Cronicas Macaenses

Blog-foto-magazine de Rogério P D Luz

O silêncio do bandolin, mas isto ainda é possível

As expressões dos rostos dizem tudo.  Tudo era muito simples.  Adalberto Remédios, expert no bandolin, “toco à moda antiga” sempre ele dizia orgulhoso, a lembrar aqueles velhos tempos de Macau em que participava das tunas, aproveitou a festa de aniversário da associação macaense de São Paulo e levou o seu fiel companheiro, o bandolin, para matar as saudades com os amigos e conterrâneos.

À sua volta, o Acaio D”Assumpção, Francisco “Xico” Rodrigues e seu antigo companheiro de viola, o “Neco” Clemente Badaraco.  Percebam na foto a satisfação dos seus rostos, a ouvir antigas marchas dos carnavais macaenses e das tunas, e também aquelas músicas italianas que tanto amamos.  Era uma volta momentânea do bandolin à associação, pois o bandolin silenciou-se em São Paulo. Nenhum macaense mais toca o bandolin.  A nossa memória, já andando com uma perna, viu a perda de mais um item.

Adalberto aposentou-se de vez e mudou-se para o Interior de São Paulo, ou seja, para uma cidade menor, mas bem menor, a cerca de 400 km da capital paulista.  Levou com o ele o seu famoso bandolin que falava alto nas festas locais, quando fazia parte de um conjunto “à moda antiga”, o Trio Macaense.  O bandolin silenciou-se.  A música dos velhos tempos de Macau silenciou-se em São Paulo.  Não há sucessores.  Ninguém mais se interessa pelo instrumento, muito menos pelas velhas marchas.  Os tempos são outros.  A memória macaense vai morrendo aos poucos.

Inevitável? Pois é!  Inevitável, a gente vai envelhecendo e infelizmente a nossa cultura vai envelhecendo junto, e corre o risco de sucumbir conosco, quando chegar a nossa hora.  Mas, o Adalberto naquele dia, ainda esboçou um esforço, que poderia dizer que “ainda é possível”.  Trouxe com ele, na sua longa viagem de carro, o seu companheiro, o bandolin.  E, após o almoço, tirou-o do estojo e logo alguns saudosistas ficaram à sua volta.  Um tanto emotivo, a relembrar os velhos tempos, ensaiou uma marchina, Dia da África, que logo despertou expressões de satisfação de quem o cercava.  Pena, o seu companheiro de viola, o Badaraco, não sabia que o Adalberto viria à festa com o bandolin, e acabou não trazendo a sua viola.  Afinal, não havia nada na programação que previa uma apresentação ou brincadeira musical.

Sentado na mesa ao lado, percebi a movimentação musical e logo apanhei a minha câmera digital e lá se foi o disparo bem na hora exata.  Captei as expressões de rosto que a própria foto diz tudo.  Na hora não percebi, mas depois em casa é que deu para constatar que fora na hora exata.  Logo a cena em si, deu-me um estalo para pensar que, “isto ainda é possível”, a preservação e exaltação da nossa memória.  Basta cada um de nós fazer a sua parte.  Um pequeno contributo, ou um grande contributo? Tanto faz, o tamanho não tem tanta importância.  O importante é o esforço de cada um, qual seja o resultado, se atinge uma pessoa, cinco pessoas, ou milhares de pessoas.  Tudo é válido, pois tudo contribui, para somar.

Avaliei o meu caso, e fiquei satisfeito ao ver que faço a minha parte há 7 anos.  O Projecto Memória Macaense existe há sete anos.  Gostem ou não gostem, ele está aí para tentar divulgar um pouco de nós.  “Falar de nós”, como o Jorge Rangel diz nas suas publicações. E não só da gente, mas da nossa cultura e da nossa terra.  Assim também, vejo o esforço de muitos da nossa malta a fazer isso, tanto pela parte dos residentes de Macau, como pelos macaenses da diáspora.  Os Encontros, as festas que se realizam em Macau, como aquela no São Lázaro, que bonito de se ver, até gostaria estar lá para documentar com a minha máquina fotográfica ou de filmar.  Percebo nos residentes um esforço, que poderia até dizer, um tanto mais que dos tempos dos portugueses.  Acredito que naquelas épocas, a gente ficava acomodado, pois o governo era da gente e não havia assim tanta preocupação.  Hoje não, tudo é uma questão de sobrevivência e de afirmação da nossa identidade.

Faça você como o Adalberto.  Alegrou 3 conterrâneos como na foto.  Um pequeno número? Sim, mas valeu o esforço, pois mais 100 Adalbertos alegraremos outros 300 conterrâneos e assim por diante.  Não é preciso pensar grande, seu pequeno esforço sempre será grande, pois muitos “pequenos” acabam somando de tal forma que fica “grande”.  O importante é somar, sempre. Faça a sua parte construtiva para preservação da nossa memória, os nossos costumes, a nossa cultura.  Um pequeno esforço tem muito valor.  Some !!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 10/08/2010 por em Gente, MACAENSES, Músicos, São Paulo e marcado , , .

Autoria do blog-magazine

Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

Sobre

O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

Pesquise por tema e localidade (ordem alfabética)

Últimas 150 postagens

Estatísticas do blog

  • 1.113.164 hits

Monitoramento de visitas – contagem desde 01/Nov/2011

free counters

Postagens recentes: Blog do Projecto Memória Macaense

Em Macau, celebração diferente do 13 de Maio Dia de Nossa Senhora de Fátima em 2020 devido à pandemia

Em Macau, celebração diferente do 13 de Maio Dia de Nossa Senhora de Fátima em 2020 devido à pandemia

Por medidas de precaução em função da pandemia do novo coronavírus Covid-19, a celebração do Dia de Nossa Senhora de Fátima, no dia 13 de Maio, foi diferente no mundo todo. Até que em Macau a celebração contou com a participação limitada de fiéis na missa realizada na Igreja de São Domingos, mais que no Santuário […]

Por detrás da foto oficial do Encontro das Comunidades Macaenses Macau 2019

Por detrás da foto oficial do Encontro das Comunidades Macaenses Macau 2019

A sessão fotográfica nas Ruínas de São Paulo é tradição já há vários Encontros das Comunidades Macaenses, e não foi exceção na edição Macau 2019. Aconteceu no dia 26 de Novembro, uma terça-feira, por volta das 16 horas. Ao que parece, uma tradição chinesa em Macau, a foto oficial reuniu os participantes do Encontro de […]

Ruínas de São Paulo e as ruas de acesso à principal atração turística de Macau

Ruínas de São Paulo e as ruas de acesso à principal atração turística de Macau

Após 9 anos de ausência, desde o Encontro das Comunidades Macaenses de 2010, já no segundo dia da chegada a Macau para a edição de 2019, por saudades fomos visitar as Ruínas de São Paulo, mesmo sendo um Sábado quando se espera uma multidão de turistas do Continente da China que costumam congestionar as vias […]

%d blogueiros gostam disto: