Cronicas Macaenses

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Pedro Zuffo, jovem nascido no Brasil e descendente de macaenses pelo lado materno, nos conta como é a sua ligação com Macau

Desde 28 de Agosto de 2020 que podemos ler no Jornal Tribuna de Macau, artigos do autor qualificado no rodapé como “um jovem da primeira geração de macaenses em São Paulo, Brasil. Actualmente estuda direito na FGV (Fundação Getúlio Vargas) um dos cursos de licenciatura em direito mais qualificados no Brasil“. Ao todo, até o encerramento desta postagem, foram 14 artigos de linguagem e qualidade técnica difíceis de ver no nosso meio macaense de autoria de um jovem, ainda mais por estar distante da farta literatura em Macau para fazer seus trabalhos de investigação. Os temas abordados que têm relação com Macau, os macaenses e a China, estão descritos no final.

Pedro Martins Zuffo é esse jovem de apenas 21 anos de idade, completados no final de Agosto de 2021. Nascido e residente em São Paulo, Brasil, sua mãe que emigrou com 2 anos de idade em 1976, Gilda, e os avós maternos, Frederico Martins e Angelina Guerreiro Martins, são macaenses nascidos em Macau e actualmente residentes no Brasil. A ascendência europeia do lado do seu pai brasileiro, Paulo, é majoritariamente italiana (o que explica o seu último sobrenome (apelido) Zuffo), com traços germânicos/poloneses e espanhóis.

Pedro Zuffo no Museu de Macau em 2017

Vejamos a entrevista concedida ao autor deste blogue Cronicas Macaenses, Rogério P D Luz:

Entrevista com Pedro Martins Zuffo

Pedro Martins Zuffo

… carregamos o compromisso com nossa história e com nossas raízes familiares de preservar a identidade macaense” (Pedro Martins Zuffo)

Conte-nos sobre as suas viagens a Macau e a importância para a sua formação macaense.

Desde criança, visitei Macau em média a cada 2 anos, principalmente no Natal e Ano Novo. A escolha desse período, segundo meus familiares, se dava sobretudo por causa do clima mais agradável do que o calor escaldante dos meados do ano, além de coincidir com as férias escolares e de trabalho dos adultos.
Olhando para trás, percebo que as viagens tinham dois grandes motivos. Por um lado, manter o contato com o ramo da família que voltou ou que nunca partiu de Macau, diferente dos meus ascendentes que compuseram o braço da diáspora de meados do século XX que veio ao Brasil. Por outro, conhecer as origens, ter um sabor cultural da pequena cidade cujo caldo histórico influenciou considerável parte da minha formação familiar e de outros descendentes, os quais certamente em sua maioria cresceram com a interação sino-luso-macaense nas mais diversas dimensões (culinária, línguas, valores).

Como foram as suas vivências na comunidade macaense de São Paulo, a percepção de divulgação de Macau no atual panorama do território e o seu contributo para preservação da identidade macaense?
Desde cedo, minha família manteve viva a identidade macaense. Quando eu era pequeno, por exemplo, íamos quase que semanalmente à Casa de Macau de São Paulo, onde encontrávamos outros membros da diáspora e assistíamos a celebrações culturais, como a Dança do Dragão, sobretudo em tempos de festivais como no Ano Novo Chinês. Os restaurantes do gigante asiático, por sua vez, recebem-nos frequentemente, principalmente os de culinária cantonesa. Além disso, meus avós ainda mantém o hábito de misturar os idiomas para comunicarem-se entre si, notadamente o cantonês e o português macaense já com traços do brasileiro. E, como dito anteriormente, as viagens à ex-colônia portuguesa são quase que um compromisso no roteiro de viagens.
Nesse sentido, conforme fui crescendo, comecei a perceber que a riqueza cultural e histórica da comunidade macaense estava se esvaindo. Isso porque, no meu ver, baseando-se principalmente na experiência da comunidade macaense de São Paulo, apenas os mais velhos, aqueles que cresceram em Macau e foram protagonistas na formação da diáspora, tinham real interesse em cultivar as tradições. Também, a comunidade é muito pequena, quando comparada com outras pujantes como a libanesa, italiana, japonesa ou portuguesa. Assim sendo, comecei a desenvolver uma forte preocupação com a preservação da cultura e da história macaense, até porque, do ponto de vista dos compromissos políticos e questões demográficas de Macau, já se vê que a identidade macaense, aquela fruto da integração sino-portuguesa, está em vias de extinção.
Por outro lado, percebo que a China demonstrou certo interesse em estimular parte do valor histórico de Macau, mais notoriamente por escolher a cidade como plataforma de cooperação com os países de língua portuguesa, por meio do Fórum Macau e outras mecanismos. Ademais, conforme fui buscando conhecer meios de preservação da cultura, acabei tendo contato com iniciativas importante dessa linha, como a Fundação Casa de Macau (sediada em Portugal) e a Dóci Papiaçám di Macau.
Dessa forma, enquanto ainda sou estudante, percebo que escrever os artigos é uma das melhores contribuições que posso dar para preservar a memória macaense e, ao mesmo tempo, estudar e divulgar a parte da diáspora que se instalou no Brasil. Conheço poucos trabalhos que se dedicam a esse assunto específico, com exceção do Blog Crônicas Macaenses e algumas breves pesquisas e reportagens feitas sobre a comunidade. Além disso, acredito que ao contribuir para ressignificar os laços macaenses e brasileiros, acabo também promovendo os do Brasil com a China, principal parceira comercial do país e certamente indispensável para o desenvolvimento econômico.

Quais foram as suas fontes de consulta para redação dos seus artigos publicados no Jornal Tribuna de Macau?

A minha maior dificuldade se dá no pequeno número de fontes sobre o assunto. Por essa razão, acabei me apoiando em três tipos documentos, os quais formam sempre, em diferentes proporções, os pilares dos meus artigos.

Em primeiro lugar, as fontes familiares. Existem milhares de relatos e fatos interessantes que estão restritos, por enquanto, às recordações que a comunidade guarda e conta com o maior entusiasmo. Assim, o processo de colocar no papel o registro oral acaba por ser uma fonte muito rica e uma contribuição muito importante para preservar a identidade.

Em segundo, busco também me apoiar em documentos sobre Macau e a diáspora macaense em geral. Encontrei excelentes trabalhos de acadêmicos macaenses, portugueses e americanos sobre o assunto, os quais me ajudaram a trilhar o caminho para explorar o braço brasileiro do fenômeno.

Por último, tal como no artigo Macau (a brasileira), também aproveito fontes bem consolidadas de temas correlatos, por exemplo, sobre as relações sino-brasileiras e a influência da cultura chinesa na formação histórica do Brasil.

Tem interesse em escrever um livro das suas investigações sobre a história de Macau e a comunidade tanto local como da diáspora?

Tenho forte interesse. Apenas buscando fontes de maior destaque na internet, consegui escrever diversos artigos muito ricos sobre a identidade macaense. Imagino, dessa forma, o quanto seria possível escrever com base nos relatos da comunidade macaense, a qual, felizmente, está com excelente saúde e espera longos anos de vida para contar suas histórias. Ademais, espero futuramente cursar uma breve formação que me qualifique para potencializar minhas investigações e escrever o livro. Minha maior motivação, de longe, é preencher o espaço destinado a preservar a história e a identidade macaense, com destaque para a diáspora que veio ao Brasil.

Sente-se macaense?
Confesso que, quando comecei a escrever os artigos, fui questionado por um acadêmico macaense e que estuda o tema sobre à qual geração de descendente de macaenses eu pertenço, já que a controvérsia se dava em torno de considerar a posição hierárquica familiar de nascimento (fui o primeiro a nascer no Brasil e fora de Macau) ou de crescer na ex-colônia (o que me tornaria de segunda geração). Além disso, a família do meu pai é totalmente brasileira com raízes europeias, desvinculadas de Macau.
Por essas razões, acredito que, por definição e por ter crescido no Brasil, não posso me considerar um macaense. Porém, assim como meus irmãos e outros descendentes, carregamos o compromisso com nossa história e com nossas raízes familiares de preservar a identidade macaense.

Os seus conhecimentos da língua chinesa, o mandarim e o cantonês?

 Assim como grande parte dos macaenses, meus avós aprenderam o português formal na escola, mas na rua desenrolaram o cantonês. Dessa forma, nunca me foi uma língua distante, pois nas viagens a Macau, em restaurantes chineses e quando queriam falar algo secreto, sempre utilizaram o dialeto. Porém, não cheguei a aprender além de poucas palavras. O mandarim, por sua vez, sendo a língua oficial e o meio de comunicação com o aspirante a líder econômico mundial, acabou sendo priorizado, o qual venho aprendendo de modo extracurricular desde pequeno. Todavia, pretendo futuramente dedicar-me, como hobby e por conexão familiar e histórica, a aprender o cantonês.

Qual a importância do jovem em relação às associações macaenses da diáspora e em Macau

            Do ponto de vista da minha experiência aqui no Brasil, percebo que, fora as iniciativas de preservação da cultura, apenas os mais velhos que cresceram em Macau e construíram a diáspora se dedicam fielmente a essa preocupação. Tanto a geração que nasceu/cresceu no exterior quanto seus filhos, os da minha faixa etária, mostram pouco interesse em continuar o legado.

Contudo, ao conhecer mais sobre as iniciativas mundo afora, fiquei feliz de ter contato com uma proposta de uma descendente da comunidade macaense no Canadá de conectar os jovens ao redor do mundo. Também, de saber que existe o Encontro de Jovens Macaenses organizado sazonalmente e que convida os descendentes do mundo inteiro.

Nessa linha, é preciso ter em mente que Macau Portuguesa, assim como suas heranças na atual RAEM (Região Administrativa Especial de Macau), embora de certa forma ainda fresca na memória de muitos, dificilmente sobreviverá até o final do século. Por isso, é urgente que os jovens se conscientizem de seu compromisso familiar e histórico de preservação da cultura macaense, para que não se torne, como disse Gabriela César no 3° Encontro das Comunidades Macaenses, uma Goa ou Malaca. No sentido de que hoje suas heranças lusófonas se restringem praticamente a registros históricos, longe da memória dos que a viveram ou de seus descendentes.

Como define “ser macaense”

Estudei muito pouco sobre o assunto. Por essa razão, sigo os mais prestigiados acadêmicos, familiares e amigos que defendem a tese de que “ser macaense”, em termos culturais e históricos, são os que nasceram e cresceram em Macau, tendo como fio condutor de suas vidas os valores portugueses (educação, idioma principal, religião católica), mas incorporando elementos da cultura chinesa (cantonês, refeições, hábitos como oferecer laisis e celebrar o Ano Novo Chinês e a expressão Kung Hei Fat Choi). O que mais me encanta, dentre as diferentes definições, é que inevitavelmente a integração sino-lusófona se fará presente, tornando Macau e sua identidade única na história mundial.

Como foi a elaboração de um dos seus artigos iniciais no Jornal Tribuna de Macau – “Macaenses do Brasil desde D. João VI”?

Foi um dos primeiros artigos que publiquei no Jornal Tribuna de Macau. Ensinou-me, sobretudo, a traçar o método de pesquisa para os próximos textos. Parti de uma pesquisa inicial de um historiador brasileiro sobre a presença de chineses no Brasil, com a vinda de Dom João VI, em 1808, fugindo de Napoleão Bonaparte. Logo no início, pensei que tinha um forte potencial o assunto, pois Macau, então território português, inevitavelmente faria a ponte para trazer os mestres do cultivo de chá.

 A partir daí, encontrei outras fontes, brasileiras e macaenses, as quais foram fundamentais para construir o texto. Dou destaque para um estudo (Os Macaenses no Brasil. O cerco se mantém.) de 20 anos atrás, escrito pela pesquisadora Andréa Doré, o qual aborda com profundidade tanto o tema do artigo quanto a comunidade macaense instalada no Rio de Janeiro. Além disso, encontrei informações interessantes nos sites do governo de Macau, os quais exigem certa paciência para navegar (pois dificilmente aparecem nos principais destaques de pesquisa no Google), mas são muito frutíferos.

Pedro Zuffo com seu avô macaense Frederico Martins na Rua da Felicidade, em Macau 2017

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Macau 2017
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Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

Sobre

O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

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