Cronicas Macaenses

Blog-magazine de Rogério P. D. Luz, de cara nova

Macau 1931: explodiu o Paiol da Flora

Imagine a cidade de Macau de 1931, uma península com menos de 10km², sofrer uma explosão de 30 toneladas de pólvora que causou a morte de 21 pessoas e 50 feridos!  Num raio de 300 metros houve uma devastação total e as consequências só não foram maiores pois aconteceu na madrugada, às 5:35 da manhã quando a cidade ainda dormia.  Nos dias de hoje, pensariam logo num atentado … teria explodido um carro-bomba!

Para contar este fatídico acontecimento, Rogério Beltrão Coelho publicou na Revista Macau, edição de Agosto de 1994, um artigo ricamente ilustrado. Vejamos:

(clicar nas imagens para aumentar)

O PAIOL DA FLORA EXPLODIU DE MADRUGADA

por Rogério Beltrão Coelho – Revista Macau Agosto de 1994

Às 5 e 35 de 13 de Agosto de 1931 a explosão de trinta toneladas de pólvora destruiu tudo num raio de 300 metros e fez desaparecer um palacete que fora residência de Verão de governadores e museu. Tudo, segundo os críticos da altura, porque se pretendeu poupar umas patacas…

*  *  *  *  *  *

A explosão deu-se às 5.35 horas, quando ainda estava dormindo quasi toda a cidade, acordada como foi com o maior estampido jamais ouvido em Macau.

Uns supunham um tremor de terra, outros uma faísca eléctrica, fulminante, e todos estavam bem longe da gravidade do que, com a rapidez do relâmpago, acontecera.

Mal acordados e mal conhecendo a realidade terrível do que se havia passado, como imaginar que havia já pessoas mortas, casas destruídas, árvores derrubadas, como se uma verdadeira máquina de destruição espalhasse por toda a parte a morte, a ruína, a desgraça, levada a todos os lados com a rapidez vertiginosa do raio?

Em pouco mais de um minuto ficaram dois bairros — o da Flora e o de Long-Tin-Chin — quasi que devastados não havendo uma casa em que não se tivessem sentido bem funestamente as consequências da terrível explosão.

(…) Por toda a parte, dentro de um raio de 300 metros, só vimos a devastação (…)

Sob o título “Macau de luto — a explosão do Paiol da Flora”, o Jornal de Macau (propriedade de Rosa Duque) referia-se, nestes termos, na primeira página da sua edição de 15 de Agosto de 1931, à tragédia da antevéspera.

Em nota editorial — “Palavras necessárias” — o director, João Gregório Fernandes, pedia responsabilidades:

Pergunte-se agora a quem cabe a responsabilidade de permitir a construção de um paiol naquele sítio e tão perto de outro que, por simpatia, podia também ter explodido.

Pergunte-se a quem cabe a responsabilidade de permitir que perto dele se estabelecesse um colégio infantil.

Pergunte-se a quem cabe a responsabilidade de consentir o aforamento de todos aqueles terrenos adjuntos onde se construiu o mais bonito bairro da colónia. (…)

Noutro comentário (não assinado), com o título “A propósito”, também incluído na primeira página, o Jornal de Macau criticava o facto de não terem sido tomadas medidas preventivas que evitassem o acidente que ceifou 21 vidas e provocou 50 feridos:

(…) Sabe-se que, por várias vezes, quer em sessões do Conselho de Governo quer em documentos de origem oficial se previu o desastre, que todos hoje lamentamos, insistindo-se na urgência de remoção daquela ameaça constante que pendia sobre os moradores daqueles bairros. Consta ainda que houve várias propostas para a instalação de aparelhos de refrigeração ou ventilação do paiol, que não foram aprovadas por falta de verba.

(…) Ao que consta das actas do Conselho de Governo, nomeadamente a 18 de Junho de 1929, a quantia a gastar segundo uma proposta para a refrigeração ou ventilação do paiol era apenas de seis mil pataças. (…)

Crédito especial de 300 mil patacas

Se, por falta de verba, não foram disponibilizadas as seis mil patacas que, eventualmente, teriam evitado a tragédia, a verdade é que, depois desta ter acontecido, o Governo abriu imediatamente, por diploma legislativo, um crédito de 300 mil patacas destinado a ocorrer ao pagamento das despesas resultantes da explosão do Paiol Militar da Flora e à construção de um novo paiol nas Ilhas (…). O encargo viria a ser suportado pelo Fundo de Reserva e, para ajudar a resolver as questões decorrentes do desastre, o governador Mata Oliveira nomearia uma comissão constituída pelo presidente do Leal Senado, Henrique Nolasco da Silva, pelo administrador do concelho e comissário da polícia, major Guerreiro de Andrade, e pelo subdirector dos Serviços de Fazenda e Contabilidade, Vasconcelos Raposo.

Entretanto, iam surgindo na Imprensa críticas à forma como as indemnizações e apoios eram distribuídos, até que se deixou de falar da explosão (cujas causas nunca foram oficialmente divulgadas) e das suas trágicas consequências.

Palacete da Flora totalmente destruído

Os efeitos da explosão foram devastadores. As casas fronteiras à fonte da Flora, que pertenciam ao capitalista Li Chai Tong, ficaram totalmente destruídas. A maioria das casas num raio de 300 metros ficaram em ruínas ou bastante danificadas.

A perda material mais significativa foi, sem dúvida, a destruição do palacete da Flora — na altura, “Jardim de Infância de Macau” —, antiga residência de Verão do governador, que foi também pavilhão de exposições, museu Luís de Camões e secretaria-geral do Governo.

A notícia da explosão foi publicada com grande destaque na Imprensa de Hong Kong e de Portugal, especialmente em O Século. Alguns jornais estrangeiros chegaram a referir que à explosão se sucedeu uma revolta e um assalto de piratas a Macau, o que foi prontamente desmentido pela Imprensa do território.

Estado em que ficaram as casas próximas do jardim da Flora

A 22 de Agosto um curioso anúncio publicado no Jornal de Macau dava conta de que a Casa Kai-Cheong, na Av. Almeida Ribeiro, n° 11, tinha à venda uma colecção de fotografias relativas à explosão do paiol. Provavelmente, as imagens obtidas por Constantino Augusto de Almeida, um fotógrafo de grande qualidade, e que ilustram este texto evocativo na revista MACAU.

Entretanto, o Jornal de Macau revelava que fizera três tiragens no dia 20 (com publicação de cinco fotografias na primeira página), que se tinham esgotado rapidamente…

A explicação dava-a o próprio jornal, justificando-se com o pouco tempo de que dispusera, pois outros trabalhos tinham entre mãos, referindo ainda que, devido à impossibilidade de recolhermos completas e detalhadas notícias, decerto, involuntariamente, alguma coisa nos terá escapado, motivo por que, recapitulando o colossal trabalho que tivemos na noite de sexta-feira finda em que o pessoal da Redacção e da tipografia trabalhou exaustivamente toda a noite até às 6 horas da manhã, vamos, ainda na medida do possível, dar ao público mais pormenores.

Casas na zona de explosão ficaram bem danificadas

Davam-se, depois, de facto, os pormenores mais ínfimos da tragédia: a intervenção pronta e eficiente do Corpo de Salvação Pública (bombeiros); a acção da 51a Companhia Indígena de Moçambique, com pás e picaretas, sob o comando do tenente sr. Manuel Simões Júnior, que, com o sr. Alferes António José, foi incansável na remoção dos feridos, dos cadáveres, e dos destroços do paiol: e o pelotão do G.M.M. e Infantaria, que sob o comando do nosso amigo, tenente sr. Filipe O’Costa, estabeleceu o serviço de vigilância junto ao paiol e colocou sentinelas em toda aquela área sinistrada, coadjuvando a polícia civil que ali estava sob o comando do capitão sr. Alexandre Majer. Destaque ainda para o árduo serviço prestado pelos médicos e enfermeiros dos dois Hospitais e dos dois Postos Médicos.

Apesar do número significativo de vítimas mortais e dos elevados prejuízos, só por milagre a tragédia não atingiu dimensões incalculáveis. A explosão ocorrida a uma quinta-feira (dia 13 de Agosto) não apanhou o jardim de infância em plena actividade devido à hora a que ocorreu: 5 e 35 da manhã.

Por outro lado, o paiol (situado num terreno por detrás do actual Jardim Infantil D. José da Costa Nunes) era constituído por três compartimentos, divididos por blocos de granitos e só um deles explodiu.

Patrulhamento da zona da explosão feito pelas tropas indígenas da África

Cerimónias fúnebres e solidariedade de Hong Kong

No dia 14 de Agosto realizaram-se os funerais dos seis portugueses vítimas da explosão. Três dias depois, o cortejo fúnebre dos 15 chineses partia do Hospital Kiang Wu reunindo mais de dez mil pessoas.

Os serviços públicos fecharam e os espectáculos foram suspensos, sendo o dia considerado de luto. A bandeira portuguesa conservou-se a meia haste em todas as fortalezas, estabelecimentos militares e públicos, das 9 e 30 às 13 horas. Os estabelecimentos particulares, o comércio e a indústria conservaram também, a meia haste, a bandeira chinesa.

Funeral das vítimas da explosão

A Liga Portuguesa de Hong Kong abriu uma subscrição a favor das vítimas da explosão, o mesmo acontecendo em Macau e em Xangai. Os escuteiros de Macau promoveram uma récita no Teatro Victoria cuja receita reverteu também para apoio aos sinistrados.

A cidade reconstruiu-se na zona da Flora perdendo, obviamente, algumas das características anteriores. O palacete de gloriosas tradições desapareceu para sempre.

Naquela madrugada de Agosto de 1931 a cidade tinha sido sacudida por 30 toneladas de pólvora.

Pormenor de uma planta de Macau, de 1889, que assinala a localização do Palacete da Flora quando era residência de Verão do governador

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Autoria do blog-magazine

Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

Sobre

O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

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