Cronicas Macaenses

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Festival chinês da Lua, as recordações de Alda de Carvalho Ângelo em Macau e a lenda da origem

O Festival da Lua, também chamado de Festival do Meio-Outono além de diversas outras denominações, é uma festa móvel chinesa: a data muda todos os anos no calendário ocidental. Explica-se que é comemorado no 15º dia do oitavo mês do calendário chinês, em setembro ou início de outubro, no calendário gregoriano. Como é comemorado principalmente pelos chineses, na China e no Oriente enquanto que lá é Outono, no Brasil é Primavera.

Nesta postagem, leia o que a macaense Alda de Carvalho Ângelo conta a sua vivência da festa em Macau por volta de 1920,  como os chineses celebram a festa e a lenda da sua origem na China. Na tabela abaixo, as datas da festa de 2019 a 2022.

Ano Datas Dia de Semana
2019 13 Setembro Sexta-feira
2020 01 Outubro Quinta-feira
2021 21 Setembro Terça-feira
2022 10 Setembro Sábado

A escritora macaense Alda de Cavalho Ângelo, que emigrou para o Brasil nos anos 50, recorda no seu livro “Fragmentos do Oriente” como a festa do Bolo Lunar era comemorada na sua infância, creio, por volta de 1920 em Macau (ex-território administrado pelos portugueses na China até 1999).  Nos dias de hoje, muito do que a Dna. Alda relata já não existe mais em Macau, quer pela modernidade e tantos outros motivos:

Largo do Senado, centro de Macau, decorada para a Festa do Bolo Lunar (foto do FlickR de AJFMurphy)

PAT IUT SAP NG (15 do oitavo mês lunar)

Texto de Alda de Carvalho Ângelo, extraído do livro de sua autoria “Fragmentos do Oriente”

“à sua memória”

Ao se falar da vida e dos costumes dos chineses não se é possível deixar de lado a festa tradicional dedicada à maior lua cheia do ano, quando a lua se apresenta redonda, bela e brilhante, esplendorosa como uma rainha toda imponente, deslizando-se suavemente pela abóboda celeste por entre miríades estrelinhas cintilantes disseminadas pelo azul do céu. Os chineses prestam, então, sua homenagem à rainha da noite, com grande efusão e entusiasmo. A festa de 15 do oitavo mês lunar é celebrada no mês de agosto, vez ou outra em setembro, do nosso calendário.

Segundo a superstição, nesse dia, todos os espíritos, bons ou maus, são libertados, podendo circular livremente pela terra e, para evitar que esses espíritos façam mal aos vivos, nesse dia, os chineses fazem tudo para os agradar e daí o Siu I.

foto de China Tour Guide

SIU I (a queima)

Quando o sol se vai desaparecendo lentamente no ocaso, cedendo o lugar à rainha da noite, as famílias chinesas em Macau preparam-se para as rezas, para a veneração de seus antepassados.

Frente à entrada principal de seus lares, a porta aberta, uma mesinha é colocada com diversas iguarias, dependendo das posses de cada qual: arroz cozido, peixe salgado, verdura, galinha assada, porco assado, frutas da época como lông gán (olho de dragão), cujo caroço interno se assemelha ao olho do dragão; goiabas; anonas (fruta do conde); leng-cóc (fruta seca em forma trianguiar cujo interior se parece com a castanha, mas mais branca); vinhos de fermentação de arroz; doces de gergelim; üt peáng (bolo da lua) com gema de ovo inteirinha…

Começasse, então, a queima: dezenas de objetos feitos de papel e taquara, representando, entre outros, automóvel, vestuário, notas falsas, baús… são queimados defronte da porta, formando uma fogueira enorme. E, à medida que vão recitando as rezas, a comida, o vinho, as frutas, são jogados para dentro da fogueira. E, por último, uma mão cheia de moedas em cobre ou prata — dependendo das posses — ao mesmo tempo que gritam sát chin. (Espalha-se o dinheiro).

Deste modo, os espíritos ficam aplacados e não entram em casas de famílias para importunar os vivos.

A molecada, eu e meus irmãos incluídos para desespero de nossos pais, entra, então, em ação. Ombro a ombro com outras crianças, de uma casa para outra, numa corrida desenfreada, apanhamos as moedas, brigamos, comemos as frutas e — para os espíritos — deixávamos somente as cinzas misturadas com o vinho e a comida. Uma ou outra criança, às vezes, ficava queimada. Mas, isso era de menos, a farra era grande.

Sempre que havia Siu I, as ruas estreitas ficavam quase intransitáveis. Dos dois lados, as famílias chinesas faziam a queima, ocupando cada uma boa parte da rua e, no meio, a molecada que não queria deixar perder nenhuma moeda. Até no dia seguinte, remexíamos nas cinzas!

Mas, muito antes de chegado o dia da festividade, já a parte comercial da cidade, o bazar, está toda enfeitada… Já as crianças saem à rua com suas lanterninhas coloridas, carambolas, pêssegos, peixes, feitos de taquara e papel de seda; ou puxam seus coelhinhos de rodas de madeira e olhos de vidro; todos eles com uma velinha de cera no centro para ser acesa ao anoitecer. As crianças sobem e descem as ruas, as mamães trocam presentes de üt peán (bolo da lua) ou hám iôc chông (em macaense catupá) feito de arroz e um pedaço de toucinho, também com uma gema de ovo inteirinha, embrulhado em folhas de bambuseiro.

Recordar os dias que precedem a festividade do 15 do oitavo mês lunar! Mais precisamente, recordar as noites! As noites deslumbrantemente iluminadas! Deslumbrantemente belas! Noites inolvidáveis! Que recordação mais grata e querida! (por Alda Carvalho Ângelo)

Chineses celebram o Festival da Lua de diversas formas

Texto de Zeng Yun – ( de http://portuguese.cri.cn/ )

O dia 30 de setembro marca a Festa da Lua na China. A data é a mais importante depois do Ano Novo Chinês. Neste dia, os chineses reúnem a família, comem bolo lunar, apreciam a lua ou aproveitam para viajar. Eles celebram a festa de diversas formas.

O bolo lunar é o alimento mais tradicional do festival. Diversos bolos lunares foram colocados em locais de destaque num supermercado da cidade de Benxi, na província de Liao Ning, na região nordeste. Os preços são diferentes, de dezenas yuans até centenas yuans. As embalagens são bem finas e elegantes, com caixa de ferro, caixa de papel ou caixa de madeira, estampada com figuras de flores ou de “Chang E”, a linda fada da lenda mitológica sobre a festa. Os vendedores dizem que os bolos lunares atuais são mais saudáveis, com pouco óleo e açúcar, mas com vários tipos de recheios, como por exemplo, de sementes de lótus, nozes, amêndoas, pasta de feijão e diversas frutas. Uma vendedora disse,

“Os bolos lunares com recheios mais tradicionais são muito populares, bem como bolo lunar torrado. A maioria dos residentes compra os bolos lunares com embalagens mais simples para eles próprios comerem. ”

Além do mercado dos bolos lunares, o mercado turístico na região também fica mais aquecido durante o feriadão. As folhas de ácer ficam vermelhas em setembro. As agências de turismo locais criaram vários programas e passeios como, por exemplo, subir montanhas e apreciar folhas de ácer e viagem para apreciar lua, atraindo vários turistas. O diretor da agência de turismo Mingzhu, Zhang Chenhui disse,

“A cidade Benxi é uma cidade cheia de montes. Subir para apreciar a lua é fantástico. Isso não só atrai os cidadãos, mas também os turistas de outros lugares. A montanha Guangmen e a montanha Wunv são os lugares mais conhecidos.”

Festa do Bolo Lunar em Macau com decoração de lanternas. Foto: Rogério P.D. Luz 2006

Apreciar a lua é um costume tradicional nesta data. Também é uma boa opção ir à praia para observar a lua. A praia na cidade Haiyang, na província de Shandong, realizou uma atividade da celebração do festival. Foi apresentada uma cena em figura de lua cheia. Os atores representaram a lenda mitológica chamada “Chang E voa para a lua”, bem como as óperas tradicionais, presenteando os turistas com um fantástico show sob a lua. O turista Li Jun disse,

“Eu vim de Qingdao. Acho que este espetáculo é muito novo e fantástico. A lua reflete-se no mar, mais com as lanternas de papel. Sinto-me em uma pintura ou em um poema. ”

Em Guangzhou, sul da China, os cidadãos gostam de ir à Torre da Televisão, a mais alta do país, para apreciar a lua ou jantar com a família. A torre ainda possui a maior roda gigante do mundo. De uma altura de 445 metros, as 16 gôndolas em forma de cristal giram devagar. As várias luzes e a lua refletem-se mutuamente. Quando os cidadãos sobem à torre na Festa da Lua, podem apreciar nosso satélite mais de perto, ver a paisagem de toda a cidade, e aproveitar a comida de outros países, como de Tailândia e Cingapura.

O Teatro de Guangzhou também realiza uma série dos eventos. Durante o festival, os moradores locais podem visitar o teatro e ouvir um concerto músico. O representante do teatro, Zhang Yiqi apresentou,

“Nós gostaríamos de aproveitar essas atividades no festival para trazer uma diversão musical aos nossos cidadãos. Esperamos que eles possam passar uma festa cheia de arte. ”

Bolo lunar que pode ser comprada nas mercearias chinesas, tais como da Praça da Luberdade, em São Paulo, Brasil. Os recheios são variados, sendo um dos tradicionais feitos de feijão chinês.

Lenda da origem da Festival da Lua ou Festival do Bolo Lunar

Artigo de Gao Lin do site Epoch Times

O festival foi introduzido pela primeira vez como um feriado oficial no início da Dinastia Tang e se tornou amplamente celebrado na Dinastia Song. Na Dinastia Qing, ele se tornou tão importante quanto o Ano Novo (Yuan Dan).

Como toda festa tradicional chinesa, a origem do Festival da Lua vêm de uma história passada de geração em geração e é sempre relacionado com a senhora da Lua, Chang’e.

De acordo com uma versão desta lenda chinesa, houve um momento em que 10 sóis surgiram no céu, escaldando a Terra e privando o povo de água e vida. Um herói chamado Hou Yi subiu ao topo da Montanha Kunlun e abateu 9 dos 10 sóis com seu arco e flechas, poupando assim as pessoas da Terra.

Um dia, Hou Yi encontrou a Senhora Rainha Mãe e recebeu o elixir da imortalidade dela. O elixir, quando tomado, permitiria que alguém se tornasse um imortal e vivesse no céu. Hou Yi deu o elixir a sua esposa Chang’e para cuidar dele.

Um vizinho soube do elixir da imortalidade e tentou tomá-lo à força de Chang’e enquanto Hou Yi estava fora. Num momento de desespero, Chang’e engoliu a poção e se tornou imediatamente uma deusa e voou para o céu. Porque ela ainda se importava tanto com seu marido, ela pousou no local mais próximo da Terra, a Lua.

Quando Hou Yi voltou e descobriu que sua esposa tinha desaparecido, ele ficou arrasado. Quando ele olhou para o céu para chamar o nome dela, ele viu que a Lua naquela noite estava especialmente brilhante e cheia e teve um vislumbre de Chang’e.

Ele imediatamente trouxe os bolos favoritos de Chang’e para orar pelas bênçãos do céu. Desde então, tornou-se uma tradição para as pessoas adorarem o Céu e comemorarem com bolos da Lua aquele dia. Assim, o Festival da Lua se tornou conhecido entre os chineses.

Em 2006, o Governo chinês declarou o Festival como patrimônio cultural intangível e passou a ser uma festa nacional em 2008 comemorada com feriado. É uma época de reunião familiar, a exemplo do Natal no Ocidente. Tal como descreve o site Minhachina.com: “as pessoas da família voltam para jantar, e depois do jantar, curtem a lua, comem frutas e um doce chamado de Yue Bing – a torta da lua. Há famílias que mantêm costumes tradicionais e fazem ofertas para a lua. Este festival é bem antigo, mas ainda é muito popular na China. Áreas e etnias diferentes têm costumes diferentes neste festival. Há muitos anos, o dia 15 de agosto é um dia especial para a lua: na Dinastia Zhou (século 11 a.C – 221 a.C) tinha nesta noite celebrações para receber o tempo frio e fazer ofertas para a lua; na Dinastia Tang (618 – 907) festas para curtir a lua e compor poemas eram populares; na Dinastia Song do Sul (1127 – 1279) as pessoas se davam presentes de Yue Bing*, com o sentido de que as famílias ficassem juntas; e à noite havia sempre atividades para apreciar a lua, e passeios de barcos eram populares; e nas Dinastias Ming (1368 – 1644) e Qing (1644 – 1911), o Festival da Lua ficou mais popular, diversos costumes foram formados, como Fang Tian Deng – lanternas do céu, Wu Hou Long – a dança do dragão de fogo, etc. As duas comidas que não podem faltar nesta noite são Yue Bing e a melancia. 

* Yue Bing, a torta da lua, é um doce de forma redonda, feito com farinha de trigo e diversos recheios. A forma redonda desta comida tem o sentido de que as famílias fiquem juntas.”

Quando era criança nos anos 50, época que ainda morava em Macau, eu tinha um desses coelhos nos quais se acende uma vela no seu interior para iluminá-lo. Um dia, a vela caiu e incendiou o coelhinho, mas minha mãe comprou outro. Belas lembranças da infância. Fiquei muito contente ao reencontrar o coelho e fiz questão de pedir licença para fazer a foto aquando da minha viagem a Macau em 2006. As crianças também costumam carregar as lanternas de papel pelas ruas, um costume saudavelmente preservado.  Os chineses bem sabem fazer isso.

A decoração para a festa em Singapura (Wikipédia)

A festa é um bom motivo para brincadeiras de crianças e jovens ao ar livre em Macau. Foto Rogério P.D. Luz 2006

bolo da lua ou em chinês: üt peáng

Em Macau as famílias chinesas costumam reunir-se para piquenique ao ar livre na Praia Grande. Foto Rogério P.D. Luz 2006

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Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

Sobre

O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

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