Cronicas Macaenses

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Má cheók (Mahjong), um texto de Ana Maria Amaro e a história

Mahjong é mais conhecido mundialmente, porém em Macau e em chinês no dialeto cantonense, falado no Sul da China, chama-se Má cheók.  Trata-se de um conhecido jogo chinês que a Wikipédia nos explica a respeito:

Mahjong/Má cheók

Mahjong (Mah Jongg, Majiang, Majongue, Majong, Ma-Jong, Mahjongg) é um jogo de mesa de origem chinesa que foi exportado, a partir de 1920, para o resto do mundo e principalmente para o ocidente. É composto de 144 peças, chamadas comumente de “pedras”

Segundo parece, o Mahjong moderno é descendente de um antigo oráculo que há milênios era consultado pelos adivinhos chineses. Quando seus astrônomos começaram a registrar as progressões do Sol, da Lua e dos planetas utilizavam um tabuleiro de adivinhações para prever a posição dos corpos celestes.Os movimentos destes astros no céu era registrado movendo os contadores pelas casas do tabuleiro. Este é possivelmente a origem de muitos jogos difundidos, como o Pachisi e o Mahjong. Precisamente neste último são verificados sinais desta origem de oráculo, como a inversão dos pontos cardeais (já que se trata de uma representação dos céus e não terrestre) e a divisão de treze pedras, que representam os meses do calendário lunar.

A palavra Mahjong é a transcrição livre ocidental do nome original Ma Jiang ou Ma Jiang Pai, onde Pai significa pedra, peça. Seu antecessor recebia o nome de “Jogo das folhas em tiras” porque as fichas eram feitas de papel, semelhante ao nosso baralho comum. De todo modo, a história do Mahjong é obscura e existem vários jogos antecedentes pouco documentados.

Um jogo mais ou menos similar ao que jogamos hoje foi inventado na Dinastia Tang, durante o reinado do imperador Tai Zong (626 – 649), para diversão da casa imperial e dos nobres.

Em toda a Ásia o Mahjong adquiriu enorme popularidade, de modo que muitos países o consideram como jogo nacional; existem variantes japonesa, coreana, vietnamita, filipina, e é normal que quaisquer festas, celebrações e até mesmo negócios importantes acabem em algumas partidas de Mahjong. Também devemos nos lembrar que existe uma variante israelita.

Com o tempo foram-se abandonando as cartas de papel com que se jogavam nos primórdios, começando a serem fabricadas peças de marfim ou osso, todas elas sobre o bambu, e as mais modernas de baquelita ou plástico, que são relativamente baratas e duradouras. Existem jogos de Mahjong que são verdadeiras obras de arte.

Pedindo permissão à Sra. Ana Maria Amaro, publico a seguir um texto (em português de Portugal) do seu livro acima sobre o tema:

Uma mesa de jogo Má cheók (Mahjong) no Clube Macau, em Macau, nos anos 60. Da esquerda: Dina Tavares, Marcelina Luz (mãe do autor deste blog), Carmem Estorninho (minha tia) e Amélia Ferreira.

MÁ CHEÓK

por Ana Maria Amaro

(veja glossário no final para entender o chinês em itálico)

Com o descer da tarde a loja escureceu e, ao fundo, no seu trono, forrado de papéis vermelhos, Buda, rabiscado e colorido, fitando os pivetes e as tigelinhas das ofertas, resplandeceu sob a pequena lâmpada escarlate, recém-acesa.

Os montes de sedas arabescadas e as fazendas de felpa, esquecidas junto à grande tesoura e ao velho ferro de brasas incandescentes, foram arrumadas, em monte, ao lado das cabaias setinosas, já cozidas.

Chan t’oi, a mesa redonda, das refeições, com as suas manchas gordurosas, foi, de novo, armada no escuso canto de velada luz e as 144 pedras brancas do Má Chéok, com os seus sinais coloridos, rebocadas de verde luminoso, rebolaram sobre o tampo, ensurdecedoramente.

O Chong de ébano girou e o patrão, olhando, de relance, os dois empregados mais novos, que aplicavam, sob a fraca lâmpada, as últimas costuras na obra a entregar no dia seguinte, tirou, à sorte, os parceiros.

Pelas grades de madeira, corridas, transversalmente, na pequena porta, por onde se podia ver toda a alfaiataria de Lao Kei, passava a luz amarelada do interior, que brincava no passeio, desenhando alongadas sombras, a rasar os esguios pivetes vermelhos que, em molho, num ângulo do degrau, espetados o chão, formavam pequenas constelações cor de púrpura.

Quatro ventos, um de cada quadrante, marcados nas quatro pedras a escuro azul, os fong, foram escolhidos por Lao Kei, entre as demais pedras e, depois de separados, colocados em linha, voltados para baixo.

Mais duas pedras, ao acaso, foram tiradas dentre aos restantes, uma par e outra ímpar que, voltadas para cima, nos extremos das outras quatro, indicavam por onde se deveria começar a contagem para sortear o banqueiro e os respectivos lugares.

O Chong de ébano foi, rapidamente, colocado sobre uma das pedras alinhadas, ao acaso, e os dois dados, de arestas rombas com o iât e o sâm em pintas vermelhas, sobressaindo das demais, pintalgadas a preto, lançados duas vezes por cada um dos jogadores.

Foi o filho mais velho do patrão quem somou maior número par de pontos e, por isso, retirou, lesto, o primeiro fong do lado da pedra par, no que foi imitado pelos demais parceiros, sucessivamente, e por ordem decrescente de pontuação.

Dentre estes fong, incógnitos calhou, pela sorte, o vento leste ou tong ao velho Lao Kei, que pôde escolher, portanto, na mesa o lugar a seu prazer.

Como patrão, tomou o lugar de honra, voltado para a porta, tendo-se sentado os restantes, de acordo com os ventos correspondentes às suas pedras. Contrariamente à nossa rosa-dos-ventos, à sua direita sentou-se o nâm (o sul), à sua esquerda o pak (o norte) e, adiante de si, o sâi (o ocidente).

Na série dos ventos coube ao segundo filho de Lao Kei a pedra coberta pelo chong e foi ele, pois, o banqueiro ou chong do primeiro jogo, arrecadando, logo, a pequenina peça de ébano, os dados e as fichas, que lhe ficariam confiados.

E, então, todos já sentados, mudaram-se, convencionalmente, os ventos, passando o banqueiro a ser o vento leste e os demais parceiros, a serem os ventos correspondentes aos lugares ocupados.

As pedras empilhadas foram, então, rápida e ruidosamente revolvidas, num baralhar alucinante, em que todas as mãos mexiam, envolviam e faziam rebolar, em ressonante monotonia.

O jogo não era forte e as flores foram retiradas e feitos, lentamente, 17 montinhos, de duas pedras, sobrepostas, que cada parceiro colocou à sua frente, formando um pequeno muro ou muralha que, em conjunto, desenhou um pequeno quadrado, a meio da mesa.

Logo o chong iniciou o jogo, lançando os dois dados. Como somou cinco pontos e esta soma atribuia-lhe a vantagem da segunda jogada, agitou, mais uma vez, os dois pequeninos cubos rombos, de marfim, somando, desta feita sete pontos pelo que, contando doze montes de pedras, da direita para a esquerda, abriu a muralha.

Uma vez a muralha aberta, foram desta retiradas, lesta e sucessivamente, em alternados grupos de duas, catorze pedras, pelo chong e treze pelos demais parceiros, que, rapidamente, as iam alinhando em sua frente, agrupando-as, já. por sequências ou pares.

Breve expectativa precedeu o lançamento, na mesa, da primeira pedra, pelo banqueiro.

O parceiro nâm tirou uma pedra da muralha, jogando uma das suas e, por fim, cada um, foi comprando uma pedra e deitando outra, na mesa, prosseguindo o jogo, entusiasticamente, na mira de fazer pongs ou kongs, chis e pares, em especial de trunfos ou ventos para ganhar a fazer alguns fanes.

As pedras eram batidas, fragorosas. uma a uma, em sucessão, sobre a mesa de madeira dura … E a noite avançava e os jogos sucediam-se, entremeados de exclamações de kong ou pong, de quem completava os tão desejados grupos, necessários para ganhar.

Finalmente, fazia-se má chéok, terminando cada jogo pelo grito feliz de quem acabava de completar o seu último conjunto.

As rodas verdes e vermelhas, os esguios bambus, os ventos, os chinas, e os capitães ou trunfos, voltavam a desemparelhar-se para, sobre a mesa, mais uma vez, ruidosamente, se confundirem, nas suas capinhas cor de jade, voltadas para cima.

A animação do jogo aumentava com o suceder das horas e o entusiasmo recrudescia, recrudescendo a velocidade e ampliando-se os ruídos das arestas dos pequenos prismas, rebolando, uns sobre os outros, em dissonância de atrito sobre a dura teca ou pau rosa do tampo da mesa.

Entretanto, os últimos pontos iam sendo dados pelos aprendizes na setinosa cabaia acolchoada a entregar no dia seguinte, o que já não faria “perder a face” ao comprometido alfaiate que, no seu entusiasmo de jogador, já, por completo, a olvidara.

Na loja próxima, sobre a pequena mesa rectangular, de tampo laçado, com as suas gavetinhas próprias para guardar fichas e pagamentos, outra partida de má chéok iniciara-se também e, cá fora, os ruídos sobrepunham-se, interferindo-se e multiplicando-se.

Na noite, cada som e cada ressonância do entrechocar das pedras, eram ampliados pelo silêncio e pela escuridão e levados, ao longo dos passeios, transbordando de cada porta, de cada janela gradeada. Lá dentro, no ambiente morno, onde o cheiro a pano recém-engomado, tudo envolvia, os grandes espelhos prateados, pintalgados de caracteres, reflectiam, indiferentes, a repetida cena de todos os serões. . .

No seu trono vestido de papéis vermelhos, o Kwan Kong, um Deus-herói protector dos comerciantes, olha a cena banal, do alto do seu cavalo, em cujas crinas escuras, a extremidade das suas barbas ponteagudas e ancestrais, se perdem e se confundem e, nos seus lábios indefiníveis parece desenhar-se um pálido e condescendente sorriso de cumplicidade

Chinês cantonense > Português

Chi – Seqüência de três pedras do mesmo naipe

Chông – Peça, geralmente em ébano, com uma cavidade circular, por onde se vê um disco que gira no interior, onde estão marcados os quatro ventos.

Chóng – Nome porque é designado o banqueiro

Fan – Designa dever, o que corresponde a dobrar a pontuação final, por cada um

Fong – Vento

lat – Um

Kong – Grupo de quatro pedras iguais

Má chéok – Antigo jogo de cartas chinês. O mesmo que mahjong

Nâm – Sul

Pak – Norte

Sai – Oeste

Tóng – Leste

Fong – Grupo de três pedras iguais

Sâm – Três

Sâi – Quatro

Perder a face – Perder a honra e a dignidade

*O livro Aguarelas (Brasil: Aquarelas) de Macau é de autoria de Ana Maria Amaro e uma edição de CTM/CDP Fundação Macau, editado em Macau no ano de 1998

Algumas palavras podem estar convertidas automaticamente do português de Portugal para o do Brasil em acentuação, devido ao computador do autor estar com a versão brasileira.

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Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

Sobre

O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

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