Cronicas Macaenses

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Carnaval em Macau … antigamente

Com o passar dos anos. e, mais tarde, com a revolução de 25 de Abril de 1974. aquelas centenas de militares que nos acostumamos a ver pelas ruas, desapareceram. Ficaram os macaenses e os chineses … … Os casamentos realizados entre macaenses. ou entre macaenses e metropolitanos, faziam com que as tradições se perpetuassem através das novas gerações … … os macaenses acabaram por sofrer alguma influência deste convívio mais próximo com a comunidade chinesa, seja na língua, na culinária ou nos costumes. Naqueles casamentos onde a componente chinesa é mais forte, as nossas tradições foram sendo esquecidas. dando lugar a usos e costumes que não são nossos“, assim Mário José Nogueira, em 1993, deu um panorama do que poderia ter sido um dos motivos para a diminuição de interesse pelas Tunas, e consequentemente das festas carnavalescas.

Pode isto ter contribuído para o fim do Carnaval em Macau, bom salientar, um dos motivos, eu acrescentaria que também pela modernidade musical com o Elvis e dos Beatles, essa invasão da música inglesa e americana que acabou gerando uma preferência por parties, como um outro motivo.  Vivi bem os anos 60 em Macau e confesso que de Carnaval, lembro que nessa época, como estudava no Seminário, os padres nos convocavam para um retiro espiritual e de orações, para nos afastar dos dias de pecado.  Além do que por falta de uma melhor comunicação como hoje, só imaginavamos o Carnaval, atribuído ao Brasil, pelos filmes, já que nem tv tinhamos.  Imaginavamos que em cada esquina do Brasil, havia um brasileiro tocando pandeiro e sambando, aliás uma coisa que ainda se imagina até hoje.  Só ver o filme de desenho animado – Rio – onde o cão bulldog aparece com a ridícula fantasia de “frutas na cabeça“, tipo Carmen Miranda nos EUA, ou era brasileiro sambando por tudo quanto é lado, e outras coisas absurdas, etc etc.  O brasileiro curte o Carnaval e sai para a folia, mas nem todos que seriam a maioria.  Prefere-se mais aproveitar o feriadão de 4 ou 5 dias para viajar ou curtir a cidade tranquila com menos gente.  Até poucos assistem aos desfiles pela tv.  Eu insisto em assistir todos os anos, mas cansa-se muito a vista pelo movimento das cenas e logo o cochilo vem.  Uma pena que acaba-se dormindo mais no sofá do que ficar acordado assistindo as belas escolas de samba, cada vez mais sofisticadas, e se me desculpem,  as de São Paulo já estão praticamente no nível do Rio.

Mas voltando ao assunto de Carnaval de Macau, no artigo de Veiga Jardim na Revista Macau de Maio de 1993, publicado no site do Projecto Memória Macaense (As Tunas de Macau), recorda-se como eram os carnavais com as disputas das Tunas e o desfile pelas ruas, tais como os Trios Elétricos do Brasil.  Transcrevo uns trechos do extenso artigo:

“Herança directa das tunas portuguesas, as tunas de Macau sempre foram presença obrigatória no Carnaval e em outras festas populares:  tunas houve muitas, entre os anos 30 e fins de 40, já que nem o período da guerra tirou aos macaenses o gosto pelo convívio e pela folia. Nomes como a Harmonia e a Tuna Macaense são ainda lembrados por quem participou nos assaltos e desfiles carnavalescos.”

As tunas formavam-se por altura do Carnaval e de uma especificidade local – o Micareme (cerca de 40 dias após o Entrudo), nascida do facto das pessoas não se contentarem com uma semana de folia e tentarem prolongar a festança, mesmo contra as críticas dos párocos que achavam muito pouco adequado foliar durante a Quaresma. … … O elemento feminino, que se destacava nos bailes e desfiles de mascarados, surgia nas tunas apenas como porta-bandeira.”

E, o Mário José Nogueira (na foto acima: o 1º à esquerda da fila de frente) comenta:

“De um modo geral a existência das tunas estava condicionada às comemorações do Carnaval. É claro que durante o resto do ano não ficávamos completamente inactivos. A cidade mudou muito. Antigamente realizavam-se enormes feiras, quermesses, festas religiosas e, muitas das vezes íamos lá tocar.”

“… No Carnaval inevitavelmente tocávamos marchinhas. Nos bailes fechados tocávamos música de dança. Mas deixe-me contar-lhe a história: dois meses antes do Carnaval, reuníamo-nos duas vezes por semana para ensaiar. É bom frisar que nenhum de nós recebia um avo. Mesmo os uniformes e as fantasias eram comprados com dinheiro do nosso próprio bolso. Aqueles que não podiam, recorriam ao presidente da tuna que, de um modo geral, era alguém com mais recursos e que garantia este tipo de despesas. Também era através do presidente que os clubes e as pessoas em geral convidavam as tunas para participar dos bailes e festas. Havia em Macau diversos clubes que organizavam grandes bailes, durante os quatro dias do Carnaval. Estes eram o Clube Macau (no Largo de Sto. Agostinho), Clube Militar (no Jardim de São Francisco), Clube dos Sargentos (cujo verdadeiro nome era Clube Recreativo 1° de Junho, situado perto do mercado da Mitra). e o Clube MELCO (situado na Areia Preta. onde hoje é o Bairro Hip-On). Havia os bailes do Sábado Gordo e do Domingo de Carnaval. Na terça-feira havia o Carnaval dos Casados e na quarta-feira de cinzas praticamente já não havia mais nada. Éramos. por exemplo. convidados para tocar no Clube Macau. durante um baile que começava às 9.30 da noite. A tuna saía da sua freguesia de origem e. tocando, marchava pela cidade até o clube, Muitas vezes fizemos longos percursos debaixo de chuva. desde o Tap-Seac até lá em cima. no Largo de Sto, Agostinho. Tinha horário para começar mas não tinha para acabar, Tocávamos até às 5 da manhã e depois ainda íamos à Novena de N.S.dos Passos, que normalmente coincidia com a época do Carnaval. Comíamos qualquer coisa – depois de já termos, durante a noite. comido não sei quantas vezes – e.finalmente. voltávamos para casa. Era divertido, mas muito cansativo.. .”

“Os músicos não se mascaravam, mas havia umas boas dezenas ou centenas de foliões que se fantasiavam e aos quais se poderia, eventualmente. misturar um grupo de agitadores pondo em risco a segurança das pessoas. Em Macau havia um carnaval de rua espontâneo e as tunas eram, de certa forma, o ponto alto destas festividades. Os sócios dos clubes juntavam-se ao grupo, durante a marcha. de modo que quando chegávamos ao fim do percurso a festa já estava bastante animada…”

a mulher como porta-bandeira (tal como nas escolas de samba no Brasil)

Veiga Jardim finaliza a sua matéria sobre As Tunas de Macau, assim:

Após estes depoimentos, plenos de ricas vivências, fica-nos a impressão de que, quase sem sentir, Macau, abrigo provisório de uma cultura tão peculiar, foi perdendo um pouco da sua personalidade com o desaparecimento das tunas. As guerras, a emigração e as revoluções – circunstâncias históricas imponderáveis – conduziram caprichosamente os destinos deste pequeno pedaço de terra que, em breve, não mais pertencerá aos seus filhos. … No entanto, onde estiverem, se cá não puderem permanecer, levá-la-ão consigo, no seu sangue e nas suas memórias, pois na verdade, são eles os protagonistas da sua própria história.” (Veiga Jardim é um maestro brasileiro que residiu em Macau por uns tempos, compôs e executou toda a trilha sonora do filme A Trança Feiticeira de Henrique Senna Fernandes)

É bom ler que há manifestações de pessoas em Macau para o retorno destes velhos costumes.  Torço para que tudo dê certo e que haja adesão da população macaense e portuguesa.

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Publicado às 22/02/2012 por em Macau-memórias e marcado , , , .

Autoria do blog-magazine

Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

Sobre

O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

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