Cronicas Macaenses

Blog-magazine de Rogério P. D. Luz, de cara nova

Padre Manuel Teixeira, 100 anos

Em 15 de Abril de 2012 fez 100 anos que nasceu o Monsenhor Manuel Teixeira, ou simplesmente, Padre Teixeira, um grande historiador de Macau. Natural de Freixo-de-Espada-à-Cinta, faleceu em Chaves no dia 15 de Setembro de 2003.

Para lembrá-lo, vou publicar um texto das suas memórias do Seminário de São José.  Padre Teixeira foi professor dos tempos em que eu era aluno externo nos anos 60.  À sua memória, Mestre:

O SEMINÁRIO DO MEU TEMPO

por Monsenhor Manuel Teixeira – Revista Macau Outubro de 1996

Fui seminarista do Seminário de S. José, de Macau, de 1924 a 1933, e professor de 1931 a 1946. Vou descrever as minhas impressões do edifício e dos seus ocupantes, professores, seminaristas e duas espécies de alunos, internos e externos, de 1924 a 1933.

Galeria de figuras ilustres

O Seminário tem um corredor de 80 metros de comprimento que termina num grande salão. Abrindo-se a porta desse salão, serão 100 metros, ou seja, o maior corredor de Macau.

O Seminário foi fundado pelos Jesuítas em 1728 e foram eles os seus directores e professores, em várias épocas: 1728-1762, 1862-1871, 1890-1910, 1930-1939.

Ciosos das suas sucessivas gerações de gigantes, colocaram na parede desse longo corredor as grandes figuras inacianas, de Macau e da China, sobretudo os grandes astrônomos de Pequim.

Os Lazaristas, que lhes sucederam em 1780, não colocaram nenhum dos seus. E foi pena, porque um lazarista, S. João Gabriel Perboyre, que ensinou francês e aprendeu chinês no Seminário, foi o único professor canonizado, até hoje. O seu professor de chinês, Pe. Joaquim Afonso Gonçalves, da mesma Congregação de S. Vicente de Paulo, foi o maior sinólogo português.

Ao passar por esse longo corredor, eu meditava na vida heróica dessas gerações de gigantes que vinham para o longínquo Oriente desprendidos de tudo e de todos, para aqui trabalhar e morrer, sem intenção de regressarem à terra natal.

Não vinham buscar ouro nem prata, nada queriam nem recebiam do seu Governo. Desejavam apenas que este os deixasse trabalhar, para maior glória de Deus.

E que fez o Governo? Em vez de os ajudar na sua missão de bem-fazer, só lhes punha entraves.

Vede o que sucedeu aos Jesuítas: expulsos em 1762, 1871 e 1910. Em 1939, saíram voluntariamente.

Quantos aos Lazaristas, que para cá vieram em 1780, foram expulsos pelo liberalismo, em 1834.

A vida do Seminário ressentiu-se devido a estes choques brutais, e a educação da juventude macaense sofria tratos duma esfera de futebol.

Até que um dia veio um pé de vento e fez voar até os retratos desses gigantes.

Nem sombra ficou deles.

Essas paredes ficaram nuas.

Caíram no olvido as memórias gloriosas desses homens que foram dilatando a Fé e sustentando o Império.

O longo corredor de 80 metros ficou mudo.

Quando voltarão essas figuras a ocupar os seus lugares?

Árvores seculares

Para recreio dos alunos havia e há duas grandes hortas. Nelas vicejavam gigantescas baneanas, cujas ramadas se tocavam umas às outras, abrigando os jovens do sol tropical.

Eram árvores bicentenárias, as mais antigas e maiores de Macau.

Sentaram-se à sua sombra, durante dois séculos, gerações e gerações de estudantes.

Um dia, passou um pé de vento e tombou esses gigantes, que não mais se ergueram.

E tudo o vento levou!

Professores e alunos

Havia óptimos professores no Seminário. Os Jesuítas haviam sido os grandes educadores da juventude macaense.

O Pe. Gonçalves, lazarista, formara muitas dezenas de sinólogos, que se espalharam pelos consulados portugueses de toda a China e foram os seus intérpretes.

O tufão de 1910 foi fatal para a educação em Macau.

O Seminário apanhou tal choque que nunca mais se restabeleceu completamente.

Em vez de religiosos treinados para o ensino, lançou-se mão de padres seculares, que serviam bem para curas de almas, mas não para o ensino.

O pároco de Santo Antônio, que se tinha licenciado em teologia, em Roma, foi nomeado reitor desse Seminário-fantasma.

Chamo-lhe assim porque a República de 1910 fez andar à roda as cabeças juvenis e um bom grupo de rapazes portugueses trocou o casarão do Seminário pelo casarão do Quartel de S. Francisco.

Saíram roídos de amarguras e gravaram as suas saudades num opúsculo muito sentimental, que eu li com emoção (creio que não existe hoje um único exemplar). Foi uma debandada ordeira, sem fel, nem vinagre, nem ódio ou rancor.

Ficaram no Seminário apenas os chineses e muito poucos portugueses.

Era o tecer e destecer da teia de Penélope.

O reitor, com medo de fantasmas, mascarou-os com um uniforme colegial, tirando-lhes a batina.

Esses poucos portugueses ordenaram-se em 1914, 1917 e 1919.

Estava-se nesta apagada e vil tristeza quando se ergueu uma nova esperança, com a nomeação de D. José da Costa Nunes para bispo de Macau, em 1920.

Mandou vir de Portugal e dos Açores várias levas de candidatos à vida eclesiástica.

De 1924 a 1939

O Seminário estava a cargo do clero secular.

Em 1924, chegou o meu grupo de cinco rapazes, precedido doutro grupo duma dúzia de açoreanos, em 1922. Em 1925, novo grupo de portugueses, continuando este afluxo até 1939.

D. José, vendo que os padres seculares não estavam treinados, confiou, em 1930, o Seminário aos Jesuítas. Mas estes, em geral, também não estavam preparados.

Se os padres seculares tinham vindo das paróquias de Macau e das Missões de Timor, Singapura, Malaca, os Jesuítas também não vieram de colégios nem de universidades; vieram das Missões, e alguns bastante velhos, sem nunca haverem ensinado na sua vida.

De 1924 a 1930, todos os meus professores foram padres seculares. Havia um que era competentíssimo na matéria, mas péssimo na profissão: o meu professor de francês, Pe. Régis Gervaix, que havia abandonado o Instituto das Missões Estrangeiras de Paris. Era tão competente que em 1925 foi nomeado professor de literatura francesa na Universidade do Governo Chinês, em Pequim. Era então o único historiador de Macau.

Publicava óptimos livros em prosa e verso.

Mas essas actividades impediam-no de se dedicar ao ensino. Nada ensinava; mas como não falava português e só falava francês, a sua língua materna, aprendemos melhor o francês.

Quanto ao professor de físico-químicas e ciências naturais, era o cura da sé, Con. João Clímaco do Rosário. Nunca preparava as lições. Nós, sabendo disso, podíamos dar todos os disparates, que ele não tugia nem mugia.

O professor de direito canónico foi o padre jesuíta Manuel Fernandes Ferreira. Tinha ido para Timor como missionário, em 1899, e nunca tinha visto o direito canónico, que só foi publicado 18 anos depois. Nas aulas, lia os cânones em latim, sem comentários, enquanto os alunos dormiam e eu fazia poesias.

O único professor competente foi o Pe. Elias Marcai Pequito, sj, que concluiu os estudos na América e veio para o Seminário em 1930. Fiz com ele toda a teologia e aproveitei muito.

Em 1929, encerrou-se o internato e os colegiais regressaram às suas terras.

Em 1939, os Jesuítas abandonaram o Seminário, que foi retomado pelos seculares, até 1968, ano em que deu o último suspiro.

Seminário-Liceu-Escola Comercial, Internato-Externato

Quando eu lá ingressei, em 1924, o Seminário de S. José era tudo isto: seminário para os candidatos aos sacerdócio, liceu para todos, escola comercial para os candidatos às carreiras profissionais, internato e asilo de órfãos para os rapazes, de várias partes do Oriente, e externato para a juventude macaense.

O Liceu oficial e a Escola Comercial estavam praticamente às moscas; o Seminário regurgitava de alunos: portugueses, timorenses, hongkonguenses, malaqueiros, singaporeanos e até macaenses do Japão. Uma verdadeira Arca do Noé.

E se mais mundo houvera, lá coubera.

Em 1923, freqüentaram o Seminário 122 internos e 343 externos. O curso de língua francesa era dado em francês; o curso de música, por um maestro competentíssimo, vindo de Itália; o curso liceal abrangia todas as matérias do Liceu; o curso de inglês abrangia duas partes, a língua inglesa e o curso comercial.

Em 1898, tomava a direcção desse curso um homem que o elevou ao mais alto nível, o inglês Pe. Arkwright; mas esse homem tinha um pecado original, que é imperdoável ao liberalismo, o de ser jesuíta.

Os bancos e as firmas comerciais inglesas de todo o Extremo Oriente recebiam, de braços abertos, os que tivessem tirado o curso comercial sob a direcção do Pe. Arkwright, mas o seu pecado original era imperdoável e a República maçónica de 1910 deu-lhe o grande prêmio pelos grandes serviços prestados à juventude macaense: em vez de colocar o seu retrato no salão nobre do Senado, na galeria dos cidadãos beneméritos de Macau, escorraçou-o daqui.

Mais, o padre jesuíta italiano Francisco Xavier Rôndina, professor do Seminário de 1862 a 1872, que formara muitos macaenses ilustres, teve o seu retrato no salão nobre do Senado de 1872 a 1910, mas o seu terrível e horrendo pecado original nem após a morte encontrou remissão: esse retrato foi apeado pela maçonaria em 1910.

E até hoje não se repararam estes grandes atentados contra a cultura macaense!

Cultura física e intelectual

Em 1924, foi nomeado reitor o Pe. Francisco Bonito Bragança, natural de Tondela.

Fora durante muitos anos pároco da igreja de S. José, da Missão Portuguesa de Singapura, e ali deixou um grande nome; e, ao sair, muitas saudades.

Era muito rigoroso. Mas como os eurasianos eram, e são, gente humilde, aceitavam de boa maneira todo o seu rigorismo.

No Seminário não sucedeu o mesmo. Criou–se um grande mal-estar; e o Pe. Régis Gervaix dizia que ele era como um veado numa loja de louça: partia tudo.

Não se sentindo bem, vários padres abandonaram o Seminário e a Diocese.

Ele esquecia-se da regra básica que deve nortear todos os superiores: Portiter et suaviter, ou seja, firme nos princípios, mas suave na sua aplicação; ou, como diz a Bíblia: Não por força nem por violência, mas pelo meu Espírito (Zac. 4, 6).

No entanto, como era apaixonado pelo desporto, promovia-o entre os internos e externos.

Em 1926, o Governador de Macau, Manuel Firmino de Almeida Maia Magalhães (a quem chamávamos o Má Má) promoveu o campeonato escolar; o Seminário ganhou quase todos os prêmios, incluindo o das regatas, em que entrou a Escola de Pilotagem.

Manifestações culturais

Sendo o Seminário a única escola de Macau que, além do curso secundário, ministrava as classes superiores de filosofia e teologia, era normal que excedesse todas as escolas no campo da cultura e desporto.

De 1/1/1919 a 1/7/1919, os colegiais publicaram uma revista semanal — Juventude —, de fraco valor literário; os seminaristas abriram a “secção dos novos” no Boletim Eclesiástico.

Por iniciativa do aluno teólogo António da Silva Rego, fundou-se, em 2/9/1925, a Academia da Imaculada, com sessões mensais, nas quais quatro ou cinco alunos recitavam perante todos os seminaristas as suas produções literárias em prosa e verso.

Havia ainda os improvisos.  No mesmo dia da sessão académica, era dado um texto bíblico a um aluno para ele o desenvolver. Havia alunos que desenvolviam brilhantemente  esse  texto. Mas houve um, Norberto de Oliveira Barros, que foi o cavaleiro da triste figura. O texto era: Pauculum et videbitis me, et iterum pauculum et non videbitis me (mais um pouco e ver-me-eis, e ainda um pouco e não me vereis). Ele recitou o texto e fez como a ”lágrima” de Guerra Junqueiro: Tremeu, tremeu, tremeu e caiu silencioso. Ele disse o texto, fugiu do palco e ninguém mais o viu: Et non videbitis me.

Coitado! Foi morrer a Timor, fuzilado pelos japoneses, que queimaram o seu corpo!

Formaram-se na Academia da Imaculada vários escritores, poetas e oradores.

Em Timor, esses rapazes, já padres, fundaram a revista Seara, que durou até à ocupação japonesa; em Singapura, a revista Bally, em inglês, que se extinguiu há pouco.

Em Macau, o professor António José Gomes fundou o diário A Pátria, que começou em 1/12/1925 e desapareceu em 30/4/1928, com a morte do seu fundador.

Historiadores e poetas

O poeta mais famoso foi o Dr. António José Gomes, que publicou a Vida de Cristo num grosso volume, intitulado A Cristíade, em hendecassílabos, à imitação de Os Lusíadas. Consumiu a vida inteira na confecção deste poema.

Outro poeta de grande mérito, o de maior inspiração lírica, foi Mons. José Machado Lourenço, que publicou vários livros de poesia e inúmeros poemas em vários jornais e revistas de Macau e dos Açores.

Poetas secundários foram os padres António da Silva Rego, Ezequiel Enes Pascoal, Jorge Barros Duarte e Artur Basílico de Sá. O historiador máximo foi o Pe. Doutor António da Silva Rego, que publicou em 12 grossos volumes a Documentação para a História das Missões do Padroado Português no Oriente e outros livros sobre as Missões Portuguesas de África.

O seu discípulo Artur Basílico de Sá publicou quatro grossos volumes sobre a Documentação do Padroado na Insulíndia.

As obras destes dois historiadores obtiveram renome internacional, constituindo a base de todos os estudos sobre essas Missões.

O Pe. Jorge Barros Duarte, natural de Timor, passou a vida a publicar livros em prosa e verso sobre a história e a etnografia da sua terra. Mons. Antônio André Ngan editou vários livros pedagógicos sino-portugueses.

Na história bicentenária do Seminário de S. José nunca houve uma floração tão esplêndida e fecunda como a de 1924 a 1939.

Da geração de 1924, só restam três: D. Jaime Garcia Goulart, Benjamim Pedro Shek e o autor destas linhas.

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Autoria do blog-magazine

Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

Sobre

O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

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