Cronicas Macaenses

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Macau: donde viria o nome da bica? Nilau ou Lilau

Padre Manuel Teixeira, o nosso grande historiador de Macau, no seu livro “Toponímia de Macau”, uma “bíblia” da Cidade do Nome de Deus, explica de onde vem o nome da Bica do Lilau, ou seria, Bica do Nilau? Vejamos o que ele conta a respeito:

Fonte do Largo do Lilau em 2010

Fonte do Largo do Lilau em 2010

BICA DO LILAU

por Padre Manuel Teixeira em “Toponímia de Macau”  volume I – edição da Imprensa Nacional 1979

Havia outrora neste local (Rua do Lilau) a famosa Bica do Nilau.

«Água pura e cristalina

Se dá ai que camina».

Os caminhantes bebiam e gostavam tanto que voltavam lá uma e muitas vezes.

A Bica do Lilau tornou-se tão célebre que entrou no folclore e ainda hoje os velhos repetem:

«Quem bebe água do Lilau

Não mais esquece Macau:

Ou casa cá em Macau,

Ou então volta a Macau».

Mas um dia — dia aziago — certos inococlastas desenraizados, desrespeitadores da tradição, foram-se à pobre Bica do Lilau e deram cabo dela.

Nós que tínhamos bebido tantas vezes dessa água e que, para não desmentir a quadra, voltámos a Macau após 15 anos de ausência em Singapura, levámos um dia um turista a visitar a Bica famosa e não demos com ela. Interrogámos os vizinhos e responderam-nos que não existia.

Donde viria o nome da Bica? Seria Lilau ou Nilau? Nas Crónicas de S. Agostinho, lê-se:

«Na cidade de Nome de Deos de Macao temos huma ermida consagrada a Nossa Senhora da Penha de França em hum dos montes da cidade, chamado Nilao, edificada pelo Pe. Fr. Estevão de Vera Cruz, prior do convento da mesma cidade em o anno de 1623, em cuja fábrica muito trabalhou gastando do convento (alem das esmolas) trezentos, e tantos taéis de prata» (1)

Ljungstedt repete o mesmo, afirmando que o monte se chamava Nilau. A fonte que brotava no sopé recebeu o nome do monte, como se lê num documento de 9-9-1795: «Diz Felipe Correa de Liger Cazado, e m.or nesta Cid.e, que como este N.Sen.º tem entre outras hua terra baldia cita a Orta de D. Anna Correa, e Bica de Nilao, que inda conserva prezentm.te hum posso, que fora feito p.’° Avô do Sup.e, pertende o Sup.e cento e vinte braças de Norte ao Sul, e outras tantas de Leste a Oeste». Foi-Ihe concedido o terreno, «mas deve ser p.a a banda da Orta de Antonio Joze da Costa, p.r não embaraçar o caminho da Fonte de Nilao»

Parece que foi a ermida construída em 1622, que deu o nome de Penha à colina, que antes se chamava de Nilau. Marco d’Avalo escrevia em 1638 acerca dum forte que lá havia: — Chamava-se o segundo dos fortes Nostra Seignora de Ia Penha de Francia, porque tem dentro uma ermida com este nome (2).

Numa gravura holandesa antiga aparece a muralha, que rodeia a ermida, coroada de ameias e canhões.

O comerciante Joaquim José Ferreira Veiga, marido de Rosa Joaquina de Paiva e filho de José da Silva Correia e de Maria Rita de Veiga, contribuiu com 200 patacas para as obras da Fonte do Lilau. O Senado oficiou-lhe a 18 de Setembro de 1830, agradecendo esta contribuição.

Deve datar dessa época a troca do nome da famosa Bica, de Nilau em Lilau.

Note-se que Joaquim Veiga casara, a 11-XII-1822, com Rosa Joaquina de Paiva; casou em segundas núpcias, a 11-1-1836, com Joana Ana Ulman, filha de Jacob Gabriel Ulman e de Rosa Ulman; esta última faleceu a 27-X-1821.

Rosa Joaquina de Paiva nasceu a 20-V-1799, e era filha de Francisco José de Paiva e de Inácia Vicência Marques; esta última era proprietária do Mato do «Bom Jesus».

Constando ao Senado que fora construída uma barraca de palha, com depósito de matérias pútridas em cima da Fonte de Lilau, comunicando-se isso à fonte com grande detrimento do público, ordenou, a 28-7-1825, ao Juiz Almotacel Francisco Xavier Lança, que fosse lá e, sendo aquilo certo, notificasse os senhorios que desmanchassem a barraca e limpassem o terreno daquele imundo depósito (3).

Havia em Macau outra fonte, chamada a Bica do Bambu. Lê-se num documento que, a 17 de Julho de 1851, por intermédio de João Baptista Gomes, foi entregue um donativo de $40 patacas feito por Couvasgee Sapoorgce Langrana, negociante de Cantão, em nome da comunidade parse, na China, para a obra da Bica do Bambu.

(1) A. da Silva Rego, Documentação. Vol. XI, p. 166.

(2) Ta-Ssi-Yang-Kuo,   II, 421.

(3) Arq. de Macau, Março de 1953, p. 167.

Largo do Lilau em 2010

Largo do Lilau em 2010

Antigamente - imagem publicada por Cecília Jorge

Antigamente – imagem publicada por Cecília Jorge na Revista Macau

Macau2010.Lilau.19.417

"Parece que foi a ermida construída em 1622, que deu o nome de Penha à colina, que antes se chamava de Nilau. Marco d’Avalo escrevia em 1638 acerca dum forte que lá havia: — Chamava-se o segundo dos fortes Nostra Seignora de Ia Penha de Francia, porque tem dentro uma ermida com este nome"

“Parece que foi a ermida construída em 1622, que deu o nome de Penha à colina, que antes se chamava de Nilau. Marco d’Avalo escrevia em 1638 acerca dum forte que lá havia: — Chamava-se o segundo dos fortes Nostra Seignora de Ia Penha de Francia, porque tem dentro uma ermida com este nome”

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Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

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O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

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