Cronicas Macaenses

Blog-magazine de Rogério P. D. Luz, de cara nova

Extrato das memórias do 25 de Abril em Macau

“25 de Abril” ou a Revolução dos Cravos, significou o fim do regime ditatorial do Estado Novo vigente desde 1933 em Portugal. Foi um golpe de Estado militar que ocorreu em 1974. Os jornais da distante Macau somente noticiaram o golpe dois dias depois, no dia 27.

Trago aqui um extrato das memórias do 25 de Abril em Macau publicadas na Revista Macau, edição de Abril de 1994, de autoria de João Guedes sob o título “A Oriente da Revolução”.

UM CANTOR DEU AS NOVIDADES

Em 25 de Abril de 1974, as notícias da revolução portuguesa foram conhecidas em Macau com quase o mesmo atraso que as da implantação da República, 64 anos antes. Os jornais noticiaram o facto apenas a 27 de Abril, quase como os seus antecessores de 1910, e mesmo a rádio, novidade que não existia nos tempos da República, teria sido batida pelos diários se não se fosse um famoso artista do nacional-cançonetismo levar as notícias ao conhecimento do noticiarista da Emissora. O portador de tão inesperadas novas foi Rui de Mascarenhas, vedeta portuguesa que actuava todas as noites no palco do luxuoso restaurante Portas do Sol, do Hotel Lisboa. Invariavelmente, depois do show, dirigia-se aos estúdios da Rua Francisco Xavier Pereira, juntando-se ao animado grupo que, habitualmente, acompanhava Alberto Alecrim no seu “Vamos Jogar no Totobola”, espaço radiofónico que não tratava do futebol e, sim, recebia as novidades, retransmitindo-as com humor para a cidade.

Dessa vez, porém, o caso era sério e necessitava da confirmação que os telexes, sobre os quais o grupo se debruçou ansioso, não forneciam. Para além do telefonema militar chegado ao chefe de gabinete, o público teve acesso às notícias através do serviço radiofônico mundial da BBC (retransmitido pelas rádios de Hong Kong, que registavam largas audiências em Macau). Só depois de feitas as traduções foi possível a Alecrim transmitir o pouco ainda que se sabia sobre a Revolução dos Cravos à comunidade portuguesa, em casa, colada aos receptores.

Como soube Rui de Mascarenhas das novidades, ninguém se recorda, e talvez já não se possa saber.

Rui de Mascarenhas morreu em 1990…

O SEGUNDO TELEGRAMA

O Conselho Legislativo de Macau enviou um telegrama de apoio incondicional ao regime de Marcelo Caetano que chegou no dia da Revolução dos Cravos.  E assim que souberam das notícias do golpe de Estado, mandaram novo telegrama com texto semelhante ao anterior, só que, desta vez endereçado à Junta de Salvação Nacional.

O Conselho Legislativo de Macau tinha tido azar. Por unanimidade e aclamação enviara ao Governo de Lisboa um telegrama de apoio incondicional ao regime de Marcelo Caetano. Telegrama falaz que arribou a S. Bento precisamente no dia em que Marcelo Caetano se refugiava no Carmo, nunca dele tendo tido conhecimento. Sabidos, em Macau, os desenvolvimentos subsequentes, o mesmo conselho decidiu enviar para Lisboa um texto semelhante ao anterior, mas desta vez dirigido à Junta de Salvação Nacional que dirigia agora os destinos da pátria. Tal como antes, a Assembléia aprovou de pé e por unanimidade a nova manifestação de fé. Por unanimidade, não! Uma deputada, Graciete Batalha, ficou sentada…

É ela própria que regista nas suas memórias o que aconteceu nesse dia 29 de Abril de 1974:

Quem aprova levanta-se, quem não aprova deixa-se ficar sentado – diz o Governador, como é costume nestas votações.

Toda a Assembléia novamente de pé (o proponente do primeiro telegrama teve o bom senso de ficarem casa)- toda a Assembléia de pé, menos uma mulher caturra que se deixou ficar sentada ante os olhares estarrecidos duma fila de assistentes à sessão, mesmo def

Henrique de Senna Fernandes revela “fui até eu que redigi o telegrama (o primeiro) que seguiu para Lisboa .. eu fi-lo com convicção …”

ronte da sua cadeira. Ainda agora me divirto ao lembrar aqueles olhares de espanto. “Estará louca?”, pareciam dizer.

Quando todos se sentaram levantei-me eu e disse mais ou menos isto, como deve constar nas gravações do dia: – Senhor Gover

nador, peço licença para explicara minha atitude. Eu não tenho nada contra a Junta de Salvação Nacional, mas termos mandado há cinco dias um telegrama a apoiar a política do Primeiro Ministro Marcelo Caetano e mandarmos hoje outro, apoiando uma política completamente

oposta, é contra a minha maneira de ser. Além disso, não creio que fôssemos constrangidos a aprovar o primeiro telegrama. Se o Sr. Vogai A. M. foi constrangido, não sei; eu não fui. Concordo plenamente que se agradeça a manutenção de V. Exa. em Macau, porque isso é certamente motivo de regozijo para todos nós. Mas acho muito cedo para dizer mais do que isso. Claro que tal actuação, como a que eu estava a sugerir, era absolutamente inviável em boa política… O Governador, olhava para mim, siderado, mas, diga-se a verdade, recompôs-se rapidamente e não alterou a sua costumada gentileza: – Não reparei que tinha ficado sentada…

in Bom Dia, S’tora!, Macau, 1991

38 Democratas de Macau subscreveram o telegrama abaixo de apoio ao novo regime, num jantar no restaurante Fat Siu Lau (foto acima) a 30 de Abril

MACAU É UMA JÓIA RARA

Tanto para os democratas como para os conservadores de Macau, as notícias da eclosão do 25 de Abril de 1974 causaram generalizada satisfação. Para os primeiros, abria-se uma nova era de liberdade. Para os outros, entreabria-se a possibilidade de conseguir a tão almejada autonomia do território ansiada desde os idos da revolução de 1822. No entanto, passada a euforia inicial, uma parte da população, incluindo a comunidade chinesa, começou a ter alguns receios pelo futuro. A descolonização tomava a prioridade em todas as agendas de Lisboa e nenhuma indicação chegava que permitisse claramente depreender que Macau seria tratada de maneira diferente de Angola, Moçambique, Guiné, ou Timor.

É neste contexto de receio que o ministro da Coordenação Interterritorial do primeiro Governo provisório efectua a sua primeira deslocação ao Oriente, uma deslocação vista com ansiedade não só por Macau, como também pela vizinha Hong Kong, onde o governador enviou insistentes telegramas a Almeida Santos para se encontrar com este antes de embarcar no hydrofoil para Macau. Almeida Santos encontrou-se de facto com o governador britânico e procurou tranqüilizá-lo.

Foi em razão dos receios crescentes que se sentiam em Macau que Almeida Santos, depois de ter estado em Timor, onde se colocava de facto um problema de descolonização, decidiu passar por Macau. Quando chegou, constatou as informações que possuía:

Quando cheguei havia uma grande ansiedade de facto. A pataca tinha baixado de cotação e as pessoas estavam preocupadas. Qual vai ser o futuro de Macau? E eu pude fazer uma comunicação pública num teatro da cidade em que afirmei: Macau é uma jóia rara. É um caso especial, para nós não é uma colônia. Para Macau não se põe o problema de nenhum processo de descolonização. Isso aquietou os ânimos.

O MFA – Movimento das Forças Armadas após a revolução substituiu o Governador Nobre de Carvalho por Garcia Leandro

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Autoria do blog-magazine

Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

Sobre

O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

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