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A História de Macau, segundo o Livro da RAEM

Macau no passado do livro "Ou Mun Kei Leoc" Monografia de Macau

Muitos conhecem a História de Macau conforme contada pelos portugueses, porém nem tantos leram o que podemos dizer de: a versão chinesa. Assim, entendo que é justo publicá-la.  A História abaixo foi copiada tal como consta do livro “Macau 2003 Livro do Ano” publicado pelo Gabinete de Comunicação Social de Macau:

* RAEM é a denominação oficial de Macau após a transição para a R.P. da China:- Região Administrativa Especial de Macau

Macau Foi Sempre Parte Integrante da China

Desde sempre, Macau foi parte integrante da China. Já nos primórdios da unificação dos reinos chineses, pelo Imperador Qin Shihuang, Macau figurava na planta da China, sob jurisdição do Jun. (*1) de Nanhai, distrito de Panyu, e daí passando para a jurisdição do Jun de Dongguan, a partir da era Jin, até ao estabelecimento da era Sui, quando Macau regressou à tutela do distrito de Panyu. Com a fundação da era Tang, Macau retornou para o distrito de Dongguan. O ano 22 da dinastia Song do Sul, 1152, reinado de Shao Xing, marcaria a desanexação de Guangdong dos distritos de Nanhai, Punyu, Xinhuí e Dongguan, e suas ilhas ao largo da costa chinesa, que passaram a formar o distrito de Xiangshan, nele integrando Macau.

A denominação em chinês do nome de Macau conheceu várias versões – Haojing (Espelho da Ostra), Jinghai (Mar do Espelho), Haojiang, Haijing, Jinghu (O Lago do Espelho), Haojingao e Majiao. Sendo Haojing a nomenclatura mais antiga encontrada em registo escrito. A referência mais antiga da actual denominação, Aomen, foi encontrada em 1564, (ano 43 do imperador Jiajing, da dinastia Ming), no relatório que Pang Shangpeng submeteu ao imperador e segundo o qual «… a Sul de Guangdong, se localiza o distrito de Xiangshan, encostado ao mar, desde Yongmai a Haojingao, a distância é de um dia de viagem. Em Haojingao há duas colinas dispostas frente a frente, como duas torres, denominadas por Nantai (Torre do Sul) e Beitai (Torre do Norte), ou seja Macau, ladeado de mar, onde povos estrangeiros aportam para fazer comércio…»

No Aomen Jilue «Crônicas de Macau», editado durante o reinado de Qianlong (1736), pode ler-se «a designação Haojingao remonta à história Ming, que lhe dá o nome de Macau, a Sul despontam-se quatro colinas, banhadas por águas de mar, em longitude e latitude, cruzando-se, sendo por isso chamada a «Porta de Cruz» ou «Aomen».

O mais remoto registo do nome de Macau pode ser encontrado numa carta do escritor português Fernão Mendes Pinto, datada de 20 de Novembro de 1555.

A partir do Século XV, Portugal começou a expandir o comércio até o Oriente, estabelecendo contactos, e fixando-se em territórios de África e da Ásia. Em 1553, invocando o pretexto de secar mercadorias alagadas, os portugueses obtiveram autorização das autoridades chinesas locais para permanecerem temporariamente na península de Macau e fazerem comércio, mediante o pagamento de um foro ao Governo chinês, prática que teve início por alturas de 1573.

(*1) zona administrativa da antigüidade, de categoria inferior a distrito

O Exercício da Soberania pelos Governos das Dinastias Qing e Ming

Desde a ocupação pelos portugueses, até 300 anos antes da Guerra do Ópio, a soberania de Macau pertenceu às dinastias Ming e Qingx cujos governos administravam o território segundo a lei, cobravam impostos, estabeleciam serviços governamentais e tribunais, tropas e alfândega, gerindo, enfim, Macau, dentro dos princípios que definem a soberania, nas questões de solos, tropas, justiça e aduaneiras.

No exercício desta soberania, os governos das dinastias Ming e Qing adoptaram a política de «controlar os estrangeiros por meio de estrangeiros», permitindo que os portugueses administrassem os seus próprios assuntos e gerissem as suas causas autonomamente, para que pudessem ser mantidos o esquema económico e a ordem social dos bairros onde residiam. Em 1583, os portugueses de Macau estabeleceram um senado, encarregue de tratar os assuntos de foro interno dos portugueses. As instituições e organismos dos portugueses de Macau não possuíam, assim, no plano político e dentro do contexto de soberania, a natureza de órgãos institucionais, tratando-se tão somente de uma gestão por delegação de poderes pelos governos de Ming e Qing.

Macau no desenho de Cheong Pow, datado de 1818

A Ocupação Portuguesa e o “Tratado Amigável de Comércio Sino-Português”

Finda a Guerra do Ópio, os governos da China e Grã-Bretanha assinaram o «Tratado de Nan Jing», com o Governo Qing a conceder a parcela de Hong Kong aos britânicos, acontecimento que os portugueses aproveitaram para fazer valer algumas reivindicações, como a isenção do pagamento de foros e para ocupar gradualmente Macau, obrigando em 1887 o Governo Qing a assinar o «Tratado Amigável de Comércio Sino-Português», através do qual os portugueses adquiriram o «direito de gerir definitivamente Macau». Em 1928, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da China declarou formalmente junto da parte portuguesa a nulidade do tratado.

Assinatura da Declaração Conjunta Sino-Portuguesa

Após a sua fundação, em 1949, a República Popular da China declarou o não reconhecimento de todos os tratados firmados em condições de falta de equidade, tendo, em 8 de Março de 1972, enviado uma carta à Comissão de Descolonização da ONU, manifestando a sua posição em relação aos territórios de Hong Kong e Macau. Em 8 de Fevereiro de 1979, aquando do estabelecimento das relações diplomáticas, China e Portugal, acordaram quanto à questão de Macau – um território chinês sob administração portuguesa, uma questão legada pela História que em altura oportuna seria objecto de solução, através de negociações amistosas.

A questão de Macau surgiu na ordem do dia das negociações, depois de solucionado o problema relativo a Hong Kong em 1984, com o início das negociações Sino-Portuguesas, em Junho de 1986, as quais se estenderam por um total de quatro rondas. Em Março de 1987, as duas partes chegaram a um consenso quanto aos termos dos acordos e memorandos, dando-se assim as conversações por concluídas, com êxito, a 23 do mesmo mês. No dia 26 de Março de 1987, a China e Portugal rubricaram em Pequim, no Palácio do Povo, a Declaração Conjunta Sino–Portuguesa. De um lado interveio Zhou Nan, ministro dos Negócios Estrangeiros Chineses e do outro lado o embaixador Rui Medina, ambos chefes das delegações dos respectivos países.

A 13 de Abril de 1987, a China e Portugal assinaram formalmente a Declaração Conjunta Sino-Portuguesa, pela mão dos respectivos primeiros-ministros, Zhao Ziyang e Cavaco Silva, em cerimônia solene realizada no mesmo palácio, com a presença de Deng Xiaoping. O documento, que estabelece a retoma do exercício de soberania sobre Macau pela República Popular da China, foi ratificado pelos parlamentos dos dois países, respectivamente em Junho e Dezembro do mesmo ano. Em 15 de Janeiro de 1988, a Declaração entrou em vigor, iniciando-se o Período de Transição que antecedeu a transferência dos poderes políticos.

O Presidente da R.P. da China Jiang Zemin cumprimenta o Presidente de Portugal Jorge Sampaio na cerimónia de transição de Macau.

Elaboração da Lei Básica e Período de Transição

Um ano depois, a 13 de Abril de 1988, na primeira reunião da VII Assembléia Popular Nacional (APN) foi deliberada a criação da Comissão de Elaboração de Lei Básica de Macau onde se consagrarão as orientações políticas e a legislação a aplicar no território. No dia 5 de Maio, a Comissão Permanente da APN aprovou a composição da Comissão, constituída por personalidades da China e de Macau. Após quatro anos de pesquisas, passando por um processo alargado de consultas públicas e debates realizados de forma democrática, a Comissão aprovou o projecto da Lei Básica, concluindo-se também os trabalhos de selecção dos desenhos da bandeira e emblema da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM).

A Lei Básica da RAEM da República Popular da China foi aprovada em sessão da APN realizada em 31 de Março de 1993, incluindo os respectivos anexos e os desenhos da bandeira e do emblema. No mesmo dia, em decreto presidencial, Jiang Zemin, promulgou a referida lei para vigorar a partir de 20 de Dezembro de 1999.

O Período de Transição – de 15 de Janeiro de 1988 a 20 de Dezembro de 1999 – serviu essencialmente para assegurar a manutenção da estabilidade social, o fomento do progresso econômico e criar condições para uma transferência sem sobressaltos.

Conforme determina a Declaração Conjunta, a China e Portugal criaram o Grupo de Ligação Conjunto e o Grupo de Terras para a resolução das questões relacionadas com a transição, tendo sido alcançados consensos relativamente à construção do aeroporto internacional de Macau, à participação do Banco da China na emissão de notas e revisão do contrato de jogos.

Outras questões de relevante interesse como sejam a localização de quadros da Administração Pública, a localização das leis e o estatuto oficial da língua chinesa, obtiveram igualmente resultados positivos.

Em 29 de Abril de 1998, a Comissão Permanente da APN, na sua segunda reunião, aprovou a composição da Comissão Preparatória do Estabelecimento da RAEM, a qual tomou posse em Pequim em 5 de Maio do mesmo ano e tendo como principal missão a criação da Comissão de Eleição do Primeiro Governo da RAEM, responsável pela eleição do primeiro Chefe do Executivo da RAEM, composta por 200 membros, de entre cidadãos residentes permanentes de Macau e representantes dos sectores sociais.

No dia 15 de Maio de 1999, a Comissão realizou a sua terceira sessão, elegendo, sob votação secreta, Edmund Hau Wah Ho, para o cargo de primeiro Chefe do Executivo da RAEM, eleição que foi confirmada em 24 de Maio, pelo Decreto n.° 264 do Conselho de Estado Chinês, assinado pelo Primeiro-Ministro Zhu Rongji.

Edmund Hau Wah Ho tomou posse do cargo em 20 de Dezembro de 1999.

A cerimónia de transição de Macau em 20 de Dezembro de 1999

Vídeo – Especial Macau 1999, Dez Anos Depois

O canal de Portugal no Mundo 2011 (clique e veja outros vídeos) no YouTube exibe um interessante vídeo de longa duração de 01:36.14seg produzido pela RTP, com o apoio da Casa de Portugal em Macau: Especial Macau 1999, Dez Anos Depois.  Descreve na sua apresentação: “Testemunhos da Comunidade Portuguesa de e em Macau sobre os 10 anos do estabelecimento da Região Administrativa Especial de Macau, a 20 de Dezembro de 1999″. (Obrigado Rogério Monteiro pela dica):

Memória: Macau antes da transição para a China (01)

Assim Macau se apresentava para o mundo em língua inglesa.  O anúncio foi publicado no jornal em inglês “Macau Travel Talk” edição de Fevereiro de 1999.  Como se sabe (ou para quem não o saiba) Macau, colónia portuguesa, foi devolvido para a China em 20 de Dezembro de 1999.  A transição completa 12 anos neste ano.  O anúncio ou cartaz diz tudo, a mistura de culturas, a ocidental com a oriental.  Podem observar que aparece a foto de eleição da Pedruco como Miss Macau, publicada neste blog. Veja também no canto inferior direito a bandeira portuguesa que tremulava no prédio do Leal Senado no último ano da presença portuguesa no Sul da China, após uma missão de cerca de 440 anos.

Abaixo, a foto chamava atenção para o Ano Novo Chinês que ocorreria de 16 a 18 de Fevereiro de 1999.  Naquele ano comemorava-se o Ano do Coelho que de acordo com astrólogos chineses é um ano de paz, diplomacia e justiça, de fato bastante razoável, pois a transição de Macau para a China decorreu naquela forma.  A foto mostra a dança do dragão realizada no Largo do Senado (centro da cidade) como celebração do ano novo que se aproximava.

Vasco Rocha Vieira e o arriar da bandeira portuguesa

Esta cena certamente não sai da memória de muitos portugueses e macaenses.  Era o adeus da era portuguesa de Macau.  Encerrava-se ali no Palácio do Governo, em Dezembro de 1999, uma linda história que durou cerca de 420 a 440 anos.  Nós fomos privilegiados pelo destino para assistirmos a tudo isso. Poderia ter acontecido no futuro em que não mais estivessemos mais vivos.  Mas para os nossos avós, bisavós ou pais que não estão mais conosco,  se imaginassem que no futuro isso pudesse acontecer, então esse futuro somos nós. justamente na nossa geração.

Esta também era a sensação do Governador Vasco Rocha Vieira, ao relatar no seu livro “Todos os Portos a que Cheguei“: ” senti que não era eu que estava ali. Eram muitas gerações. Senti que era um momento que representava séculos de história. Que representava o esforço e a vida de gerações e gerações de portugueses“.

Pedindo permissão ao Pedro Vieira/Gradiva Publicações/Guilherme Valente e ao Governador Vasco Rocha Vieira, reproduzo abaixo trecho do livro que descreve aquele momento do arriar da bandeira portuguesa, no Capítulo XXIV – Memória de um gesto:

Às 17 horas, precedidos pelos filhos, o general Vasco Rocha Vieira e a sua mulher saem para o pátio onde está tudo a postos para o solene arriar da bandeira nacional. Enquanto se cerram as portas do Palácio da Praia Grande, Leonor e os seus filhos vão tomar lugar na extremidade mais afastada da primeira fila dos convidados e o Governador dirige-se para o pequeno estrado de onde irá presidir à cerimónia. No exterior estão alguns milhares de pessoas — macaenses, portugueses e chineses — que acorreram ao palácio. Ao som do Hino Nacional, a Bandeira Nacional desce lentamente no mastro do Palácio da Praia Grande. Uma linha invisível une o olhar de Rocha Vieira ao escudo português no frontão do edifício que constitui a expressão física do poder de Portugal em Macau. «Enquanto se tocava o hino e olhava para a esfera armilar com o escudo, senti que não era eu que estava ali.

Eram muitas gerações. Senti que era um momento que representava séculos de história. Que representava o esforço e a vida de gerações e gerações de portugueses. Ao olhar para o escudo, sentia que era Portugal que estava ali», diz.

Depois de arriada e dobrada por elementos da guarda de honra, a Bandeira Portuguesa foi colocada sobre a bandeja.  Quando o Governador a recolheu, levou-a ao peito sobre o lado esquerdo. E foi de bandeira ao peito que caminhou ao longo da passadeira vermelha até à viatura oficial parada na estrada, à esquerda, o lado por onde se conduz em Macau. Pôde assim entrar directamente no carro, enquanto a sua mulher entrava do outro lado. Já no interior do automóvel, confia a bandeira ao tenente-coronel Tiago Vasconcelos, que a guarda numa pasta previamente preparada para o efeito. A viatura iniciou então a marcha por entre as pessoas aglomeradas nas imediações a acenarem em gestos de adeus.

Apesar da grande emoção, o Governador não deixou escapar uma lágrima durante a cerimónia. Para Rocha Vieira, «controlar-se não é uma questão de ser frio, é uma questão de ser racional».

Chorar é «uma expressão interior, muito pessoal», que ele considera que lhe estava vedada. «Não tenho o direito de o fazer quando sou intérprete de algo que me transcende a mim próprio.

Mas eu não estava a ser frio. Estava muito emocionado.»”

O site Projecto Memória Macaense em Macau, Ecos do Passado publica 3 páginas a recordar a Macau da era portuguesa, que consiste da mensagem do Governador no website oficial do Governo com a História, Geografia e População na versão portuguesa.  Traz também a biografia do Governador e o seu pronunciamento do que espera da transição e o futuro, bem como do Presidente da República Portuguesa, Jorge Sampaio.  Jorge Rangel, Salavessa da Costa e Anabela Ritchie em suas entrevistas ao Diário de Notícias também tocam no mesmo assunto.  Vale a pena dar uma olhada! Veja a partir deste link – http://rpdluz.tripod.com/projectomemoriamacaense/macau.ecos.passado.2.html – depois localize as ligações para as 2 páginas seguintes.

Veja o vídeo desta cerimónia do Palácio do Governo no canal da YouTube de hbcdias: