Cronicas Macaenses

Blog-magazine de Rogério P. D. Luz, de cara nova

Jorge Remedios recorda o Bairro Tamagnini Barbosa, em Macau

Vista geral do Bairro Social de Tamagnini Barbosa (1938). Em primeiro plano a esquadra policial e ao fundo o Canal dos Patos (foto da Revista Macau)

Vista geral do Bairro Social de Tamagnini Barbosa (1938). Em primeiro plano a esquadra policial e ao fundo o Canal dos Patos (foto da Revista Macau)

Na série Vivências da Diáspora, publicada pela Revista Macau em Dezembro de 1998, Jorge Remedios recorda os tempos vividos no bairro Tamagnini Barbosa, distante do centro da pequena Macau, no Sul da China, quando era administrada pelos portugueses. Antes saiba quem é o autor da crônica escrita em português-Portugal:

Breve biografia de Jorge Remedios publicada em Novembro de 1998 pela Revista Macau

Jorge Remedios, natural de Hong Kong, emigrou em 1963 para os Estados Unidos acompanhado da mulher Raquel e do filho Jaime, residindo agora em Hillsborough, a cerca de 30 Km de San Francisco. É formado em Letras (Bacharelato) pela State University of San Francisco. Esteve 20 anos ao serviço de uma das maiores empresas petrolíferas dos EUA (Chevron Corporation) até se aposentar em 1989.

Membro de longa data da União Macaense Americana (UMA) na Califórnia, edita desde meados de 1995 a UMA News Bulletin, que permanece um forte traço de união entre as comunidades macaenses da diáspora.

Escreve e pinta, constando alguns óleos seus em colecções privadas da área de San Francisco Bay e dedica-se ainda à música, à informática, à fotografia e ao vídeo, entre os muitos passatempos para os quais as 24 horas do dia, segundo diz, não lhe bastam.

Tem sido um dos assíduos participantes nos Encontros de Macaenses que já se realizaram em Macau em 1993 e 1996, conta regressar de novo em Março de 1999.

Nota: Remedios está sem acento mesmo, pois assim deve ter sido registrado em cartório de Hong Kong, de língua inglesa, e se prevalece aos nativos de nome português da ex-colônia britânica. Lê-se Remídios.

O NOSSO BAIRRO

por Jorge Remedios – Revista Macau Novembro de 1998

A relembrança de um bairro – Tamagnini Barbosa – manteve-se fresca na memória de um de entre muitos que nele se acolheram, fugidos da guerra. Um bairro onde a infância se adivinhava difícil, mas serena e inspirada

O arco de etrada para o Bairro Tamagnini Barbosa em princípios dos anos 40

O arco de etrada para o Bairro Tamagnini Barbosa em princípios dos anos 40

O bairro situava-se numa área de habitação barata em Macau, construída para operários de parcos recursos nos anos que antecederam a Segunda Guerra Mundial.

Tal como sucedia com tantas outras ruas e áreas em Macau, fora baptizado com o nome de um qualquer dignitário português — no presente caso, um antigo Governador, respeitado, Artur Tamagnini Barbosa, cujo nome sobrevive ainda algures e em edifícios do território.

Mas o nome mais vulgarizado para os residentes — aquele por que os locais o costumavam designar – era o de Toi San, expressão cantonense para “mesa-montanha”.

Porque teriam dado tal nome ao bairro desçonheço, a razão era aliás muito pouco evidente dado a área, tratando-se de terreno conquistado ao mar, ser indiscutivelmente plana.

A parte que permanece ainda hoje englobada no Bairro Tamagnini Barbosa não está muito alterada em relação à época em que a habitávamos como refugiados nos anos 1944-1945, se excluirmos o facto de estar agora rodeada de edifícios de apartamentos que se erguem nas alturas, blocos residenciais e industriais.

Naquela altura havia apenas filas infindas de cabanas de um só piso, cada uma com o seu quarto singelo e pequena cozinha, numa área total que não ultrapassaria os seis metros por seis.  Solo de terra batida, telhado a descoberto, uma soleira alta, ao bom estilo-chinês que obrigava a atravessar com passada larga e, a rematar, sem esgotos. As duas janelas da cabana — uma com vista para a rua e a outra a abrir para um pequenino pátio que ficava ao lado da zona da cozinha — não tinham vidraças: traziam apenas molduras de madeira com tiras de resguardo tendo do lado de fora persianas de madeira. Quem já viu fotografias dos “campos de realojamento” da Califórnia, onde muitos nipo-americanos foram alojados durante a WWII (Segunda Guerra Mundial) consegue ter uma idéia do aspecto do Bairro Tamagnini Barbosa, embora as habitações do bairro não fossem de madeira, mas de tijolo de barro e argamaça, e os seus habitantes ali se encontrassem por opção própria e não à força.

Os renques de cabanas tinham a separá-los espaços abertos, provavelmente outrora cheios de verdura mas que na altura em que ali vivíamos estavam reduzidos a terrenos arenosos com uma ou outra árvore perdida, onde as nossas galinhas e patos de estimação debicavam à vontade, e onde jogávamos o talu. Recordo-me que viviamos na rua H e que o número da nossa casa era o 35. Outras crianças refugiadas viviam ali perto, de modo que, em miúdos não nos faltaram outros companheiros de brincadeiras anglófonos.

a Avenida Coronel Mesquita no final da Guerra. Um dos caminhos para o Toi San

a Avenida Coronel Mesquita no final da Guerra. Um dos caminhos para o Toi San

A rua principal, que se alongava pelo meio do casario terminava à beira-d’água. Andara-se a fazer aterros antes da Guerra chegar e em 1944 as enormes dragas e outras embarcações ali amarradas eram apenas cascos enferrujados que traziam ainda bem visíveis nas chaminés as insígnias holandesas de origem. E sempre que a maré baixava podia-se ver o quanto estavam enterradas no lodo do fundo, movimentadíssimo com os pequenos viscosos peixes-gato, de olhos esbugalhados. A tresandar de esgoto a céu aberto. Vivia ali numa pequena cabine naquele monte de ferro-velho uma criatura, personagem inspirada no Quasimodo, que corria com os miúdos sempre que os encontrava em pleno esforço aventureiro de exploração do sítio, mas não desistíamos nunca.

À esquerda da rua principal e junto à beira d’água ficava um edifício de aspecto bizarro encimado por uma chaminé de tijolo. Já estava devoluto mas teria servido como espécie de crematório de carcaças de animais, talvez búfalos ou quejandos. Viam-se montículos de cinza nas proximidades que alguém disse ser dos ossos calcinados. E lembro-me bem de uma longa rampa que conduzia a um dos fornos. Local assustador aquele para nós, crianças, porque pleno da ambiência de mistério, abandono e desolação.

Entre o crematório e a rua principal havia um campo enorme onde nos entrelinhamos a caçar gafanhotos e libelinhas durante aquele longo Verão. Virando-nos de frente para as Portas do Cerco, via-se à esquerda a Ilha Verde onde íamos apanhar as folhas de amoreira para alimentarmos os bichos-de-seda criados como passatempo. À direita, muito para além do casco das dragas torradas pelo sol, de onde irradiavam ondas de calor, ficava o recinto murado onde estava do convento das Maryknoll Sisters, membros da mesma irmandade religiosa norte-americana de Hong Kong que se haviam então refugiado também em Macau.

Se a alguém devo o meu interesse de uma vida inteira pelo estudo das humanidades, será à irmã Mary Famula que foi nossa professora em Macau durante algum tempo. Foi a boa da irmã que nos proporcionou conhecimentos em História Inglesa e Americana servindo-se apenas dos doze volumes já muito usados de uma enciclopédia chamada “The Book of Knowledge” (edição de 1912). Haviam sido oferecidos à nossa mãe dois anos antes em Hong Kong pelo funcionário principal do Hong Kong and Shanghai Bank, F.X. (Chiquito) Soares. Ali trabalhavam o nosso pai e muitos outros funcionários que se encontravam entretanto nas prisões.  Soares, vendo-se com falta de fundos, optara por entregar livros, pratas e artigos de valor às famílias desamparadas dos funcionários do Banco para que os trocassem por alimentos. A nossa mãe teve a sensatez de guardar os livros em vez de os vender e aqueles velhos tomos acabaram por se tornar os nossos maiores tesouros nesses anos de guerra. Em 1966, numa viagem que eu e a minha mulher Raquel efectuámos à Costa Leste dos Estados Unidos, fomos visitar a sede da Maryknoll em Nova York. Ali estava a irmã Mary Famula, mas já então muito velhinha. Recordei-lhe então cantigas, que vinte e dois anos antes nos ensinara, éramos nós miúdos, a cantar — uma balada irlandesa “The Minstrel Boy” e ” America the Beautiful” •— numa pequena cabana que servia de sala de aula improvisada no Bairro Tamagnini Barbosa.

bairro Tamagnini Barbosa (2)

Era um dia quente, em pleno Agosto de 1945 e nós brincávamos defronte de nossa casa quando um riquexó se deteve junto ao passeio. Dele se apeou um passageiro que trajava farda militar, um uniforme do exército britânico. Já então, com apenas dez anos, eu trazia lentes grossíssimas de miopia e levei alguns segundos para reconhecer o soldado que descia do riquexó, sobretudo porque estava muito mais magro do que a última vez que o vira. “É o pai!” – berrei para os meus irmãos Vince e Deanna. Excitados para além de tudo o que a imaginação possa conceber, em vez de correr em sua direccão, fomos a correr para dentro de casa para chamar a nossa mãe.” É o pai, mãe! É o pai! O pai está cá! O Pai voltou!”.

E ele ali estava.

Deixarei à imaginação dos leitores traçar o quadro feliz da reunião: as lágrimas e os apertados abraços, o primeiro cumprimento do filho de três anos que o nosso pai via pela primeira vez, um compartilhar de vivências de quase quatro anos perdidos, barras de caramelo de que já tínhamos esquecido o sabor, do leite em pó e pasta de dentes que tinha trazido com ele.

Foi esse regresso do meu pai da prisão-de-guerra, mais do que qualquer outro acontecimento datado dos nossos tempos de refugiados em Macau que permanece cravado na minha memória decorrido que é meio-século.

Pela conotação, pelas ligações a essa tão emotiva e há-muito aguardada reunião, a relembrança do bairro Tamagnini Barbosa mantém-se tão fresca e clara na minha memória como se tudo se tivesse passado anteontem.. .

As Portas do Cerco na viragem do século (era onde se delimitava a fronteira com a China nos tempos em que Macau era administrada pelos portugueses)

As Portas do Cerco na viragem do século (era a fronteira com a China nos tempos em que Macau era administrada pelos portugueses)

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Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

Sobre

O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

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