Cronicas Macaenses

Blog-magazine de Rogério P. D. Luz, de cara nova

Adé e Pe. Teixeira falam sobre Luís Gonzaga Gomes

Na postagem anterior (veja aqui), Luís Ortet recordava de Luís Gonzaga Gomes (*1907 / +1976) num artigo publicado na Revista Nam Van, edição de Setembro de 1984. Complementava o artigo,  quatro entrevistas de personalidades expressivas de Macau que falavam sobre este conceituado sinólogo, escritor e historiador macaense.

Publico duas delas, a entrevista com o ‘pai do patuá de Macau’, José dos Santos Ferreira “Adé” e do Padre Manuel Teixeira, respeitado historiador e pesquisador de Macau, ambos, também já falecidos.

Entrevistas do artigo “Recordando Luís Gonzaga Gomes” de autoria de Luís Ortet, de 1984

( 1 )

José dos Santos Ferreira “Adé”: “Devo muito a Gonzaga Gomes”

JOSÉ dos Santos Ferreira é autor de várias obras sobre «patois»  e o seu nome está indissociaveimente ligado à divulgação do dialecto macaense. O seu trabalho,  bastante apreciado, ficou a dever-se, segundo nos diz, àqueles que o incentivaram, figurando entre estes, e com especial relevo, Luís Gonzaga Gomes.

«FOI das pessoas que mais me animaram. Insistia sempre comigo e estou muito reconhecido pelo estímulo que ele constituiu para mim», salientou logo de início José dos Santos Ferreira.

A disponibilidade de Gonzaga Gomes para apoiar desinteressadamente todos os que se dedicavam à cultura da sua terra foi aliás um dos pontos mais focados por Santos Ferreira.

«Ele não era egoísta.  Estava sempre pronto para ajudar, fosse o Governo ou os particulares, fossem amigos ou desconhecidos. As pessoas tinham dúvidas sobre várias coisas e ele estava sempre pronto para as esclarecer». E exemplificando com a sua própria experiência:

«Quando comecei, hesitei bastante, com receio de reacções desfavoráveis. Mas tive várias conversas com ele e ele, quando me via, insistia muito comigo. Eu apresentava um trabalho quase feito e ele dizia: «Não. Tens que acabar isso». Deu-me muito apoio moral».

CANTOR, DESPORTISTA, «ROTÁRIO»…

Luis-Gonzaga-Gomes (3)

Homenageado 8 anos depois

Homem extremamente simples, «um homem que se fez a si próprio», um autodidacta estudioso e culto, e com múltiplas facetas, que muitos desconhecem. De Luís Gonzaga Gomes, o «poeta do patois» revela muitas facetas, que captou em momentos diferentes da vida de ambos:

«Há uma faceta bastante im­portante da vida dele que eu por exemplo conheço. O Luís Gomes cantava ópera e tinha boa voz.

«Ele cantava em casa. Uma noite até foi parar um agente da polícia a casa dele. «Olhe que já é uma hora da manhã, o senhor está para aí a cantar e os vizinhos estão-se a queixar». Ele não dava por isso».

O próprio desporto não escapou à capacidade demonstrada por Gonzaga Gomes, ao longo da sua vida, de se entregar, de se «casar», como alguém disse, com o que fazia.

«Eu estive com ele em várias circunstâncias. Se não me engano, no ano lectivo de 1929/30 ou 28/29 fui aluno dele na instrução primária, tinha eu dez anos.

«Depois comecei a admirá-lo no ténis. Ele também era bom tenista. Uma outra faceta. Uns dez anos depois eu vinha para o ténis e o Luís Gomes já jogava muito. Nunca foi campeão de Macau mas era um apaixonado do ténis. Ele frequentava o Clube de Ténis diariamente.

«Trabalhei com ele em dois jornais: no «Notícias de Macau» e no «Renascimento». Tínhamos um contacto diário».

Em seguida, José dos Santos Ferreira percorre outros aspectos da vida do escritor e historiador macaense: no liceu, onde o conheceu como professor de língua chinesa. Nesse aspecto, José dos Santos Ferreira sublinha que apesar de Gonzaga Gomes ter o curso da antiga Repartição dos Assuntos Sinicos, o seu domínio da língua chinesa ficou a dever-se ao estudo e ao contacto com mestres chineses, sobretudo nas importantes traduções que fez. «Como ele era muito estudioso e muito trabalhador, procurava sempre a maneira de compreender bem o que fazia. Por isso ia à procura dos mestres», comentou José dos Santos Ferreira.

Outra faceta de Luís Gomes é a sua filiação no Clube dos Rotários, de que foi fundador, chegando a ocupar o cargo de presidente. O que leva ao seguinte comentário do nosso interlocutor: «Não se pode falar do Clube dos Rotários de Macau sem pensar no Luís Gomes. Mesmo quando estava muito doente não faltava às reuniões semanais».

José dos Santos Ferreira recorda, a propósito, um episódio ocorrido já depois da morte de Gonzaga Gomes:

«Tanto assim que eu estava na presidência do clube quando se fez a proposta do descerramento do busto dele no Museu Luís de Camões. Aliás, fui eu que apresentei a proposta e os rotários todos concordaram, unanimemente.

«E foi no meu tempo que fizemos o descerramento do busto dele no Museu Luís de Camões. Mas naquela altura puseram o busto próximo de um poço. Não gostámos nada da brincadeira, e ficámos com a promessa de depois se transferir o busto para uma sala decente».

NOS PRIMEIROS TEMPOS NÃO ERA APRECIADO

E referindo alguns traços típicos da personalidade do escritor macaense e do modo, nem sempre fácil, nem sempre imediato, como a sua obra e o seu valor foram sendo reconhecidos:

«Nos primeiros tempos os trabalhos do Luís Gomes quase não eram apreciados. Ninguém ligava aos trabalhos do Luís Gomes.

«Quando ele começou a publicar aquelas lendas achávamos piada mas deixávamos tudo na prateleira.

«Só depois é que começaram a ver que afinal a obra do Luís Gomes tinha um grande valor. Mas ele não se importava. Ele não vivia de elogios nem de recompensas materiais. Ia para a frente e ia produzindo. Muito estudioso e cheio de paciência.

«E é das pessoas que eu mais admiro. Pegava numa coisa e não a largava enquanto não a acabasse. Porque há muita gente que começa e não acaba.

«Não foi muito compreendido porque a inveja é uma arma terrível. Mesmo as actividades culturais dele não eram muito compreendidas. Ele foi director da Emissora durante alguns anos e os programas eram muito criticados ou porque tinha música clássica a mais… enfim, arranjavam sempre alguma coisa para dizer. Mas ele continuava, não era homem para cessar a sua actividade só porque havia críticas.

«O Luís Gomes não morreu rico porque nunca pensou em enriquecer. O objectivo dele nunca foi a recompensa monetária. É o que mais admiro nele. E muito gastou do próprio bolso».

À esquerda: Padre Manuel Teixeira e o 2º à direita: Luís Gonzaga Gomes. Comentário do Jorge E.Robats no Facebook: "Inho Gomes foi meu professor na primaria; está ladeado da Gaby S. Fernandes e David Barrote; junto ao Pe. Teixeira está o Humberto Rodrigues. Estão todos mortos. Acho que foi reunião de rotários."

À esquerda: Padre Manuel Teixeira e o 2º à direita: Luís Gonzaga Gomes. Comentário de Jorge E. Robarts no Facebook: “Inho Gomes foi meu professor na primaria; está ladeado da Gaby S. Fernandes e David Barrote; junto ao Pe. Teixeira está o Humberto Rodrigues. Estão todos mortos. Acho que foi reunião de rotários.”

Pe. Manuel Teixeira: “Viveu para o estudo e não gozou a vida”

O Pe. Manuel Teixeira é uma das instituições de Macau, uma «visita» obrigatória para quem queira conhecer a terra e, sobretudo, a sua história. Autor de inúmeros e preciosos livros sobre a história de Macau, e também jornalista, como Gonzaga Gomes, o inesgotável e criativo «ancião» de Macau terá naturalmente grandes afinidades com o historiador macaense.

«Um homem que vivia para o estudo e não gozou a vida», é o primeiro traço que o Pe. Manuel Teixeira salienta da personalidade do autor de «Páginas da História de Macau».

PODIA ter aproveitado imenso a vida, e não o fez. E isso aconteceu por duas razões: por um lado pelo seu feitio, um homem fechado em si mesmo e, por outro lado, pela sua doença, diabetes. De maneira que recusava terminantemente ir a qualquer congresso e viajar».

O Pe. Manuel Teixeira, além de outras afinidades, foi «vizinho» de Gonzaga Gomes já que o Seminário S. José fica mesmo ao lado da antiga residência de Robert Ho Tung.

«Também sofria de uma asma terrível. Eu muitas vezes saía do seminário (ele trabalhava aqui no «Robert Ho Tung», pois a sua casa não era própria para trabalhar) e então ficava até às três da manhã a corrigir provas… Quando eu saía do seminário muitas vezes encontrava-o na Calçada do Tronco Velho, parado, com dificuldade em respirar.

«A vida dele foi assim, condicionada pela doença. De maneira que foi um homem isolado da sociedade. Eu dizia-lhe: «Ó Luís, também é preciso gozar um bocadinho».

No verso da medalha estava, pois, o isolamento pessoal, que sempre acompanha a realização das grandes obras, como explica o Pe. Manuel Teixeira:

«Mas isso também serviu para a grande obra que ele fez porque concorreu para que não andasse em funções sociais, em grandes jantares, até porque não podia comer. De maneira que concorreu para realizar a obra que conhecemos e que foi, de facto, uma obra muito grande.

«Ele afastava-se de tudo o que eram reuniões sociais e uma pessoa que quer trabalhar tem de se afastar de tudo isso. Tem de ser um anacoreta, como todo o homem que quer realizar alguma coisa, a não ser que seja um político».

O ELOGIO E AS «SOMBRAS»

A apreciação que o Pe. Teixeira faz da obra de Luís Gomes, sendo positiva, como em várias ocasiões o afirmou, não se limita porém a palavras de circunstância. Logo após a morte do escritor, o Pe. Manuel Teixeira publicava no «Boletim do Instituto Luís de Camões» a biografia do seu «velho amigo de mais de 50 anos». A ela juntou um capítulo intitulado «Sombras» em que, com uma sinceridade louvável, apontou o que, em sua opinião, constituíam as falhas mais significativas da obra de Gonzaga Gomes.

Quando pedimos que se pronunciasse a este respeito, afirmou: «Como ele viveu sempre em Macau e não fez os estudos em Portugal, dava erros gramaticais. O que prejudicou muito a obra dele. Se ele tivesse a humildade de entregar qualquer livro que escrevesse a uma pessoa que soubesse bem português… mas não teve. De maneira que saíram vários erros gramaticais.

«Tenho citado muitas vezes a obra dele mas tenho de corrigir a gramática».

Outra «queixa» refere-se à História de Macau, que ficou por escrever, pelo «homem mais indicado» para o fazer.

Diz o Pe. Manuel Teixeira:

«Ele trabalhou muito, mas devia ter-se concentrado num assunto. Mas, ainda que não fosse encarregado oficialmente, podia ter trabalhado sobre a história de Macau e seguir esse trabalho até ao fim. Mas não o fez. O único livro original que ele escreveu foi «Páginas de História de Macau». O resto são traduções, são compilações. Mesmo por exemplo aquela «Efemérides da História de Macau», já tinha sido feita pelo António Feliciano Marques Pereira; eu próprio, em 1944, fiz, durante todo o ano, as efemérides da história de Macau. Vários autores já tinham feito».

Voltando aos aspectos positivos da sua obra:

«Os Arquivos de Macau foram fundados em 1929 pelo Azevedo Gomes. Ele era professor do liceu mas dedicava-se muito aos arquivos e ele começou então a publicação dos Arquivos de Macau. O Azevedo Gomes vai-se embora em 1931 e aquilo morre. Depois, em 1941, dez anos depois, fica o Sarmento encarregado, e vai com a publicação até ao fim do ano. Vem a Guerra e acaba tudo. E quem veio salvar a situação foi o nosso amigo Gomes porque em Fevereiro de 1964 ele pegou-lhe e nunca mais largou. É um esforço constante e ninguém imagina o trabalho que isso dá».

* Veja também a postagem de entrevistas com o Padre Videira Pires e Túlio Tomaz neste link: https://cronicasmacaenses.com/2014/12/10/luis-gonzaga-gomes-sob-o-ponto-de-vista-de-pe-videira-e-tulio-tomaz/

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Autoria do blog-magazine

Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

Sobre

O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

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