Cronicas Macaenses

Blog-magazine de Rogério P. D. Luz, de cara nova

Jorge Rangel no Colóquio Identidade Macaense

Jorge Rangel, presidente do Instituto Internacional de Macau, participou do Colóquio “Macaenses – Um Olhar Colectivo sobre a Comunidade” realizado em Macau em 27/28/Outubro.  No artigo publicado no Jornal Tribuna de Macau, edição desta data, faz um relato do evento e divulga o texto da sua intervenção dando o seu ponto de vista sobre “Ser Macaense”.

Eis o que foi publicado no JTM:

Uma reflexão oportuna sobre a comunidade

Jorge A. H. Rangel *

“A resposta muito positiva da comunidade incentiva-nos a avançar para novas realizações como esta.”

Miguel de Senna Fernandes, moderador do colóquio

            Três painéis com um total de 16 palestrantes integraram o colóquio intitulado “Macaenses – um olhar colectivo sobre a comunidade”, levado a efeito nos dias 27 e 28 de Outubro, no auditório da Escola Portuguesa de Macau, gentilmente cedido para o efeito. Organizado pela Associação dos Macaenses e moderado pelo seu presidente, Miguel de Senna Fernandes, esta importante e oportuna iniciativa alcançou, na opinião de muitos dos que acompanharam a sua realização, o sucesso desejado e merecido, não só pelo elevado número de participantes, que chegaram a lotar aquele recinto, como também pela qualidade e diversidade das intervenções e pela vivacidade dos debates subsequentes. Desinibida e frontalmente, discutiu-se o presente e o futuro da comunidade macaense, podendo os resultados ser considerados muito positivos. Está, pois, de parabéns, a associação que o promoveu, sendo visível, no fim, a satisfação do seu presidente que, de imediato, prometeu mais encontros como este no futuro próximo.

Economia e política

            No painel dedicado à Economia, foram oradores Rita Santos, José Sales Marques, António J. Monteiro e Jorge Neto Valente (Filho), que apresentaram, respectivamente, as seguintes comunicações: “O Macaense na Concretização do Papel de Plataforma das Relações Económicas e Comerciais entre a China e os Países de Língua Portuguesa”, “Macaenses no séc. XXI, que perfil socio-económico?”, “O Macaense no contexto socio-económico de Macau” e “Híbridos no mundo económico: Macaenses em Macau”. A vocação de Macau como plataforma de cooperação da China com o mundo lusófono e as oportunidades que se abrem aos macaenses neste contexto, os desafios que se lhes colocam na RAEM, no âmbito profissional e económico, as dificuldades experimentadas no acesso ao emprego e a uma melhor qualidade de vida e a inserção actual do macaense no mundo económico e as suas vantagens comparativas foram algumas das principais questões abordadas na manhã de Sábado, dia 27.

No mesmo dia, durante toda a tarde, as atenções voltaram-se para a Política, tendo a primeira intervenção pertencido ao autor deste artigo, que procurou identificar as várias formas de participação cívica e política abertas a membros da comunidade, seguindo-se uma comunicação de Jorge Fão, lida por Frederico Cordeiro, em que se fez uma análise correcta da participação nas sucessivas eleições legislativas locais, ao mesmo tempo que se apontaram as vias mais convenientes para a comunidade macaense. Coube depois a vez a André Ritchie (“A cidade em transformação: ‘líder’, ‘união’ e ‘lista única’, conceitos necessários para o Macaense?”) e Fernando C. Gomes (“Comunidade Macaense sã assi mesmo?”), que fizeram lúcidas e estimulantes apreciações sobre as transformações físicas e humanas operadas em Macau e sobre os condicionalismos existentes no envolvimento da comunidade macaense na vida pública. Fechou o painel José Pereira Coutinho, que referiu, com base na sua própria experiência como deputado e presidente da Associação dos Trabalhadores da Função Pública, problemas, dificuldades e injustiças verificados na RAEM e defendeu uma maior capacidade de resposta da comunidade.

Identidade

            Como já se esperava, a sessão sobre Identidade Macaense, que decorreu ao longo de mais de cinco horas no dia 28, Domingo, foi a que atraiu mais público e contou com maior número de intervenções.

Hugo Silva, Jr. (“Nós, quem? – Uma conversa com a malta”), Cecília Jorge (“Sobrevivência e identidade”) e Sérgio Perez (“Macaense – a importância dessa definição”) quiseram, em intervenções muito bem acolhidas e sob perspectivas diversas, caracterizar a identidade macaense, hoje, no contexto duma RAEM em acelerado desenvolvimento e face às ameaças conhecidas de descaracterização. Oportuníssimo foi, logo a seguir, o apelo de Anabela Ritchie (“O uso e o domínio do português na Comunidade Macaense – uma chamada de atenção”) a uma valorização da língua portuguesa e ao seu maior uso no contexto familiar.

“À mesa nos conhecemos: a Gastronomia na Identidade Macaense” foi o título que Luís Machado escolheu para o seu apontamento sobre as origens e a evolução histórica da gastronomia macaense e sobre a sua relevância como factor identitário, sendo atribuída ao autor deste artigo (“Ser Macaense, hoje”) e a Carlos Marreiros (“Macau-Filo, que amanhã?”) a responsabilidade de sintetizarem e complementarem as intervenções anteriores, definindo o macaense no presente e face aos renovados desafios que se lhe colocam no porvir.

Muito animados foram os debates, todos moderados por Miguel de Senna Fernandes, que soube lançar novas interrogações à assistência, ampliando significativamente o seu envolvimento activo na sessão.

Ser Macaense

            Numa das comunicações que apresentei no colóquio, retomando uma entrevista que me foi feita em Novembro de 2004 pelo órgão informativo da Associação dos Macaenses, “A Voz”, achei por bem contribuir com uma definição do macaense:

“Muito mais do que a natureza étnica ou até o local de nascimento, podemos, hoje, dizer que ser Macaense é um estado de alma. Macaense é alguém intrinsecamente ligado a Macau, sentindo esta terra como sua, amando-a e tendo-a no cerne das suas preocupações e como referência permanente. É alguém que se identifica com o património cultural que constitui nosso legado comum, reconhece aqui as suas raízes e tem na memória vivências de Macau. É alguém que tem um forte sentido de pertença aos dois mundos que aqui tiveram o seu ponto de encontro mais fecundo e duradouro. É alguém dotado de uma enorme capacidade de adaptação a todas as circunstâncias. Ser Macaense é compreender, sentir e assumir, por inteiro, esta jóia ímpar, física e humana, chamada Macau.”

            Quanto ao papel ou a importância do macaense na RAEM, nomeadamente na aplicação do princípio “um país, dois sistemas”, adiantei esta resposta:

“Desnecessário será salientar o papel da comunidade ao longo da história de Macau. Todos o reconhecem e ninguém poderá negar a sua contribuição determinante para a construção do Macau dos nossos dias. O Macaense foi, ao longo de séculos, o sustentáculo humano da Administração de Macau e teve uma intervenção cívica relevantíssima em todas as áreas de actividade, fazendo funcionar as instituições locais e criando ou colaborando na criação de muitas delas.

            Nesta nova Macau, agora região administrativa especial da China, a sua permanência e a sua acção continuam a ser da maior importância para a afirmação e consolidação do segundo sistema, na aplicação plena do princípio ‘um país, dois sistemas’ que inspirou o estabelecimento da RAEM.”

A propósito das Casas de Macau, espalhadas por várias partes do mundo, foi-me perguntado se se pode falar de uma cultura comum, uma “cultura macaense”, e quais os traços mais marcantes dessa cultura. Expressei então esta opinião:

“Sim, há traços comuns que são a expressão duma identidade cultural própria, nas raízes que prenderam para sempre as pessoas à terra-mãe; no rumor luso de um outro tempo da Pátria distante que trouxe até aqui o abraço que estendeu ao mundo; na forma de estar na vida; no espírito comunitário que torna possíveis as Casas de Macau e outras agremiações macaenses; nas memórias da juventude e dos caminhos percorridos com outros membros da mesma comunidade; na culinária, tão distinta e que resulta de um prolongado encontro de culturas; nos convívios e noutras manifestações sociais; no doce dialecto macaense que a maioria ainda conhece, embora já não utilize como instrumento de comunicação; na miscigenação naturalmente assumida; na adaptabilidade a novas circunstâncias e a outros lugares e outras gentes; nos valores cristãos que a maioria cultiva; e no forte sentido de pertença a mundos diferentes.”

Lembrei também que os Macaenses sempre assumiram com orgulho a sua condição de portugueses, além de legalmente o serem. É este, aliás, um traço fundamental da sua personalidade e da sua identidade.

Eis um contributo para uma definição e uma caracterização que, em próximos colóquios, poderá ser enriquecido com novas achegas neste espírito de abertura que marcou esta reflexão colectiva da comunidade sobre si própria.

* Presidente do Instituto Internacional de Macau.

 

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Autoria do blog-magazine

Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

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O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

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