Cronicas Macaenses

Blog-magazine de Rogério P. D. Luz, de cara nova

Macau: Hotel Bela Vista ou Boa Vista, eis a questão

Hotel Bela Vista ou Boa Vista no lado direito, hoje residência oficial do Cônsul de Portugal em Macau após a transição para a China

Hotel Boa Vista ou Hotel Bela Vista? Fundada como Hotel Boa Vista, passou a ser mais conhecida como Hotel Bela Vista nos tempos mais recentes, até que com a devolução de Macau pelos portugueses para a China, ficou sendo a residência oficial do Cônsul de Portugal onde se realizam recepções.

É costume, nos Encontros das Comunidades Macaenses, o cônsul oferecer recepção aos dirigentes das Casas de Macau e convidados especiais. Já lá estive quando fazia parte da direção da Casa de São Paulo, e que belo lugar, tanto na parte interna como pela vista de Macau da sua varanda. Tanto que, por este último detalhe, será que alguém da varanda tenha exclamado “oh … que bela vista” e tenha originado a troca de nome? Penso que não seria o caso, mas Padre Manuel Teixeira, o grande historiador de Macu, no seu livro – Toponímia de Macau – reclama deste novo nome ao hotel e traz algumas interessantes informações:

Hotel Bela/Boa Vista compõe um belo cenário de Macau com a Igreja da Penha no topo, tendo neste trecho vista livre do mar por ausência de prédios na sua frente.

Vista do mar nos anos 50s. (do Facebook-Luís Dias)

HOTEL BOA VISTA

(por Padre Manuel Teixeira – trechos do livro Toponímia de Macau)

Trecho 1 – Na Conservatória do Registo Predial o Hotel Boa Vista tem o número 5 431 e a descrição que dele se faz tem a data de 1900, mas foi extraída do Livro do Tabelião Serpa, onde foi anotada a 18 de Novembro de 1899.  O hotel pertencia então ao Cap. da Marinha Mercante Inglesa William Edward Clarke e à sua esposa, Catherine Hannack Clarke …

Trecho 2 – Ano de 1900 – N.° 5 431. Prédio urbano denominado Hotel Boa Vista e de­pendências «sito na freguesia de S. Lourenço, Rua do Tanque do Mainato, tendo a sua entrada principal o n.° l de polícia.

Trecho 3 – Tentativa dos Franceses: O Hotel da Boa Vista pertencia ao Capitão inglês Clarke, resi­dente em Macau. Ali de Novembro de 1899, Clarke e sua esposa hipotecaram o hotel por $ 15 000,00 à Hongkong, Canton and Macau Steamer C.° Ltd; essa quantia foi paga a 21 de Novembro de 1901. Quando os franceses quiseram comprar este hotel, levantou-se ta­manha celeuma na imprensa e no parlamento inglês que o governo português se viu obrigado a expropriá-lo para aplacar as iras do leão britânico.

Trecho 4 – Delfino Ribeiro foi o primeiro gerente do hotel sob a administração da Santa Casa (que assinou a escritura de compra em 15 de Novembro de 1901, após aprovar a exposição do seu Provedor Pedro Nolasco da Silva).

Nos tempos em que ainda era hotel, e a bela vista ou boa vista que tinha de Macau (imagem do Facebook-Luís Dias)

Trecho 5

Mudança de nome

Percorremos todo o Arquivo da Conservatória do Registo Pre­dial e ali nada consta acerca da mudança de nome. Em 1900, foi re­gistado com a designação de Hotel Boa Vista e nunca esta designa­ção aparece ali mudada.

No Arquivo da Santa Casa, ainda figura com este nome numa referência de 1932.

Supomos que foi depois da guerra que se lhe mudou o nome. Não sabemos por que carga de água alguém achou mal o nome de Boa Vista, crismando-o com o nome de Bela Vista.

Não registou o hotel na Conservatória do Registo Predial com esse nome, que discorda, da toponímia circundante: Rua da Boa Vista e Pátio da Boa Vista.

Bom seria, pois, que retomasse o nome primitivo.

Em Singapura, há a Rua da Buona Vista; no Porto, a Avenida da Boa Vista, etc.

Arrendamento

De 1934 a 1937, esteve alugado ao Governo inglês para aloja­mento dos cadetes de Administração Civil Britânica.

Em 1937-1938, serviu de pousada aos refugiados portugueses de Xangai, que fugiram perante a invasão dos japoneses que toma­ram essa cidade.

Em 1942, foi requisitado pelo Governo para alojar os refugiados que se acolheram a Macau durante a Guerra do Pacífico (1941-1945).

De 5 de Março de 1946 a 1950, esteve alugado ao governo in­glês para casa de repouso da NAAFI, i. é, Forças Armadas de Ter­ra, Mar e Ar.

O Hotel favorito

Acerca deste hotel eis o que nos diz o livro Golden Guide to Hong Kong and Macao, p. 341: «O Bela Vista é o favorito entre os amadores da atmosfera colonial. Situado num jardim, no topo duma íngreme ladeira, gloria-se de ter um restaurante instalado numa es­plêndida varanda de pilares com uma vista magnífica sobre a Baía da Praia Grande, e dentro uma não menos notável escadaria de mármore com um corrimão de ferro. Os quartos não são de luxo, mas muitos deles possuem sacadas, donde se disfruta a vista da Baía ou da cidade».

Durante três anos (1934-1937) o hotel «Boa Vista» esteve aluga­do ao governo inglês para alojamento dos cadetes dos Serviços de Administração Civil Britânica, que vinham estudar chinês a Macau antes de entrarem no serviço administrativo.

Houve vários romances entre jovens cadetes e as jovens de Ma­cau ; mas, como lhes era vedado o casamento, vários corações ficaram partidos na hora da despedida.

Vista aérea de 1992 ou 1993. O Hotel está no canto esquerdo inferior. No centro o Palácio de Santa Sancha (foto do livro de mesmo nome, do ICM)

Macau 1880: Em primeiro plano o Palácio de Santa Sancha (residência oficial do Governador ou Chefe do Executivo de Macau) e ao fundo o hotel (?) (do livro Santa Sancha do ICM)

Macau 1940/50. O hotel no centro, branco e de tamanho maior. (do Facebook-Jon Doo)

O hotel em 1900

Macau anos 50/60 (do Facebook-Luís Dias)

*As fotos do Facebook foram publicadas no grupo Fotos Históricas de Macau II pelos membros citados.

 

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Autoria do blog-magazine

Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

Sobre

O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

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