Cronicas Macaenses

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Entrevista de Rocha Vieira em 11/Dez/1999 – Memórias de Transição de Macau

Em mais um capítulo de <Memórias de Transição de Macau> que, no dia 20 de Dezembro de 2012, completou 13 anos, trago aqui para vocês a entrevista concedida pelo último Governador português de Macau, Gen. Vasco Rocha Vieira, ao jornal O Expresso, de Portugal, que foi publicada na edição eletrônica de 11 de Dezembro de 1999.  A poucos dias da transição de soberania de Portugal para a China, Rocha Vieira assim falou para o repórter Fernando Madrinha:

O Expresso (Portugal) – edição de 11/12/1999

ROCHA VIEIRA, na hora da despedida

«Deixamos uma herança que honra a História»

Gov.Rocha.Vieira.entrevista NA HORA da despedida de Macau, Rocha Vieira mostra-se confiante no futuro do território e das relações luso-chinesas. Cujo «segredo», diz, é a «amizade e bom entendimento». Sobre o seu próprio futuro, limita-se a revelar: «Não tenho planos.»

EXPRESSO – O que pode correr mal daqui até ao fim da transferência de Macau?

ROCHA VIEIRA – A minha preocupação é a de que tudo corra bem. E estou convencido que vai correr.

EXP. – Tem algum receio especial em matéria de segurança?

R.V. – Não há nenhum dirigente no mundo que não tenha receios quanto à segurança, especialmente em situações como esta, com uma grande concentração de pessoas e uma enorme visibilidade. Há sempre interesses que podem tentar aproveitar essa garantia de visibilidade para se manifestarem. As forças de segurança estão preparadas e têm provado que são boas.

EXP. – Qual foi o segredo para esta cooperação e aparente boa vontade da China em relação à transferência de Macau, que contrasta com o que se passou há dois anos em Hong Kong?

R.V. – Portugal sempre esteve em Macau com propósitos sérios, administrando o território com garantia de rigor e de lealdade perante a população e a História. É esse o segredo: amizade e bom entendimento, numa perspectiva de longo prazo, e assumindo as nossas responsabilidades para que a futura Região Administrativa se construa com um sistema político sólido, no respeito pelo primado da lei e num clima de tolerância. Deixamos uma herança que honra a História, uma plataforma de cooperação que é útil para Portugal, para a China, para Macau e para todos os que queiram relacionar-se com Macau. Demonstrou-se que Portugal é capaz de cooperar com outros países quando se trata de formular um sistema e uma organização social modernos. Os chineses têm compreendido esses propósitos e sabem que estamos a trabalhar para o futuro.

EXP. – O chefe do futuro Governo de Macau, Edmund Ho, tem-no acompanhado em várias inaugurações e actos públicos. Não seria razoável esperar para assistir à sua tomada de posse, no dia 20, em vez de deixar o território logo ao princípio da madrugada com o Presidente Sampaio?

R.V. – Nem sempre é possível compatibilizar o que é do nosso agrado pessoal com outros valores que os ultrapassam. Pessoalmente, gostaria de ficar e Edmund Ho sabe isso, porque já lho disse. Mas também sabemos os dois que o que aqui releva é a questão do Estado, relativamente a toda uma simbologia que está associada à transferência de soberania. É natural que, após a cerimónia de transferência, o representante da soberania cessante acompanhe o Presidente da República.

EXP. – A entrada de tropas chinesas em Macau não estava prevista em nenhum documento da transferência, mas a China decidiu instalar aqui uma guarnição de mil homens. Ainda assim, aceitou retardar a sua entrada para as 12 horas do dia 20. Como valoriza esta atitude?

R.V. – Tem a ver com o respeito mútuo que tem presidido às relações bilaterais. Trocámos impressões de uma forma aberta e franca. As tropas também representam soberania e foi decidido que, enquanto estiverem em território macaense representantes da soberania portuguesa, não haverá tropas em Macau.

EXP. – Em tempos foi criticado por ser demasiado brando e cooperante com as autoridades chinesas…

R.V. – A minha missão era a defesa dos interesses de Macau e de Portugal. Nunca me importei que pudesse não ser compreendido, pontualmente. Hoje, as pessoas entendem que esses interesses foram bem defendidos e que a cooperação e o diálogo não são antagónicos de firmeza e determinação. Nunca me desviei das minhas funções de Estado por razões de interesse pessoal.

EXP. – Acredita que o capitalismo sobreviverá por muitos anos em Macau e Hong Kong se não houver mudanças políticas em Pequim?

R.V. – No caminho que a China está a trilhar – e que tem de ser prudente, porque se trata de um país enorme e complexo – chegou-se a esta fórmula de «Um país, dois sistemas». Penso que o primeiro sistema se aproximará necessariamente do segundo, qualquer que seja o número de etapas a percorrer.

EXP. – O que vai fazer a partir do dia 20?

R.V. – Não tenho planos. Decidi que não pensaria nisso enquanto fosse governador. Sempre agi desta forma quando desempenhei outros cargos.

EXP. – É o último militar, na política portuguesa, em lugares de primeira linha. A política acaba para si com o fim desta missão?

R.V. – Nunca me candidatei a nenhum lugar, nem político nem meramente profissional. A minha atitude tem sido sempre e apenas a de um cidadão que considera seu dever dar um contributo ao país, numa ou noutra função.

EXP. – De vez em quando, o seu nome aparece entre os de potenciais candidatos a Belém. Por que acha que isso acontece?

R.V. – Não faço a mínima ideia. Não é com certeza por qualquer palavra, gesto ou indício que me possa ter atribuído.

EXP. – Uma candidatura foi algo que nunca lhe ocorreu?

R.V. – Nem sequer a tentação.

FERNANDO MADRINHA

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Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

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O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

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