Cronicas Macaenses

Blog-foto-magazine de Rogério P. D. Luz,

Nascimento do tipo ‘Macaense’ e o dialecto patuá por volta de 1560?

Parte de um texto recolhido do livro “Esboço da História de Macau”  de 1511 a 1849, de autoria de Artur Levy Gomes, editado em Macau pela Repartição Provincial dos Serviços de Economia e Estatística Geral (Secção de Propaganda e Turismo), em 1957, dá uma ideia do que poderia ter sido o início da formação do Macaense e do dialecto por ele utilizado, o que é denominado de ‘patuá’ nos dias de hoje.

Até que em 1957, o autor dizia que “hoje, pouca gente fala ou compreende o dialecto cerrado dos antigos tempos“, o que é verdade porém esta afirmação prevalece até hoje, e nem se pensava que o patuá poderia se candidatar a Património Intangível Mundial pela UNESCO, já o sendo a nível regional de Macau na forma de Teatro de Patuá.

Vejamos o que diz esta parte do texto da página 58 do livro:

Mapas antigas de Macau (10)

Desenho da capa do livro Guia de História de Macau 1500-1900 de Rui Manuel Loureiro, Capa e Deirecção Gráfica: Rui de Carvalho.

” … Apenas pelo que diz o padre Francisco de Sousa no «Oriente Conquistado a Jesus Christo pelos padres da Companhia de Jesus da Província de Goa», se calcula que a população inicial de Macau constava de uns novecentos portugueses, grande número de chineses e alguns malaios, como atrás dissemos, não se encontrando qualquer elemento estatístico desse tempo.

Os portugueses que primeiro a habitaram, deviam ter sido, exclusivamente, homens, mercadores ou aventureiros em busca de fortuna que, cruzando-se com as mulheres indígenas, vieram a constituir o tipo macaense que hoje se conhece, dístinguindo-se fisicamente pelos traços euro-mongóis, mas em que predominam, no geral, estes últimos provenientes da linha materna, como o oblíquo dos olhos, a cor macílenta, pequena estatura e cabelo preto e liso.

No homem, inteligente e hábil, a característica paterna manifesta-se mormente, por um acendrado amor a Portugal, por um espírito de aventura que o leva a emigrar sempre que pode, mas nunca esquecendo a sua terra, formando grandes colónias na China, Hongkong, Japão, Sião e Indochina, onde vivem unidos por grande afinidade, recebendo sempre qualquer português, metropolitano ou não, por desconhecido que seja, com a cordialidade de um parente ou velho amigo.

Na mulher, nimbada pelo mistério oriental, em que parece predominar o atavismo materno, nota-se um quid de indefinível melancolia, que contrasta com a vivacidade da portuguesa européia. Ela seduz pela doçura do seu trato e fascina pela tristeza do seu terno olhar magoado, como se não encontra em qualquer outra parte do globo, consequência decerto, do cruzamento do sangue ardente e generoso do português, e da mórbida languidez mongólica.

Os portugueses que primeiro habitaram o estabelecimento, inspirados pela sua fé e espírito religioso, deram-lhe a denominação de «Povoação do Santo Nome de Deus do Porto de Amacau » (1).

Uma vez confirmada a sua posse e constituída portanto a Província de Macau, lançaram-se os portugueses à árdua tarefa de arrotear e fertilizar um deserto iaculto, preparando a sua defesa contra ataques de que os ameaçavam os inimigos que antes aqui se açoitavam, ou qualquer outra surpresa que sempre receavam, tanto mais que se encontravam em reduzidíssimo número e muito longe das outras províncias portuguesas donde pudessem esperar socorros ou recursos e, assim, como era seu hábito, começaram por levantar fortalezas nos pontos mais elevados, como indicava a tática coeva, cujos preceitos aconselhavam o traçado abaluartado irregular que, além disso, se tornava preferido pela orografia do seu terreno.

As primeiras casas foram levantadas na pequena enseada do Patane.

Os primeiros habitantes de Macau, recrutados entre os marítimos portugueses, malaios e japoneses, produziam, como era de esperar, um dialecto em que vinham baralhadas palavras usadas por essas diversas nacionalidades, e ainda pela chinesa de quem. em grande parte, descendiam pela via materna. Mas a feição predominante desse dialecto era a construção gramatical copiada da língua chinesa, como se nota pela repetição duma mesma palavra para indicar o plural, o uso de termos auxiliares para indicar o tempo passado e outras características próprias da estrutura gramatical chinesa. Hoje, pouca gente fala ou compreende o dialecto cerrado dos antigos tempos.”

(1) O autor insiste no seu livro que outrora costumava-se dizer “Santo Nome de Deus”, o que na verdade o utilizado é apenas “Cidade do Nome de Deus”, e como explica bem várias pessoas que Deus é Deus apenas e não é Santo.  Embora acredito na possibilidade ao chamar de ‘Santo’ terem querido dizer ‘Abençoado’ ou algo parecido naqueles tempos.  Seria como “Cidade do “abençoado” Nome de Deus.

Mapas antigas de Macau (11)

Nau portuguesa. Pormenor da Vida e martírio de Santa Auta (c. 1520), do livro Guia de História de Macau 1500-1900 de Rui Manuel Loureiro.

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Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

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O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

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