Cronicas Macaenses

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Macau: a Estrada do Campo e seu significado político no governo de João Maria Ferreira do Amaral

A ESTRADA DO CAMPO E SEU SIGNIFICADO POLÍTICO NO

GOVERNO DE JOÃO MARIA FERREIRA DO AMARAL

O governo de Ferreira do Amaral é considerado como o ponto de viragem de três séculos de jurisdição mista, porquanto o território de Macau, que até então era governado por autoridades portuguesas e chinesas, passou a vigorar um novo regime – o de governo colonial. 

Artigo, fotografias e legendas por Manuel V. Basílio (Macau)

Acontecimentos que antecederam ao governo de João Maria Ferreira do Amaral

Na sequência da derrota da China na chamada Primeira Guerra do Ópio, que terminou com a assinatura do Tratado de Nanjing, em 29 de Agosto de 1842, pelo qual a China aceitou, nomeadamente, abrir cinco portos (1) ao comércio britânico, pagar uma pesada indemnização de guerra e ceder a ilha de Hong Kong ao governo britânico, pouco demorou para que a nova colónia, deste modo fundada, se desenvolvesse e se transformasse num importante porto franco, no sul da China.  Portugal ressentiu-se desta situação, nomeadamente devido às vantagens comerciais alcançadas pela Grã-Bretanha, as quais também despertaram interesses de outras potências ocidentais, entre elas a França e os Estados Unidos.

Em consequência disso, a situação económico-financeira de Macau ficou muito afectada e, nestas circunstâncias, o então governador Adrião Acácio da Silveira Pinto nomeou uma comissão para ir a Cantão negociar com comissários chineses, com vista a alcançar algumas vantagens económicas para Macau. As negociações continuaram, mesmo depois de Silveira Pinto ter sido substituído no governo de Macau pelo seu sucessor, José Gregório Pegado, tendo o ex-governador sido nomeado Comissário Régio para tratar da confirmação dos assuntos discutidos. Até à cessação das suas funções e regresso para Portugal, não conseguiu obter os resultados desejados nas várias negociações tidas com autoridades chinesas, nomeadamente com o Comissário Imperial, Qi Ying (2).

Entretanto, para reforçar a presença nacional nestas paragens do oriente, a rainha D. Maria II decretou em 1844 a criação de um governo provincial constituído por Macau, Timor e Solor, passando a ser uma só província independente do Estado Português da Índia (3), tendo também concedido mais poderes ao governador da província, em detrimento do Leal Senado, que desde 1834 já tinha perdido a sua importância e influência política, passando a ser uma simples Câmara Municipal.

Durante o governo de José Pegado, a situação económica continuava em crise e, embora as negociações com as autoridades chinesas prosseguissem, as principais pretensões do Comissário Régio, nomeadamente as de natureza política, não foram satisfeitas. No entanto, devido a uma relação de amizade entre José Pegado e Qi Ying, o governador conseguiu que este “fechasse os olhos”, de forma a permitir a ancoragem de navios de maior calado na ilha da Taipa, passando então a ser um dos portos de Macau.

Apesar de os portos de Macau, incluindo o da Taipa, terem sido declarados portos francos, por decreto de 1845, portanto, já depois de Hong Kong estar a operar como porto franco desde 1842, aquele decreto não teve efeitos imediatos durante a vigência do governo de José Pegado, porquanto só foi posto em execução pelo seu sucessor.

Retrato de João Maria Ferreira do Amaral

João Maria Ferreira do Amaral nomeado para o cargo de governador de Macau

Devido ao agravamento da situação económico-financeira e da crise existente, o bispo de Macau, D. Jerónimo da Mata, solicitou ao Governo de Lisboa o envio de um governador, dotado de firmeza e determinação, capaz de solucionar o estado das coisas que se alastrava há vários anos. A escolha de uma personalidade com este perfil e de confiança do então Ministro da Marinha e Ultramar recaiu em João Maria Ferreira do Amaral, um distinto oficial da Marinha, agraciado com a Comenda da Ordem de Avis, em 1840, pelos valiosos serviços prestados à Pátria.  Após a sua nomeação para o cargo, partiu de Lisboa em Janeiro de 1846, tendo chegado a Hong Kong no dia 18 de Abril do mesmo ano, pelo vapor Lady Mary Wood.  Na manhã de 19 de Abril, rumou para Macau a bordo do vapor de guerra inglês Pluto, “que lhe fora oferecido por o conduzir para Macau pelo Governo daquela Cidade, aqui desembarcou de perfeita saúde, às 2 horas da tarde, e foi recebido com todas as honras que lhe são devidas”.  Dois dias depois, ou seja, no dia 21 de Abril, pelas 5 horas da tarde, foi dada a posse do Governo da Província a João Maria Ferreira do Amaral, na Fortaleza do Monte, com todas as formalidades do estilo, assistindo ao acto todas as autoridades e um grande número de cidadãos, a convite do Leal Senado.

Após assumir as suas funções, tratou logo de pagar os vencimentos em atraso aos militares e funcionários públicos e nomear uma comissão para propor reformas administrativas e financeiras. Entretanto, por sua iniciativa, foi tomando outras medidas necessárias, com vista à resolução de questões mais urgentes.

Macau transformado em Porto Franco

Apesar da oposição da elite local, não tardou a pôr em execução o decreto que tinha sido promulgado em 1845, o qual visava transformar Macau num porto franco. Deste modo, mandou extinguir, em primeiro lugar, a alfândega portuguesa, ficando a aguardar uma melhor oportunidade para a resolução da alfândega chinesa, a poderosa Hopu (4), gerida por mandarins enviados pelo governo de Cantão, a qual também exercia autoridade sobre os chineses residentes em Macau.

O lançamento de impostos e o seu contexto político

Perante a escassez de recursos financeiros, decidiu lançar impostos a todos os residentes, incluindo a população chinesa. Para melhor identificação dos proprietários das casas e lojas, mandou publicar um Edital, para que “todas as ruas da Cidade tenham os seus nomes… assim como que sejam numeradas as Casas”, tendo incumbido este trabalho ao intérprete da Língua Sínica, João Rodrigues Gonçalves, e ao 1º Escriturário da Contadoria da Fazenda, José Joaquim d’Azevedo.  Além disso, determinou que os donos dos “faitiões” (5) registassem os seus barcos na Procuratura (6), mediante o pagamento de uma pataca mensal. Esta tributação deu origem à chamada “revolta dos faitiões”, em que, na madrugada de 8 de Outubro de 1846, cerca de 1500 chineses desembarcaram de 37 “faitiões” e atacaram a cidade, mas foram derrotados e repelidos por 40 soldados com duas peças de campanha. O lançamento de impostos à população chinesa era encarado como um acto político, com vista a afirmar o domínio português, porquanto os chineses estavam subordinados às autoridades chinesas.

A Porta do Cerco, construída em 1870 durante do governo do Contra-Almirante Sérgio de Sousa, ostentando por cima do arco o brasão de armas da monarquia portuguesa e a inscrição

A PÁTRIA HONRAI QUE A PÁTRIA VOS CONTEMPLA

O alargamento do domínio português

Uma das questões mais sensíveis que o governador Ferreira do Amaral quis resolver era precisamente a autonomia territorial, estendendo o domínio português, desde as muralhas da cidade até ao istmo da península, ou seja, para a zona conhecia por “extra muros” ou Campo, que as autoridades chinesas sempre alegaram ser território sob a jurisdição chinesa e que a Barreira (7), que os mandarins mandaram construir em 1573 no istmo da península, não se destinava à demarcação da fronteira a norte de Macau, servindo apenas como posto de controlo de pessoas, bem como de fornecimento de géneros alimentícios e outros bens, provenientes do interior da China. Não era, porém, este o entendimento de Ferreira do Amaral.  Para concretizar o alargamento do domínio português a toda a península, decidiu então abrir uma estrada, designada Estrada do Campo, partindo da Porta do Campo, passando pela Barreira e indo terminar na Porta de Santo António (8), com o objectivo de definir os limites do território para além das muralhas da cidade.

Ao fundo, vê-se a colina de Mong-Há, no cimo do qual está a fortaleza, cuja estrutura principal foi erguida em 1849 por determinação do então governador Ferreira do Amaral, com a função de defesa do sector norte de Macau.  Vê-se ainda o Campo entre a zona arborizada e a colina de Mong-Há e, do lado direito, a nova Avenida de Vasco da Gama e, também, um troço da antiga Estrada do Campo, que corresponde à actual Avenida de Sidónio Pais. Do lado esquerdo, vê-se a capela do Cemitério de S. Miguel Arcanjo. Ao centro, a povoação e o campo de Tap Siac.

Subscrição pública para a abertura da Estrada do Campo

Para a realização deste projecto de obra, foi aberta uma subscrição pública para a construção da Estrada do Campo, pois esta era a melhor forma para aliviar o orçamento do governo e, sobretudo, obter o claro apoio de residentes na execução de uma obra sem o prévio consentimento das autoridades chinesas.  A subscrição pública foi bem sucedida, tendo conseguido, até 29 de Maio de 1847, angariar a quantia de $775 patacas, cujos subscritores foram maioritariamente residentes portugueses, vários estrangeiros, e ainda, “oito Chinas” (anónimos), variando os respectivos montantes entre $1 e $50 patacas, os quais incluíam, designadamente, António Joaquim Bastos, Alexandrino António de Melo, Camilo Lelis de Sousa, Francisco José de Paiva, José de Lemos, José Francisco de Oliveira, José Tomás Aquino, João Baptista Gomes, José Vicente Jorge, João Joaquim dos Remédios, Lourenço Marques, Manuel Pereira e também vários estrangeiros, tais como F. J. Bush, G. Lungley, John Dent, J.A. Durran Jr., John Wise, T.B. Watson, W.W. Dale, W.W. Parkins, W. R. Mills, N. M. Datlobhoy e Pallanjee Dorabjee.

Houve também uma contribuição não monetária por parte de Caetano Gomes da Silva, tendo este dirigido uma carta, datada de 17 de Fevereiro de 1847, ao governador referindo que “constando-me que V. Exa. desejava que eu cedesse algumas braças (9) da Horta Begman (10), de que sou Proprietário, para a construção da estrada que passa por aquele sítio; tomo a liberdade de dirigir esta a V. Exa. significando que gratuitamente ofereço aquela porção de terreno que V. Exa. julgar será preciso para a dita construção”.

A estrada, em primeiro plano, é a Estrada da Bela Vista (que ainda existe) e o morro que esta estrada circunda é, presentemente, o Jardim da Montanha Russa.  A estrada que se vê ao fundo, corresponde à actual Estrada da Areia Preta, que termina em frente da Rampa dos Cavaleiros. No canto superior esquerdo, vê-se a Fortaleza de Mong-Há

Remoção de sepulturas

Antes do início da abertura da Estrada do Campo, o governador Ferreira do Amaral mandou publicar um Edital, em 27 de Fevereiro de 1847, nos termos seguintes e cujo teor foi dado conhecimento à população chinesa:

“Faço saber aos Chinas, que habitam conjuntamente com os Portugueses, que tendo determinado a fazer uma estrada, que vai desde a porta do campo, e há-de passar perto de Pagode da Porta do Cerco, e acabar na Porta de S. António, não só para comodidade de nacionais e estrangeiros, mas até para evitar que se passe como até agora por cima de sepulturas que os Chinas sem consideração nenhuma têm semeado num território, de que os Portugueses pagam foro; de modo que se as coisas assim forem andando com o habitual desleixo, que hei determinado acabar, em bem pouco tempo o Estabelecimento Português se tornaria um exclusivo Cemitério China; e porque é comum a todas as Religiões o respeito aos restos dos nossos antepassados e amigos; por isso mando publicar o presente Edital para conhecimento de todos os Chinas, para que eles mudem as sepulturas dos seus parentes, ou amigos, que ficam no lugar por onde se vai fazer a estrada.  Aquelas, pois, que não estiverem removidas até o fim do mês de Março, o Governo as mandará remover, ou obrará como julgar mais conveniente, na certeza de que, o que neste Edital se expressa há-de ser levado a efeito como costuma”.

A linha pontilhada, de cor azul, corresponde aproximadamente à Estrada do Campo, mandada abrir por Ferreira do Amaral

Apesar de ter havido alguma contestação, decidiu avançar com as obras. No entanto, antes do fim do prazo estabelecido para a remoção de sepulturas, Ferreira do Amaral foi informado de que havia chineses que não dispunham de meios monetários para transladar os restos mortais dos seus antepassados e, por conseguinte, a 12 de Março de 1847, o governador mandou publicar um novo Edital, nos termos seguintes:

“Faço saber a todos os Chinas habitantes de Macau, que constando-me que alguns Chinas pobres se vêem embaraçados em não poderem cumprir o Edital de 27 de Fevereiro próximo passado, no qual lhes é ordenado remover impreterivelmente os restos dos seus parentes, ou amigos, do lugar por onde se está fazendo a estrada, até o fim deste mês, como no dito Edital se acha marcado; como pois, no mencionado Edital tenho mostrado, que não hei querido ofender os costumes chineses; agora para mostrar também que me compadeço dos pobres, ordeno que todos aqueles que não tiverem meios pecuniários para a dita trasladação se dirijam à Procuratura para serem acompanhados por um dos Línguas, o qual presenciando a remoção das Sepulturas, dará um certificado ao pobre, que receberá na Procuratura uma pataca por cada sepultura que tirar de dentro do lugar marcado, por onde passa a estrada”.

À medida que a construção da estrada ia avançando e no intuito de afirmar o domínio português dentro e fora dos muros da cidade, determinou, em 14 de Julho de 1846, a concessão do direito de residência e propriedade a estrangeiros, podendo comprar ou edificar casas e possuírem qualquer terreno em Macau, designadamente nos terrenos situados na zona do Campo, mediante pagamento de foro à Fazenda Pública. Depois, permitiu também aos chineses a construção e arrendamento de casas na cidade, mediante um contrato celebrado na Procuratura. Até então, para a construção de edifícios novos ou reconstrução dos antigos, conserto de navios, etc., era necessário, mediante petição apresentada por autoridades portuguesas de Macau, obter uma “chapa”, em cuja autorização ou resposta levava o selo ou carimbo do mandarim da Casa Branca (11).

De acordo com um relatório publicado no Boletim do Governo, além da Estrada do Campo, que ia desde a Porta do Campo até junto do Pagode da Porta do Cerco (12), “começaram mais duas, uma à roda da montanha de Mohá (13), e outra desde a porta de Santo António, que deve ir encontrar a já concluída junto do Pagode” e até finais do ano de 1847 “removeram-se mais de 700 sepulturas”.

Título de posse dos terrenos do Campo

É de crer que Ferreira do Amaral se apoiava em pareceres ou recomendações do juiz Morais Carneiro, sobretudo antes de tomar uma importante decisão.  Desta vez, para afirmar que toda a zona do Campo não estava sob a jurisdição chinesa, Ferreira do Amaral mandou publicar, em 1 de Abril de 1848, o seguinte edital, redigido com muita argúcia e habilidade, a fim de transmitir a ideia de que o governo português não era rendeiro, mas sim o senhorio de toda aquela zona do Campo:

“… havendo grande número de Chinas apropriado de terrenos em Macau, aquém da porta do limite, tirando até agora proveito da sua agricultura, sem poderem apresentar títulos pelos quais mostrem direito a esse terreno, que, pertencendo aos Portugueses, só pode estar em seu poder por desleixo de um e usurpação de outros. E não querendo o Governo Português privar os Chinas dos terrenos por eles agricultados, nem tão pouco continuar a tolerar que os Chinas se julguem com direito a estes terrenos só porque lançaram mão deles, ordeno que todos os Chinas que até à data deste estejam gozando de terrenos agricultados em Macau, se apresentem por si ou por seus procuradores na Procuratura, no prazo de 15 dias da data da publicação deste edital, a fim de que se lhes dê um título que legalize a sua posse, na certeza de que os que não se apresentarem no supradito prazo ficar-se-á entendendo que abandonarão o terreno usurpado, que ficará, assim como são os baldios, pertencente à Fazenda”.

Assim, em 1848, o governo começou a exigir o pagamento de impostos à população chinesa residente no Campo, embora em número e montantes muito reduzidos.

Cemitério Chinês

Mesmo após a abertura da Estrada do Campo, muitas outras sepulturas ficaram por remover, mantendo-se nos campos de cultivo, visto que a população chinesa não tinha o costume de sepultar os seus mortos num cemitério.  A fim de evitar que os chineses continuassem a espalhar desordenadamente as sepulturas pelos campos de cultivo, o governador Ferreira do Amaral, mandou publicar um Edital, datado de 3 de Janeiro de 1849,  determinando que “aos Chinas habitantes de Macau se designe um lugar próprio, e com a exposição conveniente para nele enterrarem os seus mortos, determino que seja para aquele fim apropriado todo o espaço de terreno compreendido entre o bosque de Mohá, ao Sul, o Pagode novo, e a estrada nova ao Norte, as varjas (14) na estrada da rampa a leste, e a estrada de Mohá a Oeste que ficará destinado para servir “in perpetuum” de Cemitério Chinês, os quais o poderão fechar e resguardar com um muro se assim lhes aprouver; devendo porém no prazo prefixo de dois anos contados desta data, remover os cadáveres que se acham em todos os outros lugares compreendidos no território sujeito ao domínio Português, o qual termina na Porta do limite; ficando entendido que os que não houverem sido removidos findo este longo prazo, reputar-se-ão abandonados, e o Governo se incumbirá de sua remoção”.

AS VÁRIAS MEDIDAS IMPLEMENTADAS POR FERREIRA DO AMARAL QUE MARCARAM O INÍCIO DO PERÍODO COLONIAL

O governo de Ferreira do Amaral é considerado como o ponto de viragem de três séculos de jurisdição mista, porquanto o território de Macau, que até então era governado por autoridades portuguesas e chinesas, passou a vigorar um novo regime – o de governo colonial.  Ficou na história o papel que Ferreira do Amaral teve na imposição da soberania portuguesa, mediante a implementação de significativas medidas, designadamente a ocupação da zona “extra muros” até ao istmo da península, o não pagamento do foro do chão, a abertura dos portos de Macau ao comércio de todas as nações, a extinção das alfândegas portuguesa e chinesa, o lançamento de novos impostos a toda a população residente, incluindo a população chinesa e estrangeira, a legalização do jogo, a ocupação das ilhas da Taipa e outras medidas controversas, às quais pagou com a sua própria vida.

A ocupação da Taipa

Após a abertura da Estrada do Campo, as atenções de Ferreira do Amaral viraram-se para as ilhas da Taipa (naquela altura eram duas ilhas), por ali possuir um bom ancoradouro, com condições mais favoráveis que as do porto de Macau, cuja utilização tinha sido iniciada no governo do seu antecessor, na sequência de negociações levadas a cabo com o Comissário Imperial Qi Ying.

Aspecto actual do Forte da Taipa, mandado construir por Ferreira do Amaral em 1847. Este Forte foi remodelado em princípios do século XX  para ser utilizado como residência de verão do Governador de Macau e, mais tarde, serviu ainda como Esquadra de Polícia da Taipa.  Agora é a sede da Associação de Escoteiros de Macau, inaugurada em 12.12.1999. Foto Manuel V.Basílio

Sob o pretexto de defesa contra a pirataria, a 6 de Maio de 1847, Ferreira do Amaral avisou Qi Ying de que iria ser levantado um forte na Taipa, tendo então incumbido o capitão do porto, Pedro José da Silva Loureiro, de construir a Casa Forte da Taipa, situada na Taipa Pequena. As autoridades chinesas contestaram, afirmando que Taipa estava fora do território sujeito ao pagamento do foro do chão. Mas perante a determinação do governador, apenas puderam assistir ao facto consumado.

Mapa das ilhas da Taipa, em 1912. Do lado esquerdo, o rectângulo cor de rosa assinala a localização do Forte da Taipa, que o governador Ferreira do Amaral mandou construir.

Foro do chão

Durante séculos o Procurador entregava ao mandarim da Casa Branca o valor de 500 taéis (15) de prata para pagamento do chamado Foro do Chão, uma renda paga anualmente pela ocupação do território cedido pela China, o qual teve início em 1573, no mesmo ano em que as autoridades chinesas construíram uma barreira ou cerco no istmo da península. No entanto, houve períodos em que foi necessário pagar acima daquele valor nominal, quando as autoridades chinesas arbitrariamente aplicavam uma taxa de conversão da prata corrente em prata fina, além de exigirem contribuições adicionais. Houve também alguns anos em que, devido às dificuldades de tesouraria do Senado, conseguiu-se a dispensa do pagamento daquele foro.

Em 1849, com o objectivo de afirmar o exercício efectivo de jurisdição portuguesa sobre todo território que se estendia até ao istmo da península, Ferreira do Amaral suspendeu o pagamento do foro do chão.

O encerramento do Hopu

No entanto, a medida mais melindrosa tomada por Ferreira do Amaral durante o seu governo foi a abolição do Hopu (户部) ou alfândega chinesa, porquanto a sua vontade política de transformar Macau num porto franco não era compatível com a presença do Hopu, que na realidade não era apenas um posto alfandegário, mas também uma entidade que interferia em assuntos políticos.

O Hopu estava estabelecido em Macau desde 1688, inicialmente como um simples posto alfandegário e, mais tarde, para fiscalizar todo o comércio que se fazia e receber dos chineses direitos de carregamentos de ou para Cantão e, também, taxas de tonelagem dos barcos estrangeiros e demais impostos.

Chegado ao ano de 1849, Ferreira do Amaral achou ser a altura mais oportuna para extinguir o Hopu.  Assim, a 9 de Fevereiro de 1849, mandou encerrar o Hopu (户部) da Barra e a 5 de Março de 1849, deu um prazo de 8 dias para encerrarem o Hopu da Praia Pequena, o posto que restava e considerado o mais importante.  Expirado o prazo e continuando em actividade,  Ferreira do Amaral ordenou expulsar os funcionários que lá se encontravam e encerrar o edifício do Hopu.

Legalização do jogo “fantan”

A fim de aumentar as receitas públicas com a cobrança de novos impostos, Ferreira do Amaral autorizou em Janeiro de 1847 a lotaria chinesa, nomeadamente o Pacapio, embora existisse uma outra modalidade de lotaria, que estava a ser explorada pela Santa Casa da Misericórdia.  Já naqueles tempos, o jogo e outras formas de apostas faziam parte da vida quotidiana dos chineses e mesmo antes da autorização da lotaria chinesa já se jogava de forma ilegal. Mais tarde, em Abril de 1849, legalizou também o “fantan” (番攤), um jogo mais atractivo e viciante que a lotaria, visto que era operado de modo contínuo.   Por conseguinte, foi o governador Ferreira do Amaral quem, pela primeira vez, regulamentou e tributou o jogo e outras formas de apostas em Macau, cujas actividades vigoraram legalmente até aos dias de hoje.

O jogo de “fantan”, legalizado pelo governador Ferreira do Amaral

O FIM TRÁGICO DE FERREIRA DO AMARAL

O único governador de Macau assassinado no seu posto

As medidas acima referidas, designadamente relativas a domínio territorial, lançamento de impostos, remoção de sepulturas, abolição do Hopu e, ainda, outras de carácter político, tomadas por Ferreira do Amaral durante o seu governo, não foram do agrado das autoridades chinesas e, por conseguinte, foram objecto de várias contestações. A sua coragem e firmeza eram louvadas por uns e detestadas por outros.

O aspecto actual do Templo Lin Fong. Foto Manuel V.Basílio

Na tarde do dia 22 de Agosto de 1849, quando passeava a cavalo nas imediações do Templo “Lin Fông” (蓮 峰 廟 , em cantonense, “Lin Fông Miu” ou Templo de Lótus), não muito distante da Porta do Limite, apenas acompanhado pelo seu ajudante de campo, Jerónimo Pereira Leite, um grupo de sete chineses da povoação de Mong-há, liderado por Sâm Chi Leong (沈 志 亮), também conhecido por Sâm Á Mâi (沈 阿 米), com o pretexto de entregar uma petição a Ferreira do Amaral, aproximou-se dele e rapidamente os assaltantes derrubaram-no do cavalo e esfaquearam-no. Em seguida, fugiram com a cabeça e a mão esquerda da vítima, que tinham cortado, para o interior da China.  Ao tomar conhecimento da ocorrência, o Procurador foi ter com as autoridades chinesas e solicitou a captura dos assassinos. Sâm Chi Leong, depois de preso, confessou ser o autor do crime, tendo declarado que praticou tal acto em virtude de Ferreira do Amaral ter sido um tirano, que lançou impostos às lojas, mandou abrir estradas, arrasando várias sepulturas, entre as quais as dos seus antepassados e, por isso, levado pela vingança, decidiu acabar com o tirano.

A estátua equestre de Ferreira do Amaral, que esteve implantada na Rotunda de Ferreira do Amaral (agora, Praça de Ferreira do Amaral) até ser removida em 28 de Outubro de 1992

Ferreira do Amaral foi o único governador que teve uma estátua em Macau (16), inaugurada em 24 de Junho de 1940. Pouco mais de 50 anos depois, na sequência das polémicas declarações proferidas por Lu Ping (17), aquando de uma visita que fez a Macau, tendo dito que China gostaria que fossem removidos os símbolos ou monumentos coloniais antes do final do período de transição, aquela imponente estátua equestre, que conseguiu escapar aos motins conhecidos por 123 (12.3, ou seja, Dezembro 3), foi retirada em 28 de Outubro de 1992, durante o governo de Rocha Vieira e, mais tarde, enviada para Lisboa.

Andaimes de bambu montados antes da retirada da estátua equestre de Ferreira do Amaral

Momento da retirada da estátua esquestre de Ferreira do Amaral

No entanto, mesmo após a transferência da soberania, o nome de Ferreira do Amaral não foi apagado por completo, pois continua a figurar na toponímia de Macau, mantendo-se a Rua, a Estrada e o Istmo de Ferreira do Amaral e, ainda, a antiga rotunda, onde esteve implantada a sua estátua, é agora denominada Praça de Ferreira do Amaral, em chinês, Á Má Lá (Amaral) Kwong Cheong (Praça), nome este que continua a ser dito e falado diariamente, por residentes e visitantes, visto que a Praça funciona como terminal de autocarros.

Após a morte do governador Ferreira do Amaral, em 22 de Agosto de 1849, com apenas 46 anos de idade, iniciou-se um período de governo colonial, que durou 150 anos, até ao dia 20 de Dezembro de 1999, findo o qual se realizou a transferência da soberania, passando Macau a ser uma Região Administrativa Especial da República Popular da China.

Rocha junto ao Templo Lin Fong, em que está gravado o brasão de armas da monarquia portuguesa.  Consta que foi gravado em 1848, para servir de marco fronteiriço. Este marco serve também para assinalar, aproximadamente, o local onde, em 22 de Agosto de 1849, Ferreira do Amaral foi assassinado. Foto Manuel V.Basílio

NOTAS:

(1) Os 5 portos que a China foi forçada a abrir ao comércio internacional foram: Cantão, Fuzhou, Xiamen, Ningbo e Shanghai,  devendo também nas respectivas cidades permitir a fixação de cônsules e comerciantes britânicos com as suas respectivas famílias.

(2) Qi Ying (耆英  , deve ler-se “chi ying”, porquanto, em pinyin, o “q” pronuncia-se “ch”).  No entanto, em cantonense, pronuncia-se K’ei Yeng.

(3) Desde o tempo dos vice-reis, Macau estava dependente do Estado Português da Índia.  Em 1844, através de um decreto real, Macau passou a ser uma província independente, que incluía Timor e Solor, tendo então redefinido que o governador era o principal órgão político-administrativo de Macau e não o Leal Senado.

(4) Hopu, assim era designada a alfândega chinesa, deriva do termo, incorrectamente pronunciado, “Hubu” ( ) , em mandarim.

(5) Um tipo de barcos de pesca, ligeiros e velozes.

(6) A Procuratura, que mais tarde se veio a denominar Procuratura dos Negócios Sínicos de Macau, foi instituída com a primeira vereação do Senado em 1583. O procurador geria os dinheiros públicos e era também o responsável pelas relações com autoridades chinesas. Por Decreto de 20 de Agosto de 1847, a Procuratura foi desligada do Leal Senado e anexada à Secretaria do Governo, para se encarregar de Negócios Sínicos.

(7)  Era o nome adoptado para designar a Porta do Limite, que depois passou a ser Porta do Cerco.

(8) Presentemente, a Estrada do Campo, desde Porta do Campo até ao Templo de Lin Fong (então, também conhecido por Pagode Novo), corresponde, sensivelmente, à Rua de Ferreira do Amaral, Avenida de Sidónio Pais, Estrada de Ferreira do Amaral, Rampa  dos Cavaleiros, Estrada da Areia Preta e Estrada do Arco.

(9) Braça é uma de comprimento equivalente a cerca de dois metros (1,8288 metros).

(10) Conforme mostra uma planta topográfica de 1838, a Horta Begman estava localizada aproximadamente a leste da Ermida de N. Sra. da Esperança, junto à Horta de Volong, estendendo-se até ao sopé da colina da Guia.

(11) O Mandarinato que tinha jurisdição directa sobre o território de Macau estava localizado em Qianshan (em cantonense, Chin Sán) e  era designado na historiografia portuguesa por Casa Branca.  Actualmente Qianshan faz parte da Zona Económica Especial de Zhuhai.

(12) O Pagode da Porta do Cerco, então também conhecido por Pagode Novo, é o actual Templo de Lin Fong.

(13) Presentemente, diz-se e escreve-se Mong-Há

(14) Várzeas

(15) Tael, uma unidade chinesa de peso que, quando aplicada à prata, era usada há muito tempo como unidade monetária. A maioria dos taéis era equivalente a 1,3 onças de prata.

(16) De autoria de Maximiliano Alves.

(17) Lu Ping era na altura Director do Gabinete para os Assuntos de Macau e Hong Kong junto do Conselho de Estado chinês.

  • Fontes de consulta: Boletins do Governo dos anos 40 do século XIX

Texto, fotos e respectivas legendas de MV Basílio. Salvo indicação em contrário, as fotos antigas foram baixadas da internet, designadamente do grupo Antigas Fotos de Macau.

Rocha em que está gravado o topónimo RAMPA DOS CAVALLEIROS, com brasão de armas da monarquia portuguesa. Foto Manuel V.Basílio

Placa toponímica da Rampa dos Cavaleiros. Foto Manuel V.Basílio

Rampa dos Cavaleiros. Foto Manuel V.Basílio

O monumento que resta da Porta do Cerco, junto do actual Posto Fronteiriço. Foto Manuel V.Basílio

Acampamento de tropa chinesa junto à Porta do Cerco (Desenho de Auguste Borget, publicado em 1842)

Ao fundo, vê-se a configuração da antiga Porta do Cerco

 

Embora pouco visível, está inscrita nesta pedra  PORTA DO LIMITE, a qual Ferreira do Amaral mandou colocar no antigo pórtico, localizado no istmo. Foto Manuel V.Basílio

Além da pedra com inscrição em português, foi colocada uma outra pedra com os caracteres chineses 關閘門, cujo termo corresponde a Porta do Cerco. Foto Manuel V.Basílio

O aspecto actual do Forte da Taipa que Ferreira do Amaral mandou construir em 1847. Foto Manuel V.Basílio

Interior do Forte da Taipa. Ao fundo, por cima da janela, está ainda visível o brasão de armas da monarquia portuguesa. Foto Manuel V.Basílio

Este brasão esteve durante muitos anos encoberto até que, um dia, o então Comandante da P.S.P., José Luis Machado, foi pessoalmente ao Forte e mandou retirar com cuidado o reboco que o cobria e, pouco depois, o brasão voltou a aparecer à luz do dia.  Em seguida, mandou restaurar as cores originais. Foto Manuel V.Basílio

Um canhão, fundido em Boston, com a data de 1855, no Forte da Taipa. Foto Manuel V.Basílio

A Fortaleza do Monte, construída por jesuÍtas para a defesa da cidade, foi no entanto ocupada com a chegada do primeiro governador de Macau, D. Francisco de Mascarenhas, em 1623, para servir de residência governamental. Foto Manuel V.Basílio

Entrada principal da Fortaleza do Monte, por onde entrou Ferreira do Amaral para a cerimónia da tomada de posse como governador de Macau. Foto Manuel V.Basílio

O salão principal do Templo Lin Fong é consagrado à deusa Tin Hau, a Imperatriz Celestial, com um pavilhão que conduz ao altar da deusa. O pavilhão foi utilizado por Lin Zexu (林則徐), o comissário imperial do governo Qing, para as negociações que manteve com entidades portuguesas sobre a proibição do comércio do ópio, quando esteve de passagem por Macau para uma  missão de reconhecimento, em 3 de Setembro de 1839. Foto Manuel V.Basílio

Museu Lin Zexu de Macau junto ao Templo Lin Fong, que ficou concluído em 1997.

Do lado esquerdo, está erigida uma estátua do comissário imperial Lin Zexu. Foto Manuel V.Basílio

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3 comentários em “Macau: a Estrada do Campo e seu significado político no governo de João Maria Ferreira do Amaral

  1. Jorge Robarts
    08/04/2019

    Mais uma achega válida para a interessantíssima história de Macau. Eu já tinha lido versões de outros autores, mas é sempre interessante reler a história deste grande Governador de Macau do século XIX. Muito bem MV.Basílio.

  2. Maria da graça pinto ranito magalhães da silva
    27/03/2019

    Adorei ler este artigo sobre Macau antigo

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Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

Sobre

O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

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