Cronicas Macaenses

Blog-magazine de Rogério P. D. Luz, de cara nova

(2) 20 Anos do 1º Encontro das Comunidades Macaenses, artigo e discursos

Dando seguimento à primeira postagem sobre os 20 Anos do 1º Encontro das Comunidades Macaenses (1993-2013), publico abaixo o artigo da Revista Macau, na sua edição de Dezembro de 1993, com resumo de alguns pronunciamentos de personalidades de Macau e de dirigentes das Casas de Macau.  Outros discursos serão objetos de nova postagem.

1o. Encontro Comunidades Macaenses Revista.Macau (103)

REFORÇAR A UNIÃO DA DIÁSPORA MACAENSE

por Cecília Jorge e Beltrão Coelho – Revista Macau Dezembro de 1993

Mais de 600 representantes das Casas de Macau e de associações de macaenses de Portugal, Brasil, Estados Unidos, Canadá e Austrália reuniram-se em Macau para rever amigos e familiares e falar das questões que os preocupam e da identidade dos portugueses do Extremo-Oriente.

ENTENDER o fenómeno da diáspora não é difícil, quando se compreendem as razões que estiveram na base desse fenómeno de crescimento prolongado, e, curiosamente, ainda sem referência na maioria dos dicionários portugueses.

E, no entanto, foi um termo criado em função dos judeus, povo com uma identidade muito própria, que se dispersou pelo mundo para conseguir refazer a vida, e em muitos casos, para a não perder.

Não foi tão dramática a diáspora dos macaenses ou, para se ser mais exacto, dos portugueses do Extremo-Oriente (porque de Xangai, Hong-Kong e Macau).

Os que partiram, fizeram-no porque já não tinham condições de sobrevivência (pela instabilidade política, ou por outras razões, de natureza económica), ou porque se sentiam com capacidade para erguer um outro futuro, melhor, com o seu próprio esforço, quando anteviam dificuldades e dependências insuperáveis, e a total falta de perspectivas neste seu berço.

Levaram sempre consigo o sentimento de ser português; o orgulho nas tradições e na cultura de uma comunidade, e a ligação indissolúvel a Macau, afectiva, com raízes velhas de séculos.

E refizeram a vida lá fora. Muitos singraram, provando terem feito a opção certa. As tendências inatas de associativismo e clubismo, o espírito bairrista (que é universal, mas que se intensifica entre os que se encontram emigrados) permitiram-lhes a criação de núcleos mais ou menos alargados, onde se manifesta e pratica o espírito de entreajuda, de cooperação. E onde se procura evitar, ou sanar, quaisquer desavenças… Porque se tornou instintivo o esforço de sobrevivência da identidade cultural colectiva.

Imagine-se o calor humano que emana quando se reúnem, como os membros de uma grande família que não se vêem há décadas.

E imaginem se, em vez de mais uma das suas regulares e bem alegres festas de aniversário, de Natal ou de Carnaval, no Brasil, na Austrália, nos Estados Unidos, no Canadá, em Portugal, se lhes proporciona um encontro gigantesco em Macau, e Hong-Kong, de quase uma semana, onde confluíram familiares e velhos amigos, conhecidos e por conhecer, vindos de todas essas paragens, e mais os que aqui se encontram (e que dizem ser já em número inferior).

Foi o que aconteceu em Novembro passado, e a alegria traduziu-se nos alegres grupos que já semanas antes tinham chegado, por decisão própria, e se tinham começado a passear pela cidade, a conviver, e a matar saudades. E deixaram-se ficar por mais umas semanas.

Muitos se entregaram à árdua tarefa de preparar o seu reencontro, as muitas actividades e recepções programadas. Ensaiaram tunas e grupos musicais, um novo grupo local de amadores de teatro reavivou a veia da recita macaísta, na doci papiaçam que as velhas nhonhonhas falavam e cantavam. E, afinal, a cantar em patuá estiveram todos.

Mas nem tudo foi folia, porque os dirigentes das Casas de Macau constituíram grupos de trabalho e tiveram audiências com entidades oficiais, para tentar resolver as questões colectivas ou específicas de cada uma das comunidades macaenses. Fizeram, sobretudo, por traçar o ponto da situação e procurar preparar as bases para “unir a diáspora”, com laços bem fortes a nível de informação, de intercâmbio e cooperação, tendo em conta um facto indiscutível: o do termo da administração portuguesa em Macau, a partir de 99.

E Macau poderá ser, então, mais um núcleo de macaenses, mais um ponto na diáspora, cujo centro deixará de ser possível determinar.

1o. Encontro Comunidades Macaenses Revista.Macau (102)

 

Henrique de Senna Fernandes:

Muito macaense ficará em Macau depois de 99 (resumido)

A mudança da fisionomia de Macau ao longo das últimas décadas, em saltos bruscos (…), mas inevitável, foi um dos aspectos em que se centrou a comunicação de Henrique de Senna Fernandes, advogado e escritor:  Macau não podia conservar-se num compartimento estanque, estratificado, sem evolução, numa inércia paralisante, no meio do surto económico que avassalou toda a área geográfica do Extremo Oriente, numa cadência por vezes alucinante.

Mas, perdidas todas as outras referências do passado, ficou o timbre, que resistiu a todos os choques, a todas as transformações, a todos os abalos, uma constante eterna que é seu sortilégio e que imprime uma lição para o mundo. É o próprio ambiente em que temos o privilégio de viver, aquele quê misterioso e especial que não se vê nem se apalpa, mas que se sente na carne e na alma.

Falou, em seguida, dos filhos da terra, os naturais de Macau, gerados na terra que passaram a sentir como muito sua, com viva sensação de pertença, da sua identidade, e do seu papel na sociedade e ao longo da história e, inevitavelmente, da diáspora.

Nas conversas do dia a dia, nos ecos da imprensa e nos vaticínios da gente responsável, a nota enfática incide no êxodo, na emigração em massa, no abandono, perante a incógnita do que será a existência, sob uma nova bandeira.

E perguntou se haverá, na realidade, a eliminação total do filho da terra de Macau, após 1999, tornando-a uma cidade puramente chinesa, anódina e mesquinhamente igual a tantas outras anódinas que existem para além da Porta do Cerco.

Considerou que muito macaense ficará, forçado por razões de natureza económica, ou sentimentais, ou por laços de sangue, ou porque simplesmente quer ficar, aceitando o repto do porvir, a despeito de todas as incógnitas, porque considera o chão de Macau como terra também sua, para o que der e vier.

Essa comunidade será a depositária da portugalidade após 1999, e cabe a Portugal e aos órgãos da República a responsabilidade indefectível de proteger e alimentar essa portugalidade, que corre o risco de se diluir caso a comunidade macaense não seja acarínhada, mas abandonada.

Senna Fernandes sublinhou a importância da manutenção da língua e da cultura através de institutos de cultura lusitana, de uma escola, canal da rádio e de televisão.

O filho da terra, tantas vezes minimizado, é um ser complexo que possui qualidades de resistência e adaptação a todas as circunstâncias, um manancial de potencialidades que só aparecem em momentos de crise.

* * * * *

Cecília Jorge:

Deixar bem vincada a identidade macaense (resumido)

A questão da sobrevivência da identidade macaense foi igualmente o tema abordado por Cecília Jorge, como participante convidada pela organização do Encontro.

Ao tentar identificar a identidade do macaense, considerou que esta, nas gerações actuais, estava a ser progressivamente ameaçada pela degradação das ambiências e vivências de Macau, directamente resultantes da sobrepovoação por parte de gentes vindas de outras paragens ao mesmo tempo que se acentua a diáspora dos macaenses e da destruição de quase todo o seu património arquitectónico, com a evolução vertiginosa que se tem registado na cidade de Macau nas últimas décadas.

Abordando a questão da nacionalidade, considera que a falta de demarcação pública da nossa identidade levou a que nos deixássemos englobar no grande grupo que, a partir de Lisboa, genérica e estatisticamente passaram a designar por macaense, e que, usando-se no sentido lato, passou a traduzir população: portugueses ou chineses recém-chegados e a trabalhar em Macau, luso-descendentes, todos os outros e… os macaenses no sentido restrito.

Tal facto levou a que o macaense (no sentido restrito) fosse esquecido aquando das negociações que precederam a assinatura da Declaração Conjunta Luso-Chinesa sobre o futuro de Macau.

Grosso modo, quem tivesse afinidades com a China ficaria em Macau e quem sentisse afinidades com Portugal regressaria à Pátria. Esqueceram-se, como é óbvio, dos macaístas… mas tão simplesmente porque eles não existiriam, eram ficção.

Cada núcleo de macaenses deveria esforçar-se por concentrar à sua volta as famílias de emigrantes ligadas a Macau, e organizar e manter, com o seu apoio, bancos de dados, de imagens, de registos das tradições e costumes, para impedir que o tempo as apague de vez.

Se os filhos e netos podem hoje parecer pouco preocupados com as suas origens, grande parte deles quererá fazer perguntas quando chegar à idade adulta, quando já não estivermos por perto ou a memória nos começar a falhar. Temos a obrigação de lhes facultar o acesso a um mínimo de informação, clara, correcta e inequívoca.

Não teremos sido ficção se hoje deixarmos bem vincada a nossa identidade — concluiu.

1o. Encontro Comunidades Macaenses Revista.Macau (101)

 

Delano Pereira:

Apoiar a dinamização de associações macaenses (resumido)

Para Delano Pereira, outro dirigente da UMA, não consta que, nestes mais de quatrocentos anos da existência de Macau, alguém se tenha lembrado de congregar representantes dos macaenses, quer residentes quer da diáspora, para em conjunto estudarem problemas e discutirem soluções que interessam a uns e a outros, atribuindo a iniciativa ao governador de Macau, general Rocha Vieira.

Ao sublinhar o termo da administração portuguesa neste Território em finais de 1999, afirmou que o que não pode cessar é a ligação da família macaense espalhada pelo mundo ao seu berço de origem, se bem que em moldes diferentes, ditados pela sua nova situação político-administrativa.

A necessidade de transpor para a prática o diálogo e a boa vontade que transpiram dos documentos oficiais assinados entre Portugal e a China foi outro dos aspectos destacados pelo orador, que manifestou a certeza de que a futura administração chinesa de Macau terá todo o interesse em que Macau continue economicamente próspero e seja um pólo de atracção turística e se empenhará em preservar os sinais da passagem dos portugueses por esta terra, porque será isso que a distinguira de tantas outras e aliciará o interesse dos visitantes.

Macau deverá manter-se um centro de ramagens de saudade e um ponto de encontro entre macaenses espalhados pelo mundo.

Quanto aos núcleos de macaenses dispersos pelo mundo e nomeadamente em Portugal, nos Estados Unidos, no Canadá, no Brasil e na Austrália, Delano Pereira considerou não se poder deixá-los morrer, diluindo-se no maré magnum dos povos entre os quais vivem. Estes, devem ser chamados a perpetuar os usos, os costumes e as tradições de Macau.

Mas para tal, é necessário que os macaenses emigrados se associem, reúnam e convivam, e absolutamente indispensável que disponham de sedes sociais, pontos de encontro sem os quais será utópica qualquer preservação da sua identidade, tradições, língua, literatura e documentação dos monumentos e paisagens da sua terra de origem. Dirigiu um apelo ao Governo de Macau no sentido de apoiar a construção das sedes das associações de macaenses.

* * * * *

Arnaldo Silva:

A história da Casa de Macau em Lisboa (resumido)

O dirigente da Casa de Macau em Lisboa, Arnaldo Rodrigues da Silva, historiou a fase de criação e evolução daquela instituição, fundada em 11 de Junho de 1966, que se viu reconhecida oficialmente como colectividade de utilidade pública em 1988.

A fundação da que considerou a mais antiga das associações congêneres e, até há poucos anos, a única, deveu-se ao entusiasmo, dinamismo e dedicação de meia dúzia de macaenses ou naturais do Extremo Oriente.

Depois de citar, numa longa intervenção, a actividade desenvolvida pela Casa de Macau em Lisboa, o actual presidente destacou o papel que a esta poderá caber no futuro, tendo em conta a proximidade da transferência da administração do Território de Macau para a China.

Este desenvolve-se, em seu entender, no âmbito da manutenção da cultura portuguesa em Macau e no acolhimento dos macaenses que optem por partir para Portugal.

É de prever que sejam muitos os macaenses que irão fixar-se em Portugal (…). Por maior e mais bem organizada que seja a ajuda material que lhes dispensem as entidades oficiais e outras para tanto vocacionadas e dotadas de meios, à Casa de Macau em Lisboa parece caber uma tarefa humanitária primordial: o seu acolhimento.

Arnaldo Rodrigues da Silva referiu-se também ao papel que a Casa de Macau deverá desempenhar como elemento de ligação humana, extra-oficial, com os membros da comunidade de origem portuguesa que se mantiverem em Macau.

Mas, para tal — sublinhou — a instituição terá que ver resolvidos dois problemas cruciais: a sua situação económico-financeira (dado as quotas dos sócios cobrirem apenas um quinto das despesas, e não haver garantias de que o subsídio anual atribuído pelo Governo de Macau se mantenha para além de 1999) e a criação de uma sede própria.

1o. Encontro Comunidades Macaenses Revista.Macau (100)

 

* Fotos da Revista Macau edição Dezembro de 1993

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Autoria do blog-magazine

Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

Sobre

O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

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