Cronicas Macaenses

Blog-foto-magazine de Rogério P D Luz

A desmontagem da estátua de Ferreira do Amaral de Macau, saiba …

Já fiz postagens a respeito da estátua do Governador Ferreira do Amaral, abandonada e descuidada num parque em Lisboa, Portugal.  Não tenho informações atualizadas de como ela está, mas tenho cá uma crónica de João Fernandes que nos conta, em 1993, como foi a remoção da estátua da Rotunda Ferreira do Amaral, diante do Banco da China e Hotel Lisboa.  Infelizmente o progresso e a modernidade de Macau, além de um comentário vindo do Continente vizinho: “é evidente que depois de 1999 não poderão ser mantidos em Macau monumentos que exaltem o período colonial“, acabaram sendo o motivo para ela ser despachada para Portugal.

Felizmente aquele comentário não se concretizou totalmente, pois alguns monumentos como as estátuas de Jorge Álvares e Vasco da Gama foram mantidas nos seus lugares. A sabedoria chinesa prevaleceu.

Veja a foto (“não recomendável para quem tem problemas cardíacos pois a imagem pode provocar fortes emoções”), é realmente uma cena muito triste, pois até parece que  o nosso Governador morreu pela segunda vez em Macau.  Até fiquei a pensar, aquando da sua inauguração nos idos tempos, deve ter havido aquele pomposo cerimonial com as tropas perfiladas, e a banda a tocar o hino nacional português além da população de língua portuguesa, pelo menos, a assistir.  E quando foi removida? Como foi? Eu estava aqui no Brasil e na época não tinha internet, não fiquei sabendo, infelizmente …

 

foto de Nuno Calçada Bastos

A ‘Crónica do Acaso’ de João Fernandes, Revista Macau Junho 1993:

FERREIRA DO AMARAL TORNOU A SER POLÉMICO

DENTRO de poucas semanas a nova fisionomia da Rotunda Ferreira do Amaral passará a fazer parte do quotidiano de Macau e não serão precisos muitos anos para que seja já difícil recordar como era antes, exactamente, aquela vasta praça e o local exacto onde estava colocada a estátua  equestre do antigo Governador.

O apear da estátua causou no entanto intensa polémica, que pelo facto de ter abrandado não deixa de continuar latente: deveria ou não retirar-se a estátua?

A pergunta foi posta pela primeira vez quando se encarou seriamente a idéia de dar um novo arranjo ao local, em grande parte servindo apenas para estacionamento de automóveis, o que claramente lhe retirava a dignidade que merecia. A pergunta foi-me mesmo apresentada a título privado, tendo-me, então, pronunciado a favor. Argumentei na altura que um novo arranjo da rotunda era claramente necessário e que se deveria aproveitar a oportunidade para a retirar, sacrificando-a ao progresso, o que sempre seria melhor do que “fechar os olhos” ao “incómodo” que representava, sabendo-se que assinalava um período difícil nas relações entre portugueses e chineses e sem esquecer as tentativas já feitas, no quente dos acontecimentos do chamado “1,2,3”, para a derrubar…

Outras opiniões teriam ido no mesmo sentido e o então secretário-adjunto Luís de Vasconcelos deu indicações aos Serviços de Obras Públicas para elaborarem um concurso de idéias para um arranjo urbanístico da praça. Mantendo a estátua, ou encarando a hipótese de a retirar? — terão perguntado nos Serviços. A resposta foi anódina: encarando as duas hipóteses.

Tudo leva a crer que a partir daí, e embora sem ter chegado ainda à imprensa, o assunto começou a ser falado. Talvez não muito, mas o suficiente para chegar a Pequim, de onde, inesperadamente, o director do Gabinete para os Assuntos de Macau e Hong-Kong junto do Conselho de Estado chinês, Lu Ping, avançou com uma declaração: É evidente que depois de 1999 não poderão ser mantidos em Macau monumentos que exaltem o período colonial.

A afirmação chocou, pelo insólito, e irritou muita gente que a considerou despropositada. E desgostou também os que tinham em mãos o processo de reurbanização da rotunda — e adivinharam-se de imediato os problemas que se iam seguir.

Na verdade, pouco tempo depois — e sopesada mesmo a possibilidade de voltar atrás no projecto em curso… — tornou-se público o concurso de idéias, não faltando então quem ligasse as duas coisas e entendesse que se estava a corresponder apressadamente à “ordem” de Pequim, sem que nada o justificasse. A polémica esteirou, saltou para Lisboa e foram muitas as posições extremadas, quase sempre levando pouco em conta a situação real…

Realizado o concurso e decidido qual seria o novo desenho da rotunda, o processo começou penosamente a arrastar-se. Carlos Melancia pedira já a demissão do cargo de Governador e, como se sabe, foi moroso o processo da sua substituição. A encarregatura do governo terá pensado ser justificável suster a questão da praça, apesar de já se ter dado início aos trabalhos preparatórios da obra, cujo concurso foi também posto em banho-maria.

A nova Administração herdou portanto um problema incómodo, já em fase bastante avançada, que teve de reanalisar nas suas diversas implicações. Um período que terá tido a vantagem de deitar alguma água fria na fervura. Pondo algum bom senso no apreciar da questão, toda a gente é capaz de concordar que a estátua de Ferreira do Amaral nos diz bastante mais a nós, portugueses, do que, necessariamente, aos chineses. Se é verdade que a História é o que é, também é irrecusável que ela é muito a maneira como é encarada. O obelisco que comemora a Restauração da Independência está muito bem onde está, em Lisboa, e não é por acaso que não está em Madrid. E isto para além das relações ibéricas serem as melhores…

Garboso no seu cavalo, de braço bem levantado pronto a ripostar aos golpes dos seus assassinos, Ferreira do Amaral lá seguiu para Lisboa, onde a Câmara há-de arranjar um lugar condigno para o colocar, lembrando aos vindouros mais um episódio da forma como fizemos História nas cinco partidas do mundo….

Em Macau, entretanto, a vasta praça que continua a ter o seu nome vai dentro de algum tempo ser alvo de nova controvérsia — embora agora menos aguerrida: deveria ser assim? Melhorou o trânsito local como se desejava? Os seus elementos decora¬tivos são os que deveriam ser?

Aos poucos, como tudo, a discussão vai perder calor, os cidadãos habituam-se e os turistas farão do local um dos seus pontos obrigatórios e preferidos para as tradicionais fotografias.

Dentro de alguns anos as, então, velhas fotografias, mostrando a saída da ponte Nobre de Carvalho, a estátua equestre e, lá ao fundo, em vez do actual edifício do Banco da China, o sacrificado Liceu, irão parecer tão fora de época como aquelas que agora nos lembram o Macau do antigamente, com muitas árvores e poucas casas…

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Informação

Publicado às 29/03/2012 por em Gov. Ferreira do Amaral e marcado .

Autoria do blog-magazine

Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

Sobre

O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

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