Cronicas Macaenses

Blog-magazine de Rogério P. D. Luz, de cara nova

Fernão Mendes Pinto e os Mares da China

Nau in Anónimo, Carta da Ásia Oriental, século XVII (Arquivo Nacional da Torre de Tombo, Lisboa)

(clicar nas imagens para aumentar)

… O essencial da vida asiática deste português (Fernão Mendes Pinto) passa-se nos mares do sul da China e um terço da Peregrinação (obra literária) é um panorama dos litorais e do interior da China Ming.

Acresce que o primeiro traço de Macau, em língua portuguesa, é a carta que daí escreve para Goa Fernão Mendes Pinto, em 20 de Novembro de 1555.

O nosso interesse pela vida e obra de Fernão Mendes Pinto assenta ainda, no facto de a Peregrinação ser a obra portuguesa, sobre a China, com mais notável impacto europeu, logo no séc. XVII, graças às quinze edições que, em diferentes línguas, surgem em Madríd, Paris, Londres, Amesterdão. (Alexandra Costa Gomes)

Frontispício da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, Lisboa, 1614 (Arquivo Nacional da Tore do Tombo, Lisboa)

Fernão Mendes Pinto escreveu a Peregrinação  entre os anos de 1568 e 1578, tendo sido publicada em Lisboa em 1614.  Na época foi um dos maiores sucessos da cultura portuguesa.

Para celebrar a memória desta obra literária assim rotulada: “não existe na Cultura Portuguesa outro caso igual e vivência aventureira e de êxito editorial.  Mas, ao mesmo tempo, não existe outro tão representativo das ambivalências da Comunidade”, que foi organizada uma Exposição em Portugal em 1998 que ocupou dois andamentos (pisos).

Anónimo, planisfério, c. 1545 (pormenor da Ásia Oriental) Osterreischische Nationalbibliothek

Alexandra Costa Gomes na apresentação do livro “Fernão Mendes Pinto e os Mares da China” escreve:

As exposições são um instrumento de diálogo entre os saberes, as instituições e o grande público. A Missão de Macau e o Centro Científico e Cultural de Macau procuram, através de exposições, contribuir para um crescente e fundamentado interesse português pela Civilização Chinesa e pelo imenso património das relações interculturais entre Portugal e a China de que Macau ê paradigma.

Esta exposição em torno de Fernão Mendes Pinto e da Peregrinação é mais um contributo para estes objectivos.”

Fernão Vaz Dourado, Carta da Ásia Oriental, in Atlas Universal com 15 cartas e 3 folhas com elementos cosmográficos, 1571 (Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Lisboa)

Quem é Fernão Mendes Pinto?

(do livro “Fernão Mendes Pinto e os Mares da China”)

Fernão Mendes Pinto nasce na Vila de Montemor-o-Velho, por volta dos anos de 1509,1511 ou mesmo 1514, no seio de uma família pobre, com pelo menos mais dois irmãos e irmãs, numa vila que, em 1527, tem 2.339 habitantes.

Portugal, com cerca de um milhão e duzentos mil habitantes, vive a afirmação do poder do Rei e o crescimento das receitas do Estado assentes, em cerca de 65%, nos rendimentos do comércio marítimo com a Ásia e a África.

Em Dezembro de 1521 Fernão Mendes Pinto é trazido, por um tio, para Lisboa, o grande centro da economia e da sociedade portuguesa, com cerca de 60.000 habitantes. 1521 é um ano difícil com fomes, epidemias e alta de preços dos cereais que provocam muitas mortes.

Em 1523 o jovem Fernão Mendes Pinto vive em Setúbal ao serviço da casa do fidalgo Francisco de Faria e a partir de 1527 é moço de câmara na Casa de D.Jorge, Mestre de Santiago e filho bastardo de D.João II.

Na altura do nascimento de Fernão Mendes Pinto a Ásia tem, pelo menos, cerca de 250 milhões de habitantes e civilizações tão desenvolvidas quanto a européia, as Islâmica, Hindu e Chinesa.

Os portugueses na Ásia, cerca de 5.000, estão a consolidar e a expandir a presença marítima e mercantil desde o Índico Ocidental ao Sueste Asiático e aos Mares da China.

Anónimo, Pedro Barreto de Resende, Planta de Malaca, in Livo do Estado da Índia Oriental de Pedro Barreto de Resende, c. 1636 (?) Bibliotèque Nationale, Paris

Em 1509 chegam a Malaca que conquistam em 1511. De 1510 é a conquista de Goa e a partir a penetração na Ásia do Sueste (Banda,Ternate, Pegu). Em 1513 os portugueses constroem uma fortaleza no porto de Calecute, no Malabar, e entram no comércio Malaca-Cantão e em 1515 reduzem, efectivamente, Ormuz à vassalagem.

Cochim é o principal porto de carregamento da pimenta para o reino e o centro estratégico dos portugueses. Goa é, desde 1511, a capital política e militar mas só em 1530 é que os serviços administrativos e financeiros centrais são transferidos de Cochim para Goa.

Ilha e Cidade de Goa, in Jan Huygen van Linschoten – Itinerario, Amesterdão, 1596

Em 11 de Março de 1537 Fernão Mendes Pinto parte para a Ásia numa armada de cinco naus comandada por D. Pedro da Silva. Nos dois primeiros anos terá vivido como soldado, no Índico Ocidental (Goa, Diu, Ormuz) e a partir de 1539 (Malaca) e até 1557, como mercador, sobretudo no Sueste Asiático (zonas de Patane, Sião, Pegu) e na Ásia Oriental (litorais da China e do Japão).

A Ásia do Sueste e a Ásia Oriental são as áreas chave da grande actividade mercantil privada dos portugueses muitas vezes a partir do capitão e do feitor de Malaca e dos oficiais e comerciantes a eles ligados.

Na Ásia os portugueses estão organizados numa rede marítimo-mercantil com pontos de apoio no litoral, o Estado da índia.

O Estado da índia é um sistema com um mínimo de territorialidade (as Feitorias-Fortalezas em lugares estratégicos para o controle ou a participação nas rotas marítimas) para um máximo de espacialidade, desde a costa oriental de África até à Ásia-Pacífico.

Na época, cerca de 7.000 portugueses estão integrados nesta rede oficial em especial, no Índico Ocidental. Outros, cerca de 1.000 a 3.000, vivem pelo Índico Oriental e pelos Mares da China do comércio privado, nas margens do aparelho oficial do Estado da índia, numa condição de asiatizados ou seja, relativamente integrados nas sociedades e economias asiáticas.

Armada de 1537, in Livro de Lisuarte de Abreu, c. 1558 – 1564 – Pierpn Morgan Library, Nova Iorque

A vida de mercador aventureiro de Fernão Mendes Pinto deve ter começado por volta dos anos de 1539-1540. É então enviado pelo capitão de Malaca, Pêro de Faria, ao rei de Aru em Samatra e a Patane, na Costa Oriental da Península Malaia e Sião, na companhia de António de Faria.

Patane, tributário do Sião/Aiuthia, era um porto estratégico para os mercadores malaios e chineses e uma zona de produção de pimenta. A China consome cerca de 75% da pimenta do Sueste Asiático.

Em Patane concentravam-se 300 portugueses ligados ao comércio privado da pimenta, cravo, maça, noz moscada, âmbar, têxteis indianos de algodão, sedas, porcelanas, cânfora, almiscar, pau da china, ruibarbo, metais preciosos, moeda e armas de fogo.

Entre 1541 e 1543 o nosso aventureiro vive em Martabão, no reino de Pegu, servindo no exército do Rei da Birmânia.

O mais tardar em 1543, Fernão Mendes Pinto vai, pela primeira vez, à China e integra-se nas redes de comércio entre Sião, Pegu, China e Japão.

Este comércio, privado e informal, da Ásia do Sueste com a Ásia Oriental faz surgir entrepostos, regulares e periódicos, frequentados pelos portugueses, nos litorais da China em especial, nas províncias do Zhejiang (Liampo/I530 e com maior frequência a partir de 1542-1544); Fujian (Chincbeu/1539 e 1544 a 1549) e Guangdong (Lampacau/l542-1549 e Sanchoão/1550).

Os portugueses começam a fazer comércio em Macau por volta de 1535 e a aí residir na década de cinquenta. A carta de Fernão Mendes Pinto, escrita em Macau a 20 de Novembro de 1555, é o primeiro documento em português feito em Macau. (vide abaixo)

Cópia do Irmão Fernão Mendes Pinto ao Padre Baltasar Dias, Reitor da Companhia de Jesus em Goa, Macau, 20 de Novembro de 1555 (a cópia erradamente troca Macau por Malaca) – Biblioteca da Ajuda, Lisboa

Fernão Mendes Pinto esteve pelo menos quatro vezes no Japão com estadias, na ida e na volta, nas costas da China.

Em 1544 na ilha de Tanegashima e no Bungo uma das nove províncias da ilha de Kyushu. Em 1546 associado a Jorge Álvares e ao novo capitão de Malaca, Simão de Melo, desembarca em Yamagawa na baía de Kagoshima. Em 1551, na nau de Duarte da Gama, volta ao Bungo onde reencontra o Padre S. Francisco Xavier que conhecera em Malaca, 1547.

Em 1556, volta ao Bungo, numa Embaixada enviada pelo Vice-Rei D.Afonso de Noronha e patrocinada pela Companhia de Jesus a que Fernão Mendes Pinto aderira em Goa, 1554.

Fernão Mendes Pinto tornou-se um bem sucedido comerciante que, em Malaca 1553, é tido como um dos homens mais ricos e que em Goa, 1554 é retratado como alguém que”… havia muitos anos que andava nesta terra, e continuadamente muito versado em chatinarias e tratos, adquirindo assim muito dinheiro, tratando do Japão para a China e para Pegu …” (Aires Brandão S. J.).

A condição de irmão na Companhia de Jesus, 1554-1556 terá implicado, no entanto, o abandono de grande parte deste patrimônio. Em 1558 sai de Goa para Lisboa onde chega, segundo as suas próprias palavras, a 22 de Setembro.

Embarcações Indianas, in Jan Huygen van Linschoten – Itineraio, Amesterdão, 1596

Em Portugal Fernão Mendes Pinto casa com Maria Correia de Brito e vai viver para a sua quinta de Palença no Pragal/Almada por volta de 1563.

Dedica-se então a escrever a Peregrinação sendo consultado, sobre a Ásia, por várias figuras: João de Barros em 1568, Bernardo Néri, embaixador de Cosme de Médicis, em 1571, o historiador jesuíta Giovanni Pietro Maffei em 1582.

Ao mesmo tempo desempenha funções de Juiz na vila de Almada (1572 e 1577) e é nomeado mamposteiro dos hospitais de São Lázaro em Cacilhas e de Santa Maria em Almada, ambos dependentes da Misericórdia de Almada, nos anos de 1573-1574,1577,1578-1579.

Em Janeiro de 1583 o Rei Filipe I concede-lhe uma tença anual de dois moios de trigo e a 8 de Julho morre na sua quinta do Pragal/Almada.

Junco Cinês, in Jan Huygen van Linschoten – Itinerario, Amesterdão, 1596

* Agradecimentos à Missão de Macau em Lisboa e o Centro Científico e Cultural de Macau

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Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

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O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

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