Da série “Tacho do Diabo” que a Cecília Jorge divulgava na Revista Macau, veja esta publicação da edição de Março de 1994 que poderá lhe servir de orientação para sua alimentação e dieta. Mais abaixo a receita de Caldo de Galinha da Cecília:
Reequilibrar o Organismo
de Cecília Jorge – Revista Macau, Março 1994

A medicina caseira traduz-se na China sobretudo pela arte (ou ciência), praticada por quem tem a seu cargo a confecção dos alimentos no lar, de saber prevenir maleitas, tendo em vista contrariar os efeitos nefastos de um climatraiçoeiro que se manifesta sobretudo no Sul, e em Macau, em especial.
Foi este conhecimento que os macaenses apreenderam dos chineses com quem conviveram ou de quem descendem.

chás medicinais de ervas vendidos nas tendinhas ambulantes chinesas
Que não se julgue tratar-se esta afirmação de menosprezo pelos ensinamentos e hábitos alimentares (ou até da medicina caseira ocidental) que, decerto, os seus antepassados lusitanos aqui trouxeram quando aportaram. Mas o certo é que o ditado “em Roma sê romano” tem muita força na convivência entre culturas…
E porque assim sucede, é frequente encontrarmos em muitas receitas macaenses alguns ingredientes que não servirão apenas para condimentar, desempenhando antes o papel de equilibradores, de cadinhos, de o neutralizadores perfeitos para o “veneno” de um alimento que se gosta de comer, que se quer comer, e se não devia. É assim que surgem sempre as fatias de gengibre, alguns vegetais, cascas de tangerina, raízes e cereais como a cevadinha, tão detestada pelas crianças. Menos mal tolerada na sopa, porque invisível, era equivalente ao castigo do óleo de fígado de bacalhau, em colheradas, quando transformada em “água de cevadinha”: a terrível ii-mâi-sôi dos regulares desencarolamentos do organismos durante o estio.
E, no entanto, hoje vemos os adultos, os mesmos que, quando crianças, torciam o nariz, cerravam os dentes ou choravam copiosamente entre a taça de cevadinha e a ameaça de um tabefe como alternativa, a servirem-se, copiosamente, de grandes copaças de “água de cevadinha”, do chá de barba-de-milho, da água de cana de açúcar e até de amargos chás medicinais de ervas vendidos nas tendinhas ambulantes chinesas, para expulsar as toxinas e aliviar a calidez.
É que o macaense, de um modo geral (há excepções), abusa. Gosta imenso de comer e come tudo o que lhe surja condimentado e ensopado quanto baste e com uma dose de (bem disfarcada) gordura. E a prová-lo estão o “tacho” ou o “chau-chau pele”, o “arroz carregado” (com banha) e um bom número de outros nomes aliciantes. E vai daí o tentar equilibrá-los com intervalos de refeições de caldinhos e chazinhos digestivos para derreter a gordura. Mas diz quem sabe e não quis guardar segredo a sete chaves que, por exemplo, às carnes mais gordurosas do “tacho” se deve dar uma fervura prévia (com água que se não aproveita). Não é por acaso que essa é uma das regras básicas dos caldos e de toda a alimentação caseira chinesa.
E a demonstrar o difícil, mas possível, equilíbrio entre o omnipresente apetite e as apetências famosas do Macau filo pelos tesouros da cozinha da sua gente, onde quer que esteja, vamos transcrever, em versão traduzida do inglês, o curioso e divertidíssimo apontamento que recebemos de Frederick A. Silva. Já surgido, com pseudónimo, numa publicação da U.M.A. (União Macaense Americana, da Califórnia). Radicado há muitas décadas nos Estados Unidos e membro da U.M.A., “Jim” Silva, como também lhe chamam, é autor de um dos primeiros e talvez um dos mais bem conseguidos trabalhos publicados de auto-definição do macaense e da sua identidade — All Our Yesterdays.
Sendo preciso ajudar a manter a linha já que “os filhos de Macau, mais do que muitos outros, são vítimas de uma auto-indulgência gastronómica”, apresenta-nos “Jim” Silva três receitas provenientes “do rol de receitas dietéticas de uma velha família do Mata Moro (“gueto” dos macaenses em Hong Kong no final do século passado), e mais conhecidas pela dieta de metarde barriga e feecha treepa da titi Carolina”.
1. Tacho Magro — Com os ingredientes habituais, mas sem chispe, chouriço chinês e entrecosto.
2. Papa com minchi branco — Papa, que sabemos nós todos como é (de arroz, cozido). Quanto ao minchi, passa a ser branco se fugirmos ao molho de soja, ao óleo e ao açúcar.
3. Galinha tufão — Guisado de galinha e tomate com ervas, especiarias e vinho tinto. Come-se com pão ou arroz. Não se repete a dose. Evita-se meter o pão no molho mais de três vezes.
Mas não vamos hoje falar de dietas. Incluiremos, a partir desta edição de “Tacho do Diabo”, algumas receitas-mezinhas destinadas a reequilibrar, com algum custo talvez, o organismo dos fanáticos e simpatizantes da culinária macaense. Com a ajuda de alguns colaboradores.
Para já, recomendamos-lhe este simples “caldinho” de galinha, para os convalescentes de febres estivais (ou, nesta estação, de excesso de “humidade-calor”, como dizem os chineses). Serve, igualmente, para uma dieta mais leve.
Receita de Caldo de Galinha

1/2 Galinha com miúdos
2 colheres de sopa de Cevadinha
1 fatia de Gengibre
1 Cenoura
Sal a gosto
Lavar e retirar toda a pele e gordura à galinha. Dar uma leve fervura em água.
Cortar os miúdos em pedaços pequenos. Voltar a colocar a galinha e os miúdos em cerca de um litro de água a ferver e juntar o gengibre, a cevadinha lavada e sal. Cozer em lume brando durante cerca de uma hora.
Juntar a cenoura cortada em quadradinhos e cozer mais meia hora.
Rogério P D Luz, amante de fotografia, residente em São Paulo, Brasil. Natural de Macau (ex-território português na China) e autor do site Projecto Memória Macaense e o site Imagens DaLuz/Velocidade.


Memória - Bandeira do Leal Senado - para nunca ser esquecida -CIDADE DO SANTO NOME DE DEUS DE MACAU, NÃO HÁ OUTRA MAIS LEAL- Esta é a antiga bandeira da cidade de Macau do tempo dos portugueses, e que foi substituída após a devolução para a China em Dezembro de 1999
O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau (ex-território português na China por cerca de 440 anos e devolvida em 20/12/1999) sua história e sua gente.
Macaense – genericamente, a gente de Macau, nativa ou oriunda dos falantes da língua portuguesa, ou de outras origens, vivências e formação que assim se consideram e classificados como tal.
*Autoria de Rogério P.D. Luz,, macaense natural de Macau e residente no Brasil há mais de 40 anos.
Escrita: língua portuguesa mista do Brasil e de Portugal conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.


cartaz de Ung Vai Meng

O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

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No Anuário de Macau do ano de 1962, nas páginas finais, vários anúncios publicitários encontravam-se publicados, os quais, reproduzimos abaixo para matar as saudades de quem viveu aquela época de ouro, ou então, para curiosidade daqueles que possam se interessar em conhecer, um pouco mais, aquela Macau de vida simples, sem modernidade, mas, mais humana.
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