Cronicas Macaenses

Blog-magazine de Rogério P. D. Luz, de cara nova

Recordações de “quando Macau tinha asas”

Mais uma memória dos tempos da II Guerra Mundial em Macau, numa narrativa do comandante Namorado Júnior do Centro de Aviação Naval para a Revista Macau. Veja:

Aviação Naval em Macau: uma aventura da qual Namorado Júnior foi protagonista principal

Aviação Naval em Macau: uma aventura da qual Namorado Júnior foi protagonista principal

QUANDO MACAU TINHA ASAS

Artigo de João Aguiar publicado na Revista Macau edição de Agosto de 1992

Já passou meio século. Mas o comandante Namorado Júnior não esqueceu os tempos em que dirigiu o Centro de Aviação Naval de Macau. Nessa época, o mundo estava em guerra — e os japoneses estavam às portas do Território

Não, o comandante Namorado Júnior não esqueceu Macau. Hoje (em 1992) com 92 anos — uns 92 anos lúcidos e activos —, ele recorda como a vida era agradável nesses recuados tempos, de 1938 a 1941: Ainda havia a Macau antiga, as velhas casas… o prédio mais alto era o hotel da Avenida Almeida Ribeiro (o President, mais tarde Grand Central).

Recorda o grupo de amigos, o ténis, a convivência. E recorda também — a esta distância, até essa memória é agradável — a proximidade das forças do império nipónico, a difícil e delicada coexistência com esse poderoso e, na altura, agressivo vizinho.

Na sua casa em Cascais, há um cantinho, com urna poltrona, perto da lareira, de onde se pode ver toda a sala e os objectos que ele trouxe das suas viagens. Aí, a presença de Macau salta à vista: porcelanas, mesas, uma preciosa estatueta representando a deusa Kun Iam. É neste canto que eu gosto de me instalar: é o meu canto das recordações …

Em 1925, Namorado Júnior partir para Macau e recorda com saudade a sua passagem pelas Pirâmides do Egipto

Em 1925, Namorado Júnior partir para Macau e recorda com saudade a sua passagem pelas Pirâmides do Egipto

Namorado Júnior: quando a aviação ainda era um sonho ...

Namorado Júnior: quando a aviação ainda era um sonho …

Experiência passageira

António Gomes Namorado Júnior nasceu em Évora a 29 de Outubro de 1900. Tinha, portanto, 25 anos incompletos quando partiu pela primeira vez rumo a Macau, a bordo do navio “Gil Eanes”, que, ao serviço da Armada, transportava tropas entre Macau e Moçambique. Nessa altura, a experiência macaense foi passageira e não deixou marcas; o sucesso mais notável da viagem terá sido a passagem no Suez, que proporcionou uma visita às Pirâmides, com a sacramental fotografia turística sobre o dorso de um paciente camelo.

Mas, ao regressar a Lisboa, o jovem oficial deu o primeiro passo numa carreira que o levaria, uma dúzia de anos mais tarde, a beber a água da Fonte do Lilau: concorreu à Escola de Aviação Naval. Em Novembro de 1927, era graduado piloto aviador de hidros.

Desses primeiros tempos e desses primeiros vôos na sua carreira de aviador, Namorado Júnior recorda, sobretudo, um camarada: o tenente Apeles Espanca, o malogrado irmão da poetisa Florbela Espanca, morto no próprio dia em que prestava as provas finais de piloto. Ainda hoje, ele é capaz de descrever em pormenor como tudo se passou. Ele já tinha executado a prova final, que consistia numa amaragem, perto de uma bóia; fomos então almoçar; e depois do almoço, o Espanca meteu-se outra vez no avião, quis fazer mais um looping… provavelmente , sentiu-se mal; terá mesmo desmaiado. O aparelho despenhou-se no Tejo, entre Porto Brandão e a Trafaria.

Cruzadores e aviões

Apeles Espanca foi um dos muitos que sacrificaram a vida à nova aventura da aviação. Mas a aventura, essa, continuava. E, ao mesmo tempo, as máquinas voadoras tornavam-se cada vez mais instrumentos de poder, ao serviço dos Estados. Em 1927, o Governo português, preocupado com a confusa situação político-militar que se vivia na China, envia dois cruzadores — o “Adamastor” e o “República” — para Macau e decide criar no Território um Centro de Aviação Naval, cujo comando será confiado a um homem que viria a tornar-se uma verdadeira “legenda  macaense”: o primeiro-tenente José Cabral.

José Cabral foi, portanto, o — brilhante — antecessor de Namorado Júnior. Mas quando este, em Abril de 1938, assumiu as funções de comandante, já a obra feita havia entrado em eclipse: Cabral partira de Macau em 1931 e durante aqueles sete anos o desinteresse do Governo de Lisboa levara o Centro de Aviação Naval a um estado de quase completo abandono: um hangar sem uso, aviões velhos e deteriorados.

Foi então, lembra o comandante Namorado Júnior, que o Governo resolveu reanimar a aviação em Macau. Fui a Londres buscar quatro aparelhos, o que elevava para seis os efectivos do Território; e com a inauguração do novo hangar, ficou formalmente reconstituído o Centro de Aviação Naval de Macau. O motivo deste súbito interesse era o conflito sino-japonês e a presença de forças nipónicas na região.

Macau quando macau tinha asas (4)

O comandante Namorado Júnior (o terceiro, sentado, a partir da esquerda) entre oficiais da Marinha

Coexistência delicada

Claro que não era com seis aviões que Portugal ia enfrentar o Império do Sol Nascente, se este decidisse invadir Macau; os seis aviões eram, até, insuficientes para combater com eficácia os piratas que pululavam no delta do Rio das Pérolas. Por isso, foi preciso aceitar diplomaticamente uma delicada coexistência e manter abertos os canais de comunicação — e assim, a 9 de Janeiro de 1939, os oficiais portugueses estacionados em Macau, e entre eles o comandante do Centro de Aviação Naval, envergavam os seus uniformes de gala para receber o almirante Shiozawa — chefe da Esquadra japonesa no Sul da China.

Foi uma experiência bizarra: Era um homem pequenino, gordinho, sorridente. Não posso acreditar que, sendo um oficial de alta patente, não conhecesse o protocolo militar… mas a verdade é que, ao chegar, perguntou: ‘O que é que eu devo fazer? Foi preciso sugerir-lhe que passasse revista à guarda de honra…

Houve contactos menos cordiais. Um dia, a lancha rápida que todos os meses levava mantimentos e remédios para os leprosos da Ilha de D. João, não regressou à base. Namorado Júnior, chamado a investigar, embarcou numa lancha torpedeira e iniciou uma busca — mas a lancha acabou por encalhar e ficou, assim, à mercê dos japoneses… Felizmente, conseguimos desencalhar antes que dessem por nós. Mas arriscámo-nos a ter, pelo menos, a sorte da outra embarcação, que tinha sido, de facto, aprisionada e que eles só devolveram umas semanas depois!

Recepção em Macau ao almirante Shiozawa, chefe da Esquadra japonesa no Sul da China

Recepção em Macau ao almirante Shiozawa, chefe da Esquadra japonesa no Sul da China

Patrulhas e… espionagem

Mas havia, também, algumas desforras. Os pilotos do Centro de Aviação Naval tinham, como missão de rotina, a realização de patrulhas — e nessas ocasiões faziam uma discreta espionagem, cujos resultados comunicavam aos ingleses: Foi assim que, uma vez, detectámos uma grande concentração de navios e outros meios; dois dias depois, dava-se o grande ataque japonês contra Xangai. Apesar de tudo, a vida era pacata em Macau. Ou pelo menos, foi essa a recordação que ficou, cinquenta anos passados. Uma cidade pequena, um meio português mais pequeno ainda; rodas de amigos, clubes, partidas de ténis, passeios — e, a dar um pouco de animação, a necessidade de fazer um ataque aéreo contra uma lorcha que partia, cheia de tabaco ilegal…

Em 1941, Namorado Júnior, que entretanto se ausentara para frequentar o curso de capitão-tenente, cumpre a sua terceira e última estada em Macau: promovido, em breve será chamado novamente a Portugal, para comandar o Centro de Aviação Naval de Lisboa.

Essa viagem de regresso não foi isenta de aventuras, bem pelo contrário. Primeiro, o navio em que embarcara, em Hong Kong, teve de acolher a Swatow para fugir a um tufão. Depois, em Xangai, perdida a ligação, foi preciso esperar dez dias (dez dias de férias!, recorda, com um sorriso cheio de reminiscências) para tomar outro barco — um paquete japonês… ora, antes da chegada a Honolulu, um passageiro confidencia a Namorado Júnior: Estamos a voltar para trás!. Ele verifica e confirma essa impressão, mas a tripulação nega. O barco retoma o seu rumo, mas dias depois há novo desvio, sempre para Norte.

Namorado Júnior: "A vida era pacata em Macau ..."

Namorado Júnior: “A vida era pacata em Macau …”

Qualquer coisa no ar…

Já viramos a Norte duas vezes; à terceira, é forca! — exclama Namorado Júnior para outro oficial português que segue a bordo. Ambos discutem a questão; sentem que há qualquer coisa no ar e decidem abandonar o barco em Honolulu.

E fizemos bem! O que acontecera? Apenas isto: o comandante do paquete japonês alterara o rumo para que os passageiros não vissem a concentração das forças que iam atacar Pearl Harbour (e provocar a entrada dos Estados Unidos na guerra). Iniciado o ataque, o paquete dirigiu-se imediatamente a um porto japonês e todos os passageiros foram internados. Todos — menos Namorado Júnior e o oficial que ficara com ele em Honolulu.

O que quer dizer, evidentemente, que ali testemunharam o ataque a Pearl Harbour. Foi horrível… mas para nós, sempre foi preferível a ficarmos internados no Japão!

E hoje, até essa lembrança é boa de recordar.

Macau, a sua Macau, está distante. Contida apenas nas velhas fotografias. Mas viva, ainda, na memória. Quem bebeu da Fonte do Lilau…

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Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

Sobre

O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

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