Cronicas Macaenses

Blog-magazine de Rogério P. D. Luz, de cara nova

O lendário Grant Wolfkill dos Grandes Prémios de Macau dos anos 50 e 60

Grant Wolfkill

Grant Wolfkill

O sobrenome (apelido) chama atenção: Wolfkill na tradução para o português “matador de lobo” e com isso deixava transparecer um homem duro e temeroso, mas ele era mais conhecido em Macau como um “gentlemen”: um piloto cavalheiro com seu sorriso espontâneo e entusiasmo contagiante. Na minha infância e juventude em Macau e fanático pelos Grandes Prémios ficava impressionado com o seu nome que até me tornava seu fã, ainda mais quando pilotou um dos mais bonitos carros fabricados pela Porsche, o Spyder RS, prateado, por sinal.

Eis aqui um pequeno histórico do “gentlemen pilot” que escrevo após uma leitura do livro Colour & Noise de Philip Newsome, para mim, uma enciclopédia dos GPs de Macau até o encerramento da edição em 1992. As fotos são do livro, salvo uma que fiz em 1965:

Grant Wolfkill Porsche Spyder RS 1960 (2)

Grant Wolfkill no Porsche Spyder RS (photo from Colour & Noise book)

GRANT WOLFKILL

O norte-americano Grant Wolfkill começou a participar das corridas do circuito de Guia de Macau em 1958. Ganhou a corrida de Troféu ACP de 1959 e a de Carros de Produção Corrente de 1965, mas é mais lembrado pelo seu duelo com o piloto Martin Redfern no GP de Macau de 1960.

Cineasta de profissão, começou a participar de corridas de carros enquanto profissional do BBC na Escócia. Pelo seus bons resultados nas pistas, recebeu convite para integrar uma equipe escocesa Ecurie Ecosse, porém não pode assumir devido a compromissos profissionais que o levaram a mudar-se para Hong Kong em 1954.

Seu trabalho levou-o a regiões de conflito como a Indochina, quando em 1961 foi feito prisioneiro pela guerrilha do Laos devido à derrubada do helicóptero em que viajava fazendo filmagens. Ficou preso por 15 meses em condições brutais que até o levaram a escrever um livro “Reported to be Alive”, algo como “presume-se estar vivo”.

Num dos trechos do livro, Grant, no cativeiro, escreveu “a vida toda, queria ter tempo para fazer as coisas que nunca tinha tempo para fazer – ler os livros que não tinha lido, ou escrever cartas que deveria ter escrito – e agora que tenho todo esse tempo da vida, e não posso fazê-las. Tudo o que posso fazer é matar o tempo”.

Seguia descrevendo as memórias do GP de Macau de 1960, lembrando cada troca de marchas e até o tipo de meias que usava. “Estou num Porsche; numa corrida em Macau. Aproximo da primeira curva, freio e troco as marchas. Agora acelero de novo, pisando fundo no acelerador. Ultrapasso um Lotus. Muita tensão; o volante a trepidar nas minhas mãos. Relaxo.”

Em Agosto de 1962, Grant foi libertado pela guerrilha com mais 5 outros presos, recebendo do presidente Kennedy a “Medalha da Liberdade”. Um ano após, voltou a Macau para competir de novo no Grande Prémio.

Porém, voltou a se envolver em novo incidente, quando, no exercício da sua função de cineasta-jornalista, a filmar o protesto de um monge budista que se suicidou colocando fogo em si mesmo em Saigon, antiga capital do Vietnã do Sul, foi espancado violentamente por policiais vietmitas, o que provocou forte protesto do Secretário de Estado dos EUA, Dean Rusck.

No seu casamento, teve como padrinho, nada mais nada menos que o Steve McQueen que conheceu em Hong Kong, quando este atuava como ator no filme “Sand Peeble”. A amizade entre os dois teve como origem a paixão de ambos por carros e motos velozes.

Antes de abandonar as pistas por motivos profissionais, Grant Wolfkill ainda participou do GP de Macau de 1965 conquistando o segundo lugar com um Jaguar E-type na prova vencida por John McDonald com um Lotus 18 FJ. E em 1966, na sua última corrida em Macau, correu com o mesmo carro classificando-se em 5º, na prova histórica pela participação do renomado Mauro Bianchi com um Renault Alpine. Com a aposentadoria, retornou aos Estados Unidos.

* Histórico da sua participação na prova principal dos GPs de Macau:

1958 – largou em 5º com um MGA Twin Can. Não se classificou entre os seis primeiros

1959 – largou em 7º com o mesmo MGA Twin Can e finalizou a prova em 6º lugar

1960 – largou na pole-position com seu histórico Porsche Spyder RS prateado, e terminou em 2º atrás de Martin Redfern que competiu com um Jaguar XKSS

1963 – após a sua libertação, competiu com Lotus Super 7 e classificou-se em 4º lugar

1965 – competiu com um Jaguar E-Type classificando-se em 2º na prova vencida por John McDonald com um Lotus 18 Formula Junior

1966 – no seu último GP de Macau, Largou em 10º com um Jaguar E-Type nº 35 e terminou a prova em 5º

GP de Macau de 1965. Grant no Jaguar E-Type nº 35 tendo se classificado em 2º. Ao  fundo o Lotus 18 FJ de John McDonald vencedor da prova.

GP de Macau de 1965. Grant no Jaguar E-Type nº 35 tendo se classificado na prova em 2º. Ao fundo o Lotus 18 FJ de John McDonald vencedor da prova (fotografia de/photo by Rogério P.D. Luz)

John McDonald e Grant Wolfkill após o GPM de 1965 comemorando seus 1º e 2º lugares (photo of Colour & Noise book)

John McDonald e Grant Wolfkill após o GPM de 1965 comemorando seus 1º e 2º lugares (photo of Colour & Noise book)

Grant Wolfkill no Porsche Spyder RS no GPM de 1960. Largou na pole-position e terminou em 2º.

Grant Wolfkill no Porsche Spyder RS no GPM de 1960. Largou na pole-position e terminou em 2º. Detalhe: corria de manga curta (photo  of Colour & Noise book)

Grant Wolfkill Porsche Spyder RS 1960 (3)

Grant Wolfkill no Porsche Spyder RS no GPM de 1960. Largou na pole-position e terminou em 2º.  (photo of Colour & Noise book)

Grid de largada do GPM de 1966 com Mauro Bianchi na pole-position. O Grant correu com o Jaguar E-type, na foto o carro com a inscrição GW em vermelho ao lado. Foi seu último GP de Macau. (photo of Colour & Noise book)

Grid de largada do GPM de 1966 com Mauro Bianchi na pole-position. O Grant correu com um Jaguar E-type, na foto o carro com a inscrição GW em vermelho ao lado. Foi seu último GP de Macau. (photo of Colour & Noise book)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 12/11/2014 por em Grant Wolfkill e marcado , .

Autoria do blog-magazine

Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

Sobre

O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

Pesquise por tema e localidade (ordem alfabética)

Últimas 150 postagens

Estatísticas do blog

  • 641,738 hits

Monitoramento de visitas – contagem desde 01/Nov/2011

free counters

Postagens recentes: Fotoblog do Projecto Memória Macaense

O Dia de Portugal na Macau portuguesa de 1973, em vídeo da RTP

O Dia de Portugal na Macau portuguesa de 1973, em vídeo da RTP

Outro vídeo da saudosa Macau sob administração portuguesa nas comemorações do Dia de Portugal em 1973, na época em que o governador era  o general Nobre de Carvalho . Faz parte dos arquivos da RTP Rádio e Televisão Portuguesa que foram disponibilizados ao público no seu aniversário de 70 anos. “Macau, Campo Desportivo 28 de […]

Vídeo ‘Macau 70’ da RTP mata saudades, assista …

Vídeo ‘Macau 70’ da RTP mata saudades, assista …

Viajar ao passado de Macau, dos belos tempos dos anos 60 e 70, é o que nos proporciona o vídeo “Macau 70”, produzido pela RTP Rádio e Televisão Portuguesa. A comemorar 70 anos, a RTP disponibilizou no seu website os arquivos para consulta ‘on-line‘ e Macau está presente numa das suas seções. Na apresentação do […]

As estórias de Margarida Ribeiro ambientadas em Macau e na China

As estórias de Margarida Ribeiro ambientadas em Macau e na China

Acompanhada do macaense Delfino Ribeiro, a escritora madeirense Margarida Ribeiro em 29 de dezembro de 2005  visitou a Casa de Macau de São Paulo no dia da festa de Natal. Na ocasião, quis presentear a comunidade macaense com o seu livro de estórias “A Mui” ambientado na China e em Macau “terra maravilhosa onde a vida tantas vezes confunde […]

%d blogueiros gostam disto: