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Ruínas de São Paulo: pensaram em reconstruir a Igreja … !!!

foto: Rogério P.D. Luz

As Ruínas de São Paulo em Macau são as ruínas da antiga Igreja da Madre de Deus e do adjacente Colégio de São Paulo.  Exemplo único da arquitetura barroca na China, a fachada em granito foi o que sobrou do incêndio que começou nas cozinhas do colégio em 1835, por volta das 18:00 às 20:15 hrs.  Em 2009, foi classificada como uma das Sete Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo.  Só que não teria obtido essa classificação e nem seria o principal ponto turístico de Macau nos dias de hoje, caso tivessem sido concretizadas as iniciativas em 1904 para a sua reconstrução.

Veja o que o grande historiador Padre Manuel Teixeira conta a respeito no seu livro Toponímia de Macau:

“A igreja começada em 1602, ficou concluída em 1603, sendo inaugurada na noite do Natal, tendo trabalhado nela cristãos japoneses fugidos da sua pátria devido às perseguições contra a religião.

A fachada levou muitos anos a construir. Peter Mundy diz que a obras de cantaria já estava pronta em 1637; Cardim informa que ainda em 1640 se colocou nela uma imagem de N. Senhora; em 1608, fez-se a porta da igreja, da banda de oeste com seu arco de pedra e o corredor do coro.

A 26 de Janeiro de 1835, um incêndio devorou completamente a Igreja e o Colégio de S. Paulo, ficando apenas de pé a fachada da Igreja.

Houve alguém que sonhou na reconstrução de S. Paulo.

O sonhador foi o dr. António José Gomes, que nós muito bem conhecemos.

A 4 de Dezembro de 1904, o bispo de Macau D. João Paulino d’Azevedo e Castro celebrou missa nas Ruínas de São Paulo e lan­çou a primeira pedra para a reconstrução desse antigo e histórico templo, destinado à futura igreja paroquial de Santo Antônio.

Subiu a um púlpito improvisado o Pe. Dr. António José Go­mes, pároco da Santo António que, num sermão empolgante, pediu fundos para essa obra. Dizia ele:

«Este lugar é santo! estas venerandas ruínas, esta mole imensa de granito, aprumada e indestrutível, este majestoso frontispício, este colosso três vezes secular, que a despeito do olvido dos homens e das injúrias do tempo, se ergue ainda em toda a sua envergadura arquitectónica, rasgando as nuvens e desfraldando em pleno céu o lábaro sacrossando da Redenção… tudo isto está clamando que este lugar é santo…

Uma escadaria, a mais ampla, a mais bela, a mais bem lançada que os meus olhos têm contemplado, servindo de escoadouro de lavaduras infectas, transformada em limiar de casas de gentio…

Ai! Quantas injúrias não tens tu sofrido, ó preciosa relíquia da arte cristã! Tentaram roubar-te os santos de bronze, que ador­nam os teus nichos, para os fundirem, mas os santos não cederam o seu posto, foram mutilados, mas ficaram inabaláveis! Estilharam-te as colunas, britaram-te os capiteis, quebraram-te os ângulos, man­charam e poluíram as tuas bases … e, não obstante, tu aí estás ainda em pé, miraculosamente, para pungir a consciência de todos e cada um»!

Na peroração o dr. Gomes convidou os ouvintes a jurar que reconstruiriam a Igreja da Madre de Deus: «Soou a hora solene, chegou o momento crítico, o momento decisivo … o momento de fazermos sobre estas ruínas o mais solene dos juramentos!

«Ah! se no meio de vós está alguém atrabiliário, algum inimigo desta obra santa e patriótica . . . saia! . . . fuja deste recinto . . . não queira ser um perjuro!»

Neste momento, um soldado disse para os que estavam junto dele: — «Não, eu é que não juro»; saltou e fugiu dali para não ser perjuro.

O orador, a quem passou despercebido o incidente, continuou: — «Ninguém sai? . . . Ninguém se retira?».

E então fez o juramento, em nome de todos: — «A cidade de Macau, pela boca do vosso ministro, jura hoje solenemente, à face do céu e da terra, desagravar o Vosso Santo Nome, restituir-vos a vossa herança!»

E terminava entusiasmado: — «Avante, senhores, avante pela reconstrução de São Paulo!»

Organizaram-se lotarias, promoveram-se quermesses e festas para angariar fundos, mas pouco se conseguiu.

Foram mandadas fazer na América várias tapeçarias com as gravuras da fachada, do bispo D. João Paulino e outros motivos religiosos. Mas, quando se abriu a grande remessa, viu-se que os ba­cios tinham no fundo a vera imagem do prelado!!! Foram logo retirados da venda.

Existe ainda na Diocese um fundo dumas $ 20 000,00 em acções, chamado «Fundos da Reconstrução de S. Paulo».

Já antes do dr. Gomes, aparecera outro entusiasta da reconstrução: era o rico proprietário, comendador Albino da Silveira, que tencionava empregar a sua fortuna nessa obra. Chegou a mandar fazer o plano da igreja, aproveitando a fachada, mas com a sua mor­te em 31 de Outubro de 1902 morreu o seu projecto.”

No desenho de Cheong Pow de 1818, pode-se ver a Igreja Madre de Deus ou São Paulo antes do incêndio.  Está na sua lateral esquerda

a Igreja de Madre de Deus/São Paulo e o Colégio São Paulo após o incêndio (fonte: Um Museu em Espaço Histórico do Museu de Macau)

Interior da Madre de Deus depois do incêndio de 1835.  Desenho de George Chinnery, pintor inglês que retratou Macau em centenas de desenhos durante a sua estadia em Macau de 1825 a 1852

Memórias de Macau: antes em 1973 e depois em 2010

Em 1973 Karsten Peterson, um marinheiro dinamarquês que residiu 6 anos em Hong Kong, foi conhecer Macau e tirou as fotos abaixo.

37 anos depois, na minha viagem para o Encontro das Comunidades Macaenses Macau 2010, tirei as fotos das mesmas localidades:

(clicar nas fotos para aumentar)

Macau 1973

foto de/photo by Karsten Petersen (Dinamarca/Denmark)

Esta ladeira ou rampa que dá acesso (subindo-a) para o Teatro Dom Pedro, a Igreja de Santo Agostinho e a Escola Comercial.  Agora quem for descê-la, vai para a Igreja de São Lourenço e o Seminário de São José, um dos caminhos que eu fazia para ir à escola nos anos 60.  Belos tempos.  Agradeço o Karsten Peterson pela foto que tantas boas memórias me trazem do trajeto para ida/volta da escola.  Interessante que, agora vendo essas casas bem deterioradas, na época, não impressionavamos com isso.  Nem davamos importância!  Hoje diriamos: “uau, que casas velhas e mal conservadas, caindo aos pedaços”.  Essa na verdade era a Macau daqueles tempos.  Não havia muita preocupação em restaurar casas, prédios, monumentos, Igrejas etc.  Eram muito manchadas ou com a pintura mofada e paredes escurecidas.  No entanto, essa era a Macau que gostavamos.  Sentiamos bem.  Era mais humana! Mesmo que Macau hoje impressione pela modernidade.

Macau 2010 – o mesmo local visto do larguinho defronte ao Teatro Dom Pedro

foto de/photo by Rogério P.D. Luz

Macau 1973

foto de/photo by Karsten Peterson

Antigamente era possível passear tranquilamente pelas Ruínas de São Paulo.  Tinha pouca gente.  Hoje, há tanta gente, especialmente turistas da China (além das fronteiras de Macau que hoje também é China), que até nem dá vontade de fotografar as Ruínas.  Os turistas chineses gostam de ver as relíquias históricas ocidentais.  Para quem não saiba, a Igreja de Madre de Deus e o adjacente Colégio de São Paulo foram destruídos por um incêndio em 1835.  Sobrou apenas a fachada que hoje é Patrimonio Mundial da Humanidade da UNESCO, e em 2009 foi classificada como uma das 7 Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo.

Macau 2010

foto de/photo by Rogério P.D. Luz (até que neste dia não tinha muita gente)

Macau 1973

foto de/photo by Karsten Petersen

Esta é a região de Lán Kuai Lau ou Ferro Velho, onde se vendia e ainda vende antiguidades, coisas usadas etc. Uma boa pesquisa acham-se coisas históricas, antiguidades que nem se imagina.  Pouca coisa mudou em 37 anos é o que aparenta.  Talvez um pouco de “modernidade” com os casarões velhos substituídos por prédios.  Mas é uma região interessante pois é tipicamente chinesa, bem tradicional.

Macau 2010

foto de/photo by Rogério P.D. Luz

Macau, registos fotográficos comentados

O Rui decidiu dar uma folga ao editor deste blog nesta semana. e aqui vai mais uma contribuição em fotos, comentadas.  Muito oportuno Rui, pois contrastando a alegria do Prémio Identidade 2011 concedido ao meu site PMM, passo por alguns contratempos que poderiam prejudicar as publicações neste blog.

A época da foto das Ruínas de São Paulo, Macau, é o Ano Novo Chinês de 2011, conforme o Rui.  Bom … ficou um bocado colorido, enfeites alegres e chamativos de gosto bem oriental, o que faz parte da cultura à qual estamos habituados e até faz parte da nossa vida, mas não resta dúvida, alegra bem os olhos !!! Até diria que a decoração natalina talvez tenha se inspirado na oriental, será?

São casas antigas da Rua Belchior Carneiro, atrás das Ruínas de São Paulo, Macau.  Foram demolidas há cerca de um ano, mas as obras foram interrompidas. No lugar da memória destruída, surgiu outra memória e que deu lugar a novas escavações.  Foram achados rastos e vestígios de porcelana e artigos de cerâmica antiga. Seria a resposta da memória que se vinga das iniciativas que a destroem? É … ainda vão achar muita coisa antiga na região, se escavarem ainda mais.

A propósito, sabia que quando as Ruínas de São Paulo, viraram ruínas de facto, houve iniciativa para reconstruir a Igreja? Mas não deu certo! Um dia lhes conto do que li na Toponimia de Macau do Padre Teixeira.

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