Cronicas Macaenses

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Jorge Rangel: Mais um depoimento recente sobre o “1-2-3”

Complemento de 09/02/2012: Veja o comentário postado na página – Sua Mensagem a respeito deste tema:

Olá Rogério,
Felicito-o por este espaço que é uma “memória” para todos nós.
Gostaria de fazer um reparo sobre um artigo que publicou – “Jorge Rangel: Mais um depoiamento sobre o 1-2-3” – Este artigo foi extraído do livro “Há biscoitos no armário” que é sobre a biografia da minha Mãe, que foi professora de francês em Macau (e professora do Jorge Rangel) e foi uma oferta dos filhos pelos seus 90 anos em Outubro de 2011. O autor desta obra foi JORGE PINHEIRO. Posso facultar-lhe um exemplar deste livro com muito gosto. Fará o favor de me indicar uma morada para o meu gmail.
Agradeço que faça a devida correcção.
Cumprimentos

Maria Isabel Machado Fonseca

Jorge Rangel, Presidente do Instituto Internacional de Macau, na sua crónica da série “Falar de Nós” que habitualmente publica no Jornal Tribuna de Macau nas 2ªs. feiras, fala na edição de 05/Dezembro sobre um novo depoimento a respeito dos incidentes de 1-2-3 em Macau, que aqui publico dando sequência à postagem deste blog “O Exército português de Macau intervém …”:

(para quem não saiba: em 1966, durante a Revolução Cultural na China liderada por Mao Tse Tung, os seus simpatizantes “guardas vermelhos” aterrorizaram o País e as cidades fronteiriças, Macau e Hong Kong.  Provocaram tumultos pela cidade nos dias 1, 2 e 3 de Dezembro e fizeram grandes estragos nas instalações do Governo e estátuas.  Diante da incapacidade da polícia, o exército português interviu e 9 pessoas de étnia chinesa acabaram sendo mortas)

Mais um depoimento recente sobre o “1-2-3”

por Jorge Rangel*

O incidente da Taipa’ foi usado como pretexto. Durante 58 dias Macau foi afectado pelo tufão maoísta. Os Guardas Vermelhos impuseram a sua lei”.
De “Há Biscoitos no Armário”, Outubro de 2011

Este espaço foi já usado várias vezes para recordar os graves incidentes que ficaram localmente conhecidos por “12, 3”, quando, no auge da revolução cultural chinesa, o fervor extremado do regime comunista se fez aqui sentir com inusitada força e de forma violenta, pondo tudo em causa, abalando a confiança da população e colocando em risco a própria manutenção da presença portuguesa no território. Diversos depoimentos foram aqui parcialmente reproduzidos e comentados, permitindo ao leitor conhecer perspectivas diferentes na apreciação dos conflitos provocados, bem como das suas causas e consequências.
A recente publicação do livro “Há Biscoitos no Armário”, de Jorge Pinheiro (Outubro de 2011), uma “história de vida”, de homenagem à professora Maria Manuel Pimenta de Castro Machado, proporcionou-me o ensejo de partilhar com o leitor mais uma sucinta descrição desses fatídicos acontecimentos. Com a devida vénia, e também com o intuito de suscitar de novo a atenção para esta obra, que todos quantos se interessam por Macau e pela presença de Portugal no Oriente devem ler, transcrevo mais este depoimento, no 45.º aniversário daqueles incidentes que mudaram profundamente Macau:
“Nesse ano de 1966 a Revolução Cultural chegou a Macau. Chegou sem que as autoridades portuguesas se tivessem apercebido. A Revolução Cultural Chinesa era imparável. Até aí ela não era evidente em Macau. Mas, inevitavelmente, tinha de chegar. Mais do que um protesto contra os portugueses, mais do que a intenção de integrar Macau na China (que nunca houve), os incidentes visavam, tão-somente, mostrar a Mao Tsé-tung que Macau também era revolucionário. Pretendiam mostrar o fervor das gentes de Macau, à causa da Revolução Cultural. Claro que o ?incidente da Taipa? podia ter sido evitado. Os portugueses, por manifesta inabilidade, caíram na armadilha. Mas se não fosse esse, seria qualquer outro pretexto. Macau tinha de ter os seus Guardas Vermelhos. Em Novembro, um grupo de residentes chineses da ilha da Taipa tentou obter uma licença para a construção (ou reconstrução) de uma escola de feição comunista. Na impossibilidade de obter a licença, começaram ilegalmente a edificação. Rui Andrade, o administrador interino das Ilhas saiu de casa. Passou pela escola. Insurgiu-se contra a construção. Resolveu intervir. Apelou à autoridade. E eis como um homem fraco pode fazer história, da pior forma. A 15 de Novembro, a Polícia prendeu, de forma violenta, os responsáveis pela iniciativa, operários de construção, residentes e jornalistas. Foi, obviamente, uma precipitação. Até porque o pedido de licença estava parado numa qualquer gaveta de um qualquer burocrata. Mais, a brutalidade da intervenção foi, manifestamente, desproporcionada, quando era o diálogo e a diplomacia que se exigiam. O 2.º Comandante da PSP, Vaz Antunes, que estava presente durante o incidente, assim não entendeu. A arrogância imperou. A imprensa chinesa, em especial o jornal Ou Mun, e as associações comunistas atacaram em força. De repente, a revolução cultural entrou em Macau. A partir daí, os chineses tiveram necessidade de se manifestar. De provar a Mao Tsé-tung que eram patriotas. Os protestos iniciaram-se e foram sempre em crescendo. Na cidade, os taxistas passaram o sinal. Eram, na sua maioria, indonésios, expulsos por Sukarno. Estavam revoltados contra tudo e contra todos. Buzinavam sem parar. Incendiaram o ambiente. As manifestações sucederam-se. Manifestações com mais de 15.000 pessoas, o que era muito, face à dimensão do território. Em Macau havia cerca de 50.000 estudantes chineses, a frequentarem escolas comunistas. Um potencial revolucionário impressionante. Os Guardas Vermelhos surgiram. O governo ficou debaixo de fogo. De crescendo em crescendo, a contestação aumentou e generalizou-se, provocando um sentimento de verdadeira revolta no seio da comunidade chinesa. Macau estava há alguns meses sem Governador. Lopes dos Santos, um homem ponderado e que conhecia bem o Oriente, tinha regressado à Metrópole, em Julho de 1966. Como Encarregado do Governo ficou Mota Cerveira. Um homem arrogante e militarista, que preferia a bravata à diplomacia. A arrogância ao diálogo. O Comandante da Polícia, o Tenente-Coronel Galvão de Figueiredo, pautava-se pelos mesmos valores. Não podia ter sido pior. Os dirigentes políticos e as forças de segurança de Macau actuaram com manifesta inabilidade e total ausência de sentido diplomático. Pior, usaram de arrogância colonialista. As tensões exacerbaram-se. As posições extremaram-se.
No dia 3 de Dezembro de 1966 as manifestações iniciaram-se pelo meio-dia. As escolas estavam mobilizadas. Estudantes e professores invadiram o Largo do Leal Senado e as ruas circundantes. Uma camioneta carregada de pedregulhos avança pela rua onde se situava o Comando da Polícia. Atrás, protegidos pelo camião, manifestantes entoavam canções revolucionárias e gritavam palavras de ordem, empunhando o Livro Vermelho. Aproximavam-se cada vez mais da esquadra. Lá estavam guardadas armas e munições. Parecia evidente a intenção de tomar a esquadra de assalto. Vaz Antunes, o 2.º Comandante, dá ordem de fogo. Não havia outra solução. O condutor da camioneta é a primeira vítima. O carro segue descontrolado, até embater, com violência, no fundo da rua. A confusão é enorme. Debaixo de uma enorme pressão, os polícias, acantonados na esquadra, mantêm, nervosamente, o fogo. A multidão dispersa-se. Seguem-se perseguições na zona da Praia Grande. O recolher obrigatório é decretado às 16 horas. No dia seguinte ainda havia disparos dispersos por toda a cidade. No final dos dois dias, um saldo final de 8 mortos e cerca de 200 feridos, todos chineses. Foi necessária a mobilização de soldados para controlar a situação. A tensão, no entanto, continuou a crescer. Várias famílias portuguesas começaram a preparar-se para abandonar Macau. O ?1-2-3? é isso mesmo: mês 12, dia 3. E o futuro de Macau nunca mais seria o mesmo.
A violência acabou. A repressão amainou. Começou, então, a pressão política. Uma pressão que assumiu proporções inenarráveis. As exigências não se fizeram esperar. Eram pesadas e inegociáveis. Os mortos de 3 e 4 de Dezembro mantinham-se nas urnas, por enterrar. E assim ficaram até à assinatura do acordo, a 29 de Janeiro de 1967. Todos os dias os chineses lembravam os mortos. Publicavam fotografias dos cadáveres. Uma pressão total. Em 25 de Novembro de 1966, chegou a Macau novo Governador, Nobre de Carvalho. Apenas ao aterrar em Hong Kong, o Governador toma conhecimento da situação em Macau. Até aí nada lhe tinha sido dito. Absolutamente extraordinário. Mal chega a Macau, Nobre de Carvalho tem de iniciar a complexa negociação com os chineses e com Lisboa. O Governo de Lisboa mantinha-se irredutível. Salazar envia um telegrama em que resumia a sua posição: ?Confirmar que, em caso de necessidade, todos cumprirão o seu dever, mesmo com os maiores sacrifícios?. Um telegrama em tudo semelhante ao enviado para a Índia Portuguesa, imediatamente antes da invasão das tropas de Nehru. Um telegrama que não auspiciava nada de bom. No dia 16 de Janeiro, a comunidade chinesa adoptou a ?política dos três nãos?: não entregar impostos; não prestar serviços ao Governo (incluindo abastecimento de água e electricidade); não vender produtos portugueses. Entretanto, emergiram figuras que, até aí, se tinham mantido na sombra. Ho Yin, o líder da comunidade chinesa, é relegado para segundo plano. Emergem dirigentes comunistas. (…). Em Macau, o Conselho de Defesa estava reunido quase em permanência, sob a presidência de Nobre de Carvalho. Eram reuniões contínuas até altas horas da noite. Alinhavam-se argumentos. Definiam-se estratégias. Tudo em vão. As tentativas de chegar a um texto de acordo aceitável pelas duas partes sucediam-se. As negociações eram chefiadas por Mesquita Borges, chefe de gabinete do Governador e integravam, ainda, o Dr. Assumpção, advogado macaense e representante de Macau junto da Câmara Corporativa, em Lisboa e Roque Choi, secretário e braço direito de Ho Yin. Entretanto, por imperativa exigência chinesa, tinham sido demitidos Mota Cerveira, Galvão de Figueiredo e Vaz Antunes. O Comando da Polícia passou a ser exercido, interinamente, pelo capitão Lages Ribeiro.
Finalmente, a 29 de Janeiro, o Governo de Macau e as autoridades da República Popular da China, chegaram a um acordo, assinado na sede da Associação Comercial. Para Portugal, tudo foi humilhante naquele acordo. O local, o conteúdo, a forma. O Governo pediu desculpas à comunidade chinesa. Passou a ser proibido dar apoio ou asilo político aos nacionalistas do Kuomintang. Foram entregues à China cinco guerrilheiros nacionalistas, que foram imediatamente fuzilados. Procedeu-se à indemnização das famílias das vítimas. Ficou claramente marcada a posição da China. Portugal apenas estaria em Macau enquanto a China quisesse.” (…)

A situação, embora continuasse tensa, foi voltando, paulatinamente, à normalidade, ao mesmo tempo que a confiança no futuro voltava a fazer-se sentir. Terra de muitos tufões, Macau sobreviveu também a essa enorme tempestade política. Nasceu e cresceu como o bambu, capaz de se vergar em todas as intempéries, para continuar viçoso, com as hastes apontadas para o céu. E foi fazendo o seu percurso histórico até se transformar, pacificamente, em região especial da China, em Dezembro de 1999.

* Presidente do Instituto Internacional de Macau.

blindado do Exército Português desce a Av. Almeida Ribeiro para impor a ordem

(clicar nas fotos para aumentar)

“guardas vermelhos” entraram no Leal Senado (Câmara Municipal de Macau) e fizeram um grande estrago nas suas instalações e o patrimonio agindo livremente diante da incapacidade da polícia para contê-los.  Em vista, o Exército interviu e “deu no que deu”

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Informação

Publicado às 10/12/2011 por em MACAU, Macau-memórias e marcado , .

Autoria do blog-magazine

Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

Sobre

O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

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