Cronicas Macaenses

Blog-magazine de Rogério P. D. Luz, de cara nova

“A Trança Feiticeira” livro de Henrique de Senna Fernandes

Gazeta Macaense – edição internacional – de 03/11/1993

A Trança Feiticeira, um dos mais conhecidos romances escrito pelo macaense Henrique de Senna Fernandes, que também virou filme e ganhou um belo CD produzido pelo brasileiro Veiga Jardim, teve um capítulo publicado na edição internacional da Gazeta Macaense de 3 de Novembro de 1993. Uma boa oportunidade para quem não o leu, tomar conhecimento deste conturbado romance vivido pelo macaense Adozindo e a bela chinesa A-Leng nos tempos em que havia restrições para este tipo de união racial em Macau.

Para os brasileiros, o livro, impresso no Brasil, pode ser adquirido através do site da Livraria Cultura no www.livrariacultura.com.br ao preço de R$ 34,90.  Chequei hoje no site e vi que havia disponibilidade. Quanto ao CD penso que somente em Macau na Livraria Portuguesa, se ainda houver, e esta não vende nada via internet, uma pena! O filme? Nada se sabe. Assisti-o de um DVD emprestado por um amigo que foi gravado precariamente de uma fita de videocassete. Uma bela produção que infelizmente não tenho notícias que o filme foi reproduzido em DVD. Novamente uma pena!

Capa do CD com a bela atriz chinesa Ning Jing

Antes de ler o capítulo abaixo reproduzido, clique na seta abaixo para ouvir a música-tema do filme de composição do brasileiro Veiga Jardim e editado pela Phono-Art de Hong Kong em 1996, e apaixone-se por ela:

(incompatível com o útimo Mozilla Firefox – o audio player – não aparece / utilize Internet Explorer)

Capa do livro impresso no Brasil

Livro da Gryphus Editora – www.gryphus.com.br

Capítulo do livro “A Trança Feiticeira”

de Henrique de Senna Fernandes (Macau)

* legenda: “kuai-lou = em chinês referência para os estrangeiros, ou, quem não é chinês / kuai-diabo/demônio / lou=homem/gente/pessoa. Exemplo: Pá-sâi-lou = brasileiro ou pessoa do Brasil (Pá sâi). No entanto, iãn também é utilizado: Pôu-kók-iãn=gente(iãn) de Portugal (Pôu-kók) ou Iâp-pún-chai, donde Iâp-pún=Japão e châi=filho ou natural de. Agora troque o lou/iãn/châi por kuai e todos os estrangeiros serão diabos deste ou daquele lugar. Referir-se a quem ‘não é chinês’, especialmente o ocidental, por ‘diabo’ pode ser um ressentimento antigo por invasões sofridas pela China ao longo da sua história por estrangeiros. Agora o macaense, como eu, mestiço de ocidental/oriental nascido em Macau, já é tratado com respeito como tôu-sán-chai=filho da terra.

ESTAVA um belo dia de outono para a pesca, o céu límpido, a paisagem toda alumiada de tons metálicos, como só acontece nos meses de Outubro e Novembro. O Belo Adozindo escapulira de casa cedo, evitando encontrar-se com o pai. Eram sete e meia e encaminhava-se para a Praia Grande, onde embarcaria num barco à vela com amigos, para umas horas ao largo de Macau. Ia apetrechado para a pesca, o caniço e as linhas novas, os anzóis vindos de Hong Kong, duma casa da especialidade, o cesto contendo a isca. Vestia-se todo aperaltado e nada conforme como à vontade que tais excursões exigiam. Seria ridículo se não procedesse com naturalidade e espontaneidade, porque era incapaz de se apresentar doutra forma. O grande conquistador da praça tinha responsabilidades quanto a manter a sua fama. Nunca se sabia quem ia encontrar, embora ainda fosse cedo.

Respirou fundo a brisa matinal, a Estrada da Victória era uma recta dourada e não viu nenhum riquechó. Não se sentiu contrariado, cortou o Jardim de Vasco da Gama, ladeando os chafarizes, onde os fios de água prateada saltitavam, como garotos irrequietos. Para encurtar caminho, dobrou a primeira esquina, intemando-se na área do Cheok Chai Un.

Até então, esquivara-se do bairro de má fama, mas não acreditou que alguém fizesse mal, em pleno dia, a um homem pacífico que ia inocentemente à pesca, com o único peso na consciência de faltar ao trabalho. Mas os berros do pai podiam com facilidade serem amansados.

Chegou, sem novidade, à zona do poço, numa hora de grande actividade, as aguadeiras e lavadeiras a puxar os baldes ou formando bicha, num borborinho de vozes que soavam alegremente. E tudo teria passado despercebido, não ficando nada na memória, senão um quadro inédito se, nesse instante, não espadanasse uma gargalhadinha moça e sadia a evolar-se pelo ar, muito perto. Deteve-se primeiro curioso, depois com súbito interesse pela beleza rústica donde partia o riso. Gostou do que viu. Nunca contemplara uma moça tão atraente, de pé descalço, e nem podia adivinhar que um bairro de «facínoras e desordeiros» entesourasse uma bela jóia como aquela. Nunca vira, também, uma trança igual, tão preta que fulgia ao sol

A-Leng, porque era ela, captou o interesse e teve a desagradável sensação de ser escrutinada de cabeça aos pés. Não estava habituada a um exame tão atrevido, sobretudo, dum estranho e demais kuai-lou. Mais perturbada que irritada, resolveu afastar o insolente, à vista das companheiras.

Ao tirar o balde carregado até o topo, fingiu desequilibrar-se e a água saltou, chapinhando o solo, atingindo os sapatos e as calças bem vincadas do Belo Adozindo. Não pediu desculpas, voltando-se para encher de novo o balde. Houve risos que doeram mais ao rapaz do que o mau jeito dela, feito de propósito.

Sem  pronunciar  palavra, Adozindo seguiu caminho, enxofrado de despeito. Era a primeira vez que uma mulher se atrevia a desdenhá-lo. Em vez de enlanguescer-se perante a sua beleza irresistível, a rapariga ousava sujar-lhe os sapatos lustrosos e as calças, sem se desculpar. E era uma aguadeira ou lavadeira, de categoria abaixo duma criada de servir. A desfaçatez! Ali estava um exemplo da decantada mal-criação da gente do Cheok Chai Un. Nunca mais poria os pés ali.

O brilho do sol, a aragem refrescante que bolia com as árvores de S. José da Rua do Campo, a temperatura, seca do melhor mês do ano, dissiparam-lhe o abespinhamento. Não ia consumir a sua disposição numa zanga fútil, por causa duma aguadeira.

Volveu o pensamento para a viúva do Baixo Monte, a estupenda Lucrécia, a sua última conquista que não esperara acabar o luto para se lhe entregar nos braços. Se era rica em bens, mais o era na cama, com aqueles jeitosos seios de rola arrulhante. Enquanto aguardasse o recato do luto, não viria com exigências e podia aproveitar-se bem. Quando completasse um ano, então chegaria o momento da verdade. Mas esta data ainda estava bem longe, tinha muitos meses para planear como descartar-se dela.

Ladeou o Jardim de S. Francisco, onde crianças chilreantes, acompanhadas das criadas, corriam nas áleas dos canteiros, e aproximou-se da muralha que o separava do mar. A baía da Praia Grande, desde o fortim de S. Francisco até a curva do Bom Parto, coalhava-se de juncos e lorchas, na poalha do sol. Encaminhou-se na sombra recolhida das árvores de pagode, cujos murmúrios eram um fundo musical para a cantilena da maré enchente, espumando nos granitos da Praia Grande.

Senhoras vestidas de dó passavam embiocadas, vindas da igreja. As casas assobradadas permaneciam de persianas fechadas, pois a hora era ainda matinal e as moças preferiam a tarde para se postarem à janela. Vendilhões ambulantes apregoavam acepipes avinagrados e achares chineses. O amolador de facas esfalfava-se, rolando a sua maquineta, enquanto, mais adiante, o sapateiro-remendão chamava a clientela, martelando o ferro com o característico «toc-toc».

Olhou para o relógio e apressou-se. Os amigos iriam protestar, pois atrasara-se. Porém, ao pisar o cais de pedra, em plano inclinado, no começo da Avenida Almeida Ribeiro, eles bebiam o tau-fu-fá, que ainda estava quente. O vendedor perguntou-lhe se queria, mas Adozindo recusou. Lançou a vista para o edifício do Banco Nacional Ultramarino, ainda fechado, e depois para o Hotel Riviera, ambos à sua frente.

Na varanda dum quarto do segundo andar, uma loira penteava o cabelo de fartas madeixas, caídas sobre os ombros. Uma inglesa! Nunca experimentara uma inglesa. Para a sua colecção, seria um espécime verdadeiramente singular. Ela, do alto, observou-o indiferente, continuando o deslizar o pente pelos cabelos. Ele, em baixo, pôs-se logo em postura fatal, sem avaliar o possível ridículo.

–              Não me digas que também foi tua.

–              Não foi, mas se viver em Macau, sê-lo-á.

–              Não podes ir muito longe, com esses sapatos sujos!

Diabo, que se esquecera deles! Com os salpicos de água, os sapatos tinham as marcas secas de lama e poeira. Estragavam-lhe o perfil romântico: Estupor da aguadeira! Precisava duma lição, a descarada.

Foi um passeio magnífico, de peixe abundante e compensador, e almoçaram numa clareira dos Sete Tanques da Taipa. Com o êxito das suas qualidades de pescador, Adozindo esqueceu-se dos seus estafados gabanços, para alívio dos seus ocmpanheiros. Ficaram até a conhecê-lo melhor e ao seu lado simples e cativante. O regresso fez-se já noite e, no caminho da casa e cheirando a peixe, tomou a súbita decisão de atravessar o Cheok Chai Un.

Cruzou-se com pouca gente, recolhia-se ali cedo, e não viu a sombra de aguadeira nenhuma. Em casa, ouviu a repetidíssima descompostura do pai, a que não ligou, apoiado no coro das mulheres que tentavam justificá-lo. Ao deitar-se, o vulto da aguadeira apareceu, como um espinho no seu orgulho.

Durante uma semana e tal, olvidou o Cheok Chai Un. Afinal, era uma coisa sem importância que não merecia um cisco de preocupação. No entanto, ao ver passar pela estrada uma aguadeira de meia-idade e exausta, lembrou-se da negridão doutra trança. O despeito, de novo, amargou-lhe a boca. Imprudentemente, retomou o mesmo trajecto do dia da pesca.

A hora fremente do poço tinha passado. Ao aproximar-se do sítio, viu o vazio do movimento, apenas duas mulheres que puxavam sossegadamente as cordas donde pendiam pequenos baldes. Mas logo, junto dum paredão, descobriu duas penteadeiras; em volta das quais, uma mancheia de aguadeiras e lavadeiras se acocoravam, â espera da vez, num zumbido gárrulo e estouvado.

Uma delas precisamente cravava o pente no negrume dos cabelos da aguadeira malcriada, esticando-os para trás, o que obrigava a jovem a elevar o queixo e a mostrar o traço fino do seu pescoço e o relevo atenuado do peito. Era linda a aguadeira!

Parou, para observar melhor. Nem lhe faiscou na mente que estava no Cheok Chai Un, num bairro de má fama, onde se penetrava apressadamente para cortar caminho e nunca para visitar e ficar. Nem que o seu procedimento podia afrontar, por incorrecto e insultuoso. Achava até natural o exame àquele conjunto de mulheres descalças, como a um cenário exótico.

A algaraviada solta e despreocupada interrompeu-se. Os rostos afivelaram linhas duras, as moças, as mais tímidas, a encolherem-se, enquanto as penteadeiras resmungavam indignadas.

Os «kuai-lous» que pelo bairro apareciam sumiam-se lepidamente. Aquela era a primeira vez que um se petrificava diante delas, com um desplante inqualificável. A-Leng foi a única que se mostrou senhora de si. As narinas principiaram a inflar. Aquele rapaz era o mesmo doutro dia. Mais uma vez se confirmava que os «kuai-lous» não tinham maneiras. Não se mirava assim, como se ela e as amigas fossem simples galinhas expostas no mercado.

–              O que está a olhar? Nunca viu mulher nenhuma?

–              Admirava o seu cabelo – respondeu, num chinês de sotaque, mas perfeitamente compreensível.

Era um espanto que falasse a língua. Mas dominou-se e disse com aspereza:

–              Já admirou bastante. Toca a andar…

A voz fina soava ameaçadora. Não ia diminuir-se nem tremer, no meio daquela assistência. Na mão surgira uma pedra desgarrada da calçada. Se teimasse, a rapariga era bem capaz de lançá-la, gritando depois, em algazarra. Corou e obedeceu. Deixou atrás um coro de gozo e o estilhaçar de gargalhadas.

Outra vez enxotado como um cão tinhoso. Uma garota de pé descalço, uma criatura abaixo do nível de criada tinha a coragem de enxovalhá-lo, a ele, o Belo Adozinho. Pelos vistos, a petulante não se impressionara com a sua aparência e indumentária de grão-senhor. E a saber que tantas mulheres morriam por desejar que ele se lhes plantasse em frente.

“Uma garota de pé descalço, uma criatura abaixo do nível de criada tinha a coragem de enxovalhá-lo, a ele, o Belo Adozinho. Pelos vistos, a petulante não se impressionara com a sua aparência e indumentária de grão-senhor” – Foto do livreto que acompanha o CD

O prestígio de A-Leng cresceu. Desafiara um «kuai-lou» e este fugira. A notícia espalhou-se pelos becos e vielas do Cheok Chai Un, com os exageros. À noite, já havia quem afirmasse que fora à pedrada e o «diabo» batera em retirada, tremelicando de pavor. Os afagos da Abelha-Mestra foram nessa noite mais eloquentes. Não havia dúvida que A-Leng era a princesa.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Autoria do blog-magazine

Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

Sobre

O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

Pesquise por tema e localidade (ordem alfabética)

Últimas 150 postagens

Estatísticas do blog

  • 717,478 hits

Monitoramento de visitas – contagem desde 01/Nov/2011

free counters

Postagens recentes: Fotoblog do Projecto Memória Macaense

Memórias de S.Paulo 2006 – festa de aniversário da Casa de Macau

Memórias de S.Paulo 2006 – festa de aniversário da Casa de Macau

Passaram-se 11 anos, não parece muito, mas vários conterrâneos e amigos nas fotos que publico da festa do 17º aniversário da Casa de Macau de São Paulo em 2006, promovida em 29 de julho, não estão mais conosco. Ficaram os bons momentos registrados da boa confraternização. Vale um momento de reflexão para sempre procurarmos um […]

Vídeo “O silêncio de um bandolim” à memória de Adalberto Remédios

Vídeo “O silêncio de um bandolim” à memória de Adalberto Remédios

O que o Adalberto Remédios mais gostava era tocar o seu bandolim. Uma paixão desde jovem nos bons tempos antigos de Macau (ex-território português na China). Costumava tocar nas festas e atividades externas da Casa de Macau de São Paulo, formando um trio com o Clemente Badaraco (viola/violão/bandolim) e Manuel Ramos (baixo/percussão), até se mudar com […]

O Dia de Portugal na Macau portuguesa de 1973, em vídeo da RTP

O Dia de Portugal na Macau portuguesa de 1973, em vídeo da RTP

Outro vídeo da saudosa Macau sob administração portuguesa nas comemorações do Dia de Portugal em 1973, na época em que o governador era  o general Nobre de Carvalho . Faz parte dos arquivos da RTP Rádio e Televisão Portuguesa que foram disponibilizados ao público no seu aniversário de 70 anos. “Macau, Campo Desportivo 28 de […]

%d blogueiros gostam disto: