Cronicas Macaenses

Blog-magazine de Rogério P. D. Luz, de cara nova

“Cheng Meng” os chineses veneram os mortos

No dia 4 de Abril passado, em Macau, foi feriado pelo “Cheng Meng” ou “Cheng Ming” conforme consta do calendário de feriados do site do Governo de Macau.  O dia se equivale ao Dia dos Finados que os ocidentais celebram no dia 2 de Novembro.

Leia o interessante artigo de Armanda Rodrigues publicado na Revista Nam Van, de Macau, em Maio de 1985, e entenda o respeito que os chineses têm pelos seus mortos, observando que o texto é dessa data quando se refere ao momento:

“Cheng Meng”, uma viva e alegre celebração dos mortos

por Armanda Rodrigues – Revista Nam Vam edição de Maio de 1985

A circulação de pessoas pela fronteira de Macau para venerar os seus mortos

A circulação de pessoas pela fronteira de Macau para venerar os seus mortos

SE há um acto comum à generalidade dos homens sentido  e vivido indiferenciadamente   no   conteúdo, com variações apenas ao nível das formas e das fórmulas ritualizantes, esse acto é, sem dúvida, o da veneração dos mortos.

O mais ou menos secreto desejo metafísico da imortalidade, da eternidade, tão universal quanto o próprio humano, é o fundamento e o sustentáculo da celebração do mortal desaparecido, invisível, preservada pelo consciente colectivo desde tempo imeroriais e repetida ainda hoje, em plena era atómica e apesar do espaço exterior (à Terra) – antiga morada de deuses, outrora habitado por entes míticos pela imaginação do homem – se desvendar a cada passo no futuro.

Assim, o culto dos mortos universal e multiforme nos enterros e outras cerimónias, distinto conforme as religiões e as crenças, encontra também nos chineses muitos e fiéis seguidores para quem acarreta, excepcionalmente, a marca do sobrenatural, do sagrado, sem contudo se alienar do omnipresente pragmatismo do povo chinês.

A expressão máxima deste culto, como no cristianismo em que encontra paralelo no dia de «fiéis» ou de «finados», revela-se para os chineses na tradicional comemoração do Cheng Meng que assume foro de festividade e se celebrou no início de Abril em Macau este ano como nos anteriores.

No dia feriado do Cheng Meng é obrigação cumprida por grande número de chineses a visita à última morada dos antepassados idos deste mundo. Para melhor entendimento dos ritos e cerimónias que então se observam, procuremos um pouco as origens e as características do culto em que o Cheng Meng se insere.

"... quem dispenda uma elevada soma de dinheiro para ofertar um porco assado inteiro"

“… há quem dispenda uma elevada soma de dinheiro para ofertar um porco assado inteiro”

A veneração dos antepassados, de tradição muito antiga, tem por finalidade assegurar através de ritos e sacrifícios apropriados a continuidade da existência dos espíritos dos entes de uma família que pereceram e obter ajuda destes poderosos seres para os seus descendentes vivos. Acreditam os chineses que o ser humano possui duas almas: a animal, P’o, que é criada no momento da concepção e a espiritual, Hun, que surge no momento do nascimento. Após a morte, a alma animal permanece a residir com o corpo na sepultura e alimenta-se das oferendas de alimentos deixados sobre o túmulo pelos descendentes do defunto. No entanto, a vida desta alma, P’o, é limitada e ela vai perdendo vitalidade à medida que o próprio corpo se vai decompondo; findo o processo de degradação ela transita para o submundo onde leva uma existência sombria. Mas se a P’o não for suficientemente alimentada abandona o túmulo e torna-se num Kuei – fantasma ou espírito malévolo e esfomeado hostil a todos os homens vivos. É exactamente o receio de que isto aconteça, sobretudo no caso de se tratar de alguém muito poderoso em vida, que provoca a propriação e os cuidados certos por parte dos descendentes do morto.

Por outro lado, a Hun ou alma superior na altura da morte ascende ao palácio de Shang Ti onde residirá como um súbdito da sua corte levando uma vida similar à que os nobres levavam na corte dos príncipes terrenos e que equivale a uma existência plena de riquezas e felicidade. Mas a viagem que esta alma empreende desde que larga o corpo até ao palácio da eternidade não é isenta de perigo: forças do mal espreitam-na à sua passagem e deverá acautelar-se com o Espírito da Terra que a pode devorar e o Lobo do Céu que guarda a entrada do palácio. Consequentemente, os membros vivos do clã (actualmente da família) deverão fazer sacrifícios e orações para que, chegado ao Céu, o espírito do antepassado se transforme numa divindade poderosa e benéfica; em paga dos sacrifícios e oferendas, o antepassado morto guiará e prestará assistência aos seus descendentes na terra. Além disso, invocado pela adivinhação serve de oráculo e responderá às perguntas que lhe forem postas. Orando-se-lhe, a sua influência junto dos deuses é tão grande que pode ser suficiente para suster a morte que paira sobre um parente vivo. Do mesmo modo, a Hun, se os sacrifícios forem interrompidos, também não será feliz após a morte e tornar-se-á num espírito maligno condenado à infelicidade eterna.

Entretanto, apenas os elementos masculinos do clã ou da família são autorizados a efectuar os sacrifícios aos antepassados e por isso a exterminação da progenitude acarretará somente a dos homens e não a dos membros femininos que no entanto acabará por ocorrer embora de modo menos imediato.

Este aspecto da crença do culto dos mortos sobrevive intensamente nos nossos dias, o que o torna extremamente actual e importante, constituindo, simultaneamente, um dos principais incentivos para a maioria dos chineses no sentido de darem continuidade prioritária à geração masculina.

Cheng Meng (03)

“… de joelhos, bate três vezes com a cabeça no solo” para venerar os mortos

Nos tempos antigos e feudais a veneração dos antepassados era um culto reservado aos nobres e os camponeses não lhe tinham acesso directo; mas os nobres levavam a cabo sacrifícios para si e também para assegurar a harmonia cósmica de que todos os homens beneficiavam independentemente do seu estatuto social. Presentemente esta divisão já não se verifica.

A veneração dos antepassados e o culto dos deuses da Terra e das Colheitas estavam intimamente ligados e a sua origem remonta à primeira religião praticada pelo homem que consistia no culto da fertilidade e da mãe-terra cujas preocupações fundamentais se centravam na perpetuação da família e sua consequente sobrevivência simbolizada pela recolha do grão. A própria organização política da antiga China tinha uma base religiosa fundamentada precisamente no culto dos antepassados, dos deuses da terra e das colheitas.

EMBORA os detalhes das cerimónias respeitantes ao culto dos mortos se tenham modificado pelo tempo e pela influência de outras idéias, ele é perpetuado hoje em dia no essencial: no dever de fornecer progenitores masculinos capazes de continuarem os ritos, o que implica também a subordinação do individual ao controlo do grupo familiar, no cuidado com os templos, na visita aos cemitérios, no Cheng Meng…

O Cheng Meng é o período do ano em que os espíritos dos antepassados visitam o altar familiar erguido no lar de cada um, trazendo assim às gerações vivas a presença espiritual com eles e servindo de ligação com o outro mundo. É, pois, a altura propícia para a solicitação de favores e protecções que no entanto, à boa maneira pragmática dos chineses, mesmo quando o sobrenatural está envolvido, só serão concedidos em troca de oferendas e actos de veneração.

A celebração do Cheng Meng em Macau é como as imagens o ilustram. Os chineses deslocam-se em massa aos cemitérios onde se encontram os jazigos dos seus antepassados falecidos e, como muitos têm familiares enterrados nas povoações vizinhas do continente chinês, o movimento na fronteira sofre um acréscimo extraordinário.

Um dos maiores cemitérios chineses de Macau, na ilha da Taipa, enche-se de gente que vem prestar homenagem aos seus antepassados mortos, aglomerando-se junto aos túmulos voltados para o mar, ao longo da vertente. Para efectuar o cerimonial propício, o chefe da família ou da casa, acompanhado de mais parentes, visita as sepulturas dos ascendentes falecidos. Acendem-se pivetes de incenso, queimam-se ruidosos panchões e incendeiam-se papéis da sorte e as típicas notas falsas, conhecidas por «dinheiro dos mortos». É igualmente hábito proceder-se à limpeza dos túmulos e ao seu arranjo, varrendo o local, retirando as ervas e os ramos secos, colocando de novo as pedras soltas e, até, pintando de fresco os caracteres apagados pela intempérie, de modo a tornar de novo visíveis as inscrições.

Nos altares das casas em que os antepassados se encontram representados ou então nos próprios túmulos, colocam-se velas acesas, recipientes de perfume, pequenas jarras com flores, incensos, minúsculas taças de aguardente de arroz e vários pratinhos contendo iguarias diversas, sendo uma das mais apreciadas a carne de porco não faltando mesmo quem dispenda uma elevada soma de dinheiro para ofertar um porco assado… inteiro. No altar, ou junto à sepultura, o chefe de família acende pivetes que levanta à altura da fronte antes de os pôr no recipiente próprio com o mais elevado respeito. Em seguida, de joelhos, bate três vezes com a cabeça no solo, acto que será repetido pelos seus filhos varões em sinal de veneração, agradecimento e obediência aos entes falecidos. As tradicionais fitas de papel vermelho e amarelo, portadoras de boa sorte, são também colocadas no túmulo dos defuntos e na cabeceira ata-se uma outra tira de papel onde estão inscritos os nomes de todos os membros da geração actual de molde a o antepassado morto ter a certeza de que ninguém faltou ao cumprimento das suas obrigações.

Findas as cerimônias propiciadoras, uma refeição é servida com a mesma comida ofertada aos antepassados.

As festividades do Cheng Meng estão imbuídas de um aspecto ‘vivo’ já que se trata precisamente de compartilhar com os mortos as riquezas e os bens desta terra, a que eles já pertenceram, de modo a que lhes cheguem as coisas dos mortais para que continuem felizes ‘vivendo’ no outro mundo. O movimento, o colorido, as cores dos frutos da Primavera, o perfume dos incenses, as chamas do fogo purificador que ‘envia’, nas suas chamas, o dinheiro e as roupas de papel, o rebentar dos panchões, enchem a atmosfera dos cemitérios no dia do Cheng Meng e não é a tristeza que se lê no rosto dos visitantes, mas antes a alegria dos que assim celebram os seus mortos.

Cheng Meng (04)

Um dos maiores cemitérios chineses de Macau, na ilha da Taipa

(fotos do artigo da Revista Nam Van)

Legenda BR: Panchões = fogos

Nota do editor: veja também postagem a respeito no blog Nenotavaiconta neste link: http://nenotavaiconta.wordpress.com/tag/cheng-meng/

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Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

Sobre

O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

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