Cronicas Macaenses

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Um Caso de Face em Macau

Dando sequência à postagem anterior de “Conceito Chinês: Pei Min – a Face”, publico um conto de Ana Maria Amaro de vida real, que nos remete à reflexão sobre nós e os nossos atos.

Nesta vida há que se ter respeito para com outros, pois uma atitude impensada e desrespeituosa, sem chances para outro se defender, pode causar um prejuízo incalculável e fazer a pessoa perder a face perante outros.  Estas coisas, na visão chinesa, muitas vezes podem ter um efeito de espelho com risco de refletir esses seus atos contra si próprio.

UM CASO DE FACE EM MACAU

um texto de Ana Maria Amaro publicado na Revista Macau de Agosto 1994

LEMBRO-ME dela, deambulando nos fins dos anos 50 pela Av. Almeida Ribeiro. Vestida de farrapos, cabelo ralo e grisalho apertado por uma fita no alto da cabeça, sandálias malaias muito gastas, cigarro aceso na mão… um cigarro oferecido por alguém, a quem o pedia, de passagem.

Baixa, forte, sem idade, demente.

Era filha dum milionário… a última filha de tantos filhos que ele tivera das suas várias esposas, filhos que haviam morrido sem descendência como castigo do Céu.

Contava-se em voz baixa. Ninguém tinha coragem de afrontar o sobrenatural, os desígnios que comandam o destino dos homens e que tanto premeiam (premiam) como castigam.

E ninguém teve coragem, alguma vez, de descrever o que de boca em boca corria e se contava quando aquela mulher passava, cantarolando… de olhar vazio.

Nem eu própria, até hoje, ousei contar esta história, há tantos anos ocorrida.

Foi um caso de face, daqueles casos dramáticos que muitas vezes acontecem entre os chineses.

Um homem viera da China no século passado. Enriqueceu. Comprou casas, terrenos e construiu mansões. Vidros coloridos de Pequim, talhas douradas, mobílias caras, tornavam singulares, em Macau, as suas residências, que ainda conheci, embora já meros destroços.

Esse homem confiou de mais em alguém que lhe servia de guarda-livros; confiou nos sócios e os sócios confiaram nele, todos ligados nos negócios florescentes apenas pela face e sem quaisquer papéis escritos.

Houve quem fizesse sucessivos desfalques, viciando contas, livros e facturas. Tudo parecia certo, até à data em que o responsável pela ruína do milionário, nessa altura já um respeitável ancião, desapareceu, deixando saldos negativos e servindo-se do dinheiro que não era seu para ir ganhar face num outro ponto qualquer.

Era preciso saldar dívidas. Era preciso pagar e não perder a face perante quantos haviam confiado na honestidade e na boa estrela do velho senhor. Reuniu os filhos. Que fazer? Pagar e manter a face, ou não pagar para que os filhos e os netos pudessem continuar a ter a vida desafogada a que estavam habituados?

O filho mais velho, o herdeiro do nome, o futuro chefe da família disse NÃO. Empobrecer seria perder mais ainda a face –  do que não pagar.

O velho senhor enforcou-se, nessa madrugada, numa trave dum esconso da sua casa dourada de talhas e refulgente de vidros coloridos, algures no Largo da Sé. O velho senhor não perdeu a face. Nem ele nem a família, porque os negócios eram da sua exclusiva responsabilidade e a falta de pagamento aos seus credores só com a sua morte poderia não afectar a face de alguém.

E os que souberam, os que contaram, os que ouviram, murmuraram: Como poderá o Céu aceitar tão grande falta de piedade filial?

E a verdade é que o filho primogênito, o que dissera NÃO ao velho senhor seu pai, o que herdara o grosso da fortuna e se vira, de repente, milionário e pleno de face, porque com a sua fortuna fazia amigos de grande influência no mundo da finança e da política, amigos que freqüentavam a sua casa luxuosa e bela, e as suas festas, onde nem faltava a disponibilidade dum fumatório de ópio, o filho primogénito morreu cedo e a sua descendência foi-se extinguindo pouco a pouco.

A última filha, já grisalha, vestida de farrapos, deambulava, louca e sozinha, por Macau, nos finais dos anos cinquenta.

Passou por mim algumas vezes, cantarolando e parando de quando em quando para dizer algo dirigido a ninguém… ou pedir um cigarro.

Ilustração de André Carrilho (Revista Macau)

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Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

Sobre

O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

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