Cronicas Macaenses

Blog-foto-magazine de Rogério P. D. Luz,

LILAU, um texto de Cecília Jorge, Macau

Vejam o belo texto da macaense Cecília Jorge sobre Lilau, escrito em 1988 e publicado na edição de Outubro de 1996 da Revista Macau.  Fala daquele antigo Lilau que foi parcialmente demolido, conforme poderão ver nas primeiras fotos, e depois, poderão ver as fotos que fiz em 2010 na viagem para o Encontro, de como ficou nos dias de hoje.  O que foi preservado, acho, dá uma idéia do que era antes, mas tal igual, com certeza, não o é! Diante da volúpia para construir prédios mais prédios, acho que antes isso do que nada.  Só resta a gente conformar-se lamentando:

Lilau

A brisa

já não encontra o caminho

por entre os labirintos de prédios

que sitiam o casarão.

Brechas rasgam o cinzento em tufos de musgo verde

nos cantos húmidos

que plantas esconderam.

Abacates caem roídos pelos pássaros e insectos

abrindo-se estrepitosos no chão.

Romãs e anonas ressequiram nos ramos.

O que é feito?

Que é feito dos jasmins que

espalhados ao sabor do vento

nos perfumavam as madrugadas

e os crepúsculos?

(poema de Cecília Jorge)

Goiabas e carambolas são fruto proibido para os garotos que trepam às árvores saltando o muro que já não cumpre a função, arruinado pelas sevícias dos tufões e pelo abandono. Vale-lhes apenas o desafio da conquista, para se arrepiarem com a acidez da fruta. De lá do alto dos ramos, lançam-na, agastados a cada dentada, fazendo pontaria para ao menos acertar nos gatos que em baixo miam.

Nas traseiras do casarão deambulava-se dantes pelos magros passeios marginados de pedrinhas, por entre canteiros, arbustos e árvores, e de onde as crianças respondiam ao chamado dos pais, espreitando de soslaio pelas janelas escancaradas do salão.

Sorviam o café aromático de Timor e fumavam recostados em cadeiras de verga, distendidos, enquanto as ventoinhas chiavam emprestando frescura. Ouvia-se o noticiário, trazido pela voz radiofónica, roufenha, da Vila Verde. O velho Philips era caixote de ébano, com um olho verde de poder hipnótico para quem, às escondidas, e de cima de uma cadeira, rodasse curioso o botão das estações só para o ver piscar, com o silvo arrepiante da dessintonia.

Era a hora também da conversa mole, terminado que fora o almoço na mesa grande, a mesma que serviu três gerações, para depois sentir definhar a família, no curso apressado do destino.

Foram-se os pais. Os irmãos e filhos se seguiram… emigrando, morrendo, morrendo e emigrando. Silenciado o último chefe de família, precisamente aquele que mais enchera o vazio da sala com o seu vozeirão e jeito desbragados, nas anedotas e relatos picarescos das viagens de embarcadiço, o tecto ruiu, vedando para sempre o acesso ao salão.

Isolada ficou também a deserta gaiola dos canários, onde dúzias deles foram enchendo de chilreio alegre um casarão cada vez mais vazio de juventude.

Aos poucos se foram selando, uma a uma, cinco portas por onde durante tantos anos passaram adultos e crianças, velhas beatas da novena e da missa do bairro, rapazes vivaços em traje formal a caminho dos “assaltos”, desportistas, donzelas casadoiras, padres, hóspedes, negociantes e criadas. Por ela entraram porteiras e saíram ataúdes.

Não me dês pobreza vil,

Nem riqueza que me tente

Dá-me o necessário à vida

E viverei contente.

Um singelo azulejo trazido de Coimbra, junto à entrada, parecia predestinar o futuro da casa, que não o dos que nela viveram. Não houve muitos elementos comuns no percurso de quantos albergou e aos quais ultrapassou na lei da morte.

Trepadeiras e cactos colocados nos muros e a adornar um tanque de pedra onde chegaram a nadar peixes dourados, e cágados, para gáudio da pequenada, aguardavam apenas a derrocada do salão para tomar de assalto a zona de onde antes eram vigorosamente expulsos pelas tesouras do jardineiro, ao mínimo sinal de invasão.

A rainha da noite, aí plantada, era o orgulho da tia solteirona e um dos maiores mistérios da casa, para os mais pequenos, que todos os anos, ao findar do Verão, lutavam em vão contra o sono e o cansaço para a ver florir, imaculada e soberba, apenas por uma noite. Murcharia ao nascer do sol.

E a cascata de pedra? Ruiu, sob o peso dos escombros do salão que os operários, apressados, atiraram para o canto mais próximo, que era o tanque.

O matagal com várias tonalidades de verde, que hoje cobre os passeios, cresce com gosto, impante, pela reconquista final de uma zona de onde fora banido durante quase dois séculos, com a construção do casarão. Ocuparam-no mosquito vespas e cobras-capelo, tendo por sentinelas gigantescos cactos. As trepadeiras invadiram a casa, entrando pelas vidraças partidas com pedras lançadas dos prédios vizinhos, sobranceiros. num gozo selvático de destruição.

Dois pinheiros imponentes, que cresceram obedecendo somente aos ventos, guardavam os dois lances de escada encimados pelo terraço, palco da mal-contida indisciplina de dezenas de netos que. em dias de festa, pontuavam em fotos de família com a avó nonagenária. Ali enfrentaram, serenamente, os tufões, durante mais de três décadas, e ali continuaram, à espera do fim, não lhes cabendo prevê-lo, numa orgulhosa indiferença.

Um dia, o portão será fraco para manter ao largo máquinas e homens, ávidos a demolir, a ceifar, a aplanar, sem dó nem pausa. Em Macau, arrasa-se uma casa em poucas horas… Depois, outras máquinas se seguirão, mais violentas ainda, perfurando o jardim com vigas, desfigurando-o com muros, paredes de cimento e betão.

Onde havia a harmonia das paredes com as plantas, o vento e o sol, crescerá a selva cinzenta de dezenas de apartamentos, limitados e espremidos em

Um dia, o portão será fraco para manter ao largo máquinas e homens, ávidos a demolir, a ceifar, a aplanar, sem dó nem pausa. Em Macau, arrasa–se uma casa em poucas horas… Depois, outras máquinas se seguirão, mais violentas ainda, perfurando o jardim com vigas, desfigurando-o com muros, paredes de cimento e betão.

Onde havia a harmonia das paredes com as plantas, o vento e o sol, crescerá a selva cinzenta de dezenas de apartamentos, limitados e espremidos em escassa cubicagem, ao sabor da pataca.

Contra isso, nada valerá, sequer o matagal, porque a selva de betão é mais forte. No seu seio, nada cresce, a não ser a angústia de quem olha todos os dias através da pequena janela quadrada para uma floresta cinzenta e suja, onde o ruído das buzinas, dos motores e das britadeiras esconde o cantar de pássaros engaiolados. A verdura surge então submissa, contida em pequenos vasos, nas varandas e terraços.

Ao cheiro fétido da humidade mistura-se o odor oleoso dos fritos da vizinha e o escape de uma

viatura que acelera no rés-do-chão.

No Lilau, a humidade confundia-se antes com o perfume da relva molhada e das plantas, do musgo aveludado das pedras do muro, junto ao poço. A humidade estava na roupa imaculada que a lavadeira, A-Tchan, recolhia dos arames, ao fim da tarde, num cesto de verga. A humidade chiava e transformava-se em nuvens de vapor, enquanto ela a engomava, serena e sábia, contando histórias aos miúdos quedos e ansiosos, que faziam um cerco de banquinhos, em redor da tábua de “passar a ferro”, junto aos pivetes de incenso que ardiam no altar da Kun Iam. Escola da harmonia e do equilíbrio cósmico, onde se aprendia a cultivar virtude não importa em que religião.

E o sol entrava a jorros pelas varandas, frestas, portas e janelas, porque havia então espaço entre casas vizinhas, e as paredes eram caiadas. De branco, e verde, bege ou rosa.

Lilau: lendária pela água da sua fonte, hoje cantada até pelos que nunca a provaram mas juram seu feitiço.

A original fonte, dizem, há muito foi desviada. A bica secou, e também o poço do casarão de onde se tirava água fresca para beber, lavar e regar é hoje charco inquinado pela conduta de esgoto, rota de há anos, do prédio vizinho.

Mas no Lilau, apesar de tudo, há vida.

Teimosamente, as árvores continuam a verdejar e a dar frutos.

As magnólias de flores grandes, junto ao abacateiro, viam-se de longe. Os ternurentos chivits, os pardais e as pegas fizeram dali o seu santuário, banqueteando-se com goiabas e carambolas.

Apenas a brisa de sueste conhece o caminho para chegar ao casarão, acariciando de leve as folhas da macupeira.

Um cão rafeiro, vira-latas mas senhor absoluto das ruínas, caça ratos e persegue gatos. Vinga-se nos forasteiros, e ladra ao luar, tal como o fizeram os seus numerosos antecessores, todos eles sepultados ao pé das caramboleiras.

Duas velhas e dedicadas criadas, das que em meio século testemunharam, silenciosas, as histórias de vida e morte no casarão, recusam-se a abandoná-lo.

Tal como os pinheiros, desafiam, serenas, o futuro. Esperando apenas que a morte as livre de males inevitáveis e que o dia de amanhã não seja pior do que o de hoje.

CECÍLIA JORGE

Julho de 1988

Revista Macau Outubro 1996 / fotos acima publicadas na Revista

Nota: O casarão foi demolido, e a colina mais o jardim arrasados, em 1989. / Uma das velhas morreu, e a outra aguarda a sorte, num quarto alugado. / Sete anos depois, reconstruiu-se o Largo do Lilau, zona de patrimônio protegido.

Este é o Lilau que vi e fotografei em Dezembro de 2010

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Informação

Publicado às 31/03/2012 por em Cecília Jorge, Lilau, Macau-memórias, Poesias e Poetas e marcado , .

Autoria do blog-magazine

Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

Sobre

O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

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