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Porta do Cerco, (ex-) fronteira de Macau com a China

A ver as imagens publicadas no grupo Antigas Fotos de Macau II (Macau Old Photos II) no Facebook, administrado por Jon Doo, vi várias da Porta do Cerco publicadas pelo seu maior colaborador Luís Dias, que todo dia lá envia diversas fotos.  Isso me deu o ensejo de fazer esta postagem das imagens capturadas das postagens do Luís Dias, juntando-as com o texto sobre a antiga fronteira de Macau com a China – Porta do Cerco – do livro Toponimia de Macau de Padre Manuel Teixeira. Na prática, ainda é uma fronteira com controle pela alfândega chinesa, uma forma de administrar a migração dos chineses do Continente para este novo eldorado da China, com muita riqueza nos casinos.

Porta do Cerco antigamente nos tempos dos portugueses

Porta do Cerco na atualidade. Foto do blog Orient’Adicta

Publico abaixo trechos do texto de Pe. Teixeira para facilitar a leitura, e no final desta, na sua totalidade, para quem queira se inteirar das curiosidades da Porta do Cerco:

“António Feliciano Marques Pereira, em As Alfândegas Chine­sas de Macau, p. 24 e segs., informa que a primitiva Porta foi cons­truída em 1573: «Muitos escravos dos portugueses de Macau fugiam a seus donos e iam praticar roubos nas povoações da ilha de Hian Chan (Heung-Shan, hoje Chong-Shan). Este facto deu motivo, em 1573, à construção da muralha e bairreira do istmo, a que os nos­sos ficavam chamando «Porta do Cerco» e os chinas «Kuan-Chap» …

… A 18 de Março de 1928 foi inaugurada pelos governadores de Macau e Hong Kong, Artur Tamagnini Barbosa e Sir Cecil Clementi e autoridades chinesas a Estrada que vai das Portas do Cerco a Seak-Kei, com uma procissão de milhares de pessoas, que mar­charam da aldeia de Tch’in-San até Macau.

O actual arco da Porta do Cerco foi levantado para honrar a memória do Governador Ferreira do Amaral, a 31 de Outubro de 1871, durante o governo de Antônio Sérgio de Sousa (1868-1872).

Nele se lê esta inscrição:

«A Pátria honrai que a Pátria vos contempla»

O director das Obras Públicas, ten.coronel Francisco Jerónimo Luna, no seu relatório acerca das obras realizadas em Ma­cau, em 1871-1872, escrevia acerca do Arco das Portas do Cerco:

«Obra construída segundo o plano que achámos delineado, tendo sido inaugurado o seu acabamento, por ordem do governo da colônia, no dia 31 d’Outubro (1871) anniversario natalicio de S. Magestade Fidelissima El Rei o Sr. D. Luis 1.° Este cerco construido no caminho principal, que de Macau segue a varias povoações chinas é dedicado á memória do benemérito exgovernador — João Ferreira do Amaral, á tomada de Passeleão, conforme se acha publicado no Boletim Official do governo n.° 44, de 30 do referido mez».

No mesmo ano 1871 concluiram-se as obras da Praça da Victoria.

Texto completo publicado no livro Toponimia de Macau de Padre Manuel Teixeira

Rua do Cerco

Começava ao lado do Arco da Porta do Cerco e seguia parale­la ao Istmo de Ferreira do Amaral, devendo ir a terminar, segundo o Cadastro de 1925, na Estrada da Areia Preta.

A primeira parte desta via pública está hoje dentro do Aquartelamento da Porta do Cerco, do qual faz parte, e a segunda parte tem hoje o nome de Estrada dos Cavaleiros. Deixou, pois, de exis­tir o nome de Rua do Cerco.

António Feliciano Marques Pereira, em As Alfândegas Chine­sas de Macau, p. 24 e segs., informa que a primitiva Porta foi cons­truída em 1573: «Muitos escravos dos portugueses de Macau fugiam a seus donos e iam praticar roubos nas povoações da ilha de Hian Chan (Heung-Shan, hoje Chong-Shan). Este facto deu motivo, em 1573, à construção da muralha e bairreira do istmo, a que os nos­sos ficavam chamando «Porta do Cerco» e os chinas «Kuan-Chap».

Construída a «Porta do Cerco», foi acordado com os mandarins de Hian-Chan que ela se pudesse abrir somente dois dias em cada lua, que nesses dias os chinas fizessem mercado para os portugueses irem fornecer-se dos géneros que precisassem, que aos chinas fosse proibido entrar no estabelecimento e aos portugueses e mais es­trangeiros sair ao território chinês, e que a dita porta fosse guarda­da por soldados e um oficial chinês. Passados anos, e já depois existir o Senado, estabeleceu-se o mercado semanal, e o procurador recebia dos mandarins uma lista que designava os chinas a quem era permitido vir à cidade, continuando, porém, a ser proibido a todos habitar nela. Os que se encontravam sem licença, ou não mencio­nados na referida lista, eram presos à ordem do procurador como vagabundos. Afinal a Porta do Cerco passou a abrir-se todos os dias, o mercado internou-se e fixou-se: pouco a pouco, o zelo dos pro­curadores enfraqueceu, a brilhante e industriosa actividade chinesa insinuou-se, fez-se benquista, e foi construindo e multiplicando casas, lojas e oficinas».

A asserção de Marques Pereira de que o Porta do Cerco foi construída em 1573 tem sido seguida por todos os historiadores: mas o Ou Mun Kei-Leok (Monografia de Macau), a pág. 37, diz que foi no ano seguinte: «Os cumes de Chi’in-Sán enfrentam os cu­mes das colinas de Macau pelo lado sul e do mar. O norte do istmo é atravessado por um dique de areia de 10 lei (5,Km.36) de comprimento e 5 a 6 braços (21,m48) de largura. Na extremidade do istmo surge um monte que se desenvolve enroscando-se e forman­do como que o cálice de uma flor de loto. Este monte é conhecido por Lin-Fá-San (Monte de Loto). O istmo adoptou portanto o nome do monte.

No 2.° ano do reinado de Man-Lek (1574) construiu-se uma barreira a meio do istmo e os guardas incumbidos de a abrir e fe­char edificaram residências na sua parte superior, as quais com o tempo ficaram arruinadas.

No 12.° ano de Hon Hei (1674), o Magistrado Distrital, Sân–Leong-Hón, mandou repará-las e construir ao lado uma casa de governo para servir de alojamento aos que vigiavam os que passa­vam pela barreira».

A mesma Monografia diz a pág. 89: «Pela barreira da Porta do Cerco se deixavam passar todos os anos uns poucos de séàks (72 quilos) de arroz e, para isso, era ela aberta seis vezes ao mês depois de ser conjuntamente inspeccionada pelas autoridades civis e mili­tares».

Peter Mundy, que esteve em Macau em 1637, escreve: «Uma muralha entre os chinas e os portugueses; o fim a que se destina.

A cerca de 3/4 de milha de distância, existe um braço estreito de terreno, que liga com o resto a parte da ilha onde fica Macau. Neste estreito local, está levantada uma muralha que se estende de mar a mar, numa extensão de cerca de meio tiro de espingarda. Na dita muralha existe uma porta ou passagem com guardas chinas, que nenhum português pode transpor sem licença especial. E os escravos, que planeiam fugir de seus senhores se conseguem transpô–la, ficam livres de ulterior perseguição, e não são poucos que o fazem. Estes guardas exigem e cobram alguns direitos da gente do interior que traz provisões, etc. E em certas ocasiões de descon­tentamento com os portugueses essa porta é fechada, sendo im­pedida pelos chineses toda a forma de provisões, que os portugueses recebem deles, como nos foi contado» (C. R. Boxer, Macau na época da Restauração (Macau, 1942), p. 72.

Lyunsgstedt escrevia, em 1834, no seu Esboço Histórico dos Estabelecimentos Portugueses na China: «No meio do muro há uma porta de comunicação, chamada a Porta do Cerco, guarda por alguns soldados e um oficial, para que nenhum estrangeiro possa passar além deste limite. No princípio, a porta, segundo Navarrete, era aberta só duas vezes ao mês; depois, cada cinco dias, para vender mantimentos aos degredados; agora abre-se ao romper da aurora».

R. Marim escreve em O renascimento do Município Macaense, 2.° Vol. p. 148-150: «Mas o desenvolvimento da população tais engulhos ocasionava às reacionárias autoridades cantonenses, que estas olvidando os valiosos serviços que anos antes lhes havíamos prestado, conseguiram em 1573 que o novo imperador (Van-Li) nos impusesse o pagamento anual de quinhentos taéis de foro pelo ter­reno que estávamos ocupando. Ao mesmo tempo, ergueram no istmo da península um muro com uma pequena porta abobadada ao centro, afim, diziam eles, de marcar o limite do território macaense. Era a Porta do Cerco que os chinas apelidam de Kuan-Chap, edificada pouco mais ou menos no local onde actualmente se encon­tra.

Reparavam os mandarins, com certo receio, no crescimento da população. Sabiam, por observação direta, que os portugueses não se levavam de vencida com facilidade em combate franco e leal. A Porta do Cerco, com o rótulo de marco divisionário de fronteiras, servir-lhes-ia admiràvelmente para travar qualquer pretensão da nossa parte de nos tornarmos independentes da sua autoridade ou qualquer instinto nosso de lhes conquistarmos o poder.

E tanto assim era que a Porta do Cerco, depois de construída, passou a abrir-se unicamente de quinze em quinze dias.

De modo que, como, pela via marítima, os víveres de que neces­sitávamos estavam já sujeitos ao controle e às alcavalas dos vários mandarins do mar, nada podendo ser importado em Macau sem o respectivo salvo-conduto, a Porta do Cerco era o meio excelente de que eles se serviriam para subordinar o nosso estômago às suas exigências. Enquanto pagássemos o foro ao imperador (o que era uma insignificanciã) e todas as contribuições que o vice-rei de Cantão e os mandarins de Hian-Chan nos lançassem (e a violência estava nisto), Macau teria arroz, carnes, hortaliça e todos os mais gêneros alimentícios de que necessitava para o seu consumo; no caso contrário, a porta deixava de se abrir (o que várias vezes su­cedeu) e a população citadina correria o risco de morrer à míngua…

Vê-se evidentemente o fim a atingir com a edificação da Porta do Cerco: 1.° — O estabelecimento de um único mercado onde os portugueses teriam de adquirir os gêneros de consumo em dias determinados pelas autoridades de Cantão; 2.° — Tolher o desen­volvimento da progressiva Amacau com a proibição de nela entrarem os chineses que voluntariamente escolhessem a civilização moralizadora dos europeus de preferência à jurisdição venal das autori­dades do seu país; 3.° — Impedir a penetração dos portugueses no seu território».

A 25 de Setembro de 1828, o mandarim da Casa Branca proi­biu os chineses de atirar pedras às casas vizinhas do Forte de S. An­tónio e de cometer outros distúrbios para exigirem a abertura das Portas do Cerco antes do tempo determinado, as quais costumavam ser abertas às 5h. a. m. e fechadas às 20 h., conservando-se as cha­ves em poder do Governo.

A Estrada das Portas do Cerco foi construída em 1875, segun­do se lê no Boletim Oficial de 13 de Fevereiro desse ano: «Vão bastante adiantados os trabalhos da estrada das portas do cerco; já se pode passar de carro desde a rampa dos cavalheiros (aliás cava­leiros) até ao ponto em que a estrada se liga com a denominada do Coelho do Amaral, que vem a S. Antônio.»

A 18 de Março de 1928 foi inaugurada pelos governadores de Macau e Hong Kong, Artur Tamagnini Barbosa e Sir Cecil Clementi e autoridades chinesas a Estrada que vai das Portas do Cerco a Seak-Kei, com uma procissão de milhares de pessoas, que mar­charam da aldeia de Tch’in-San até Macau.

O actual arco da Porta do Cerco foi levantado para honrar a memória do Governador Ferreira do Amaral, a 31 de Outubro de 1871, durante o governo de Antônio Sérgio de Sousa (1868-1872).

Nele se lê esta inscrição:

«A Pátria honrai que a Pátria vos contempla»

O director das Obras Públicas, ten.coronel Francisco Jerónimo Luna, no seu relatório acerca das obras realizadas em Ma­cau, em 1871-1872, escrevia acerca do Arco das Portas do Cerco:

«Obra construída segundo o plano que achámos delineado, tendo sido inaugurado o seu acabamento, por ordem do governo da colônia, no dia 31 d’Outubro (1871) anniversario natalicio de S. Magestade Fidelissima El Rei o Sr. D. Luis 1.° Este cerco construido no caminho principal, que de Macau segue a varias povoações chinas é dedicado á memória do benemérito exgovernador — João Ferreira do Amaral, á tomada de Passeleão, conforme se acha publicado no Boletim Official do governo n.° 44, de 30 do referido mez».

No mesmo ano 1871 concluiram-se as obras da Praça da Victoria.

Macau 1992, vista aérea e densidade demográfica: saiba

Macau 1992. Foto de Wong Wai Hong

Passaram-se 20 anos desde que o fotógrafo Wong Wai Hong a bordo de um ultra-leve sobrevoou Macau a pouco mais de mil metros de altura.  Foram tiradas mais de mil fotos em vários sobrevoos.  O resultado do trabalho foi publicado em postais que comprei em 1994 em Macau.  A série foi patrocinada pelo Instituto Cultural de Macau e consta o editor como San Yu Tang, de Hong Kong.

Na foto abaixo, de autoria estampada e época desconhecida, podem ter uma idéia da evolução de Macau desde 1992,como os novos aterros (mais à direita), pontes, vias públicas e muitos prédios.  Macau aumentou de tamanho, e não para de aumentar.  Digamos que aumenta “a cada minuto” com as barcaças trazendo terra da China e despejando no mar, num trabalho de formiga, para formar novos aterros.

A seguir podem ver a única ponte que, em 1992, ligava a península de Macau às suas duas ilhas, Taipa e Coloane.  Taipa hoje em dia está ligada a Coloane por uma avenida.  Praticamente as duas ilhas ficaram uma só, e os aterros continuam … Taipa hoje abriga os mais modernos e espetaculares casinos de Macau, e se não bobear, supera Las Vegas como de fato já é uma realidade em termos de receita.  Na foto abaixo, podem ver que a primeira ilha, que é Taipa, era pouco habitada.  Hoje em dia, está entupida de casinos monumentais, um aeroporto e muitos prédios, estádios etc etc.  Torna-se opção de moradia por falta de espaço na península.  Além dessa ponte da foto, foram construídas mais duas para ligação a Macau. A ilha do fundo é Coloane e, por enquanto, está um tanto preservada com as suas áreas verdes.

Macau 1992. Foto de Wong Wai Hong

Macau, em 1992, ainda sob a administração portuguesa (foi devolvida para a China em Dez/1999) deveria ter cerca de 400 mil habitantes.  Hoje tem em torno de 570 mil.  Agora, aos leitores que não conhecem Macau, saiba que é um dos lugares do mundo com a maior densidade demográfica, com cerca de 19.000 pessoas por quilómetro quadrado.  Veja a foto abaixo de 1992, com a parte escurecida para delimitar a área da península Macau, para imaginar como os seus habitantes “se espremiam” neste pequeno espaço de cerca de 22 km2 (? em 92?).  A área escurecida já faz parte do continente da China, porém, mesmo que Macau hoje faça parte da nação chinesa, há uma fronteira para se cruzar, necessitando de visto.  O mesmo se aplica aos residentes chineses do outro lado da fronteira.  Isto é a China e este esquema de fronteiras também se aplica a muitas cidades dentro do continente.  Entre outras coisas, serve para controlar o fluxo migratório.

E, como diz o poeta macaenseAdé no nosso dialecto patoá: Macau Sã Assi … (Macau é assim)

* Agradecimentos ao fotógrafo e editores

Macau: como era no passado e como ficou

Nada contra o progresso e a modernidade, mas … se Macau tivesse preservado mais prédios antigos, teriamos uma terra com mais história, tal como se vê em muitas cidades na Europa etc. Infelizmente a destruição da história começou quando Macau era administrada pelos portugueses.  Está certo que havia pouco espaço e a necessidade de acomodar a população que não parava de crescer, situação que persiste até hoje, mas poderiam ter preservado um pouco mais.  A especulação mobiliária e muito dinheiro rolando por aí não deu tréguas, e construções que tinham histórias para contar foram demolidas para darem lugar a prédios, muitos sem nenhuma beleza visual como poderão se certificar nas fotos abaixo:

a) CADEIA DE MACAU: Inaugurada em 1912 a Cadeia Cetral de Macau foi demolida em 1993.  No seu lugar ergueu-se um edifício multifuncional de grande porte.

Assim era em 1915:

e, como ficou em 1995:

b) EDIFÍCIO RIBEIRO: Herdou apenas o nome da família a que pertencia a moradia que foi, durante décadas era um bom exemplo da arquitetura modernista, de apurado rigor geométrico.  O atual edifício (ao lado do antigo Cineteatro Macau) foi construído nos anos 70.

Assim era em 1960

E como ficou em 1995

c) CASA DO DR. PEDRO LOBO: Construído na Rua da Praia Grande logo a seguir o Palácio do Governo, a casa do Dr. Pedro Lobo foi demolida nos anos 70.  No seu lugar foi construído um prédio de habitação e comércio, na esquina da Rua da Praia Grande com a Travessa da Paiva.

* Pedro Lobo era conhecido na sociedade macaense como maestro e benfeitor por ser um homem de posses.

Como era em 1950

E como ficou em 1995, um prédio feio. Pela localização poderia até ser restaurado para se tornar num museu ou uma instituição governamental.

*Fonte: 100 Anos que Mudaram Macau, um livro do Governo português em 1995.  Participaram da edição: Sérgio Infante, Rogério Beltrão Coelho, Paula Alves e Cecília Jorge.

13 de Maio procissão de N.S.de Fátima, tradição em Macau

13 de Maio

(texto da Revista Macau de Junho de 1990 – não consta o nome do autor e as fotos são da publicação)

“Ave, Ave, Ave Marta…” o cântico encheu as ruas desde o Largo de São Domingos até lá ao aitos à Igreja da Penha. Eram largas centenas de fiéis, que uma vez mais, mantiveram viva a tradição do 13 de Maio. O dia dedicado a Nossa Senhora de Fátima. Em Macau, como de costume, foi dia de procissão…
Na segunda tarde de sábado do mês de Maio, as ruas encheram-se de gente, na cidade do Nome de Deus. Era a procissão de Nossa Senhora de Fátima a unir, de novo, a Igreja de São Domingos com a da Penha.
Foram cerca de três milhares os fiéis que, entoando cânticos de louvor a Maria, vieram para a rua, depois da celebração da missa em São Domingos, percorreram a baixa da cidade, e rumaram ao monte da Penha, já depois do pôr-do-sol.
A imagem de Nossa Senhora, rodeada de flores, era transportada por “meninas da Congregação de Fátima”.
O Bispo de Macau, Dom Domingos Lam, membros do Cabido, Sacerdotes e Missionárias, integraram também esta manifestação de fé, que todos os anos se repete desde 1929.
O culto de Nossa Senhora de Fátima encontrou em Macau um dos primeiros centros de intensa devoção.
O culto público foi anunciado no primeiro dia de Maio de 1929, em S. Domingos, com um tríduo de preparação a começar no dia 10. “Haveria missa de manhã, o Terço, prática e benção do Santíssimo à tarde, concluindo-se cada dia com o hino de N. S. de Fátima”, como rezava então a imprensa da época.
No primeiro dia do tríduo, prossegue o relato, “o Pe. Roliz benzeu a imagem que iria na procissão e fora enviada de Portugal. O dia 13 de Maio foi de romagem de Fé, com Missa de Pontificai pelo então Bispo de Macau, Dom José da Costa Nunes, tendo ficado o SSmo. exposto todo o dia até às Vésperas de Pontifical à tarde, a que se seguiu o Sermão.”
O padre Antônio Roliz, S.J. terá sido o grande entusiasta que trouxe para as ruas de Macau o culto de Nossa Senhora.
Afinal, sempre era mais fácil trazer o culto mariano até Macau do que levar até Fátima, todos os anos, os milhares de fiéis da Cidade do Nome de Deus.
No ano inaugural do culto a Nossa Senhora de Fátima, o primeiro pregador convidado para o Sermão, foi o padre Antônio Maria Alves, jesuíta e superior das Missões de Shiu-Hing. O padre Alves lançou, então, um apelo que todos os presentes prometeram cumprir. O de, todos os anos, haver peregrinação no dia 13 de Maio, até à Penha (que representaria, assim, a Serra d’Aire de Macau), dando-se corpo desta forma, a uma união espiritual com os imensos peregrinos da Cova da Iria.
Nesse ano pioneiro, a procissão fez o trajecto usual. “Sé, Largo do Senado, e São Domingos. A imagem da Senhora levava uma preciosa auréola e pendente das mãos um rico rosário de ouro, obtido por subscrição pública, e durante a procissão contava-se o Terço e hinos à Senhora”.
O êxito da primeira romagem levou os responsáveis a lançar a idéia de criação de uma entidade que assegurasse a continuidade daquela manifestação de Fé.
A 13 de Dezembro de 1929 fundava-se a Congregação de Meninas, designada de N. S. de Fátima, que dura até hoje (1990) e se dedica a organizar os festejos de 13 de Maio.

No ano seguinte, as cerimónias religiosas seriam rodeadas ainda de maior solenidade.
A festa começou a ser precedida de novenas, tendo a procissão, propriamente dita, obtido tal acompanhamento humano que, segundo se falava na altura, desde 1904 que “não se vira em Macau uma procissão tão bem organizada, tão piedosa e tão concorrida”.
Esta procissão tão piedosa, seria também, a primeira que levaria os fiéis até à Igreja da Penha, dando-lhe o contorno que ela mantém ainda hoje.
Esta manifestação de fé não seria sobressaltada pelo decorrer dos tempos. A Segunda Guerra Mundial, que veio a alterar significativamente a forma de viver desta população (de súbito acrescida com largos milhares de refugiados), acabou por avivar a devoção deste povo a Nossa Senhora.
As procissões que se realizaram nos anos de guerra estavam cheias de fiéis devotos, que imploravam graças à Virgem de Fátima. E, de facto, Macau manteve-se durante esses anos conturbados, como terra de paz…
A Procissão contravou inalterável, afinal tal qual como hoje (1990) a conhecemos. Em 1978. já a liturgia começou a ser celebrada em Português e Chinês, de forma a que toda a comunidade de Macau tivesse o ensejo de rezar, de verdade, na sua própria língua.
Desde o já longínquo ano de 1929, que a 13 de Maio as ruas de Macau se enchem de gente de fé. E ninguém quer ouvir falar do ano em que a tradição possa vir a acabar.

Nota: A tradição é mantida em Macau até nos dias de hoje, mesmo após a sua transição pelos portugueses para a China.

Veja o vídeo da procissão em 2011, em Macau, divulgado pelo Jornal Tribuna de Macau no YouTube:

Macau 1844 – Fortim de São Pedro

Tirei esta foto em 2007 que mostra a região onde fica a estátua de Jorge Álvares em Macau.  Imagine que há 163 anos atrás, em 1844, lá existia um um pequeno forte – fortim – que nossos avós ou bisavós o viram, quando viviam naquela Macau muito pacata.  O francês Jules Itier lá esteve na época e tirou uma série de fotos, que hoje fazem parte do acervo do Museu Francês de Fotografia.

A Revista Macau de Janeiro de 1999, no excelente artigo de Beatriz Basto da Silva “Fortalezas Extramuros, Baluartes e Fortins”, nos conta brevemente a história deste Fortim de São Pedro:

Fortim de S. Pedro

A meio da Baía da Praia Grande, coadjuvando com as suas operações os Fortes de S. Francisco (a Norte) e do Bom Parto (a Sul), encontrava-se quase rasante e de atalaia ao Porto Exterior este fortim de pequenas dimensões.

Aparece referido em variadas plantas e gravuras antigas de Macau mas nada dele resta, coincidindo o local onde existiu com uma pequena praça onde se levanta hoje a estátua em memória de Jorge Álvares, o primeiro português a chegar à costa da China.

As referências escritas — entre elas a do cronista António Bocarro — permitem-nos datá-lo de 1622 e, em 1775, ainda se conservava a primitiva planta triangular.

A tarefa de assegurar a defesa da ampla baía foi substituída, com o tempo e o modo, pelo uso em casos de pompa e circunstância, quando se impunha saudar com salvas de artilharia a chegada de navios amigos, de novos governadores, de visitantes ilustres ou então nascimentos insignes, enlaces reais e outros acontecimentos de excepção.

Essa finalidade era, todavia, perigosa para a segurança dos edifícios próximos, entre eles a antiga residência do Governo, que teve de ser demolida por causa dos estragos da trepidação a que se juntava a inclemência dos tufões.

Em 1934 o que restava do velho fortim foi arrasado quando se traçou um novo arranjo e aproveitamento da Baía da Praia Grande.

Abaixo, a foto de Jules Itier de 1844 e a seguir a aquarela/aguarelade Georges Chinnery pintada entre 1833 a 1838 retratando o fortim:

Video histórico – Macau anos 60/70

O excelente canal de YouTube de Michael Rougge, um grande colecionador de videos que o Projecto Memória Macaense tem falado a respeito, divulgou outro video de Macau que ele diz ser dos anos 60, mas penso que seria dos anos 70 no seu início ou fim dos 60. Vocês visitantes macaenses analisem pela provável ponte Macau-Taipa na procissão e o Largo do Senado com um chafariz. É um video divulgado pela Secretaria de Turismo da época em inglês. Vejam e matem muitas saudades …

Novo vídeo “Macau, Memórias do Passado”

Conforme prometido, o PMM Vídeo, do site Projecto Memória Macaense acaba de publicar novo vídeo produzido a partir das filmagens/edição do Hércules António.

As filmagens foram feitas quando o Hércules deixava Macau rumo a Hong Kong de barco (Tái Lói, Fát San, Tak Seng?), talvez em 1960 ou próximo.  Um vídeo curto de 4 minutos mas extenso de saudades.  Aquela Macau “tranquila e bonita, símbolo da paz e da beleza” do Porto Interior dos juncos “tan ká”, da Barra e Praia Grande, da Penha, Monte, Hospital São Januário, com vista “limpa”, sem nada para atrapalhar a sua beleza.  Ah … qui saiám, que saudades !!! Devido a curta duração das filmagens, foram acrescidas fotos antigas de Macau que recebi através de um e-mail repassado.  Como toda foto antiga de Macau, não se sabe quem são os autores.

Assim, meu convite para assistir o vídeo “Macau, Memórias do Passado” no site Projecto Memória Macaense .  Lá tem o link para o vídeo no YouTube, onde pode fazer comentários, se quiser.  Aproveite para dar uma olhada em 2 novas fotos na página principal do nosso teatro de patuá dos anos 60.  É para dar risada “dos” madames macaenses !!!

Abaixo fotos da Penha, quando ainda a vista era “limpa e bela”: