumada e indestrutível, este majestoso frontispício, este colosso três vezes secular, que a despeito do olvido dos homens e das injúrias do tempo, se ergue ainda em toda a sua envergadura arquitectónica, rasgando as nuvens e desfraldando em pleno céu o lábaro sacrossando da Redenção… tudo isto está clamando que este lugar é santo…

Uma escadaria, a mais ampla, a mais bela, a mais bem lançada que os meus olhos têm contemplado, servindo de escoadouro de lavaduras infectas, transformada em limiar de casas de gentio…

Ai! Quantas injúrias não tens tu sofrido, ó preciosa relíquia da arte cristã! Tentaram roubar-te os santos de bronze, que ador­nam os teus nichos, para os fundirem, mas os santos não cederam o seu posto, foram mutilados, mas ficaram inabaláveis! Estilharam-te as colunas, britaram-te os capiteis, quebraram-te os ângulos, man­charam e poluíram as tuas bases … e, não obstante, tu aí estás ainda em pé, miraculosamente, para pungir a consciência de todos e cada um»!

Na peroração o dr. Gomes convidou os ouvintes a jurar que reconstruiriam a Igreja da Madre de Deus: «Soou a hora solene, chegou o momento crítico, o momento decisivo … o momento de fazermos sobre estas ruínas o mais solene dos juramentos!

«Ah! se no meio de vós está alguém atrabiliário, algum inimigo desta obra santa e patriótica . . . saia! . . . fuja deste recinto . . . não queira ser um perjuro!»

Neste momento, um soldado disse para os que estavam junto dele: — «Não, eu é que não juro»; saltou e fugiu dali para não ser perjuro.

O orador, a quem passou despercebido o incidente, continuou: — «Ninguém sai? . . . Ninguém se retira?».

E então fez o juramento, em nome de todos: — «A cidade de Macau, pela boca do vosso ministro, jura hoje solenemente, à face do céu e da terra, desagravar o Vosso Santo Nome, restituir-vos a vossa herança!»

E terminava entusiasmado: — «Avante, senhores, avante pela reconstrução de São Paulo!»

Organizaram-se lotarias, promoveram-se quermesses e festas para angariar fundos, mas pouco se conseguiu.

Foram mandadas fazer na América várias tapeçarias com as gravuras da fachada, do bispo D. João Paulino e outros motivos religiosos. Mas, quando se abriu a grande remessa, viu-se que os ba­cios tinham no fundo a vera imagem do prelado!!! Foram logo retirados da venda.

Existe ainda na Diocese um fundo dumas $ 20 000,00 em acções, chamado «Fundos da Reconstrução de S. Paulo».

Já antes do dr. Gomes, aparecera outro entusiasta da reconstrução: era o rico proprietário, comendador Albino da Silveira, que tencionava empregar a sua fortuna nessa obra. Chegou a mandar fazer o plano da igreja, aproveitando a fachada, mas com a sua mor­te em 31 de Outubro de 1902 morreu o seu projecto.”

No desenho de Cheong Pow de 1818, pode-se ver a Igreja Madre de Deus ou São Paulo antes do incêndio.  Está na sua lateral esquerda

a Igreja de Madre de Deus/São Paulo e o Colégio São Paulo após o incêndio (fonte: Um Museu em Espaço Histórico do Museu de Macau)

Interior da Madre de Deus depois do incêndio de 1835.  Desenho de George Chinnery, pintor inglês que retratou Macau em centenas de desenhos durante a sua estadia em Macau de 1825 a 1852

Gastronomia Macaense e Patuá: candidaturas (pré) aprovadas p/Património Imaterial

Foi uma dura ‘batalha’, mas enfim, as candidaturas da Gastronomia Macaense e do Teatro em Patuá (perceba que não é o dialecto patuá em si, mas a forma como é apresentada em Teatro) foram aprovadas por um júri escolhido pelo Museu de Macau, juntamente com outras duas abaixo especificadas na reportagem. Agora seguem para uma ‘consulta pública’.

Diante disso, vamos todos oferecer o nosso apoio para que no final tudo dê certo e tenhamos essas candidaturas plenamente aprovadas.  O site Projecto Memória Macaense e o blog Crónicas Macaenses dão o seu apoio.

Veja como o Jornal Tribuna de Macau, edição de 09/Fev, publicou a respeito:

Fortaleza do Monte, 1950 e 2006. Um pouco de história

Em 2006, viajei a Macau para fotografar os Jogos da Lusofonia e fui fazer um ensaio fotográfico na Fortaleza do Monte (publicado no FlickR no http://www.flickr.com/photos/87555912@N00/sets/72157602425665119/) e fiz a foto abaixo:

Hoje, a folhear a Revista Macau de Dezembro de 1998, vi a foto abaixo, que coincidentemente foi tirada mais ou menos no mesmo ângulo.  Veja como aquela vista limpa de Macau, a avistar a Ermida da Penha e o Leal Senado foi obstruída pelos inúmeros prédios que proliferaram pela Macau moderna vista 56 anos depois:

E, aproveite para ler o que Beatriz Basto da Silva escreveu sobre o Monte naquela Revista:

Fortaleza do Monte: a mais notável

Extraído de “As Fortalezas da Cidadela” de Beatriz Basto da Silva – Revista Macau Dezembro 1998

O Pe. Alexandre Valignano, S. J., tão ligado à difusão da Imprensa de caracteres móveis no Oriente e Visitador da Companhia de Jesus, acomodou o Monte para recreação e alívio do Colégio [de S. Paulol e também em tempo de muita gente e aperto de agasalhos morarem nele alguns Padres e irmãos. À sua morte, ocorrida em Macau (Jan. 1606), sabe-se portanto que a colina do Monte era propriedade da Companhia, o que significava estar entregue o melhor possível em benefício da população. De facto, a Igreja foi de todos, o Colégio Universitário abriu-se a todos, a catequese a todos chamava e a Fortaleza — ao que parece iniciada aí por 1617 sob orientação de Pé. Jerónimo Rho, S. J. e do Capitão Francisco Lopes Carrasco, este rodado nas lides militares em África e na Índia — serviu de escudo às religiosas dos conventos, outras mulheres e crianças que, quando os holandeses atacaram, em Junho de 1622, ali se refugiaram, apesar de incompleta.

Com a chegada em 1623 de D. Francisco de Mascarenhas, o primeiro Governador com residência permanente em Macau, a monumental construção foi terminada. Assim o prova a data de 1626 gravada no lintel sobre o portal de entrada, virada a S/SE.

Enquanto as outras fortalezas se encarregavam exclusivamente da defesa, esta era a única que se podia preocupar com a população, porque tinha espaço e cômodos para abrigo; era a cidadela com que Macau contava, o velho burgo de herança européia sabiamente adaptado ao espaço irregular e exíguo de uma colina.

Mas a miniatura não perdeu em funcionalidade e tinha o aconchego de qualquer propriedade privada, com seu espaço para tudo, desde as residências à cisterna, ao depósito de pólvora, ao polivalente recinto arborizado, com vista panorâmica sobre toda a cidade.

Tão agradável e altaneiro tudo se apresentava que o Governador, achando que a sua instalação de início não se compadecia com a dignidade do cargo, resolveu um dia ir cumprimentar os senhores padres e, acabada a visita, à hora da saída, manobrou com os seus homens de forma a trancar-se paredes adentro, deixando os pobres religiosos fora de portas, atônitos e desapossados para sempre. Aquela passou a ser (até João Ferreira do Amaral) a Residência do Governo. (Cfr. Silva, B. B., Cronologia da História de Macau , III Vol. – 1848 (XI-6».

Os venerandos muros e sua artilharia distinguiram-se, como já mencionámos, em 1622 e voltaram a ter relevo mais tarde (em 1846) ao apoiarem o Governador Ferreira do Amaral na chamada Revoltados Faitiões: juncos de guerra, movimentados por marginais, com a aprovação dos mandarins do Sul e de combinação com os comerciantes chineses do bazar, no coração do porto interior de Macau, levantaram-se contra disposições do Governo sobre circulação portuária. Só a ameaça dos canhões da Fortaleza do Monte os acalmou, reconduzindo à situação de paz.

Considerou-se necessário ter esta fortificação sempre prevenida, e de facto ela foi interveniente em várias ocasiões, mesmo para esfriar dissenções demasiado acaloradas entre os poderes locais.

O imponente miradouro, que ainda fala da sua importância estratégica, beneficia actualmente, assim como o conjunto histórico adjacente, de novas leituras: a superfície da Igreja foi tratada arqueologicamente, elevando-se um Museu de Arte Sacra sobre a zona do transepto. O Colégio Universitário foi posto a descoberto durante as obras de edificação do Museu de Macau, arrojada obra arquitectónica saída das “entranhas” da praça forte. No interior do Museu desvenda-se, em pormenores expressivos da identidade macaense, o encontro luso-chinês de 450 anos.

*veja os álbuns de fotos que tirei de Macau de 1994 a 2010 publicados no FlickR e no Projecto Memória Macaense neste link – http://www.flickr.com/photos/87555912@N00/sets/

Igreja de Santo António (Macau) 1874 e 2007

Vejam a Igreja de Santo António em 2 fotos separadas por 133 anos.  A de 1874, retrata a Igreja parcialmente destruída por um incêndio ocasionado por um violento tufão.  Ainda na foto, do lado esquerdo, pode-se ver um edifício onde se localiza hoje a entrada para o Jardim Camões, e ao lado, a Casa Garden onde está instalada a representação da Fundação Oriente em Macau.  Costuma-se chamar a Igreja em chinês de Fa Vong Tong (Templo do Rei das Flores), já que habitualmente é ou era decorada com flores etc., uma vez que Santo António é um santo casamenteiro.  Quer casar? Peça para Santo António !!!

Outra foto foi tirada por mim por ocasião da viagem para o Encontro das Comunidades Macaenses -  Macau 2007.  Faz parte do meu ensaio fotográfico da Igreja e que está publicada num álbum com 26 fotos no FlickR da Yahoo neste link – http://www.flickr.com/photos/87555912@N00/sets/72157606705861222/ .  O meu convite  para uma visita, e aproveite para ler a história da Igreja.

Receitas de culinária macaense de Shanghai 1934

Estava num domingo normal na Casa de Macau de São Paulo para convívio e almoço, quando vi a Manuela Canavarro Agoston com um livro um tanto velho.  Curioso, fui lá ver o que era.  Qual a minha surpresa, um livro encadernado de receitas de 1934 compostas por folhas datilogradas.  Uma raridade, até uma peça de museu.

Constava a autora, que poderia ser das receitas ou da colecionadora e datilógrafa, como Guilly Canavarro Remedios.  Uma assinatura dizia que a proprietária, ou a última dela, ser a Augusta de Figueiredo e Canavarro que datava com a assinatura,  Shanghai 30/5/1939 à moda portuguesa (bem que poderia datar à inglesa 5/30/39.  Aliás os apelidos/sobrenomes apontam para as famílias macaenses e portuguesas de Shanghai, nos tempos anteriores à revolução na China que as obrigaram a abandonar a cidade, muitos só com a roupa do corpo.  Eram os Canavarros, Remedios (sem acento), Figueiredo, Collaço, Barradas e tantos outros, que hoje estão espalhados pelo mundo. Perderam tudo! Hong Kong e Macau foram os principais destinos. Quem estudava na Escola Comercial nos velhos tempos, deve-se lembrar do centro de refugiados na mesma rua.  Aliás quem não se lembra dos (lamentáveis e infelizes) conflitos entre a malta macaense e os “shanghainistas (como se dizia antigamente e até hoje).  Era triste, não precisava ser assim, embora essa rivalidade era uma autêntica rivalidade da época, que infelizmente, ainda ligeiramente (politicamente correto pra dizer) transportada para os dias de hoje.  Aliás essas rixas regionais não são privilégio dos macaenses, no Brasil também as vemos entre o Sul e o Nordeste, especialmente, e você me diz se também não nos seus países de acolhimento, se és da diáspora.

Deixando esta triste conversa de lado, quando vi o livro, logo pedi para fotografar umas páginas pois digitalizá-las, com certeza iria estragá-lo ao fazer a dobra, mas lá estava eu com uma simples câmera naquele dia e o resultado não tanto agradou-me.  No entanto, penso que vai dar para ler as receitas em inglês.  Não as traduzi para não correr o risco de cometer erros, e de repente ao invés de fazer uma capela vais fazer um minchi si iau, hehehe!!!

Publico aqui uma só, do Peixe Esmargal, e o resto das receitas (arroz gordo, bolo menino, capela, cheese toast, chilicote de rabono, cria cria, isca, rolette, além de uma tabela de conversão tael=onça/oz) estão publicadas no site Projecto Memória Macaense que já possui 23 páginas dedicadas à Gastronomia Macaense com inúmeras receitas.  O link/ligação está na página principal. Vão dizer que já têm algumas dessas receitas, mas perceba que elas são de 1934.  Pode ter algo diferente, um diferencial para aquele sabor melhor.  Vale tentar, se conseguir entender o inglês lá escrito e as medidas, um tanto complicadas.

Agora, porque o Peixe Esmargal aqui?  É que o meu cunhado, Alex Sales (Califórnia/EUA) era especialista nisso.  Acho que ainda o é!!! Então vejamos (clicar na imagem para aumentar):

Ainda sobre os 15 Anos da Associação dos Macaenses

Longe vão os receios iniciais que levaram à formação da Associação dos Macaenses, em 1996. Com a transição do território de Administração Portuguesa para a China, programada para dali a três anos, crescia no horizonte uma dúvida sobre como tudo seria após essa data.
Para muitos macaenses começou a ser uma evidência que algo teria que ser feito para acautelar o futuro da comunidade. E foi assim que nasceu a Associação dos Macaenses, que 15 anos após a criação, quer continuar com a vitalidade necessária para ser um elemento importante e interveniente na vida de Macau.

Assim iniciava a reportagem do Jornal Tribuna de Macau de hoje a respeito da festa de aniversário dos 15 anos da ADM.  Até tinha rascunhado um texto a declarar o desconhecimento do motivo para fundação da associação.  Agora vejo que foi mesmo por uma nobre causa, o que explica a sua importância, que torna-se evidente  e de conhecimento público com as notícias dessa comemoração.  Sinceramente, penso que antes, sem a publicidade das reportagens, conheciamos a Associação dos Macaenses, mas não aprofundavamos no conhecimento das suas funções e importância.

Até ouso a avançar que a ADM poderia se equiparar a uma espécie de “Casa de Macau“, pois pergunto se criou-se a Casa de Portugal, porque não? Uma Casa de Macau tem como um dos seus principais propósitos, a preservação dos costumes e tradições macaenses, e hoje, Macau é China, obviamente impõe-se os costumes chineses e se os nossos são permitidos e preservados, é porque há um consenso que é bom para Macau, há boa vontade dos seus governantes e do Governo Central por motivos variados.  Mas, convenhamos nada disso poderia ter acontecido e a comunidade macaense poderia estar a viver o que se temia antes da transição, o que felizmente não se concretizou, mas levou a uma imigração maciça, colocando-me como exemplo. Poderia estar ainda a residir em Macau, mas imigrei para o Brasil.

Penso que a comunidade macaense, e nisso se insere como descreve Sérgio Perez noutra reportagem do JTM “macaense deveria englobar todos aqueles que consideram que esta é a sua casa e que é aqui que querem estar, é aqui que se sentem bem e que se identificam culturalmente“, poderia contribuir no seu fortalecimento com a adesão à ADM, para torná-la numa associação forte e representativa dos nossos interesses em Macau.  Quanto à isso, ao que me parece, não é vedada a participação da comunidade da Diáspora, porém no Boletim de Inscrição, que estabelece uma quota anual de MOP$ 240,00 (cerca de US$ 30,00 ou mais ou menos R$ 55,00, barato!), há um item que diz “nos primeiros 6 meses após a aprovação da inscrição, será aferido o grau do novo sócio nas actividades da Associação.  Se se constatar que o mesmo não participou em nenhuma das actividades organizadas, a Associação poderá determinar a perda do seu estatuto de sócio“. Isso, penso, se for levado a sério …

Veja as fotos publicadas no Jornal Tribuna de Macau que mostram a festa de comemoração dos 15 anos da ADM:

O presidente Miguel de Senna Fernandes, os fundadoress e o Secretário para Assuntos Sociais e Cívicos da RAEM, Cheong U

Aida de Jesus na entrevista ao JTM dizia: “juntei-me (à ADM) porque sou macaense“.  Lembro-me com saudades os tempos de criança em Macau, quando acompanhava a minha irmã Yolanda nas visitas do dia do Natal à casa da Aida, sua madrinha, no Tap Seac.

e, olha o amigo Rui Francisco, grande colaborador do PMM, na companhia do Albino Almeida que aos 79 anos é sócio da ADM há um. O Albino ainda disse “as divisões iniciais não foram positivas. Inicialmente, ter havido várias associações dividiu muito a sociedade macaense. Somos tão poucos. Devia ter havido uma só. Fragmentou-se a sociedade e houve uma luta sem quartel que dividiu a malta e eu afastei-me disso. Agora entrei, nunca é tarde”, justifica, lembrando que também quer “dar um contributo”. Tem toda a razão Albino, a afirmação, infelizmente, não traz nenhuma informação nova … realmente somos tão poucos e lá nos dividimos mais do que povos que são muitos … já era chegada a hora de pararmos para refletir a nosso respeito, pois “aos poucos vamos acabando …”

Clique abaixo para ler em arquivo pdf as 2 reportagens do JTM:

Jornal Tribuna de Macau.Out2011.ADM.15Anos.1

Jornal Tribuna de Macau.out2011.ADM.15.anos.2

Memória de Macau “à venda”

Para quem não leu no Jornal Tribuna de Macau edição do dia 19 (hoje no Brasil e ontem em Macau), divulgo a reportagem abaixo na qual 2 pedras, uma com a inscrição de brasão português, e outra que consta “Anno 1912″, ou 99 anos de idade, estão à venda por uma bagatela de 300 mil HK$, ou cerca de US$ 40mil.  Quer comprar? Ah… se fosse rico, compraria sim. Não se brinca assim com a nossa memória!!! Até, de repente, passou um filme na minha cabeça … aquela da estátua Ferreira Amaral … coitadinha … abandonada num terreno baldio (ou será que já a transferiram para um lugar apropriado à sua grandeza? Os amigos de Portugal é que saberão dizer, ou numa viagem minha pra lá, vou constatar e fotografar)

Clicar na foto abaixo para ampliar e ler melhor:

Rigo Rosário Jr. lembra os Pequenos Cantores

Você se lembra dos Pequenos Cantores do Colegio Dom Bosco? Saudades, ? Quando em Macau, gostava de assistir às suas apresentações. Eram perfeitos e cantavam muito bem.

Pois é, o Api no seu artigo de Memórias de Um Músico Macaense (Revista Macau Junho 1998), publicado na íntegra no Projecto Memória Macaense, neste link, lembra dos Pequenos Cantores no texto abaixo:

Padres, bandas e cantores

Nessa época, já não existia a Banda da Câmara Municipal regida pelo Constâncio da Silva e posteriormente pelo Placé. Em seu lugar havia a Banda da Polícia de Segurança Pública, que era formada por elementos daquela corporação, na maioria antigos alunos do Colégio Dom Bosco.

Esse colégio, por sua vez, teve a sua própria banda, onde muitos futuros músicos aprenderam o primeiro solfejo. No início, o padre Albino (o decorador do salão de festas do Clube de Macau, antes da sua ordenação) dava aulas de música e regia a banda até ser substituído pelo padre italiano César Brianza.  O padre Brianza, sobejamente conhecido, além de reger a banda do colégio, passou a dirigir também a Banda da Polícia e fundou o coral dos “Pequenos Cantores”, que chegou a dar concertos na Europa e em vários países do Extremo Oriente. O coral durou apenas enquanto o Padre Brianza o regeu e teve um final melancólico nos anos 70. A sua última apresentação foi no Cemitério de S. Miguel Arcanjo, durante o cortejo fúnebre do sacerdote-músico, acompanhado por numerosos amigos e admiradores.

Também o Colégio e Instituto Salesiano possuía a sua banda de instrumentos de sopro, que acompanhava procissões religiosas e fazia apresentações noutros colégios. Mas era a Banda do Colégio D.Bosco que participava em paradas da Mocidade Portuguesa e nas efemérides comemorativas.  Uma única tuna carnavalesca sobrevivera nos anos 50-60: a do “Negro-Rubro”, conhecido agrupamento oficial do Corpo de Bombeiros. A sua formação era quase exclusiva de elementos daquela corporação e as suas apresentações já não decorriam nos locais tradicionais das décadas de 30 e 40.  Muitos dos seus músicos participavam também da orquestra do dr. Pedro José Lobo.

Uma Macau moderna, antiga e humana, conheces?

“Estive em Macau várias vezes, após a minha imigração para o Brasil, nasci lá, mas a Macau deste vídeo, interessante, não a conheço.  Tento acreditar que é ela mesmo, me belisco, iou chubi iou, mas ainda tenho dúvidas que essa é a Macau, minha terra natal” …

Falando sério agora, mas que belo e incrível vídeo … líndissimo e muito bem produzido.  Uma criatividade incomparável, está de parabéns o Turismo de Macau.  Vou ter o máximo prazer de repassar para os meus contatos brasileiros, para que conheçam esta Macau que bem mostraram a sua diversidade cultural.  Isto sim, é a forma correta de conduzir a Macau hoje chinesa, que o povo chinês saiba que a nossa terra é diferente de outras cidades da China, até de Hong Kong, e assim deve ser preservada.  Bom para o turismo, bom para os negócios e bom para mostrar ao mundo a boa vontade de uma transição pacífica. Imaginem que até a moça chinesa é católica.  Estava a rezar na Igreja de São Domingos …  Queria realmente um dia poder ver o grupo folclórico português a dançar nas ruas, tal como no vídeo, emboras nas minhas curtas visitas nunca o vi, fora dos palcos do Encontro.

Assim, vamos assistir o vídeo, embora muita gente já o tenha visto, tal a quantidade de e-mails repassados.  Mesmo um tanto ficção, mas viver o sonho desta Macau:

Touching Moments – Experience Macau / Momentos Memoráveis – Sentir Macau

Atualidades, Macau Setembro 2011

Macau, 7 de Setembro de 2011.  Simplesmente, muiiiitaaaa gente.  Haja espaço para andar, um tal de empurra-empurra. Este é o cenário da Macau-China.  Uma enchente de gente especialmente proveniente do Continente.  Penso que muitos querem conhecer esta cidade outrora portuguesa, ou de casinos.  O lugar? O ponto mais visitado: a ladeira de acesso às Ruínas de São Paulo.  Praticamente é impossível tirar uma boa foto do principal ponto turístico de Macau, tal como se podia fazer antigamente.  Uma vez consegui a proeza de no horário de almoço, fazer um ensaio fotográfico das Ruínas com pouca gente, mas isto ocorreu há alguns anos atrás em 2006.  As fotos podem ser vistas no PMM-Fotos de Macau e em vídeo no YouTube

Macau pronta para a Festa Lunar (Pát Iit Sáp Uhm – será que acertei com o meu pobre chinês?), ou seja, 15º dia do 8ª lua (do calendário chinês).  A decoração, para quem não conhece Macau, está localizado em pleno centro da cidade, no Largo do Senado, um espaço ainda preservado.

Vejamos o que o site do Governo da RAEM diz a respeito desta festa: “A festa é dedicada à Lua pois realiza-se no décimo quinto dia da oitava lua do calendário lunar. Confeccionam-se bolos lunares, que são oferecidos a familiares e amigos. Dado que a sua preparação requer que os ingredientes sejam batidos e misturados. Ao cair da noite muitas pessoas se juntam a observar a lua e para tal transportam lanternas das mais variadas formas e cores (é por isso também chamado a festa das lanternas). Em Macau as pessoas juntam-se tradicionalmente junto aos lagos Nam Van, nos jardins da cidade e nas praias em Coloane, onde por vezes as pessoas deixam as suas lanternas flutuar.”

Eu, particularmente, não gosto do bolo lunar.  O recheio não me agrada.  Em São Paulo, no bairro oriental da Liberdade, podemos comprá-lo, além de outros doces/salgados alusivos à data.  Muitos vêm embalados em belas latas decorativas.  Algumas trazem “Made in Macau”. Dá para matar as saudades da nossa terra!

Feliz festa do bolo lunar!!!

* Fotos e informações de Rui Francisco (Macau)

O inconfundível Johnny Reis

*um texto de Cecília Jorge – Revista Macau Junho 1998

João Sameiro Afonso ReisJohnny Reis, para a comunidade macaense que o “adoptou” — prepara-se para a reforma ao sol do Algarve, a ocupar-se da neta predilecta.  Ao fim de trinta anos, completados em 1996 como “músico” semi-profissional, além da Função Pública, vai sobejar-lhe tempo para descansar e recordar peripécias na cena do “show-bizz” local, algumas já referidas no artigo de Rigoberto do Rosário que a Revista MacaU publica.  Natural de Braga, veio para Macau em 1939 numa comissão de serviço do pai que acabou por se prolongar por causa do deflagrar da II Grande Guerra e posterior entrada do pai para o Corpo da PSP. Foi adiando o gozo da licença a Portugal e o seu primeiro regresso à terra natal, de onde saíu ainda criança, deu-se só em 1993. Considera-se “macaense”.  “A música ajuda as pessoas a viver a vida”, refere ao explicar a estreita ligação (sua e dos seus “conterrâneos”) a esta forma de passar o tempo.

Com a mesma voz de timbre quente, com que encantou quem o ouviu cantar durante tantos anos em nights-clubs, festas e festivais, e foi apresentando programas radiofónicos e noticiários, diz-nos que a memória o trai quando quer referir datas e alguns nomes. Mas se o diálogo se proporcionar, as cenas avivam-se e a “voz” também, com a fluência das palavras que nunca se deixaram contaminar pela pronúncia típica de Macau.

No início da aventura musical — mais ou menos em 1966, ainda a Rádio Vila Verde se situava na esquina da Francisco Xavier Pereira —, Johnny, Nuno e Alberto Senna Fernandes, Tony Hyndman, Sonny Gomes e Kenny Barnes entretinham-se a “fazer música”. Nessa altura, os dois últimos, mais profissionais, marcavam o ritmo “batendo as palmas”… Os agrupamentos mais certinhos vieram depois, como os uniformes: com camisas axadrezadas com faixas “à toureiro”, a princípio, depois blazers, cinzentos, e mais tarde vermelhos. (Os “Rockers”, assinalados com o monograma R, e os “Four Aces” com quatro ases, de naipe diferente para cada componente).

Tocaram em todos os locais onde era possível tocar — recorda hoje Johnny Reis. Tocavam igualmente todos os instrumentos em que pusessem as mãos, apreendendo todos “de ouvido” e uns com os outros…

A carestia de vida e do equipamento levou inclusivamente a que, uma vez, a avalizar um empréstimo pedido a Guilherme Silva, gerente da Pousada de Macau, para compra dum xilofone, providenciassem música de dança no seu restaurante durante uns tempos.

Mas, se foram muitas as actuações do grupo, que mudou mais de nome do que de componentes — tocando no Hotel Riviera, no Bela Vista, no Estoril, na Pousada de Macau, no “Helena” que ficava na Ponte-Cais nº 16, em todos os Clubes e Associações, no Clube Recreio e até no Indian Club de Hong Kong, mais foram as oportunidades perdidas.  Tratando-se de funcionários públicos que se agrupavam pelo gosto da música, pelo prazer de entreter amigos e um público animado, e para complementar o salário, as limitações da pesada burocracia dos anos 60 e 70 impediram-nos de “voar mais alto”.

Johnny ainda hoje lamenta não terem podido aceitar um convite do “Paramount” de Hong Kong para substituirem “Giancarlo and his Combo” naquela boite de luxo ou mesmo noutras actuações em Hong Kong. E Mário Sequeira lembra-se dos problemas , depois da transferência para “a outra banda” (Ilha da Taipa), com autorizações para ir a Macau actuar em festas, ou por exemplo no Macau Palace. Transportes, só em tancares ou barcos condicionados à maré. Mas vezes houve também que a timidez e relutância dos camaradas do grupo os impediu de actuar em programas de grande audiência da Televisão de Hong Kong.  Estreou-se na emissora VilaVerde, que começou a funcionar em 1948 com Johnny Alvares como engenheiro de som e seu irmão Walter Reis, locutor.  Acabara de sair da tropa. E apresentou programas como os “Hit Parade”, “Yours for the Asking” (em inglês) e os “Request”, de grande audiência, porque dias havia em que o carteiro despejava na emissora quilos de cartas com pedidos de discos e se preenchiam 5 folhas A4 com dedicatórias de cada canção. Eram tantas e tão fiéis as radiouvintes que chegou a ser necessário apaziguar pais que julgaram atentatório do bom nome das filhas a frequência alarmante de dedicatórias públicas dos (múltiplos) enamorados. Alegavam forte “distracção em horas de estudo”. E o meio-termo foi a proibição de inclusão de apelidos.  A voz de Johnny era inconfundível. E contudo, quando uma vez, em desespero de causa, quis evitar o pior no seu programa “Disco-Mistério” (oferta de discos de 45 rotações a quem identificasse o vocalista), e cantou com música de fundo, não houve um único ouvinte que o reconhecesse. É claro que disseram ser batota… mas o certo é que já pesava estar a custear ele próprio os prémios, quando lhe faltou o financiamento prometido. Graça teve também aquela vez quando, habituado a improvisar, e depois de anunciar o início da transmissão do “Terço do Bairro”, teve que fazer as vezes do sacerdote que faltou.

Era indiscutivelmente um bom profissional da rádio, pela experiência, pela dicção, pela voz, pela presença, e simpatia contagiante. Lembra-se das últimas locuções na Vila Verde, quando durante os incidentes de 1966 teve que ler comunicados oficiais à população na qual se minimizava a situação, ao mesmo tempo que, pela janela aberta do estúdio se ouviam disparos e o tiroteio na cidade. O canal em língua portuguesa encerrou pouco depois.  E Johnny passou a funcionar na ERM, localizada na torre do edifício dos CTT.

Ruby de Senna Fernandes, uma das poucas intérpretes locais do fado e música ligeira na década de 60, acompanhada pelos “Rockers”

Macau e a Sé Catedral, anos 1870 e 1900

Macau, vista da Praia Grande em 1870.  Observem na lateral esquerda, o Palácio do Governo.  Quase no centro da foto, mais para a esquerda, a Igreja da Sé ou a Sé Catedral que ainda tinha as 2 cúpulas originais.  Segundo a Wikipédia, a Igreja foi construída em pedra e consagrada em 1850.  Antes, era uma pequena ermida de madeira. Porém foi seriamente danificada por um tufão 24 anos depois (1874) e sofreu grandes reparações. Talvez as cúpulas foram danificadas tendo que ser refeitas, porém modificadas.

Esta foto tirada da Fortaleza do Monte em 1900, mostra as 2 novas cúpulas da Igreja da Sé após a reconstrução relatada acima e similares ou iguais às de hoje. Nesta época, a Praia Grande ainda não tinha sofrido aterros, o que mostra a Igreja mais próxima do mar.  Do lado direito pode-se ver o prédio do Leal Senado, imponente, destacando-se no meio de construções menores.

Cronologia:

1870 – foi fundado o Grémio Militar, mais tarde Clube Militar.

1900 – em 18 e 19 de Julho, foram bombardeadas posições dos piratas e seu desalojamento da ilha de Coloane pelas guarnições da canhoneira Pátria e da lancha-canhoneira Macau (veja a história no Projecto Memória Macaense – na página-guia Macau), e em 5 de Outubro foi implantada a República em Portugal.

(clicar nas fotos para aumentar)

*fonte: Álbum Macau/Fundação Oriente/Cecília Jorge/Beltrão Coelho

Boletim – ENCONTRO do Padre Moreira

(clicar para aumentar)

Para quem era da Diáspora, como eu, o Boletim – Encontro – era uma ligação com Macau.  Recebiamos gratuitamente pelos Correios e viamos algumas notícias de nascimento, falecimento, casamento da gente da nossa terra, entre outras.  Em contrapartida, alguns enviavam as suas contribuições em dinheiro para ajudar o jornal a sobreviver.  Hoje já não há mais publicações que trazem essas informações.  O PMM procura contribuir com notas de falecimento, quando recebe tal comunicação da comunidade. Infelizmente, só tenho este boletim.  O único que sobreviveu.

Neste número de Abril de 1987, o Padre Manuel Moreira, que era o Director e Editor, anunciava a sua partida de Macau, como explicava no texto abaixo que foi publicado na 2ª. página:

ÚLTIMO ANIVERSÁRIO?

Como afirmei em 1986, tenciono este ano deixar esta terra e ir trabalhar o resto da vida na diocese que me viu nascer – Leiria. E quais as razões desta decisão? São muitas, mas a que mais pesou neste passo (e já lá vão mais de seis anos) foi ver uns com tanto e outros com tão pouco. Macau, económica e espiritualmente vive na abundância (eu diria mais: na superabundância), enquanto que noutras terras, mesmo em Portugal, há tantas freguesias sem um sacerdote, tanta gente a viver na maior pobreza espiritual!

Depois de 39 anos de permanência nesta cidade e de 36 de entrega ao serviço das almas, creio que já é tempo duma mudança que faz sem¬pre bem, física, espiritual e apostólicamente falando.

ENCONTRO, que nasceu em 1959 na paróquia de S. Lourenço para os paroquianos da mesma freguesia, em 1974 passou a ser a voz de todas as paróquias de Macau, perfazendo este ano 13 anos de vida como Boletim Interparoquial Mensal da Comunidade Portuguesa.

Ao dar entrada no 13°. da sua existência, não haverá alguém que lhe queira dar continuidade? Caso não apareça nenhuma alma caridosa, ENCONTRO terá só mais dois meses de vida; mas não posso conformar-me com tal pensamento, pois ninguém gosta de ver desaparecer uma obra que viu nascer e acompanhou ao longo de tantos anos. Dinheiro não lhe falta, como todos podem ver. Graças à generosidade dos seus leitores e amigos nunca precisou de pedir esmola a ninguém, e hoje apresenta-se com um saldo que ultrapassa as seis mil pataças.

Como a esperança é a última coisa que se perde, confiamos que haja algum samaritano disposto a carregá-lo, paciente e persistentemente, às costas, tudo fazendo por que a sua luz, que é a do Evangelho, que é a do mesmo Cristo e da sua Igreja, chegue a todos os lares onde se fala a língua portuguesa, gratuitamente como tem continuado até à data.

A maior alegria que posso ter neste aniversário é a esperança de saber que o ENCONTRO não morrerá mas que continuará vivo e até mesmo ressuscitado com uma vida nova. Com esta esperança quero agradecer a quantos, dum modo ou doutro, me têm ajudado nesta caminhada até ao dia de hoje, sendo de salientar a generosidade nunca desmentida de tantos “benfeitores” e o auxílio de tantos legionários que, mensalmente, perdem várias horas na dobragem e colagem de selos e endereços, e ainda na distribuição às várias igrejas e domicílios. A quantos me têm ajudado, sobretudo nestes 13 anos, o meu sincero e profundo muito obrigado. “

Pe. Moreira

Padre Moreira no Terço do Bairro

O boletim Encontro está publicado na íntegra, em 8 páginas,  no Projecto Memória Macaense – Ecos do Passado Bom para imprimir e guardar de lembrança. Uma homenagem ao Padre Moreira e seus colaboradores que direta ou indiretamente contribuiram para a sua existência e distribuição.

Tese de mestrado de Alexandra Rangel: Comunidade Macaense

“Esta dissertação de Mestrado é sobre os macaenses, os “filhos da terra”, descendentes de várias gerações de cruzamentos de portugueses com orientais, resultando desta miscigenação uma comunidade com características próprias. A culinária, o dialecto (patuá) e as festividades tradicionais demonstram a base cultural portuguesa e as influências recebidas dos países asiáticos vizinhos do território com mais de 400 anos de presença portuguesa, devolvido à China em Dezembro de 1999. Actualmente, Macau é uma Região Administrativa Especial da República Popular da China, regida por uma Lei Básica, elaborada em conformidade com a Declaração Conjunta Luso-Chinesa, firmada em 1987. Esta Lei garante aos residentes do território, incluindo os de ascendência portuguesa, a manutenção da sua maneira de viver e os direitos que tinham anteriormente. É feito um enquadramento histórico, para que melhor se compreenda o nascimento e o percurso desta comunidade, e são identificados os desafios que se lhe colocam, hoje, bem como o seu singular legado cultural.
Abstract: This Master of Arts thesis is about the Macanese, the filhos da terra (the “sons of Macau”), who descend from several generations of intermarriages between the Portuguese and Asians. The miscegenation resulted in a community with specific cultural traits. The cuisine, the dialect and the traditional festivals show us the Portuguese cultural base mixed with influences received from the neighbouring Asian countries. Macau was handed back to China in December of 1999, ending more than 400 years of Portuguese presence. Macau is presently a Special Administrative Region of the People’s Republic of China and its Basic Law was written in conformity with the Sino-Portuguese Joint Declaration which was signed in 1987. The Basic Law guarantees the way of life and the rights the residents – including those of Portuguese descent – enjoyed before the handover. A historical background is provided for a better understanding of this community, from its beginning until today, and the new challenges it is facing, as well as its important cultural legacy, are identified.”

No link abaixo, clique na ligação constante do quadro “Ficheiros deste Registo” e vejo o belo trabalho da Alexandra Sofia de Senna Fernandes Hagedorn Rangel, filha de Jorge Rangel do IIM-Instituto Internacional de Macau:

http://repositorio.ul.pt/handle/10451/3906

ou veja no arquivo em pdf abaixo (11 Mb) – clicar para abrir:

Alexandra Rangel tese mestrado ulfl081900_tm (fonte: site da Universidade de Lisboa na ligação acima)

*Divulgação possível graças ao e-mail de Maria João Santos Ferreira, macaense e bibliotecária do Museu de Ciência de Lisboa, e autora de livro de receitas da gastronomia macaense. Obrigado!

Vasco Rocha Vieira e o arriar da bandeira portuguesa

Esta cena certamente não sai da memória de muitos portugueses e macaenses.  Era o adeus da era portuguesa de Macau.  Encerrava-se ali no Palácio do Governo, em Dezembro de 1999, uma linda história que durou cerca de 420 a 440 anos.  Nós fomos privilegiados pelo destino para assistirmos a tudo isso. Poderia ter acontecido no futuro em que não mais estivessemos mais vivos.  Mas para os nossos avós, bisavós ou pais que não estão mais conosco,  se imaginassem que no futuro isso pudesse acontecer, então esse futuro somos nós. justamente na nossa geração.

Esta também era a sensação do Governador Vasco Rocha Vieira, ao relatar no seu livro “Todos os Portos a que Cheguei“: ” senti que não era eu que estava ali. Eram muitas gerações. Senti que era um momento que representava séculos de história. Que representava o esforço e a vida de gerações e gerações de portugueses“.

Pedindo permissão ao Pedro Vieira/Gradiva Publicações/Guilherme Valente e ao Governador Vasco Rocha Vieira, reproduzo abaixo trecho do livro que descreve aquele momento do arriar da bandeira portuguesa, no Capítulo XXIV – Memória de um gesto:

Às 17 horas, precedidos pelos filhos, o general Vasco Rocha Vieira e a sua mulher saem para o pátio onde está tudo a postos para o solene arriar da bandeira nacional. Enquanto se cerram as portas do Palácio da Praia Grande, Leonor e os seus filhos vão tomar lugar na extremidade mais afastada da primeira fila dos convidados e o Governador dirige-se para o pequeno estrado de onde irá presidir à cerimónia. No exterior estão alguns milhares de pessoas — macaenses, portugueses e chineses — que acorreram ao palácio. Ao som do Hino Nacional, a Bandeira Nacional desce lentamente no mastro do Palácio da Praia Grande. Uma linha invisível une o olhar de Rocha Vieira ao escudo português no frontão do edifício que constitui a expressão física do poder de Portugal em Macau. «Enquanto se tocava o hino e olhava para a esfera armilar com o escudo, senti que não era eu que estava ali.

Eram muitas gerações. Senti que era um momento que representava séculos de história. Que representava o esforço e a vida de gerações e gerações de portugueses. Ao olhar para o escudo, sentia que era Portugal que estava ali», diz.

Depois de arriada e dobrada por elementos da guarda de honra, a Bandeira Portuguesa foi colocada sobre a bandeja.  Quando o Governador a recolheu, levou-a ao peito sobre o lado esquerdo. E foi de bandeira ao peito que caminhou ao longo da passadeira vermelha até à viatura oficial parada na estrada, à esquerda, o lado por onde se conduz em Macau. Pôde assim entrar directamente no carro, enquanto a sua mulher entrava do outro lado. Já no interior do automóvel, confia a bandeira ao tenente-coronel Tiago Vasconcelos, que a guarda numa pasta previamente preparada para o efeito. A viatura iniciou então a marcha por entre as pessoas aglomeradas nas imediações a acenarem em gestos de adeus.

Apesar da grande emoção, o Governador não deixou escapar uma lágrima durante a cerimónia. Para Rocha Vieira, «controlar-se não é uma questão de ser frio, é uma questão de ser racional».

Chorar é «uma expressão interior, muito pessoal», que ele considera que lhe estava vedada. «Não tenho o direito de o fazer quando sou intérprete de algo que me transcende a mim próprio.

Mas eu não estava a ser frio. Estava muito emocionado.»”

O site Projecto Memória Macaense em Macau, Ecos do Passado publica 3 páginas a recordar a Macau da era portuguesa, que consiste da mensagem do Governador no website oficial do Governo com a História, Geografia e População na versão portuguesa.  Traz também a biografia do Governador e o seu pronunciamento do que espera da transição e o futuro, bem como do Presidente da República Portuguesa, Jorge Sampaio.  Jorge Rangel, Salavessa da Costa e Anabela Ritchie em suas entrevistas ao Diário de Notícias também tocam no mesmo assunto.  Vale a pena dar uma olhada! Veja a partir deste link – http://rpdluz.tripod.com/projectomemoriamacaense/macau.ecos.passado.2.html – depois localize as ligações para as 2 páginas seguintes.

Veja o vídeo desta cerimónia do Palácio do Governo no canal da YouTube de hbcdias:

A revista Oriente / Ocidente

Esta crónica foi publicada no Jornal Tribuna de Macau em 18/07/2011 assinada por Jorge Rangel, que traz informações que valem uma boa leitura.  Faz parte da sua série que tem livro publicado com o mesmo título – Falar de Nós

- Falar de Nós - 

Oriente / Ocidente – vinte e seis números publicados

Jorge A. H. Rangel*

É este património, tangível e intangível, do terreno da memória e do futuro, que o Instituto Internacional de Macau se propõe, desde a sua criação, proteger e promover, em Macau e no mundo.

Do editorial do n.º 26 da “Oriente / Ocidente”

É sempre motivo de satisfação, para quem se dedica à preservação, valorização e divulgação da memória da sua terra e da sua comunidade, ver sair do prelo mais um livro, revista ou simples boletim informativo em que se fazem mais registos dessa memória e de acontecimentos e personalidades que dão sentido a uma comunidade viva, orgulhosa da sua história e parte activa na construção do futuro da terra onde nasceu ou onde vive e que foi o ponto de partida para a diáspora que as suas gentes laboriosamente criaram e consolidaram nos novos mundos que demandaram. Saúda-se, por isso, a publicação de mais um número da “Oriente / Ocidente”, revista do Instituto Internacional de Macau (IIM), ora em distribuição e cujo conteúdo é largamente dominado pelo último Encontro das Comunidades Macaenses, realizado em Novembro e Dezembro de 2010.

Vinte e seis números foram já publicados neste seu presente formato, desde que, de pequena “newsletter”, foi tendo o seu conteúdo, dimensão e arranjo gráfico crescentemente melhorados. Inicialmente coordenada por Luís Sá Cunha, os responsáveis pela publicação são agora Rufino Ramos, como editor, e José Mário Teixeira, como adjunto.

Os propósitos da revista

O editorial deste número explica bem os propósitos da revista:

“Macau sempre foi uma cidade vanguardista no processo da mundialização. Há já cinco séculos que assumiu o papel de plataforma entre os universos oriental e ocidental e, desde então, tem cumprido esse papel de uma forma única. Se bem que a sua localização geográfica foi, e é, um ponto importante neste processo, é certo que não foi exclusivamente graças a esse ponto, o sucesso alcançado pelo território. As gentes de Macau e as suas criações foram, indubitavelmente, a chave do êxito deste pequeno pedaço de terra. Gentes e criações que deram origem a um património identitário único no mundo, pela sua diversidade e harmonia.

É este património, tangível e intangível, do terreno da memória e do futuro, que o Instituto Internacional de Macau se propõe, desde a data da sua criação, proteger e promover, em Macau e no mundo. Lado a lado com Macau, a história do IIM é, também, uma história de sucesso.

A participação no Encontro das Comunidades Macaenses 2010 coroou um ano próspero do IIM, numa homenagem conjunta ao patuá, a personalidades, a instituições, a memórias… e a Macau. Nestes momentos de triunfo da comunidade sobre o esquecimento, criam-se espaços novos, num processo eterno de criação e manutenção da identidade macaense.

Para cada pessoa que parte, criam-se também espaços de homenagem e de memória. Henrique de Senna Fernandes, Leonel Barros e Lídia Cunha foram peças no processo de criação de Macau e merecem, também, um destes espaços, na memória de cada um e na identidade de todos.

Este número da ʻOriente / Ocidenteʼ é a prova disso.”

Um rico conteúdo

Várias páginas foram, assim, dedicadas à memória de Henrique de Senna Fernandes, Leonel Barros (Neco) e Lídia Lourdes da Cunha. “Macau sempre foi terra produtora de grandes homens e grandes histórias. Aventureiros ou contadores de histórias, homens das ciências ou das letras, os filhos da terra deixaram a marca de água, uma identidade que pertence, agora, a todos os que partilham este pequeno espaço, portal entre as dimensões ocidentais e orientais”. Quando esses homens e mulheres nos deixam para sempre, quem fica sabe honrar a sua memória. Foi assim ao longo de muitas gerações.

Os momentos mais significativos do Encontro das Comunidades Macaenses são evocados neste número, profusamente ilustrado com fotos dos acontecimentos mais marcantes, como a entrega do Prémio Identidade à União Macaense Americana e à Santa Casa da Misericórdia de Macau, a reunião do Conselho das Comunidades Macaenses, a recepção do Chefe do Executivo aos presidentes das Casas de Macau, a reabertura do espaço do velho edifício do Jardim de Infância D. José da Costa Nunes, totalmente remodelado, as sessões culturais e os animados convívios, sessões de lançamento de novos livros relacionados com Macau e a comunidade macaense e a simbólica oferta de uma aguarela do pintor russo Smirnoff ao Museu de Artes de Macau, intermediada pelo IIM e entregue pessoalmente pela sua proprietária, Cecilia Maria Yvanovich Burroughs. A aguarela é um retrato desta senhora, agora residente nos EUA, que Macau acolheu nos anos difíceis da Guerra do Pacífico e aqui residiu durante três anos. Visivelmente comovida, expressou a gratidão à terra que tão bem recebeu a sua família e tantos outros membros da comunidade portuguesa de Hong Kong e gentes de muitas origens.

Este número da “Oriente / Ocidente” contém, também, um extenso artigo sobre novas edições do IIM e reportagens sobre algumas das mais relevantes actividades levadas a efeito recentemente, como a continuação da itinerância da exposição “Macau é um espectáculo”, sessões de divulgação do patuá nas Casas de Macau, seminários realizados em várias partes do mundo, o programa DOCTV da CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, que o IIM ajudou a estender a Macau com a colaboração da TDM, a atribuição do prémio Jovem Investigador e de prémios do IIM a alunos da Escola Portuguesa de Macau, a assinatura do protocolo de cooperação que aproximou o IIM do Instituto Internacional da Língua Portuguesa, a sessão da AULP – Associação das Universidades de Língua Portuguesa realizada no auditório do IIM e a visita do Conselho Superior dos Institutos Politécnicos Portugueses a Malaca, organizada através do IIM.

Notícias da diáspora macaense e de encontros realizados pelo IIM com entidades oficiais (Chefe do Executivo da RAEM, Secretário-Executivo da CPLP, Secretário-Geral do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial da China com os Países de Língua Portuguesa, Presidente do Instituto Camões e responsáveis pela Expo Mundial de Xangai e do pavilhão de Portugal nesse certame) completam o conteúdo da revista.

Testemunho de Cecilia Yvanovich

Vale a pena ler o testemunho muito sentido de Cecilia Yvanovich:

“(…) Os japoneses ocuparam Hong Kong em 25 de Dezembro de 1941. Sendo de cidadania portuguesa, a nossa família não foi encarcerada pelos japoneses. Não viemos para Macau como as outras famílias senão quase em finais de Outubro de 1942, quando Hong Kong foi bombardeada pelos aviões americanos. Foi então quando o nosso pai decidiu que era tempo de a nossa família mudar-se para Macau. Meu pai e minha mãe, Vincente e Pureza Yvanovich, e os filhos, Teresa, Vincent Jr., Helen, Cecilia e John, embalámos o que foi possível e deixámos a nossa casa para virmos para Macau.

A Administração Portuguesa de Macau recebeu os refugiados portugueses de Hong Kong. As famílias eram alojadas em centros de refugiados mas nós fomos muito afortunados por nos ser possível habitar numa bonita casa na Estrada da Vitória, durante a nossa estada em Macau. A guerra acabou em Agosto de 1945 e em Outubro nós regressámos a Hong Kong.

 

São felizes as recordações que tenho desse três anos em Macau. As pessoas e a Administração não podiam ser mais hospitaleiras e amigáveis. Os residentes de Macau, com idade entre os 18 anos e os 30 e aqueles de Hong Kong, quase da mesma idade, rapidamente se tornaram amigos e muitas vezes se juntavam em festas, chás dançantes e outros eventos. George Smirnoff, que ensinou pintura a vários deles, juntava-se muitas vezes a nós. Foi através destas pessoas amigas de Macau que eu conheci George.

Ficarei muito contente e honrada quando o meu retrato figurar juntamente com as outras bonitas aguarelas de Smirnoff, das muitas paisagens que ele pintou de Macau.”

Em breve sairá a versão em chinês e inglês e o próximo número da edição portuguesa deverá ser distribuído no fim do ano.

* Presidente do Instituto Internacional de Macau.

Mulher Macaense, quem fala dela?

Guilhermina Pedruco, Miss Macau 1989

Acabo de assistir na tv a eleição da Miss Brasil 2011 que elegeu a candidata do Estado do Rio Grande do Sul, Priscila Machado, uma bela gaúcha da região mais européia do Brasil, vizinha da Argentina e do Uruguai.  As gaúchas são sempre favoritas, pois sempre trazem belas candidatas de uma região especialmente composta por imigrantes alemães, italianos e portugueses.  Mas não vim aqui para falar desse concurso, pois enquanto assistia o programa, por momentos fiquei a pensar na mulher macaense.  Quem fala dela?

Falamos da nossa terra Macau, da nossa memória, a comunidade, gastronomia, patuá, música etc … Boa parte das fotos publicadas aparecem mais homens que mulheres.  Até fiz essa observação achando que o que publicava, estava masculino demais.  Procuro o feminino, mas pouco material tenho.  São mais de homens músicos, hoquistas, futebolistas, alunos e ex-alunos etc. Mostrar a mulher macaense de hoje e de ontem? um pouco difícil.  Dei destaque para as belas Pedruco, misses de Macau, como nesta postagem, da Guilhermina em 1989, quando foi coroada com 19 anos de idade.

Se disserem que muitas, outrora belas nos anos 50, 60 …, já estão mais maduras ou com mais idade, então responderia, podemos falar delas dos anos 60, digamos, da minha época de ouro em Macau.  Tinha lá várias que eu admirava a beleza, mas não ouso falar os nomes (vais ficar mortinho de curiosidade, paciência! Fale você …)  Mas não necessariamente da beleza que temos que enaltecer, mas a mulher macaense em si.

A mulher macaense pode ser, puramente portuguesa, mestiça de português e chinês, macaense de múltiplas misturas como das Índias, Malacas, Timor, mestiça com inglês e daí por diante. Qual predomina? Diria a mestiça de português e chinês, ou macaense tradicional  com chinês? Pode ser! Ou então, poderiamos incluir a puramente chinesa, que no entanto, estudou em escola portuguesa e tem o nome português.  Acho que sim, porque não?

Fico imaginando coisas, como abrir páginas no Projecto Memória Macaense para abrigar referências à mulher macaense, ou abrir uma enquete para as pessoas colocarem os nomes das mulheres macaenses mais bonitas de uma época, por exemplo dos anos 50 e 60, ou … ah … imaginação!!! O caso é que tudo isso depende de colaboração externa.

Bom, divaguei sobre o tema.  Se pouco ou nada conseguir fazer, pelo menos toquei no assunto.  Falei da Mulher Macaense, lembrei-me de você !!! E a publicação das fotos desta beldade macaense, Guilhermina Pedruco, é um esforço para homenageá-la.

A propósito, se residisse em Macau, eu procuraria fotografar as mulheres macaenses e fazer ampla divulgação, para que o mundo conhecesse como elas são. Mas eu aqui, do outro lado do mundo, quanto posso fazer? Muito pouco.  Assim, uma sugestão aos amantes de fotografia em Macau e porque não, da Diáspora: tirem fotos, abram um álbum (Picasa, FlickR etc)  ou blog, ou Facebook, etc, e divulguem (me mande o link).  Se quiserem me mandar umas fotos, eu divulgo aqui ou no PMM. E olha que em Macau temos excelentes fotógrafos macaenses.

As fotos são da Revista Macau nº 18 de 1989.  Não há referências quanto ao fotógrafo.  Se alguém quiser comentar informando o seu nome, agradeço!

Hércules António, conheça-o

Na postagem Acervo de Hércules António pedia informações ou contato com um dos seus familiares, em função de um DVD que tinha em meu poder, das filmagens feitas por ele e que estão sendo repartidas em vídeos divulgados no YouTube pelo Projecto Memória Macaense.

Para minha alegria, o apelo foi atendido e tive o contato da Cremilda, sua filha, que gentilmente enviou dados sobre o Hércules António e várias fotos, além de uma crónica que ele escreveu para o Jornal Tribuna sobre as suas viagens.  O PMM abriu uma página no site (veja em Gente) com várias fotos e os 3 primeiros vídeos editados – o VI Grande Prémio de Macau, Parada Militar do Dia de Portugal e vistas de Macau dos anos 60 ou fim de 50.

Conheça então o Hércules António:

Hércules António nasceu em Macau, em 2 de Dezembro de 1922.  De pai português e mãe chinesa, casou-se em 21/Agosto/1949 com Ana Lisboa António com quem teve 5 filhos.  Estudou no Seminário de São José e na Escola Comercial Pedro Nolasco.

Na década de 50, trabalhou em Macau nos Serviços de Saúde e nos Serviços Sínicos.  Foi convidado para lecionar o primeiro curso de chinês no Liceu Nacional Infante Dom Henrique. 

Concluiu o curso de solicitador que lhe permitiu montar seu esritório após a reforma da função pública.  Abriu a sua fábrica de produção de porcelana em Macau que exportava para a Europa e Oriente Médio. Na década de 80, instalou em Portugal um armazém e escritório para venda de artigos orientais. Veio a falecer em Portugal em 25 de Fevereiro de 1985.

Amava viajar, tanto que escrevia para o Jornal Tribuna suas crónicas das viagens. Dessa paixão, tinha o sonho de comprar o seu barco de recreio que acabou se concretizando, e baptizou-o com o seu póprio nome.  Outro dos seus passatempos favoritos era de filmar, facto que possibilitou a montagem de diversos vídeos históricos aqui exibidos, e que o PMM na sua divulgação, os dedica à sua memória.

o barco de recreio era o seu sonho concretizado

Rádio Vila Verde

O texto abaixo é um trecho da recente divulgação do Projecto Memória Macaense, do artigo escrito por Paulo Rego na Revista Macau em 1994 com o título – Quando o Futuro era a Rádio. O link está na página de entrada ou na página-guia de Macau e depois em Histórias de Macau.  Na página você ouve o Bijú – John dos Santos Hetherland a tocar com o seu bandolim e back de seu arranjo – Só a Portuguesa – de Pedro Lobo, que era a música de abertura/fechamento da Rádio Vila Verde. A música se reproduz automaticamente ao entrar na página. Mate as saudades!

Eram aqueles tempos em que Macau ainda não tinha televisão.  Lembro-me que por volta de 1966 ou 1967, havia tentativas de captar o sinal diretamente de Hong Kong através de antena.  Até meu pai procurou ver essa possibilidade da varanda dos fundos da nossa casa na Calçada Tronco Velho. Enquanto isso, na falta de tv, ouviamos rádio, faziamos request e eu tinha o hobby de gravar músicas com o meu gravador de rolo que preservo até hoje. A rigor, a nossa vida sem tv era mais animada, mais humana.  Ao invés de ficar sentado diante de um aparelho de tv, a gente saia para comer fora, ir ao cinema, reunia-se com amigos, passeava, etc. etc.

A Rádio Vila Verde

(um texto de 1994 por Paulo Rego – Revista Macau)

A essa rádio de serviço público surgiu um único complemento sério. Pedro José Lobo, figura proeminente da sociedade macaense, sustentou durante mais de uma década emissões em português na Rádio Vila Verde. Uma paixão na qual ainda hoje se reconhecem contornos de alguma ambição, e que sangrou significativamente os seus vastos rendimentos. A 6 de Março de 1952, depois de longo período de experimentação, entrava no ar a Rádio Vila Verde, com emissões em chinês e em português. A língua inglesa tinha tratamento especial e entrava também na emissão através da opção simultânea bilingue.

Velhos e bons tempos, comenta, saudoso, Johnny Reis (na foto, o do centro). Actualmente a dirigir o arquivo discográfico da Rádio Macau, um dos mais antigos profissionais de rádio no território, está agora afastado do microfone, à frente do qual interpretou cerca de quatro décadas de transmissões em Macau. o recurso a actividades complementares ao serviço em antena provoca-lhe saudades. é certo. mas nenhum lamento transparece no discurso reconstitutivo de memórias confessadamente pouco vincadas. Pelo contrário, Johnny Reis deixa transparecer alguma “inadaptabilidade” aos novos conceitos imprimidos na rádio moderna. As condições técnicas precárias e os velhinhos “78 rotações” exigiam maior presença do autor dos programas; a televisão estava muito longe de fazer a sua aparição avassaladora na estatística das audiências; e a estratégia personalizada das emissões reflectia verdadeiros diálogos inesquecíveis com os ouvintes. Johnny Reis opta mesmo pela crítica: Não posso conceber duas músicas seguidas sem intervenção do locutor. explica. e hoje ouço programas inteiros durante os quais a sua presença mal se nota. Puxando dos galões da experiência, Johnny Reis vinca essa saudosa convicção: Há sempre qualquer coisa a dizer aos microfones!

São marcas de um passado com alegrias inesquecíveis e tristezas inconfessadas. Johnny Reis, pragmático confesso e observador desatento, repescou ainda na memória um dos seus dias de maior emoção radiofónica. Infelizmente, diz, reconheceu posteriormente ter vivido em simultâneo o prenúncio dos últimos dias para as emissões em português na Rádio Vila Verde. Nos finais de 1966 a revolução cultural chinesa empolou temores de intervenção no projecto de Pedro José Lobo. O empresário deixou cair o canal português, cedendo aos argumentos do perigo de ataque à estação. Dias antes, Johnny Reis pressentira o início do fim do sonho privado em português: Aquela noite sem fim com leituras de comunicados do governador fica marcada mesmo em memórias distraídas como a minha. Das 18 às sete da manhã. mantivemos diálogo permanente com a população. Fechado no estúdio, numa rádio longe do actual conceito retocado de omnipresença, via repórteres, Johnny Reis estava afinal longe de saber o que realmente se passava. Era a rádio, contudo, o elo de ligação com a mensagem possível.

O canal chinês da Rádio Vila Verde ainda hoje emite, constatação reveladora do imperativo económico do fecho do canal lusitano, acelerado na altura pela conjuntura política desfavorável. As emissões cantonesas, essas podiam sobreviver em Macau, sem défice, segundo lógicas comerciais… Claro está, em razão de um painel publicitário com alvos definíveis no seio da grande maioria da população. O que à história nenhum circunstancialismo retira são emoções ao microfone vividas por testemunhas oculares como Johnny Reis. No fundo, como em todas as situações de crise, Macau pôde, já então, beneficiar de uma corrente presa à racionalidade informativa. À escala própria do amadorismo então vigente, ouvidos colados ao receptor criaram amigos indispensáveis: os “heróis” da versão audível.

Armando Rozário, quem é ele?

O Armando Rozário descobriu o Projecto Memória Macaense nas suas profundas pesquisas na Internet.  Dizia que foi por uma referência ao site na sua pesquisa sobre o seu antigo professor de inglês, Padre Cooney S.J que lecionava no Colégio São Luís Gonzaga em Macau e Wah Yan College em Hong Kong, de 1943 a 1947 .

Desta feita, passou a enviar-me material muito valioso, entre os quais, a fotografia mais antiga de Macau, de 1844 e outras tantas fotos e informações, como o mais antigo livro impresso em Macau e a origem da nossa denominação – Macaense ou Macaensi – que data desde 1588 (postagens em breve e no PMM)

Ele mora no Cabo Frio, bela cidade litorânea do Estado do Rio de Janeiro, Brasil. Sua apresentação: “minha avó chinesa nasceu em Macau. Do lado da minha mãe, tenho sangue francês e chinês.  Meu pai, Arthur Rozário é macaense e nasceu em Hong Kong. O nome de solteira da minha mãe é Henriette Marie Louise Demée. Sou primo do Luís Demée, o famoso artista macaense“. Tem vários parentes a residir nos EUA e Canadá.

Pelo seu importante trabalho realizado no Brasil, que verão no “perfil” na próxima postagem, gente famosa literária fez referências a ele nas suas crónicas, quando o assunto era a ameaça ao Rio São João com a construção de uma usina, tais como:

Carlos Drummond de Andrade, poeta e contista brasileiro, no Jornal do Brasil 1978, num dos trechos da sua crónica  “O Rio, Os Pescadores, A Morte”, escreve: ” … Conclusão feita de perguntas não é conclusão. Mas resta a impressão de que, para exigir do Governo o cumprimento mais positivo de suas obrigações sociais, devemos também exigir de nós mesmos o funcionamento de nosso espírito público, do nosso sentimento de comunidade. Como fez agora esse fotógrafo Armando Rozário, nascido em Hong-Kong, filho de um chino-português e de uma francesa, amante das doces praias de pescadores do Rio São João. Vivendo a vida desses homens simples e indefesos, senti aproximar-se o perigo que vai desabar sobre as águas, e botou a boca no mundo. Sua campanha começa a ocupar a atenção dos grandes jornais. Que ela sensibilize a população e salve o rio, ameaçada de morrer como habitat natural, é o que a gente deseja. De qualquer modo, vale como exemplo. A defesa da Terra começa no interior de cada um de nós, como se aperta um botão de luz.”- Carlos Drummond de Andrade, Jornal do Brasil, Junho de 1978

Otto Lara Rezende, outro famoso  jornalista e escritor, na sua crónica “Barra Poética” publicada no jornal “O Globo” em Julho de 1978, cita num dos trechos: “… É essa pátria de sonho e realidade, poética, que aqui está visível, graças ao
milagre do pincel de Pancetti e da câmara de Armando Rozário. Sou insuspeito para falar, porque sou amigo de ambos. Conheci e freqüentei Pancetti, sua arte reveladora, criadora e preservadora de beleza; também da beleza natural, como é o caso da sua série de telas do Rio São João.
O mesmo rio corre tranqüilo e indene nas fotografias desse mestre fotógrafo que é Armando Rozário. Encontrei-o e admirei-o assim que chegou ao Brasil. (1955). Rozário veio de longe, do outro lado do mundo, da China, de Macau,
para aqui nos descobrir o que, por amor do belo, deve permanecer intacto. Como Casimiro de Abreu, Rozário tem sangue português. Ao contrário de Casimiro, sua arte não se derrama para além de uma disciplina que lhe é essencial ao equilíbrio. Numa vida curta, o poeta romântica juntou as duas margens do Atlantico na mesma sensibilidade. Numa vida que desejamos chinesamente longa, o fotógrafo realista traz na sua refinada sensibilidade os dois extremos do
mundo”.

Enfim, para conhecer melhor este macaense de Hong Kong que teve importante papel na vida brasileira, talvez pouco conhecido entre nós, como eu que não o conhecia, veja a próxima postagem na crónica Um Perfil de Ruy Castro. Assim, caro Armando Rozário, justiça seja feita, o seu trabalho passa a ser conhecido pelos leitores deste blog e do site Projecto Memória Macaense.  Parabéns pelo seu belo trabalho e estamos orgulhosos de você!!!

Dóci Papiaçám di Macau – vídeos de 1999

O grande Zito Estorninho, “um cara muito legal” como se diz no Brasil, divulgou no seu canal do YouTube, de pseudónimo ZitoDrummer, vídeos do coral do Dóci Papiaçám di Macau gravados no Centro Cultural de Macau em 05 de Outubro de 1999, antes da transição. Mais uma vez o Dóci nos emociona com as suas canções em patuá e belas interpretações.  O baterista do conjunto é o próprio Zito, sua especialidade. A cantora é a Isa Manhão, quando ainda tinha cabelos mais compridos.

Aqui vão divulgados o vídeo da canção Macau em patuá (de Rigoberto “Api” Rosário Jr./Thunders) que muitos choraram, inclusive eu, quando a ouvimos nas festividades da transição em Dezembro de 1999, inclusive postei este vídeo no YouTube. Então, vamos chorar de novo???!!! Outro vídeo é da bela canção tradicional de Macau - Bastiana – que também emociona e nos remete aos velhos tempos da nossa terra. Vejamos:

Macau em patuá

Bastiana

Parabéns Dóci Papiaçám di Macau, parabéns The Rockers, parabéns e obrigado Zito pela iniciativa da divulgação no seu canal de YouTube.

José Luís Pedruco Achiam … ele tem estilo !!!

Tinha 12 anos em 1994 e posa com a mãe (veja abaixo)

16 anos depois, no Encontro de 2010, faz seu show cantando Sabroso Nunca, em patuá

Acho que devem ter visto o vídeo-clip do (ou da) Dóci Papiaçám di Macau – Macau Sã Assi – algumas postagens atrás, no qual o cantor, o astro, é o José Luís Pedruco Achiam.

Para mim, um macaense da diáspora,  ele era um grande desconhecido, até que o Rigoberto “Api” Rosário Jr. avisou-me que ele era o cantor da canção-tema de sua composição (com adaptação de Miguel Senna Fernandes) da peça teatral “Sabroso Nunca”, que “por pouco” iamos assistir no Encontro 2010, mas que infelizmente não deu certo.

Ouvi a canção (vocês podem ouvir no Projecto Memória Macau – procurem pelo Guia Musical) e logo pensei “eis um novo astro e cantor macaense”.  Na festa da Gastronomia Macaense, ele foi o primeiro a se apresentar conforme a 2ª  foto acima, e percebi que “esse gajo tem estilo”, tem talento.  É mais um macaense da nova geração que desponta dentro do nosso limitado mundo artístico.  Segue a linha do outro talentoso macaense Germano Bibi Guilherme.

Penso que o José Achiam é um residente de Macau (?). Se assim for, ou não for, mas tem a divulgação em Macau, ele e tantos outros jovens macaenses residentes nos obrigam a refletir e a perceber que a maior esperança de continuidade e preservação da nossa cultura, está mais precisamente – em Macau.  Por conta de alguns contatos com esta gente jovem residente de várias áreas nos Encontros, e também a julgar simplesmente pelos videos do Dóci Papiaçám e do Miguel Senna Fernandes, vê-se que em Macau há uma boa participação dos jovens em várias atividades.  O potencial do futuro macaense mora em Macau.  A nova geração da diáspora, cumpre o seu importante papel de divulgar Macau e a cultura macaense nos países de acolhimento dos seus pais. Não podemos desprezar a sua importância e para tanto são bem-vindos os Encontros dos Jovens em Macau, bem como, não podemos deixar de dar o valor ao jovem macaense residente que tem boa participação em atividades de várias áreas ou que talvez poderia ter ainda mais, se houvesse um incentivo extraordinário. Na verdade, vocês residentes podem dizer melhor que eu, que moro no outro lado do mundo.

A 1a. foto faz parte do “Album – Macanese People – 1994″ da revista em inglês Review of Culture nº 20 do Instituto Cultural de Macau, com o belo trabalho fotográfico de Eduardo Tang Meng Wai.  Já divulguei outras fotos desse Album do António Robarts e das belas irmãs Pedruco.  Na foto, o José Luís Pedruca Achiam tinha 12 anos e consta que ele nasceu em Sidney/Austrália.  Ele posa com a sua mãe Luísa Maria da Silva Pedruco Novo, nascida em Macau, na época com 36 anos, secretária executiva e de pais macaenses.

Oração do Macaense, oração dos Portugueses do Oriente

ORAÇÃO DO MACAENSE

ORAÇÃO DOS PORTUGUESES DO ORIENTE

Deus, nosso Pai, que enviastes o vosso filho

Para participar das nossas fadigas e esperanças

E n’Ele colocastes o centro da vida e da história,

Olhais propício para a tribulação da comunidade Macaense,

E dos portugueses do Oriente, de Macau, Xanghai e H.Kong,

Aliviai a dor dos seus filhos, e confirmai a sua fé,

Para que encontrem sempre a solidariedade fraterna,

Que é a liberdade, paz e justiça no Vosso amor,

Vos pedimos por intercessão da Virgem Santa Maria,

Nossa Mãe e Padroeira, amém.

                    NOSSA SENHORA DE FÁTIMA

Protegei esta gente valorosa, que viveu sempre longe da sua pátria mãe Portugal, que procura firmar a sua identidade,

que procura ser reconhecida, que procura ser respeitada,  que não quer ser apátrida, que quer ser leal à sua formação, à sua nacionalidade, à sua bandeira, que quer afirmar para o resto da sua vida, que,

                 “Macau, não houve outra mais Leal”

Nota: Não me perguntem quem escreveu, pois está escapando da minha memória. Talvez na oração a N.S. de Fátima tenha uma adaptação minha.

“Bem-vindo ao Centro de Informações do Governo (português) de Macau” – memórias

Quem visitava o portal do Governo (português) de Macau até a transição em 20/12/1999, decerto deve ter lido a mensagem de boas-vindas assinada pelo Governador Vasco Rocha Vieira.  Eu, saudosista preventivamente, tive a sorte de tê-la copiado.  Já sentia que iria sentir muitas saudades no futuro, embora não imaginava que um dia teria um site e blog para divulgá-la, compartilhando com vocês essas lembranças de uma era em que nós, desta geração, fomos escolhidos para assistir ao momento histórico.  Porque não os nossos pais, avós, bisavós e assim por diante?  Justamente nós que tivemos que assistir ao fim de uma história que durou 420 ou 440 anos, ou mais! Vamos matar as saudades …

Dou as minhas calorosas boas vindas ao Centro de Informação do Governo de Macau na Internet, esperando que possam encontrar aqui algumas informações que despertem a vossa atenção para uma das mais extraordinárias experiências históricas, com mais de quatro séculos e meio, de convívio fraterno de culturas diferentes, de povos que se respeitam e de ligação estreita entre os valores culturais da Europa e os valores da milenária civilização chinesa. Nos tempos da globalização, das relações económicas que se desenvolvem no mercado mundial, Macau pode orgulhar-se de mostrar as portas do entendimento entre povos e entre culturas, pode orgulhar-se de ser um entreposto da confiança e da estabilidade.

É muito especial e muito profundo o relacionamento de Portugal com a China, estabelecendo um entendimento de raízes muito antigas e que continuará a existir além de 1999.

Em 20 de Dezembro desse ano, Macau passará a ser uma Região Administrativa Especial, integrada na China como um só país mas mantendo o seu sistema político e judicial próprio, onde se inscreve a tradição dos valores ocidentais da democracia representativa, da separação dos poderes executivo, legislativo e judicial, do respeito pela legislação escrita e pelo livre funcionamento dos tribunais, da defesa dos direitos humanos fundamentais. No marco simbólico da passagem do século, Macau será um exemplo das raízes seculares que ligam Portugal e a China, a Europa e a Ásia, o Ocidente e o Oriente.

No centro da área do Mundo moderno que regista o mais rápido ritmo de desenvolvimento e onde se processa a mais fascinante experiência de mudança social dentro de uma cultura de excepcional riqueza, Macau é um ponto de confluência das mais diversas correntes que estão a moldar o futuro mas que oferece a todos, habitantes e visitantes, a estabilidade, a serenidade, a confiança, com infraestruturas modernas, com um turismo desenvolvido e sofisticado, apoiado por um aeroporto internacional, com dinamismo empresarial e com grande vitalidade cultural.

A World Wide Web ofereceu-nos a oportunidade de viajarmos nas correntes da informação.

Venha a Macau atravessar as portas do entendimento, venha ver o futuro feito da mistura de culturas e fundado na confiança das raízes históricas e profundas. Venha ver a China e venha ver Portugal no Oriente. Agora e sempre.

O Governador de Macau,

Vasco Rocha Vieira

Nota: O Projecto Memória Macaense irá montar página de memórias do Governo português  de Macau e esta será a mensagem de boas-vindas.