Cronicas Macaenses

Blog-magazine de Rogério P. D. Luz, de cara nova

Armando Rozário, conheça-o

(antes de ler esta postagem, veja a anterior, “Armando Rozário, quem é ele?”)

Complementando a postagem anterior conforme recomendação acima, trago-lhes um perfil de Ruy Castro que fala sobre o Armando Rozário:

Um perfil de Ruy Castro:

ARMANDO ROZÁRIO: O FOTÓGRAFO QUE COBRIU A TOMADA DO PODER NA CHINA POR MAO TSÉ- TUNG

O fotojornalista Armando Rozário, nosso colunista, esteve no Rio de Janeiro participando, na Toca do Vinícius, do ato de gravação da placa de cimento número 50, pelas mãos do jornalista e escritor Ruy Castro, seu amigo dos velhos tempo de papo em Ipanema com a famosa e irreverente turma do Pasquim. Ruy, ao lado de 49 personalidades do mundo artístico e literário, faz parte agora do Acervo de Mãos Calçada da Fama de Ipanema, que completou 37 anos.

Em seu livro “Ela é Carioca”, Ruy Castro conta a fascinante história do chinês que veio para o Brasil e se tornou um dos mais importantes fotógrafos e o primeiro a entrar com um processo e ganhar a causa na Justiça contra um veículo de imprensa (revista Manchete) por ter usado uma foto sua atribuída a outro, criando jurisprudência para outros casos.

A foto, de 1968, era de dona Júlia, mãe do ex-presidente Juscelino. Diz Castro: -“Ao chegar ao Rio, em 1955, e ir trabalhar na Manchete, Armando Rozário chamou a atenção por três motivos: 1) ser chinês, apesar do nome; 2) falar pouco, só o essencial, e quase num sussurro; 3) ser o maior prodígio da fotografia que aparecera por aqui.

 Tinha 24 anos, mas já era um veterano. Quando adolescente, fotografara a tomada do poder na China por Mão Tsé-tung para uma agência americana da qual era correspondente e trazia toda a técnica que aprendera com os mestres orientais e europeus da fotografia. Foi um dos primeiros a usar câmeras 35 milímetros no Brasil, a saber explorar a cor e a fotografia sem flash, com luz ambiente, apesar da pouca sensibilidade dos filtros da época. Era craque também em laboratório: entendia de filme e revelação, coisa então rara entre nós. E era tão econômico para fotografar quanto para falar: ao sair à rua a trabalho, não ficava clicando à toa. Fazia poucas fotos – todas surpreendentes e perfeitas. Os olhos amendoados, que pareciam não combinar com o nome, se explicavam.

Ele nascera em Hong Kong, seu pai era português de Macau, sua mãe, francesa e sua primeira línguas fora inglês. Quando o Japão ocupou Hong Kong na Segunda Guerra, eles fugiram para Macaé, onde Rozário aprendeu inglês com os jesuítas. Numa família inteira de economistas, só ele se interessou por câmeras e lentes. Formou-se em fotografia em Cambridge, Inglaterra.

 Em 1956, pela Manchete, Rozário e o repórter Carlinhos Oliveira acompanharam o dr. Noel Nutels ao Xingu. Começou ali sua longa ligação com as coisas do Brasil. Nunca mais deixou de fotografar índio, bicho ou planta, mesmo que, por duas vezes, o ataque de inimigos ocultos e traiçoeiros quase lhe custasse a vida. Da viagem ao Xingu, Rozário herdou um vírus na coluna, que por algum tempo o deixou paralítico (foi salvo pelo neurocirurgião Abraão Ackerman).

De outra viagem, no ano seguinte, esta à Amazônia e a serviço de O Cruzeiro, trouxe uma queimadura que lhe atrofiou a perna e a medicina oficial não soube identificar nem tratar (foi salvo pela homeopatia). O currículo de Armando Rozário é quase insuperável. Além de Manchete e O Cruzeiro, suas fotos estão nas coleções do Jornal do Brasil e de revistas como Senhor, Cláudia, Realidade, Quatro Rodas (muitas vezes tomando edições inteiras), da francesa Paris-Match, da japonesa Photo International, da Encyclopedia Britannica e de mais publicações internacionais do que até ele conseguiu seguir a pista.

O fotógrafo húngaro-americano Philippe Halsmann, um dos bambas da agência Magnum, teve-o como seu assistente no Rio e convidou-o a ir trabalhar com eles em Nova York – equivalia a ser contratado pelo Santos de Pelé, se Rozário fosse jogador de futebol. Nos anos 50 e 60, foram muitos os convites como esse, mas Rozário nunca pensou seriamente em deixar o Brasil – exceto em 1960, quando foi para Paris como correspondente de Senhor e fotografou o encontro entre Kruchev e De Gaulle. Voltou em um ano.

No Brasil, havia Ipanema. Ele era um cidadão da rua Jangadeiros, freqüentador do Zeppelin (onde levantava no ar e pegava com a mão vinte cartões de chope) e, em 1965, seria um dos fundadores da Banda. De todas as tribos que fotografava pelo Brasil, nenhuma o fascinava tanto quanto a de Ipanema, talvez por ser a única em que todos se julgavam caciques – e dentro dos limites da aldeia, eram mesmo. O espírito independente de Ipanema se coadunava com o seu e, entre expor em galerias de arte e deitar suas fotos na grama da Feira Hippie, na praça General Osório, a convite de Hugo Bidet, chegou a preferir a segunda alternativa. Rozário achava que as fotografias deveriam merecer galerias próprias.

 Assim, em 1973, ajudou a criar em Ipanema a Photo Galeria, pioneira em tratar o tratar o trabalho dos fotógrafos brasileiros como obras de arte, com fotos numeradas e assinadas. Sua independência refletia-se em todas as frentes: ele foi o primeiro fotógrafo brasileiro a processar um poderoso veículo por usar uma foto sua e atribuí-la a outro, depois de tê-lo demitido porque a dita foto estaria “fora de foco”. A foto, de 1968, era um retrato de dona Júlia, mãe do ex-presidente Juscelino. Seu advogado foi o circunspecto dr. Mânlio Marat d`Almeida Acquistapace (na vida real, o Marat da Banda de Ipanema e dos Chopnics) e a causa levou sete anos para ser concluída, no Rio e em Brasília – com a vitória de Rozário.

 Isso firmou jurisprudência que viria beneficiar todos os seus colegas: a partir daí, as empresas jornalísticas passaram a tomar cuidado ao republicar as fotos de seus antigos contratados. Isso não tornou Armando Rozário muito popular nessas empresas. O que explica por que, desde meados dos ano 70, ele tenha se dedicado a outras atividades dentro de seu ramo, como testar equipamentos para os laboratórios internacionais de fotografia que se instalavam no Brasil, escrever uma coluna altamente especializada na Folha de S. Paulo e, principalmente, usar a fotografia para a causa da ecologia.

Em 1978 Rozário liderou uma cruzada nacional pela salvação do rio São João, em Barra de São João, perto de Macaé, ameaçado pela instalação de uma fábrica de álcool anidro. O rio banhara o poeta Casimiro de Abreu (1839-1860), nascido ali, e a região, que inspirava o pintor Pancetti, era mais um paraíso na mira da covarde industrialite brasileira. A campanha começou com uma exposição de fotos de Rozário e dos quadros de Pancetti no Museu Nacional de Belas-artes e, durante aquele ano, tomou os jornais, revistas, as telas dos cinemas e a tv Globo.

Por causa dela, a usina foi obrigada a instalar uma bacia de decantação que manteve a poluição em níveis suportáveis, com isso salvando também todo o litoral de Macaé e Búzios. Rozário nunca mais saiu de Barra de São João e Macaé, onde passou a editar pequenos jornais em inglês dedicados à preservação da região. Descobriu que, como macaense, sua responsabilidade era dupla: os cidadãos de Macaé são macaenses – e os da portuguesa Macau também.

Fotos do Armando Rozário do Rio São João:

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Autoria do blog-magazine

Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

Sobre

O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

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