Cronicas Macaenses

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Gazeta Macaense, fim da censura

Na postagem “Os ex-Governadores Garcia Leandro e Melancia”, brincando, dizia que o Leonel Boralho devia ser condecorado com um título póstumo de Confrade pela Confraria de Gastronomia Macaense, muito bem administrada por Luís Machado. Isso devido às inúmeras receitas que publicava na Gazeta Macaense, nos espaços dos artigos vetados pela malfadada Censura que existia naqueles tempos em Portugal e suas colónias.

No ensejo do passado dia 25 de Abril, aniversário da Revolução dos Cravos, e o lançamento do livro do ex-Governador Garcia Leandro, estava eu a pesquisar a Revista Macau e na edição de Abril de 1994, II Série nº 24, num artigo de José Guedes, ilustre jornalista e investigador que escreve regularmente suas crónicas no Jornal Tribuna de Macau (secção Opinião), vi a publicação de 2 edições da Gazeta Macaense.  Chamou-me a atenção de um detalhe do cabeçalho do jornal: o fim da censura da Gazeta Macaense.  Vejamos as imagens (clicar para aumentar) a seguir:

Observe na imagem recortada a seguir que logo abaixo de Macaense, constava ainda (Visado pela Censura). Edição de 27 de Abril de 1974

Já nesta edição de 9 de Maio de 1974, não mais constava o (Visado pela Censura).  O jornal já respirava a liberdade, a democracia.  Isto foi há 37 anos

A respeito, João Guedes escreveu o texto abaixo, inserido num quadro à parte no extenso artigo “A Oriente da Revolução”:

Um Jornalista de Macau na Cova da Moura

Leonel Borralho, director de A Gazeta Macaense, um dos jornais que mais criticavam a governação de Nobre de Carvalho, encontrava-se na Europa quando eclodiu a Revolução dos Cravos. Acompanhava os feitos da selecção nacional de hóquei em campo (que incluía diversos nomes de Macau na sua linha principal) no campeonato do mundo, que, nesse ano, se deputava na Alemanha Ocidental. Esta última digressão de Leonel Borralho, que já antes estivera na Guiné, viajando pelas “bolanhas” com o capitão Otelo Saraiva de Carvalho, valeu-lhe perder os acontecimentos do 25 de Abril no território, mas fez com que tivesse sido o primeiro jornalista macaense a falar sobre Macau com o general do monóculo, na Cova da Moura, poucos dias depois da revolução.

Do teor e resultados dessa conversa, pouco se ficou a saber, para além do que eventualmente se poderia deduzir da biografia impressa no jornal, mostrando Borralho e Spínola. Este, na atitude interrogativa de um general em plena batalha,que tem pouco tempo para conversas. Aquele, na de quem tenta explicar qualquer coisa.

No entanto, a verdade é que, fosse qual fosse o teor e a duração do encontro com o general, o certo é que, regressado a Macau, Borralho vinha convertido às virtudes da democracia, classificando em primeira página a formação do COM local como uma patriótica manifestação de Lealdade para com a Junta de Salvação Nacional, e sublinhando que a liberdade de pensamento era um legado a nós concedido Spínola e todos aqueles que fazem parte da Junta de Salvação Nacional.

No seu primeiro artigo desde que regressara, Leonel Borralho concluía cumprimentando patriotamente os democratas do CDM. Aproveitava porém para se distanciar de todos, avisando que não tencionava filiar-se em qualquer grupo.  No entanto, para que tal atitude não levantasse e suspeitas de simpatias reaccionárias, avisava desde logo que tal não queria dizer que não fosse por Spínola (que sublinhava conhecer pessoalmente), ainda que, por causa deste, tivesse passado alguns dissabores que afirmava serem do conhecimento geral. Mas Borralho não guardava ressentimentos e reiterava a sua lealdade à Junta de Salvação Nacional, a qual inclui um homem que dizia poder considerar seu amigo pessoal: o general Jaime Silvério Marques.

Assim encerrava Leonel Borralho o artigo, esquecendo-se apenas de referir que, por causa de Silvério Marques, tinha sido preso e deportado para a Taipa, nos tempos em que ainda não havia ponte e a Taipa se podia considerar como um lugar de desterro, somente porque tinha enviado para a agência UPI a notícia da explosão de uma bomba no Porto Interior accionada pela mão negra das seitas, que, na altura, segundo a filosofia oficial, não existiam em Macau…”

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Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

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O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

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