Cronicas Macaenses

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Conceito chinês: Pei Min – a Face

Conheça este conceito ou pensamento chinês para conhecer melhor este povo que se espalha pelo mundo.  No Brasil, com a chegada de fábricas de carros chineses e outras indústrias que se instalam no País, é bom conhecer o seu pensamento que pelo desconhecimento, leva a um julgamento errado do seu comportamento.  O texto é longo para uma postagem mas vale a pena uma leitura com calma:

PEI MIN – A FACE

de Ramón Lay Mazo – San Francisco 1993 (publicado na Revista Macau edição de Agosto de 1994)

tradução de Ana Maria Amaro

Para os chineses a “face”  – a reputação — de um homem vale tanto como a sua fortuna. Por isso, na China, todos têm o cuidado de “deslizar suavemente entre os demais”…

O ideograma min, para além de representar a ideia rosto, superfície lisa ou frente, significa também honra, dignidade, orgulho, prestígio e reputação. Algo mais, como se vê, e que transcende a tradução corrente de face. Pei min — dar face é pois uma frase que ultrapassa o conceito vulgar de dar a cara ou o rosto.

Na realidade, este conceito de cara, referente ao aspecto exterior, reflectindo como um espelho o estado anímico ou situação interior de um indivíduo, existe em todo o Oriente, embora de modo especial na China. E não é fácil definir este conceito já que os seus significados são muitos e de natureza mais ou menos abstracta, própria do pensamento do Oriente que não encontra, na maioria das vezes, expressão equivalente na mentalidade ocidental.

Face, significa mais do que “honra”, porque em parte é algo de exterior ao indivíduo; mais do que “dignidade”, porque ultrapassa o conceito em si próprio, incluindo o conceito que se tem da face dos seus semelhantes; é mais do que “orgulho”, porque só com orgulho pode não se possuir face.

Alguns autores chineses consideram que face corresponde ao estado anímico em que o Eu (interior) predomina sobre o exterior, influindo, por isso, sobre terceiros.

Para melhor se entender o que significa para um chinês manter ou perder a face, afigura-se-nos indispensável apresentar alguns exemplos.

Um homem honrado pode ser mesquinho e dar a um cego uma pequena moeda mas nunca roubará o mendigo, ao passo que o homem que se preocupa com a face pode roubar um pedinte sem que ninguém o veja, dando-lhe, pelo contrário, ostensivamente, uma esmola avultada se houver quem presencie a sua acção.

Nos fins do século passado, no Ocidente, um homem que fosse esbofeteado e não desafiasse o seu adversário para um duelo, perdia a honra e daí a consideração que os membros do seu grupo social lhe dispensavam. Na China, um homem, em situação análoga, pode não perder a face.

Confundir face com “honra”, como se vê, é cometer um grave erro. A honra é uma questão de consciência; porém, face relaciona-se com “aparência” e com a “reputação”.

A perda da honra é como um defeito na pele, ao passo que a perda da face é apenas uma mancha na maquilhagem (maquiagem) que cada um usa para parecer bem a si próprio e aos demais.

Para os chineses, a face dum homem vale tanto como a sua fortuna. Em consequência desta forma de pensar, não raramente há quem se exponha à ruína, não se importando de deixar a família na miséria, só para fazer vistosas bodas aos seus filhos varões e impressionantes funerais a seus pais. Igualmente para dar face, um comerciante pode ter ao seu serviço mais pessoal do que o necessário e deixar acesas durante toda a noite as luzes da sua loja ou do seu escritório para mostrar quão próspero ou quão ocupado se encontra; e se tais esbanjamentos o levam à falência, é certo que cuidará primeiro de salvar a face do que do seu dinheiro, uma vez que perdendo a face, perderá, com ela, todo o crédito.

Dantes, muitos estrangeiros que ao chegarem à China alugavam um riquexó (triciclo), escolhiam aquele que era transportado pelo cule (quem conduzia) que lhes parecia ser o mais forte por ser mais alto e corpulento. Esta atitude era errada porque os cules preteridos preferiam-se eles, embora com maior esforço, mas com maior solicitude, a fazerem tais serviços. Não pelas remunerações esperadas mas pela face que isso lhes daria, impondo-os aos seus companheiros de profissão, já que punham em destaque a qualidade dos seus músculos.

Ninguém que conheça a China poderá desprezar a importância dada, naquele país, à face. Quem se esquecer de dar à face a devida atenção, no seu trato quotidiano com o povo chinês, comportar-se-á como um bárbaro que nunca conheceu nem poderá compreender as boas maneiras do povo Han.

O famoso escritor Lin Yutang descreveu um caso muito curioso que pode bem ilustrar o que atrás foi dito.

Conta ele que nos seus tempos de escola um director estrangeiro pensava realizar uma boa acção a favor dum mestre chinês aumentando-lhe o salário de 18 para 19 dólares por mês.

Porém, o jovem professor, em vez de ficar satisfeito e agradecido com o tal aumento, sentiu-se ferido na sua dignidade pela má hora em que ocorreu a esse bárbaro director conceder-lhe tal aumento. A razão da sua contrariedade consistiu no facto de, recebendo sap-kau (dezanove dólares), ir perder a face perante os seus colegas e alunos já que sap-kau, em cantonense, é homófono de um termo ofensivo.

Porém, apesar da sua recusa, o bárbaro director insistiu em dar-lhe o dólar suplementar em reconhecimento pelos seus bons serviços. É que o director da escola, por ser estrangeiro, não sabia chinês e muito menos o significado de face para um filho do Celeste Império.

Nas complexas regras de etiqueta chinesa, a questão da face surge a cada momento, criando-se por isso, muitas vezes, situação embaraçosa. Assim, se alguém é convidado por um amigo chinês para cear ou para uma festa, não deve recusar nem comparecer de mãos vazias, mesmo que se trate de uma mera visita de cortesia. No primeiro caso, é quem convida que perderá a face, e no segundo, a pessoa que aceita o convite ou que vai visitar outrem.

Para evitar perder a face, nunca um patrão poderá repreender um empregado perante os seus colegas nem alguém poderá humilhar outrem em público.

Foi por isso que sempre os comandantes militares chineses tiveram grandes dificuldades em impor a disciplina às suas tropas. Os soldados podiam negar-se a ficar de reserva, alegando que não ir combater lhes faria perder a face.  Por outro lado, um oficial nunca empunharia arma dum soldado e menos ainda a pá e picareta de um sapador, porque isso, igualmente, seria desprestigiante, fazendo-o perder grandemente a face.

Conta-se que um dos oficiais alemães encarregados de treinar a guarda pessoal do generalíssimo Chiang Kai-shek repreendeu, um dia, perante todo o destacamento, um dos soldados por ter roubado um pêssego quando atravessavam uma pequena horta. O soldado suicidou-se nessa mesma noite, pois não suportou tão afrontosa perda de face que consistia em ser censurado publicamente por um diabo branco diante dos demais soldados chineses, seus companheiros de armas.

Ao longo da história da China não raramente se registaram casos de derrotas militares, perdas de Estados e aniquilação completa de populações, só porque os generais, em lugar de procederem de acordo com as tácticas militares, perdiam por vezes a oportunidade de obterem a vitória, preferindo salvar a face em consequência de ninharias.

Por causa da face, a China mandou várias vezes ao estrangeiro políticos corruptos e generais que haviam sido derrotados por inépcia (e que, no Ocidente, seriam punidos com prisão) para realizarem tarefas de investigação científica ou encabeçarem delegações culturais, providos de avultados fundos disponibilizados pelo Governo.

A face implicava, também, noutros tempos e, de certo modo, em Macau, o conceito de racismo. Ainda na primeira metade deste século, se um chinês se casava com uma estrangeira, especialmente se fosse loira, ganhava prestígio ou face perante os seus compatriotas; porém, se uma jovem chinesa se casasse com um ngau sôk (“mal cheiroso a boi”, ou português) membro das forças de segurança pública de Macau, o que era, aliás, muito frequente, não só ela mas toda a sua família perdia a face. Pior seria, porém, se o noivo fosse um moIo chá (indiano), transformando-se num desastre sem nome se aquele fosse um “diabo negro“.

Muitos dos distúrbios entre jovens, registados na China, já em tempos mais próximos de nós, foram resultado da perda de face que os estudantes chineses sentiram ao verem estudantes estrangeiros (principalmente “diabos negros“) acompanhando colegas suas ou pretendendo mesmo namorá-las.

Apesar de muitos casos como estes de verdadeiro exagero que levaram a duras represálias, a face foi, na China, muitas vezes, causa de factos verdadeiramente honrosos.

Servem de exemplo os casos de directores de grandes empresas e mesmo ministros de alguns dos governos republicanos se em bloco para salvar a face de um colega.

Conta-se que um embaixador estrangeiro, conhecedor dos costumes chineses, dizia que, quando lhe faltavam todos os meios diplomáticos, conseguia que o ministério chinês das Relações Externas resolvesse os seus problemas, alegando que não podia perder a face perante o seu governo.

E também sabido que ninguém, na China, gosta de fazer perder a face a outrem. E isto porque os chineses não só pensam em salvaguardar a sua própria face mas também pensam na salvaguarda da face dos outros.

Por isso, um chinês evita sempre participar em debates ou discussões públicas, e não gosta de apoiar, nestes, nenhum dos opositores ou opor-se a um antagonista ideológico, preferindo por vezes comportar-se como se fosse tolo. Contenta-se em deixar que os outros se apercebam de que ele pode participar na discussão se lhe aprouver, ao mesmo tempo que mostra que é tão sensível acerca da face do seu opositor como o é acerca da sua própria.

Nos tribunais não é raro, também, que certas querelas que no Ocidente se resolveriam a bem e honrosamente, com uma mera declaração pública de desistência da parte da acusação, se prolonguem, na China, indefinidamente porque a face evita que as partes se reconciliem e cheguem a acordo.

Mesmo quando alguém é processado por uma acção que o desacredite, não é a falta cometida que desgosta e molesta os respectivos familiares, mas sim a perda da face que a todos afectará.

Para além dos exemplos já citados, há, todavia, muitas outras formas de ganhar ou obter face, sendo algumas apenas extravagantes ou anedóticas e outras bastante trágicas.

É o mesmo Li Yutang quem relata o seguinte caso: Havia numa certa cidade do sul da China um alto funcionário governamental que ordenava ao seu condutor que guiasse o seu automóvel a cem quilômetros à hora (enquanto ao povo só era permitido guiar a sessenta), ganhando, por esse facto, muita face. Se o seu condutor cometia alguma infracção, quando a polícia se acercava, identificava-se, sorria cortesmente e isentava-se, adquirindo ainda mais face. Se o polícia, porém, não se deixava impressionar pelo cargo do infractor, o funcionário começava a falar-lhe em mandarim (língua própria dos letrados, e, para aquele, ininteligível), reforçando, assim, a sua qualidade de pessoa influente. Se mesmo deste modo não lograsse convencer o agente da autoridade e este insistisse em levar à esquadra (delegacia) o motorista, o alto funcionário, a quem pertencia o carro, contactava com o comandante da polícia e tudo se resolvia a seu favor, sendo imediatamente substituído o pobre polícia, só por cumprir o seu dever. Porém, o alto funcionário ganhava, desta vez, ainda muito mais face.

Um dia, o filho dum general foi expulso duma casa, por estar ébrio e procederescandalosamente. Pouco depois esta casa foi mandada encerrar por um pequeno contingente militar e preso o seu dono. E o general, a quem se ficou a dever tal represália, em vez de perder face com a expulsão do filho daquela casa, ganhou, com o seu encerramento,  imensa face.

É conhecido o caso dum milionário de Hong Kong cuja forma de ganhar face consistia em entrar vestido de camponês e afectando modos rudes nos mais caros e luxuosos restaurantes locais, frequentados pelas elites estrangeiras. Um outro ia visitar os grandes transatlânticos fundados no porto, com as calças arregaçadas acima dos joelhos, sentando-se, descalço, no melhor salão, com os pés sobre os sofás acolchoados, e sempre disposto a pagar quaisquer multas que o comandante do barco lhe impusesse por infringir os regulamentos da então rígida etiqueta européia.

E eis um último caso, este trágico, de ganhar face. Um dia, alguns fiscais aduaneiros apresentaram-se no barco Tai Chi, ancorado no porto de Xangai, para vistoriar o seu carregamento. Na porta de um compartimento do cargueiro estava colocado, bem visível, um letreiro onde se lia em chinês e inglês: Perigo; não fumar. Ao entrarem nesse compartimento, cheio de enxofre e doutras substâncias inflamáveis, ocorreu aos fiscais ganhar face não apagando os seus cigarros e contrariando as advertências e as súplicas do pessoal de bordo. Resultado: uma tremenda explosão que destruiu o cargueiro e danificou de tal modo o grande molhe ao qual estava atracado, que este ficou, durante muito tempo, fora de uso.

Esta questão da face ou cara, de consequências por vezes muito caras, está profundamente arreigada na mentalidade do povo chinês. Por isso, todos têm o cuidado de actuar com respeito e deslizar suavemente por entre os demais, cujas faces são interdependentes. A face forma, assim, um código não escrito de conduta individual e colectiva, indulgente e plena de benevolência, para evitar qualquer acto ofensivo e prejudicial tanto ao próprio como aos demais membros da colectividade.

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Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

Sobre

O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

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