Cronicas Macaenses

Blog-magazine de Rogério P. D. Luz, de cara nova

A Companhia Portuguesa de Voluntários de Xangai 1906 a 1941

O Comandante da Companhia de Voluntários Portugueses, tendo à direita o cônsul de Portugal em Xangai, Gastão Barjona, e à sua esquerda o vice-cônsul intérprete Pedro Nolasco e os subalternos da Companhia, 1913 // The Commander of the Portuguese Volunteer Company with the Portuguese Consul in Shangai in his right, and the Vice Consul/interpreter to his left, together with his subaltern officers, 1913.

(post with english version)

A COMPANHIA PORTUGUESA DE VOLUNTÁRIOS DE XANGAI 1906 A1941

autoria de/author: Manuel A.Ribeiro Rodrigues

do/from livro/book:  400 Anos de Organização e Uniformes Militares de Macau /

400 Years of Organization and Military Uniforms in Macau

Edição/Publisher: Instituto Cultural de Macau, 1999

tradução/translation: Peter Abbott / Wei Ling

Xangai foi um dos maiores centros comerciais da Ásia, e constituíam-na uma parte chinesa e outra européia, que gozava de regime de extraterritorialidade. Este aspecto peculiar da cidade nasceu dos excessos praticados pelos rebeldes taipingues durante o domínio que sobre ela exerceram, nos meados do século XIX.

Foi então criado o Corpo de Voluntários de Xangai, que, sob um comando inglês, tinha a seguinte constituição:

l esquadrão de cavalaria inglês

l esquadrão de cavalaria americano

l bateria de obuses inglesa

l bateria automóvel, constituída por escandinavos

l companhia de engenharia mista, que incluía uma dezena de portugueses

2 companhias de infantaria inglesas

l companhia de infantaria portuguesa

l companhia de infantaria japonesa

l companhia de infantaria chinesa

l companhia de infantaria escocesa

l companhia de infantaria russa

Contrariamente ao que poderia supor-se, resultou desta diversidade de raças e nacionalidades, conjugadas numa mesma intenção, um estímulo para que todas as representações se esforçassem por alcançar a maior eficiência, sem que se verificassem rivalidades. Havia interesses comuns a defender e disso todos se compenetraram perfeitamente.

A companhia Portuguesa de Voluntários de Xangai que na essência nasceu da necessidade de uma força que protegesse a comunidade portuguesa de Xangai — constituída por centenas de famílias respeitáveis, fiéis à Pátria Lusa, modelo exemplar de civismo para as demais comunidades — é criada em Feverreiro de 1906, ainda que oficialmente só fosse organizada em 3 de Março desse mesmo ano, e a iniciativa fica-se a dever a meia dúzia de macaenses de tempera, com perspicaz lucidez da conjuntura que então se centrava sobre Xangai. Foram eles João Nolasco, Fernando José de Almeida, Ernesto Santos Carneiro, João Maria Placé, João Guterres, F. Matos, J. Remédios.

As inúmeras respostas de adesão à idéia expressa em circular distribuída entre a comunidade portuguesa da criação da Companhia ultrapassaram os melhores propósitos dos seus mentores, pois acorreram oferecimentos que excederam as necessidades.

A Companhia Portuguesa, como as restantes, regia-se pelo Regulamento Geral do Corpo e por Estatutos privativos. Os oficiais recebiam as suas patentes depois de concursos realizados na Unidade, versando as provas sobre legislação, topografia, regulamentos e conhecimentos militares, sendo o juízo final decidido pelo Comandante do Corpo.

As praças obrigavam-se a servir por três anos, findos os quais podiam prorrogar o seu voluntariado por períodos de um ano, ou terem passagem a reservistas por mais três anos.

O efectivo do Corpo era o seguinte: três oficiais, seis sargentos, sessenta e oito cabos e soldados em serviço activo, um sargento e onze soldados em reserva, além de um oficial e quarenta soldados de caçadores.

Os uniformes eram fornecidos gratuitamente pelo Conselho Municipal, à excepção dos que utilizavam em passeio. Este era o que estava em uso no Exército não apresentando nenhuma alteração significativa. O equipamento era igualmente distribuído pelo Município da cidade, mantendo-o nas suas casas ou serviços, assim como o armamento, espada e pistola para os oficiais e para as restantes praças uma baioneta e uma espingarda de modelo Lee Enfield, o que lhes permitia acorrerem prontamente aos locais previstos de concentração, logo que convocados.

As vozes de comando começaram por ser dadas em inglês, mas tempos após os primeiros treinos de instrução militar, as vozes passaram a ser dadas em português.

Não se recebiam soldos, mesmo nos períodos de mobilização, que por vezes atingiam os 90 dias seguidos. Nestas ocasiões, o Município arcava com as despesas de alimentação.

A nossa representação tomou, entretanto, o nome de Companhia de Voluntários Portugueses Coronel Mesquita, em homenagem ao militar valente e digno que expôs a sua mocidade e existência em prol de Macau, a sua terra natal, e a de Portugal.

“Os voluntários portugueses anualmente, em Outubro, deslocam-se à carreira de tiro ficando acampados durante três noites e dois dias, aproveitando para executarem diversos exercícios militares.”

No respeitante à companhia de caçadores, que foi fundada em Dezembro de 1911, era composta por indivíduos cuja idade não lhes permitia estar nas fileiras, andando por isso armados de caçadeiras, propriedade individual, tendo como dever guardar o Clube União, cujas instalações eram o Quartel dos Voluntários.

Por ocasião da revolução chinesa, coube à Companhia a tarefa de ocupar a estação do caminho-de-ferro de Xangai. Xanking Raiway & C.a, a fim de impedir os revolucionários de se utilizarem da via férrea para o transporte das suas forças. Só dois soldados faltaram ao serviço que se fez desde as 5 da manhã às 10 da noite ininterruptamente, sendo os homens alimentados parcamente, contudo sem se fazer ouvir uma única queixa.

A Companhia deu tantas provas de boa vontade e energia que, publicamente, nas festas do Town-Hall, o Comandande-em-Chefe, Coronel Barnes, lhe fez um rasgado elogio, conforme constou no “Shai Mercury”.

Também em 1910, quando da peste bubônica, a Companhia se mobilizou para impedir que se espancassem os inspectores da polícia sanitária e diversas vezes ficou de prevenção, principalmente depois que começou o desarmamento dos regimentos chineses dos subúrbios de Xangai, após a República.

Ao longo dos seus 35 anos de existência, esta nossa Companhia — que se extinguiu em 1941, quando os japoneses, na posse de Xangai, acabaram com a Concessão Internacional -teve comportamento exemplar e altamente meritório.

Uma das primeiras provas evidentes do manifesto interesse dos quadros de instrutores e dos homens que a constituíam, foi sem dúvida dada pelo facto de, ao cabo de pouco mais de um mês de laboração, a Companhia estar pronta a tomar parte numa revista passada pelo Comandante-em-Chefe do Corpo.

De 1919 a 1921 ganhava o 1.° prêmio nos Concursos de Tiro. Aliás, um dos seus Comandantes, Capitão Fernando Leitão, foi nomeado Director da Instrução de Tiro do “Corpo”, nomeação naturalmente muito honrosa para a nossa representação e para Portugal.

Por diploma de 23 de Maio de 1932, o Governo Português, em reconhecimento dos meritórios serviços prestados pela Companhia Coronel Mesquita, concedeu-lhe a distinção de Oficial da Ordem Militar de Cristo.

THE PORTUGUESE SHANGHAI VOLUNTEER COMPANY 1906 TO 1941

SHANGHAI was one of Asia’s main commercial centres, and consisted of a Chinese section and a European one, the latter enjoying the privileges of extra-territoriality. This peculiar feature of the city gave rise to the excesses practised by the Taiping rebels during their period of control in the middle of the nineteenth century.

This led to the formation of the Shanghai Volunteers, which had a British commander and the following composition:

•          One British cavalry squadron.

•          One American cavalry squadron.

•          One British howitzer battery.

•          One Scandinavian motorised battery.

•          One Mixed engineer company which included a dozen Portuguese.

•          Two British infantry companies.

•          One Portuguese infantry company.

•          One Japanese infantry company.

•          One Chinese infantry company.

•          One Scottish infantry company.

•          One Russian infantry company.

Contrary to what might be supposed, the result of bringing this diversity of races and nationalities together for a common aim was to create a common drive for the greatest possible efficiency, without disruptive rivalries. They all had common interests to defend, and everyone fully understood this.

The Portuguese Company of the Shanghai Volunteers was born out of the need for a force to protect the Portuguese community in Shanghai. It was drawn from hundreds of respectable families, loyal to their mother country and an example of model citizenship for the other communities. It was actually formed in February 1906, though the official date was the 3rd March of the same year. The initiative came from a half dozen substantial citizens originating in Macau who clearly understood the threat to Shanghai, these being João Nolasco, Fernando José de Almeida, Ernesto Santos Carneiro, João Maria Placé, João Guterres, F. Matos and J. Remédios.

A circular distributed among the Portuguese community produced innumerable promises of support for the formation of the Company and exceeded the best hopes of the proposers, for the number of volunteers exceeded the number of places.

The Portuguese Company, like the others, was regulated by the Corps’ General Orders and by its own individual ordinances. Its officers received their commissions after competitions organized by the Corps, having demonstrated their knowledge of law, map-reading, regulations and military knowledge, the final judge being the Commandant of the Corps.

The other ranks were required to serve for three years, at the end of which they were able to extend their membership for periods of one year at a time, or else to pass into the reserves for three more years.

The establishment of the Company was as follows: three officers, six sergeants, sixty-eight corporals and soldiers on active service, one sergeant and eleven reserve soldiers, plus one officer and forty soldiers in a caçadores (rifle) unit.

The uniforms were provided without charge by the Municipal Council with the exception of those used for walking out, the latter being those worn by the (Portuguese) Army without any significant alterations. The equipment was similarly distributed by the Municipality, this being kept in the mens’ houses or workplaces, together with their arms, the latter consisting of a sword and pistol for the officers and a bayonet and Lee Enfield rifle for the other ranks, this allowing them to proceed quickly to their assigned assembly points when they were mobilized.

The words of command were given in English at the beginning, but after initial training they came to be given in Portuguese.

The men did not receive any pay, even during the period when they were mobilised, which sometimes lasted for ninety successive days. On these occasions the Municipality provided rations.

At the request of the Portuguese, the Company took the title Colonel Mesquita’s Portuguese Volunteer Company to commemorate the valiant soldier who devoted his youth and whole life to the welfare of his birthplace Macau, and to Portugal.

Exercício no jardim do cônsul Barjona, 1913 / An exercise in the consul’s garden, 1913

“Every October the Portuguese volunteers attended an annual firing camp where they remained for three nights and two days, engaged in various military exercises.”

A Caçadores Company was formed in December 1911 from individuals whose age did not permit them to enlist in the ranks, though they were allowed to arm themselves with private hunting guns and take over guard duties at the Union Club, whose premises were the headquarters of the Volunteers.

During the Chinese Revolution the Company’s mission was to guard the Shanghai-Nankin Railway Company’s station to prevent the revolutionaries from using the railway to move their forces. Only two soldiers failed to report for duty, which lasted from five in the morning until ten at night without any break, during which the men had little to eat, though not a single complaint was heard.

The Company gave such proof of its good will and energy that during the festivities at the Town Hall the Commander in Chief Colonel Barnes paid them an eloquent public tribute, according to the ‘Shanghai Mercury’.

In 1910, during the bubonic plague outbreak, the Company was mobilized in order to stop the health inspectors from being beaten, and on various occasions succeeded in preventing this, especially after the disarmament of the Chinese regiments in the Shanghai suburbs after the establishment of the Republic.

During its thirty five years’ existence, the Portuguese Company — which was disbanded in 1941 when the Japanese who had occupied Shanghai ended the International Concessions – behaved in an exemplary and highly meritorious manner.

One of the very first proofs of the manifest interest shown by the instructors and the troops was the fact that after little more than a month of training the Company was ready to take part in a march past before the Commander in Chief of the Corps.

In 1919 and 1921 it won the frst prize in the Musketry Competition. Moreover, one of its Commanders, Captain Fernando Leitão, was named Director of Musketry for the Corps, which was a great honour both for him and for Portugal.

In a decree dated 23rd May 1932, the Portuguese Government recognised the meritorious services rendered by Colonel Mesquita’s Company, awarding it the grade of Officer of the Militarv Order of Christ.

Exercício no jardim do cônsul Barjona, 1913 / An exercise in the consul’s garden, 1913

*Agradecimentos ao Instituto Cultural de Macau e ao autor Manuel A.Ribeiro Rodrigues

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Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

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O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

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