Cronicas Macaenses

Blog-magazine de Rogério P. D. Luz, de cara nova

“Memória sobre Macau, por Sit-Uân”, uma visão chinesa em 1746

Ou Mun Kei Leok.mapa geral defesa marítima

No prefácio do livro Ou-Mun Kei-Lèok (Monografia de Macau), o escritor macaense Luís Gonzaga Gomes em 22/Junho/1950, apesar de ter sido publicado em 1979 (?), que fez a tradução do chinês, descreve-o como uma “raridade bibliográfica”.  Escreve que o exemplar cedido por Jack Braga, só existe um outro, cuja primeira edição ocorreu em 1751 e a segunda em 1884.

O livro foi escrito no século XVIII por dois magistrados chineses, Tcheong-U-Lâm e Ian-Kuong-iâm, do antigo distrito de Hèong-Sán, que visitaram Macau várias vezes no exercício das suas funções.  Neste trecho, descrevem as impressões de Sit-Uân, na sua visita a Macau em 1746.

Permite-nos assim, ter a oportunidade de conhecer um pouco a visão chinesa de Macau, de como viram a sua terra ocupada por estrangeiros, no caso, os portugueses.

Memória sobre Macau, por Sit-Uân

do livro Ou-Mun Kei-Lèok / Monografia de Macau / de Tcheong-U-Lâm e Ian-Kuong-iâm

edição da Quinzena de Macau – Outubro de 1979 – Lisboa

(os nºs entre-parenteses de 29 a 47 correspondem às legendas no final deste texto, para entender as localidades em chinês)

Da colina de Fông-Tch’âi (Ninho do Alcião), no distrito de Hèong-Sán , seguindo 120 lei (64,km32) para o sul, chega-se a Tch’in-Sán e, a 20 lei (10,km72) a mais, encontra-se a baía de Hou-Keng. A uns 6 a 7 lei (3,km75), antes de se alcançar Macau, a rugosa montanha interrompe-se, formando um dique de areia semelhante a uma comprida ponte ao qual chamam de Lin-Fá-Keng (Haste de Loto). Na extremidade desta haste surge, singularmente, a chamada Lin-Fá-Sán (Colina de Loto) que ora abaixa ora se levanta, descrevendo ao meio uma perfeita curva de 5 a 6 lei (3,km21) de extensão com uma largura igual a metade. É a chamada Ou (baía) que só tem um braço que liga à terra. Os presentes, as provisões e tudo o mais são transportados por mar. É por isso que os barcos dos mares da China aportam a Macau por conveniência e rapidez. A uns dez lei (5,km36) a sul, fica à direita a Tó-Mei  (cauda do Leme) (29) e à esquerda a Kâi-Kèang  (Pescoço da Galinha) (30). Mais uns outros 10 lei encontra-se, à direita, a Uáng-K’âm (Saltério Transversal) (31) e, à esquerda, a Kâu-Ou (Nove Baías) (32). As quatro figuras erectas formadas pelas diversas ilhas da baía parecem-se com o Kei-Sôk  (Constelação do Sagitário) e a água, correndo por entre elas, forma a letra sap (dez), chamando-se por isso Sâp-Tchi-Mun “ (Porta em Forma da Letra Sâp) e também Ou-Mun (Porta da Baía). A cem lei a sudeste encontra-se a isolada ilha de Lou-Mán-Sán (Montanha Milenária) toda ocupada por tropas.

A nordeste desta ilha fica Fu-Mun (Porta do Tigre) que é por onde os barcos estrangeiros entram na China. Para além desta ilha, o céu e o mar confundem-se sem haver mais ilhas.

Os bárbaros de Macau, quando entram e saem para o oceano, se não fazem pelo Fu-Mun, fazem-no pelo Sâp-Tchi-Mun, pois ambas as passagens vão dar a Lou-Mán-Sán. Sâp-Tchi-Mun fica, especialmente, perto de Macau.

Os bárbaros da raça do oceano ocidental de Macau, desde que vieram no 3.° ano de Ká Tcheng (1552), pagavam, anualmente, de aforamento 515 mân (fiadas de mil sapecas).

Há já uns duzentos anos que estão sendo feitos a reprodução e o desenvolvimento dos bárbaros. As suas famílias são em número de 420 com 3.400 bocas. Brancos são os senhores e negros os escravos.

Dentro da cidade encontram-se 150 soldados e designam o seu chefe pelo nome de peng-t’âu (cabeça dos soldados), havendo também uma autoridade para tratar dos assuntos militares, um tesoureiro, um juiz, um carcereiro e um dirigente geral dos sacerdotes bárbaros. A sua religião denomina-se de Tin-Tchü  (Senhor do Céu). A sua ocupação é o comércio marítimo. Os mais sagazes cultivam a arte do governo do Céu havendo para isso oito templos chamados Sàm-Pá (Três Batentes) (33), Ká-Si-Lán (34) (Castelhano), Tái-Miu (o Grande Templo) (35), Pán-Tchéong (Tabique de madeira) (36,) Lông-Sông  (Dragão Desgrenhado) (37), Fông-Sân (Fé no Vento) (38), Tchi-Lèong (Fornecimento de Provisões) (39) e o Fá-Uóng (Jardineiro) (40), As igrejas secundárias (capelas) estão instaladas nos troncos.

Há três troncos. Os que praticam crimes leves são levados para a igreja para ouvir missa e postos depois em liberdade, e os que praticam crimes graves são amarrados às bocas das peças e disparados para o mar.

Quanto a fortalezas há seis, chamadas Tông-Móng-lèong  (Que Mira o Mar pelo Lado do Leste) (41) Ká-Si-Lán (Castelhano) (42), Sám-Pá  (Três Batentes) (43), Nám-Uán (Arco do Sul) (44), Sâi–Móng-Ièong (Que Mira o Oceano pelo Lado de Oeste) (45) e Nèong–Má-Kók (Ponta de Néong-Má) (46.) As peças em bronze são em número de 46 e as de ferro, 30, sendo 61 grandes e 15 pequenas. De todos os templos e fortalezas o mais majestoso é o de Sám-Pá (S. Paulo).

No 10.° ano de K’in-Lông (1746), no dia 14 da 2.a lua, andando em viagem de inspecção, vim até aqui (Macau) acompanhado pelo Subprefeito da Defesas Costal lân-Kuóng-Iâm e Kóng-lât-Hün de Héong-Sán e subimos à fortaleza guiados pelos intérpretes e outros funcionários. O chefe de tropas comandava os soldados estrangeiros, em grupos de 12 homens, que traziam, nas mãos, bandeiras de pano bordado e, nos ombros, armas de caça.

A direita da esplanada fica um vasto terreno quadrado de 100 máu (675 ares). No centro, existe um pavilhão. O sudoeste está voltado para Sâp-Tchi-Mun e o leste dá para o Kâu-Tchâu-lèong (Mar das Nove Ilhas), que estão dispostas como os estrelados salpiques do tinteiro duma escrevaninha.

Para baixo, fica o sítio onde Mân-T’in-Tch’èong (47) da dinastia Sông auxiliou o imperador.

Para além destas ilhas fica Leng-Teng e as que se avistam a oeste são as de Sám-Tchó (Três Fogões) e Uóng-Ièong (Salgueiro Amarelo). Todas estas montanhas interrompem-se ao norte e, para cima, fica a Ngái-Sán (Monte do Píncaro). (Perto de Ngái-Mun, a noroeste de Macau, sítio onde no ano de 1271 se afogou Pen-Tái (Tch’éong-Heng) o último imperador da dinastia Sông).

Volvendo os nossos olhos para o interior, vemos ilhas e ilhotas confusamente misturadas umas com as outras. No mar, as naves de guerra e as naus andam patrulhando. Em terra há pavilhões e redutos, e muralhas e baluartes que se correlacionam entre si. Tch’in-Sán apega-se a Macau pelas costas e Fu-Mun constrange-lhe a garganta.

Se os dirigentes do nosso país pretenderem dominar os estrangeiros necessitam de estar unidos. Então quão poderosos não seríamos!

Conta-se que lêk-Hâm dizia: — O imperador construiu obstáculos para defender o seu país e encheu os fossos de água. Ora a maior abundância de água encontra-se no mar — dizia suspirando.

Os sábios, preocupando-se com o aspecto das alterações que sofre o mundo, insistem, profundamente ansiosos, nisto, além de que os lugares exteriores da China devem, tanto no Verão como no Outono, ser cuidadosamente vigiados, constituindo os seus fundeadouros, as suas ilhas e os numerosos montes a chave do seu sistema de defesa.

Os bárbaros vêm de longínquos mares para negociar, São ambiciosos e astutos e difíceis de se submeterem. Os ladrões, os traidores e os que furtam através das portas e janelas saem e desaparecem como peixes e pássaros.

É necessário que se publiquem ordens e exortações oficiais para precavermos contra tudo isto, pois, como é possível relaxar tal assunto, por um dia que seja?”

(29)        Ilha de D. João.

(30)        Ilha da Taipa, actualmente conhecida entre os chineses por T’ám-Tchâi.

(31)        Ilha da Montanha.

(32)        Ilha de Coloane.

(33)        Igreja de S. Paulo.

(34)        Convento de S. Francisco.

(35)        Igreja da Sé.

(36)        Convento de S. Domingos.

(37)        Convento de Sto. Agostinho.

(38)        Igreja de S. Lourenço.

(39)        É, portanto, a antiga igreja de Santa Casa da Misericórdia.

(40)        Igreja de Sto. António.

(41)        Fortaleza da Guia.

(42)        Forte de S. Francisco.

(43)        Fortaleza do Monte.

(44)        Fortim de S. Pedro.

(45)        Fortim de S. João, na Penha.

(46)        Fortaleza da Barra.

(47)        Acérrimo defensor da dinastia Sông, quando esta dinastia foi destronada pelas hordas invasoras de Kublai-Khan.

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Autoria do blog-magazine

Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

Sobre

O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

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