Cronicas Macaenses

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Coronel Mesquita – episódio 1 – o fim da estátua

2 de Dezembro de 1966, Macau, assim terminava uma história que era contada todos os dias, a cada vez que se passava pelo Largo do Senado.  A estátua do coronel Vicente Nicolau de Mesquita, natural de Macau, imponente, no centro do Largo, nos contava que na manhã de 25 de Agosto de 1849, três dias após o assassinato do governador de Macau, Ferreira do Amaral, a 300 passos do lado interno da Porto do Cerco (fronteira de Macau com a China simbolizada por uma construção em forma de arco, tal como o Arco do Triunfo em Paris), liderando 36 soldados portugueses/macaenses tomou o Forte do Passaleão, do lado da China, que era ocupado por cerca de 500 soldados chineses com pesada artilharia.  Deste ponto e nas redondezas, mais de 2.000 soldados chineses ameaçavam invadir Macau através da Porta do Cerco protegida apenas por 120 homens das forças portuguesas e mais 3 canhões de curto alcance. O seu feito heróico, que desestimulou a invasão de Macau, foi celebrado com a instalação dessa estátua, dando-lhe o status de “herói macaense” como muitos da comunidade o consideram.

Naquela data, a estátua do coronel Mesquita foi destruída por “guardas vermelhos” e seus simpatizantes da Revolução Cultural na China dos tempos de Mao Tse Tung, nos tumultos chamados de “1 2 3”, que significavam as datas em que ocorreram em Dezembro de 1966.  Para quem não conhece a história, sob o principal pretexto de repressão policial a uma obra clandestina, os “guardas vermelhos” iniciaram uma série de protestos, até a invasão tumultuada do Palácio do Governo a exigir retratação e pedido de desculpas.  Culminou com tumultos generalizados na cidade, principalmente no centro da cidade, obrigando a intervenção das Forças Armadas de Macau, que acabou com a morte de 8 pessoas de étnia chinesa e vários feridos.  Do outro lado da fronteira, soldados chineses impediram a entrada de milhares de simpatizantes dos tais guardas que queriam invadir Macau.  Por fim, o Governo português acabou emitindo Nota Oficial lamentando ou se desculpando do ocorrido. Macau, 33 anos depois, em 20 de Dezembro de 1999, foi devolvido para a China encerrando a presença portuguesa que durou de 420 a 440 anos.

A estátua do coronel Mesquita, imponente, reinava no Largo do Senado, no centro de cidade

Recorte do jornal South China Morning Post, de Hong Kong, mostra o momento em que se começava a derrubar a estátua utilizando-se de um caminhão/camião.  Após, foi arrastada pelas ruas antes de ser abandonada diante do prédio dos Correios, ao lado de onde se encontrava erguida.  A estátua depois – desapareceu – há relatos de que foi jogada no mar. No entanto, segundo Pedro Dá Mesquita no artigo da Revista Macau de Julho 1995, na década de 90, , ela foi despachada juntamente com a do governador Ferreira do Amaral, timidamente (para não dizer, às escondidas), para Portugal. encontrando-se na cidade de Porto “à espera de melhores dias“.  Bom, a estátua de Ferreira do Amaral apareceu numa praça em Lisboa “timidamente” (veja postagem neste blog), porém a do Mesquita … alguém sabe me dizer … onde está? cadê ela?   “Uma tristeza“!!!

A foto do jornal de Hong Kong, The Star, mostra a base sem a estátua, após os tumultos e sob a guarda de um policial/polícia

E, também para quem não saiba, os jornais de língua portuguesa de Macau, na época sob forte censura da época do Governo de Salazar em Portugal, nada publicaram a respeito, apenas a notas oficiais do Governo de Macau.   No entanto, os jornais de Hong Kong, ainda sob o domínio da Inglaterra, circulavam livremente, sem censura ou restrição de venda, bem como os jornais de língua chinesa em Macau.  Engraçado, não? Era uma questão de proibir apenas para quem soubesse falar e ler o português … Era simbólico, pois, a rigor, em Macau, pouco sentimos, ou nada sentimos as restrições de uma ditadura.

Nota: De um modo, há certo desconforto por parte do lado chinês em relação à estátua, o coronel Mesquita e a batalha do Passaleão, pois, talvez lhes fere o orgulho, o que é compreensível. Assim, este blog e o PMM quer esclarecer que a divulgação desta postagem e de outras relacionadas, em nada quer denegrir ou ferir o povo chinês, por quem deve-se ter o máximo de respeito, assim como a qualquer povo do mundo.  São fatos históricos, tais como a independência dos Estados Unidos com a vitória dos americanos sobre os ingleses (hoje grandes aliados nas guerras), ou as relações de Portugal com Angola ou Moçambique, ou Guiné, nas quais ocorreram guerras coloniais com muitas mortes e ódio na época.

Vejam o episódio 2 – “além de tudo, um poeta”

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Publicado às 26/11/2011 por em MACAU, Macau-memórias e marcado .

Autoria do blog-magazine

Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

Sobre

O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

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