Cronicas Macaenses

Blog-magazine de Rogério P. D. Luz, de cara nova

“Um Pouco de História” de Macau, contada por Dona Alda

A macaense Alda Carvalho Ângelo, residente em São Paulo, no seu livro Fragmentos do Oriente publicado no Brasil em 1965, nos conta “Um Pouco de História” da Macau em meados dos anos 40 (por volta de 1946, pós II Guerra, quando deve ter emigrado) até 1950.  Para quem é da época, boas lembranças, e para quem não conhece a história de Macau, uma boa leitura e conheça a nossa terra. (Veja outras postagens sobre a Dona Alda e saiba que livro é esse e quem ela é).

Macau anos 60, Porto Interior e um dos barcos de carreira que fazia a linha Macau-Hong Kong

Farol da Guia

O Sui Tai, um dos barcos de mil e poucas toneladas de calado da British Steamship Company Ltd., que faz a carreira regular entre a colônia inglesa de Hong-Kong e a da portuguesa de Macau, diminuiu a marcha, como de costume, ao avistar os molhes do porto exterior que, de intervalos eram iluminados por uma faixa de luz emanada do mais antigo farol da China, o farol da Guia, o primeiro que iluminou as costas da China. Nessa noite, como no primeiro dia de sua aparição, em 1868, cumpria também sua missão de guia aos mareantes.

O barco singrava suavemente rio acima. Tudo era convidativo a uma meditação: a Lua, como para minorar a ausência do Sol, aparecera toda cheia e brilhante, banhando com sua luz argêntea a superfície do rio, transformando-a em um manto de prata; as Estrelas cintilantes, livres do atropelo das nuvens, tremulavam nesse magnífico firmamento tropical, como que executando suaves movimentos de uma valsa; e o Vento, como que compreendendo a beleza desse conjunto, tinha resolvido nessa noite, apresentar à Lua e às Estrelas sua encantadora filha, a Brisa.

Os passageiros, uns encostados à amurada, outros deitados em cadeiras de vime, no convés, admiravam encantados essa maravilhosa noite de verão. Ouviam-se de quando em vez, risadas alegres e despreocupadas de passageiros de ambos os sexos, de várias nacionalidades, que vinham passar o “week-end” na amena cidade portuguesa que uns chamam de “Monte Carlo do Oriente”; outros de “Antro de Perdição”; outros de “O Inferno do Jogo”, preferindo  contudo, os mais românticos denominá-la “A Pérola do Oriente”.

Outro barco de carreira dos anos 70. Foto de/photo by Karsten Petersen

Macau, quatro vezes centenária, teve início em 1553, quando alguns portugueses abordaram à praia de Amagau para a secagem das mercadorias molhadas por uma tempestade. Esses punhados de portugueses que faziam suas transações na Ilha de Lampacau, distante umas trinta milhas da Ilha de Sanchuan (hoje chamada de São João), eram os remanescentes de um grupo de cerca de quinhentos portugueses que se tinham escapado das perseguições e devastações, em 1545 em Liam-pó e, em 1549, em Chin-Cheu; e que, na fuga, tinham-se rumado para o sul e desembarcados uns em San-Chuan e outros, em Lampacau.

Macau, perspectiva em 1598

Tendo encontrado na praia de Amagau um bom abrigo para suas embarcações, os portugueses começaram, então, a construir cabanas nessa localidade e a comerciar com os nativos chineses de quem tiveram boa acolhida.

Naquela época, as costas sul da China eram frequentemente infestadas por piratas chineses que guerreavam e pilhavam as embarcações do Governo de Cantão, tornando, portanto, perigoso o tráfego naqueles mares. O governo de Cantão era impotente contra essas constantes pilhagens. Comandava os piratas o terrível corsário do delta do Rio Cantão, Chan-Si-Lau, que fazia o que mais bem entendia naquelas paragens, causando prejuízos consideráveis tanto aos mercadores chineses como aos portugueses.

Os comerciantes de Lampacau, vendo-se na necessidade de pôr cobro àquelas constantes pilhagens, entenderam-se com os mandarins de Hian-Chan por intermédio do comissário Leonel de Sousa, conseguindo autorização do Nianpó (inspetor das Costas) para que seus compatriotas se fixassem definitivamente em Amagau, dando em troca dessa autorização a garantia do auxílio dos portugueses na supressão dos piratas de Chan-Si-Lau,

Uma vez conseguida a autorização, começaram as caravelas portuguesas a dar caça aos piratas, o que se prolongou até 1556, com o extermínio dos mesmos.

Amagau, que, por deturpação da língua, passou a chamar-se Macau, era uma vila chinesa salpicada de choupanas construídas de bambus e palmeiras secas. Seu nome teria sido dado em honra da deusa A-má, cujo templo, ainda hoje existente, é a mais velha relíquia da colônia.

A população, naquela época, composta em sua maioria, de pescadores e mercadores, diferenciava-se dos portugueses tanto nos trajes como no porte. De estatura menor, trajavam cabaias; cobriam-lhe a cabeça um barrete por onde saía, na parte posterior da cabeça, uma trança de cabelos. O rosto, de uma compleição totalmente diferente da dos europeus, apresentava dois olhos estreitos e puxados para os lados; o nariz chato e largo, aparecendo entre as duas maçãs de rosto salientes. A cor da pele era amarela, dando-lhes uma aparência doentia. Os pés largos eram calçados em sandálias de cordas ou em sapatos de pano com solas de cordas, quando não descalços,

A doação de Macau aos portugueses foi feita verbalmente em 1557 pelo imperador Kiat-Sing do reinado dos Mings, tendo sua confirmação sido feita somente em 1887.

Ao abrigo, então de tempestades e de piratas, a colônia, que não passava de uma povoação, começava a progredir. Em 1557-1568 era composta de mais ou menos 700 portugueses, tendo por capitão de terra um rico comerciante de nome Diogo Pereira. O governo verdadeiramente dito era administrado sob a forma de um triúnviro. O capitão de terra era auxiliado em seu governo por dois dos mais notáveis e influentes cidadãos da colônia. A administração do Santo Sacramento era feita por um vigário. De intervalos mais ou menos longos, Macau recebia a visita de um capitão mor, que, anualmente, viajava para Japão. Era costume dos comerciantes portugueses se cercarem de missionários que ministravam a religião e, bastas vezes, acompanhavam os embaixadores portugueses a Cantão ou a Pequim.

Em 1594, sob os auspícios do Pe. Francisco Peres, fundou-se a primeira residência do culto católico a que mais tarde se transformou no primeiro e célebre Colégio de São Paulo, também conhecido por Colégio dos Jesuítas. Esse colégio, situado num promontório donde se divisa toda a povoação, fora edificado com a coadjuvação dos jesuítas Manuel Teixeira, Gil Góes e André Pinto. O colégio foi destruído em 1835 por um terrível incêndio, deixando de pé apenas a fachada.

Anos depois, desembarcava em Macau, Dom Melchior Carneiro como bispo para China e Japão. Em 1568 foi fundada a primeira casa de assistência social denominada Santa Casa de Misericórdia bem como dois hospitais: o de São Lázaro e o de São Rafael.

Vida a bordo de um dos barcos de carreira Macau-Hong Kong no início dos anos 60. Na foto, o autor do blog com a sua mãe Marcelina da Luz a caminho de Hong Kong. Observem na lateral direita as cadeiras de descanso de lona.

Vamos, então, dar um passeiozinho pelo convés? –  sugeri ao Leitor Amigo, meu companheiro de viagem, com quem eu palestrava desde a saída de Hong-Kong sobre a história de Macau. – Vamos! — me respondeu ele — Estou curioso por conhecer a terra, depois que teve a gentileza de me pôr a par de sua história.

O Sui Tai, como eu dizia, tinha diminuído a marcha, deixando entrever cada vez mais os contornos da cidade iluminada a luz elétrica, os globos elétricos projetando sua luz sobre as barracas de banho, denotando que os banhistas ficavam até bem tarde, a beira-mar, deleitando-se com a brisa marítima ou banhando-se na água,

– Venha ver a cidade. — convidei meu companheiro. –  Venha! Olhe ai!  Estamos passando pelo porto exterior.

– Como é linda a cidade assim de longe! —exclamou ele.

– Estamos, neste momento, na foz de dois rios. — expliquei.

– A cidade é, então, banhada por dois rios?

– Sim, ela está privilegiadamente situada no delta comum de dois rios: Chu-Kiang  (rio de leste, ou rio da Pérola) e Si-Kiang (rio de Oeste). O Chu-Kiang é também chamado de Rio de Cantão. Macau está a oitenta milhas da cidade e porto de Cantão, a capital do Sul, a capital da grande província de Kwang-Tung.

– Macau é uma ilha?

– Não, ela é uma península. E’  ligada  por um pequeno istmo — o istmo da Porta do Cerco — ao distrito de Heóng-Sán* (montanha aromática). E, como vê – apontei para as ilhas em volta — Macau é cercada de ilhas: a da Lapa, a da Taipa, a de Coloane e, mais ao sul, a de D. João e a  de Vong-Kâm…

– E qual a população?

— Em 1950, isto é, segundo o censo do ano de 1950, a população era de 187.772 habitantes, sendo a maioria chinesa.

Praia Grande – Porto Exterior / Ermida da Penha na lateral esquerda – Macau anos 60

Nesse instante, o barco seguia em linha reta, paralelo à baía da praia grande, em toda sua extensão, tomando a direção da Avenida República, preparando-se para contornar a “meia laranja”.

– Olhe aí a ermida da Penha! — chamei a atenção do meu companheiro. — A ermida da Penha está situada no cume da Colina da Barra. É  aí  que   se   encontra  a imagem de Nossa Senhora   da  Penha,  venerada  ainda hoje  como naqueles  tempos pelos nossos primeiros navegadores. No sopé dessa mesma colina está o Pagode da Barra, freqüentado principalmente pela gente do mar (pescadores chineses), onde se venera uma   das mais importantes  divindades  da China, a “Rainha do Céu”, a deusa A-Má, donde proveio o nome de Macau. — Leitor Amigo me escutava com interesse. — Não acha você, Leitor Amigo, curioso, como homens tão diferentes e de religiões tão opostas tenham escolhido o mesmo local para venerar cada qual seus santos preferidos?

– Curioso, sim.

–  Você tem que conhecer a gruta da Penha. Tem que subir até ao alto da colina e de lá desfrutar os mais belos panoramas.

– Devo ir na parte da manhã ou da tarde?

– Na parte da manhã, você verá o maravilhoso nascer do sol, verá dezenas e dezenas de

barcos de pesca deslizarem-se suavemente por sobre as ondas, as velas desfraldadas, afastando-se do porto…

– E na parte da tarde?

– Na parte da tarde, verá outro maravilhoso panorama.    O pôr do sol, o belíssimo pôr do sol macaense… os barcos de pesca, regressando para o porto, carregados de peixes de todos os tamanhos e feitios …

Porto Interior para onde regressam as embarcações de pesca – Macau em 1973 – foto de/photo by Karsten Petersen

– Tenho que subir até lá…

– Mas agora vamos descer — atalhei — Vamos descer e preparar-nos para o desembarque.  Já estamos chegando.

– Já?!

– Já!

De fato, o barco estava a poucos metros do cais, depois de passar pela Fortaleza da Barra, pela doca e rumado reto ao longo do Porto Interior. Dirigia-se lentamente para o ancoradouro.

Nesse instante, o relógio do salão batia dez horas. Meia hora depois, eu me despedia do Leitor Amigo.

– Magnífica viagem. — exclamou ele. — Inda nos encontraremos?

– Acho que sim. — respondi.

– Algo me diz que nossos caminhos não tardarão a se cruzar novamente…

– Faço votos.   Tenho ainda muito que contar. O Oriente é vastíssimo. A China é grande, enorme e… a cidade de Macau é pequeníssima de tamanho — não mais de dez quilômetros  quadrados de terra, mas…

– mas sua história…

– essa, não tem fim! — e acrescentei sorrindo. – Mas cuidado com o tufão! …

Juncos e sampans – embarcações de pesca chineses – Macau 1973 – foto de/photo by Karsten Petersen

* Heóng-Sán: Atualmente este distrito é chamado de Chông San, em homenagem ao felecido Dr. Sun Chong San, mais conhecido por Sun lat Sen, o fun­dador da República Chinesa.

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2 comentários em ““Um Pouco de História” de Macau, contada por Dona Alda

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Autoria do blog-magazine

Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

Sobre

O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

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