Cronicas Macaenses

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Grande Prémio de Macau de 1967, a ameaça vermelha

Os chineses são supersticiosos quanto ao nº 4 (sêi, que também significa morrer) e as composições com ele, especialmente o 14 (sâp sêi), que também significa “morrer com certeza” ou coisa assim (perdoem o meu chinês, que é ruim), numa entonação diferente.  E o GP de 1967 era o 14º desde 1954, o seu início.

Estava praticamente ameaçado por uma mensagem do “The Red-May Rebelious Combat Squad-Macao” (Esquadrão de Combate da Rebelião Maio-Vermelho-Macau”, que se auto qualificava de um grupo maoísta.  Na verdade poderia ser uma brincadeira de mau gosto de um moleque/putinho. Esta mensagem aqui publicada foi escrita em inglês, penso que boa parte dos leitores têm conhecimentos da língua para entender, e ameaçava os pilotos chineses se viessem a participar do GP, citando alguns nominalmente, utilizando-se de slogans anti-imperialistas.

O problema é que a época era pós “1, 2, 3”, daquela dos violentos protestos de guardas-vermelhos em Macau, e também de bombas caseiras que eram espalhadas pela cidade de Hong Kong.  Eram os tempos da Revolução Cultural com esses guardas a cometer atrocidades na China.  Assim, os pilotos chineses levaram o negócio a sério e o Albert Poon, um destes afamado e competente, tomou a iniciativa para avaliar a situação e a pedir garantias e segurança.  Na verdade, até chegaram a aventar a não participação como pareceu no 1º embarque dos carros de competição para Macau. Poucos embarcaram. Porém a Comissão Organizadora, representada por Dr. Henrique de Senna Fernandes, afirmava que iriam realizar o GP “de qualquer jeito” sem se importar com o nº de carros na grelha/grid.

O Governo português dizia ter 500 soldados e 400 policiais prontos para oferecer toda a segurança, até assumiu o papel de Seguradora, já que nenhuma aceitou correr o risco, para garantir o seguro de vida dos participantes mediante o pagamento do prémio/custo do seguro.  Até foi benevolente a garantir que se o segurado não sofresse sinistro ou reclamasse algo com relação ao seguro, devolveriam a quantia paga.  O Teddy Yip, de Macau, até ofereceu aos participantes a quantia de $100,00 (cem Hong Hong dollars?) em fichas para gastarem no seu casino.

Após negociações, reuniões, garantias recebidas de 13 dirigentes comunistas de Macau que qualificaram a carta de ação de “gente má”, todos acabaram na última hora a embarcar os carros para Macau.  O Albert Poon, ex-policial de HK, foi autorizado por essa condição a andar armado em Macau.  Disse ele que enquanto pilotava seu Brabham, carregava um revólver Brownin de 14 disparos num coldre.  Estiloso dizia “levo comigo 14 destes meliantes antes que acabem comigo“. E no final, não aconteceu nada e o GP foi um sucesso de público, com cerca de 20 mil visitantes de HK.  A prova foi vencida por Tony Maw com um (fórmula) Lotus 20 e teve 16 carros no grid de largada.

Mas o 14 “sâp sei”, se acreditarem na superstição chinesa, não se resumiu a isso.  No decorrer da corrida da categoria principal do GPM, o famoso piloto filipino Arsénio “Dodgie” Laurel foi colidir contra o muro do retão da Praia Grande em alta velocidade, falecendo quase que instantâneamente com o carro em chamas.  O seu carro era um fórmula Lotus 41 (e o 4 nessa história de novo).

Sobre o GP e a morte do piloto, será falado aqui ou no site Projecto Memória Macaense, que abriu um espaço para falar das Memórias dos Grande Prémio de Macau.  Pretende ter um bocado de conteúdo com bastante fotos.  Antes de deixar Macau em Dezembro de 1967, colecionei recortes de jornais dos 13º e 14º GPs de Macau.  Trouxe comigo na bagagem e estão há 45 anos guardados num álbum, tal como era.  Tenho também uma coletânea de fotos tiradas por meu amigo Natalino Couto Wong (em Portugal), de 2 GPs dos anos 70 e mas enviou na época.  Particularmente prefiro entender que a questão da superstição do nº 4 é ou foi mera coincidência, mas respeito as coisas chinesas e nem ouso contestá-las.

(clicar nas imagens para aumentar)

a bendita carta-ameaça com anotação do Albert Poon a marcar uma reunião com Walter Sulke, pedindo não avisar a imprensa

Albert Poon empurra o seu Brabham com motor Alfa Romeo, após abandonar por problemas mecânicos.  Para protegê-lo, empurrou o carro da Curva do Reservatório até os pits, uma viagem e tanto, coisas de corrida de antigamente, pois hoje nem se permite isso. Fez a melhor volta com 2m 56.4s, novo recorde da pista.  Para lembrar, no GP anterior, Mauro Bianchi com um Renault Alpine quebrou a barreira de 3minutos por volta.

* dados colhidos do livro “Colour and Noise” de Philip Newsome e jornais da época

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Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

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O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

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