Cronicas Macaenses

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Macau – Padre José Barcelos Mendes, recordado por ocasião do centenário do seu nascimento

  • Postagem de autoria de Manuel V. Basílio (Macau)

José Barcelos Mendes nasceu na paróquia de Nossa Senhora do Pilar, Cinco Ribeiras, a 28 de Fevereiro de 1926.

Ainda muito novo, com apenas 12 nos de idade, embarcou para Macau, onde ingressou no Seminário de São José como seminarista.

Concluídos os cursos no Seminário, recebeu a ordenação presbiteral no dia de S. José, a 19 de Março de 1950, como consta da seguinte notícia publicada em O Clarim: “Das mãos de S. Exa. Revma. o Prelado Diocesano, receberá hoje, na Igreja do Seminário, as sagradas Ordens de Presbiterado, o nosso prestante colaborador e amigo, Revdo.  José Barcelos Mendes, nóvel missionário e professor do Seminário de S. José.  Sua Revcia.  Celebrará a Primeira Missa amanhã, na Igreja do mesmo Seminário, pelas 9 horas.”

Anos depois, foi nomeado prefeito dos alunos externos do Seminário. Entretanto, desempenhou outros cargos, nomeadamente o de professor e também o de director do semanário católico O Clarim, cargo que assumiu por três vezes.   A primeira vez foi entre 3 de Maio de 1959 e 1 de Março de 1962, quando substituiu o Pe. Dr. Fernando Maciel, que deixou o cargo por motivos de saúde a 30 de Abril de 1959.

Com uma formação intelectual e espiritual sólida, o Pe. Mendes destacou-se como director do semanário O Clarim, onde se notabilizou pela clareza e rigor da escrita na defesa dos valores cristãos, das suas ideias e convicções.

Como professor e prefeito, era estimado por muitos alunos, pois ajudava todos os que necessitavam do seu auxílio.

Fotografia tirada na sala de aulas, no dia de aniversário do Pe. Mendes.
No quadro preto, estão escritas as palavras “AD MULTOS ANNOS”.

Naquela altura, ainda jovem e cheio de energia, empenhava-se, de tempos a tempos, em organizar actividades escolares e extracurriculares.   Quem não se lembra dos passeios escolares às ilhas da Taipa e Coloane naquela época, em que era necessário apanhar um barco de carreira na Ponte-Cais nº 3, junto à Barra?

Passeio escolar. O Pe. Mendes está na fila de trás, quase ao centro.

Além disso, dada a sua paixão pelo desporto, foi um grande impulsionador de provas desportivas, sobretudo nas competições interescolares, acompanhando, apoiando e incentivando sempre os atletas.

Equipa de futebol de alunos externos do Seminário de S. José

A partir de 1967, o funcionamento normal do Seminário foi afectado sobretudo pelo clima de insegurança provocado pelo motim conhecido como 12-3, ocorrido em Dezembro de 1966, e pela falta de vocações sacerdotais.  Neste contexto, o externato foi encerrado em 1968, durante o bispado de D. Paulo José Tavares.

A sua acção missionária em Macau foi verdadeiramente notável.  Os seus sermões, pregados com muito fervor, em voz alta e bem sonante, sem necessidade de microfones, cativavam muitos fiéis.

Devido à sua devoção, era frequente vê-lo nas procissões, sobretudo nas do Senhor Bom Jesus dos Passos e de Nossa Senhora de Fátima.

O Pe. Mendes na Procissão do Senhor Bom Jesus dos Passos

Entretanto, havendo poucos alunos externos no Seminário, o Pe. Mendes voltou a assumir o cargo de director de O Clarim a 11 de Agosto de 1966, substituindo o Pe. Artur Augusto Neves. 

Desta vez, enquanto director de O Clarim, enfrentou dificuldades no desempenho do cargo, pois, meses depois, a situação em Macau tornou-se crítica após os motins de Dezembro daquele ano.  A intensificação da censura aos jornais e o controlo das informações, com críticas e relatos sobre a repressão a serem suprimidos, condicionaram a acção dos directores de jornais no exercício das suas funções, sobretudo os de língua portuguesa.

Por isso, a frontalidade e o rigor com que o Pe. Mendes expunha as suas ideias, sem rodeios, por vezes esbarravam no implacável “lápis azul” da Comissão de Censura, que acabava por impedir a publicação total ou parcial dos artigos por ele redigidos. Diziam que, quando recebia os textos marcados com uma cruz azul pela Comissão de Censura, manifestava, geralmente, a sua insatisfação e, por vezes, até dava mostras de irritação, devido ao seu temperamento impulsivo.

Após deixar o cargo de director a 18 de Abril de 1971, ausentou-se de Macau para gozar umas merecidas férias na sua terra natal, na ilha da Terceira, nos Açores.

Em 1975, o director de O Clarim era o Pe. Américo Casado.  Entretanto, o então bispo D. Arquimínio Rodrigues da Costa, encarregou-o de criar um sector da comunicação social católica em Macau, que incluía programas a serem transmitidos por rádio, designado “Shalom”, com vista a desenvolver a acção da Igreja local.  Foi assim que o Pe. Casado e a irmã Maria Pia Cantieri fundaram o Centro Diocesano dos Meios de Comunicação Social. 

Para implementação deste projecto, o Pe. Casado deixou o cargo de director de O Clarim a 12 de Outubro de 1975 e, dias depois, a 16 de Outubro, o Pe. Mendes voltou a dirigir este semanário católico pela terceira vez

Esta nomeação ocorreu no período pós-25 de Abril, em que os jornais deixaram de estar sujeitos à censura do “lápis azul” e em que a desejada liberdade de expressão, que o Pe. Mendes sempre defendeu, lhe permitiu pugnar por causas sociais.

Jantar com os colaboradores de O Clarim e o pessoal da Tipografia
da Missão do Padroado, no Restaurante King Wah.

Após deixar a direcção de O Clarim, regressou à sua terra natal, onde ficou responsável pela paróquia das Cinco Ribeiras.  No entanto, não se desligou do jornalismo, visto que, a 1 de Junho de 1978, passou a ser o redactor principal do jornal açoriano A União.

No tempo em que já era pároco, uma calamidade abateu-se sobre a ilha da Terceira.   Na tarde do primeiro dia de Janeiro de 1980, um sismo de grande magnitude abalou a ilha, causando graves danos, incluindo na sua igreja paroquial.

O Pe. Mendes tomou então a iniciativa de a reconstruir e, para o efeito, constituiu comissões para angariar donativos.  Esta iniciativa estendeu-se também a Macau, que se prontificou a contribuir para as obras.

Apesar de ter regressado à sua terra natal, o seu grande amor por Macau nunca esmoreceu.  Sempre que podia, voltava para matar saudades, encontrar os amigos e os antigos alunos do seminário, que aproveitavam a ocasião para organizar um jantar de convívio, normalmente muito concorrido.

Após anos contínuos de serviço apostólico, as bodas de ouro do seu sacerdócio foram celebradas a 14 de Março de 2000.

A sua incansável dedicação à comunidade, uma faceta que o caracterizou ao longo da vida, mereceu o reconhecimento do governo açoriano.  Por isso, em Janeiro de 2005, foi-lhe atribuída, com todo o mérito, a Medalha de Honra do Município.

Pe. Mendes condecorado com a Medalha de Honra do Município

Este reconhecimento surgiu em boa hora, dado que esta personalidade, que foi missionário e jornalista, faleceu no dia 21 de Fevereiro de 2006, quando estava prestes a completar 80 anos.

Neste mês de 2026, que completa o centenário do seu nascimento e os 20 anos do seu falecimento, é momento oportuno para divulgar e partilhar alguns retalhos da sua vida, a fim de recordar e homenagear o Pe. Mendes, bem como demonstrar o profundo respeito e admiração por este homem que tanto contribuiu para Macau e para a sua comunidade. 

O Pe. Mendes foi, sem dúvida, um grande lutador de causas e, acima de tudo, um homem de bom e nobre coração, sempre disposto a fazer o bem e a contribuir para o bem-estar dos outros.

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Autoria do blog-magazine

Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

Sobre

O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

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