Texto de Wenceslau de Moraes
Juncos de pesca, lorchas de carga e de passagem, para ali estão a monte, lembrando de longe, pelos mastros esguios, florestas cerradas, a que o Inverno houvesse despido a rama. Tancás, sampanas, embarcações miúdas e de cem denominações diferentes, formam densos magotes, amarrando aos bambus enterrados no lodo. E todas aquelas coisas flutuantes, onde não assoma uma única cabeça, encimadas de coberturas de rota, de esteiras, de farrapos, de tudo que possa oferecer resistência à chuva invasora têm um ar lamentável de desamparo, sem dono que lhes queira.
No entanto, lá dentro dos lôbregos cacifos, nas cafuas sem ar nem luz dos barcos, há mais de dois dias que se vive, numa morna expectativa de melhor tempo. Presta-se culto ao Buda; cozinha-se, come-se arroz na tigela comum; expande-se o mau humor nos ralhos íntimos; choram crianças envoltas em roupas encharcadas; até adormecerem finalmente aqueles montes de cabeças, fatigadas da inacção, fazendo travesseiro das pernas dos vizinhos…
Texto de Wenceslau de Moraes
Formigam por toda a parte uns pequenos barcos, conhecidos pela denominação de tancás e sampanas. Estranhos covis: imagine-se uma embarcação da grandeza dos nossos botes, mas mais larga, de fundo chato, abrigada por coberturas semicirculares de verga de bambu; o todo de uma cor escura de madeira apenas aplainada, fazendo lembrar um escaravelho elevado às dimensões de colosso. Aquele espaço, aquelas três tábuas sobre a água constituem o único refúgio de famílias inteiras. Não se conhece outro asilo; ali nascem os filhos, ali morrem os velhos, ali se ri, ali se chora, ali se passa a vida, por não se poder passar melhor.
Há lugar para tudo, no tancá; para dormir, para cozinhar, para guardar as pobres roupas e as provisões, até para erigir aos deuses tutelares um altar, onde bruxuleiam lâmpadas e fumegam pivetes. Movidos geralmente por um remo lateral que manejam as raparigas, as tancareiras, e por outro mais pesado à popa, em esparrela, empunhado pela mãe, os tancás formigam por toda a superfície do Chu-kiang, num afã prodigioso de vermes esfomeados, exercendo todas as indústrias, os mais ínfimos misteres. No tancá se transportam mercadorias e passageiros, de uma margem para a outra, ou ao longo da rede interminável dos canais e canaletes. No tancá se vendem frutas, hortaliça, comida preparada e quente, loiça, lenha, dispensando à população marítima o trabalho de se ir prover nos mercados; e não é por certo a feição menos curiosa do espectáculo o vaivém contínuo daqueles vendilhões de estranha espécie, seguindo de barco em barco como nas cidades de porta em porta, mercadejando a sua fazenda, lançando pregões aos ventos e remando para vante,,,
* Fonte dos textos: livro Macau com fotos de Ana Esquível. Seleção de textos do livro por Eugénio de Andrade. Edição do Governo de Macau (da administração portuguesa).
“Formigam por toda a parte uns pequenos barcos, conhecidos pela denominação de tancás e sampanas” (Fotografia de Lee Yuk Tin. Colecção do Museu Marítimo de Macau)
Biografia de Wenceslau de Moraes
Monumento de Wenceslau de Moraes em Kobe, Japão (De Wikimedia – fonte: http://opencage.info/pics/large_5599.asp)
Wenceslau José de Sousa de Moraes (Lisboa, 30 de Maio de 1854 – Tokushima, 1 de Julho de 1929) foi um escritor e militar da Marinha Portuguesa.
Era filho de Venceslau de Morais e de Maria Amélia Figueiredo. Oficial da marinha, completou o curso Escola Naval em 1875, tendo prestado serviço em Moçambique, Macau, Timor Português e no Japão.
Após ter frequentado a Escola Naval serviu a bordo de diversos navios da Marinha de Guerra Portuguesa. Em 1885 viaja pela primeira vez até Macau, onde se estabelece. Foi imediato da capitania do Porto de Macau e professor do Liceu de Macau desde a sua fundação em 1894. Durante a sua estadia em Macau casou com Vong-Io-Chan (Atchan), mulher chinesa de quem teve dois filhos, e estabeleceu laços de amizade com Camilo Pessanha.
Entretanto, em 1889, viajara até ao Japão, país que o encanta, e onde regressará várias vezes nos anos que se seguem no exercício das suas funções. Em 1897 visita o Japão, na companhia do Governador de Macau, sendo recebido pelo Imperador Meiji. No ano seguinte abandona Atchan e os seus dois filhos, e muda-se definitivamente para o Japão, como cônsul em Kobe.
Aí a sua vida é marcada pela sua actividade literária e jornalística, pelas suas relações amorosas com duas japonesas (Ó-Yoné Fukumoto e Ko-Haru) e pela sua crescente “japonização”.
Durante os trinta anos que se seguiram Wenceslau de Moraes tornou-se a grande fonte de informação portuguesa sobre o Oriente, partilhando as suas experiências íntimas do quotidiano japonês com os seus leitores Portugueses, numa actividade paralela à de Lafcádio Hearn, o grande divulgador da cultura nipónica no mundo anglo-saxão, de quem foi contemporâneo.
Amargurado com a morte, por doença, de Ó-Yoné, Venceslau de Morais renunciou ao seu cargo consular em 1913 quando já era graduado em Tenente-coronel/Capitão de fragata, mudou-se para Tokushima, terra natal daquela. Aí viveu com Ko-Haru, sobrinha de Ó-Yoné, que viria também a falecer por doença.
Aí o seu quotidiano tornou-se crescentemente idêntico ao dos japoneses, embora tendo como pano de fundo uma crescente hostilidade destes. Cada vez mais solitário, e com a saúde minada, Wenceslau de Moraes viria a falecer em Tokushima em 1 de Julho de 1929.
Wenceslau de Moraes foi autor de vários livros sobre assuntos ligados ao Oriente, em especial o Japão.
A TAP Portugal homenageou-o ao atribuir o seu nome a uma das suas aeronaves. (fonte: Wikipedia)
*Associação Wenceslau de Moraes: http://www.wenceslaudemoraes.net/index.html
Juncos, Sampans, Tankás – Embarcações chinesas / Junks, Sampans, Tanka – Chinese boats
Porto Interior de Macau / Macau Inner Harbour
Fotografias de/Photos by Karsten Petersen – site http://global-mariner.com/index.htm
(authorised 01/21/2012 – clicar para aumentar/click to enlarge)
Rogério P D Luz, amante de fotografia, residente em São Paulo, Brasil. Natural de Macau (ex-território português na China) e autor do site Projecto Memória Macaense e o site Imagens DaLuz/Velocidade.
Memória - Bandeira do Leal Senado - para nunca ser esquecida -CIDADE DO SANTO NOME DE DEUS DE MACAU, NÃO HÁ OUTRA MAIS LEAL- Esta é a antiga bandeira da cidade de Macau do tempo dos portugueses, e que foi substituída após a devolução para a China em Dezembro de 1999
O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau (ex-território português na China por cerca de 440 anos e devolvida em 20/12/1999) sua história e sua gente.
Macaense – genericamente, a gente de Macau, nativa ou oriunda dos falantes da língua portuguesa, ou de outras origens, vivências e formação que assim se consideram e classificados como tal.
*Autoria de Rogério P.D. Luz,, macaense natural de Macau e residente no Brasil há mais de 40 anos.
Escrita: língua portuguesa mista do Brasil e de Portugal conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.
cartaz de Ung Vai Meng
O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.
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