Cronicas Macaenses

Blog-magazine de Rogério P. D. Luz, de cara nova

Macau na II Guerra Mundial e as histórias de ocupação

(atualização 23/07/2014 com publicação do texto completo)

 HISTÓRIAS DE OCUPAÇÃO

Texto inserido no artigo “40 Anos Depois – A II Guerra Mundial em Macau” de Luís Sá e Pedro Dá Mesquita – Revista Macau de Junho de 1985

Imagens da II Guerra Mundial em Hong Kong coletadas da Google Imagens de diversas fontes

Embora nunca tivesse sofrido a humilhação de ver a bandeira do Império do Sol Nascente hasteada no Palácio da Praia Grande, Macau esteve desde o dia de Natal de 1941 até ao primeiro dia de Agosto de 1945 sujeito a todas as vicissitudes de uma guerra.

Destacados para uma área onde nunca chegariam a lutar, os japoneses em Macau limitaram-se a controlar as 500 mil pessoas que viviam ao tempo no território.

Das muitas especulações, histórias e aventuras que se contam da presença japonesa em Macau, uma continua em segredo dos deuses – o seu número.

Contudo, esse dado estatístico poderia ser fácil de se obter, bastando a alguém contar o número de súbditos de Sua majestade, o Imperador Hirohito, que entravam e saíam do quartel-general, instalado na esquina da Avenida Horta e Costa com a Rua Almirante Costa Cabral.

Nesta faustosa residência, que tinha sido uma das dependências da Companhia Kei Qwan, empresa de navegação que ainda faz viagens entre Macau e a República Popular da China, os japoneses tinham todo o seu pessoal civil e mesmo alguns militares.

O único súbdito nipónico que fez questão de exibir um poderio militar foi um oficial que vivia não muito longe do quartel-general (é óbvio), na esquina da Rua Silva Resende com a Avenida Horta e Costa, e quis uma guarda montada permanentemente, estes dois edifícios eram os únicos pontos militarizados da presença japonesa durante a II Grande Guerra.

Aquela presença incómoda só por uma vez preocupou a população residente do Território, maioritariamente composta por chineses, portugueses e por refugiados de Hong Kong, Xangai, Cantão, quando os japoneses decidiram barricar a Avenida Horta e Costa.

Esta atitude teve como resultado uma acção policial e militar centrada sobre a casa. Após uns momentos de surpresa, as forças militares apontaram as peças de Mong Há e da Fortaleza da Guia e metralhadoras montadas na Escola Infantil D. José da Costa Nunes e que hoje é o jardim de Infância com o mesmo nome para a Avenida Horta e Costa.

Um graduado da Polícia de Segurança Pública foi incumbido, na altura, de descer a Horta e Costa e avisar os japoneses de que tinham cinco minutos para levantar a barricada. Se a ordem não fosse cumprida, a casa era imediatamente bombardeada com todas as consequências que daí advinham.

Em sinal de bom senso os japoneses, quase ao terminar os cinco minutos, retiraram a barricada.

Para além de ter de suportar os japoneses, a população de Macau teve sempre problemas de abastecimento, sobretudo de arroz.

Nesses anos de conflito havia várias firmas interessadas em controlar o comércio de bens alimentares, já que houve sempre racionamento de víveres.

De entre as empresas mais activas neste período conta-se a F. Rodrigues, que teve grande importância, antagonizada por outros grandes comerciantes, encabeçados pela firma dos três irmãos Wong.

Um dos três irmãos, Wong Kong Kit, ficou particularmente célebre por se ter aliado ao japoneses para o comércio e para todas as outras «actividades», tendo tido um papel importante no que diz respeito à importação de arroz.

Sempre esperado com natural ansiedade, o arroz era desembarcado na rampa defronte ao Hotel Sintra, tendo-se aí desenrolado cenas pouco edificantes entre os comerciantes rivais, a ponto mesmo alguns dos empregados chegarem a vias de facto…

A principal razão destas rixas derivava de facto dos comerciantes, à excepção da firma F. Rodrigues, cobrarem uma taxa aos compradores evitando deste modo que ela fosse parar aos cofres do Governo.

(texto acrescentado em 23/07/2014) Este tráfico tinha o beneplácito dos japoneses que cobriram os comerciantes, embora nunca tivessem posto quaisquer entraves à entrada de gêneros alimentícios, facilitando muitas vezes a entrega do arroz e chegando mesmo ao ponto de colocar em eles próprios o arroz.

A impossibilidade dos ocidentais de saírem de Macau foi outra das privações durante a II Grande Guerra, ficando célebre o caso do cabo Patrício.

Durante os anos em que os japoneses se mantiveram em Macau, a população japonesa e chinesa estava autorizada a sair estando terminantemente proibida aos portugueses e outros ocidentais «pôr um pé fora das Portas do Cerco».

Este cabo Patrício prestava serviço no quartel das Portas do Cerco, hoje aquartelamento da Política e vivia não muito longe da fronteira.

Um fatídico dia, o cabo Patrício, talvez por se julgar familiarizado com a fronteira decidiu ir conjuntamente com um sobrinho igualmente militar a prestar serviço em Macau, ao outro lado de fronteira.

No momento em que passaram as Portas do Cerco, na chamada «terra de ninguém», surgiu na sua frente uma patrulha japonesa.

Talvez devido ao facto de ser mais novo, o sobrinho conseguiu escapar aos soldados japoneses, ficando prisioneiro o cabo Patrício, que nunca mais apareceu…

As únicas notícias sobre este infeliz soldado referem que foi feito prisioneiro, torturado, e morto algum tempo depois, esquartejado, metido num saco e lançado para fora da Barra.

EMBORA a atitude portuguesa tivesse sido sempre mais preventiva do que activa, por diversas ocasiões os japoneses mostraram que estavam atentos ao que se passavam em Macau.

Uma das poucas vezes que um dos seis biplanos portugueses da flotilha a cargo do comandante Correia de Barros, que foi Governador de Macau, se atreveu a fazer um pequeno vôo até Coloane, saindo do Hangar defronte à Pelota Basca, foi interceptado por dois Mitsubishi A6M, os famosos «Zero», que vindos das nuvens em vôo de reconhecimento, avisaram o biplano português.

Para além deste episódio, os portugueses mantiveram-se em estado alerta durante os dois primeiros anos, mantendo posições reforçadas nas Fortaleza da Guia e de Mong-Há e nas Portas do Cerco e na Taipa e Coloane.

RUSGAS militares foram feitas durante alguns meses em pontos fixos ao longo das pontes para evitar entrada de lanchas, rixas junto do rio ou mesmo ataques. A parte mais penosa dessas vigílias nocturnas, enquanto toda a Macau dormia, acontecia quando os ratos do esgoto subiam calmamente pelas caras dos habitantes sem sono.

Nessas noites os habitantes de Macau podiam assistir ao espectáculo de luz dos bombardeamentos (principalmente em 1942 e 43) nas montanhas da Ilha da Lapa, bem como ao barulho monótomo dos monoplanos nipónicos que seguiam para Chun San para idêntica missão.

À medida que os norte-americanos iam desbaratando as forças japonesas, através do noticiário vindo de Lisboa e que era diariamente recebido e afixado no Edifício dos CTT, na secção de telegramas a população de Macau foi-se conscencializando que a Guerra estava a terminar.

Macau não celebrou de uma forma muito visível o fim da guerra, não se registando manifestações públicas, mas sim uma enorme sensação de alívio.

A primeira sensação de alegria incontida deu-se quando surgiram na Barra os navios Gonçalves Velho e Afonso de Albuquerque, este vindo da Índia.

Com a vinda destes barcos resultou um saudoso contacto com os compatriotas, uma sucessão de festas a bordo e de convívios que vieram alegrar enormemente a população portuguesa.

A agitação provocada pela invasão de marinheiros veio modificar totalmente a fisionomia da cidade, sobretudo quando esteve em Macau o navio Bartolomeu Dias, comandado por Sarmento Rodrigues, mais tarde Encarregado do Governo e que era chamado «pai» dos marinheiros pois sempre que um dos seus homens gastava o seu soldo no «cabaret» instalado no Hotel Central, recorria ao comandante…

Esse aliviar da guerra alastrou-se até à população, que foi rumando para os seus locais de origem, à excepção dos portugueses de Xangai e Cantão e muitos chineses.

Do primeiro grupo de pessoas a ir para Hong Kong para formarem os serviços e base contam-se muitos portugueses, entre os quais Fidélius Rosário, um homem que foi o director da Cable & Wireless enquanto o administrador inglês esteve preso num campo de concentração em Hong Kong.

A pouco e pouco Macau voltava à sua vida normal, sem japoneses, sem faltas de arroz, sem habitantes que falavam inglês, francês, alemão, esperando que os anos seguintes fossem de prosperidade e de paz.

 

Hong Kong 2ª guerra mundial (01)

 

Hong Kong 2ª guerra mundial (04)

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Publicado às 21/07/2014 por em II Guerra Mundial e marcado , .

Autoria do blog-magazine

Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

Sobre

O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

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