Cronicas Macaenses

Blog-magazine de Rogério P. D. Luz, de cara nova

Macau 1874, o maior de todos os tufões

Em 23 de setembro de 2014, vai fazer 140 anos do maior tufão de todos os tempos que atingiu Macau . Foi destruidor, conforme é descrito no texto extraído do artigo de Ricardo Pinto publicado na Revista Macau em 1994. Vejamos:

Praia Grande após o tufão de 1874 (zona entre o Palácio do Governo e o edifício dos tribunais)

Praia Grande após o tufão de 1874 (zona entre o Palácio do Governo e o edifício dos tribunais)

1874: UM TESTENMUNHO DA TRAGÉDIA

Texto de Ricardo Pinto extraído do artigo “A Ira do Tempo” publicado na Revista Macau edição Setembro de 1994

O maior tufão de sempre em Macau faz agora, em 1994, 140 anos, no dia 23 de Setembro. Uma data que, por muitos anos, a população não esqueceu, tal foi o tamanho e a gravidade dos danos que a tempestade infligiu ao território e às zonas vizinhas. Uma das testemunhas dessa noite foi o secretário do governador, Pedro Gastão Mesnier, que deixou publicado no Boletim Oficial da Província de Macau e Timor o eloquente relato de que a seguir transcrevemos algumas passagens:
Durante toda a semana anterior, não tinha havido tão formosa madrugada. Centenas de lorchas de pesca, aproveitando o bom tempo, velejavam à vista da Praia Grande, na larga bacia de mar, que se estende até à ilha de Lantau, e todos estavam entregues à mais tranquila confiança, enganados pelo aspecto risonho da atmosfera.
Eram três horas da tarde, e os marinheiros chineses, assustados pela transformação súbita da atmosfera, corriam a abrigar as embarcações em lugar seguro. Impelidas pela brisa cada vez mais fresca, debaixo do firmamento, que de momento a momento se tornava mais medonho, e fazendo espumar sob as rápidas quilhas as águas esverdeadas do nosso porto, milhares de juncos se precipitavam, em confuso tropel, fugindo perante as ameaças que todos aqui sabem compreender.
Em poucos instantes a perspectiva da rada de Macau, que pela manhã apresentava tão animado espectáculo de embarcações indígenas, aparecia solitária e deserta.
Ao pôr do Sol, os seus raios quase horizontais, refractos pelo raro véu de vapores que cobria o ocidente, derramaram subitamente pelo firmamento uma cor vermelha intensa, que envolvia tudo nos seus ardentes reflexos. Parecia que se abria subitamente a boca de enorme fornalha. Durou poucos instantes o fenómeno luminoso.
À meia noite, eram já violentíssimas as rajadas, e nos bairros expostos, a cidade estava como morta.
No porto interior, desabrigado do lado Norte, as águas estavam mais desinquietas.
Sacudidas pelo ímpeto do temporal, algumas lorchas principiaram a perder a amarração, e apenas se desligavam das âncoras, eram arrastadas em vertiginosa carreira, sobre as vagas espumantes, pelo esforço combinado do mar e do vento.

juncos detroçados

juncos detroçados

Os nossos navios de guerra, a escuna Príncipe D. Carlos, navio de vela de 150 toneladas, a canhoneira Tejo a vapor de 300 toneladas, e a canhoneira Camões de 80 toneladas, ancoradas entre a Alfândega e a fortaleza da Barra, viam estas moles passando desordenadamente em todas as direcções, acrescentando mais os perigos com que já se encontravam a braços.
Em pouco tempo, com o aumento da tempestade, todos os juncos foram perdendo as suas amarrações, e as águas espadanando acarretaram essa mísera esquadra de barcos que se chocavam e destruíam mutuamente, em horrenda confusão, espalhando por toda a parte os seus destroços, e refervendo-se no desencadeamento frenético das ondas; era uma cena estupenda e lamentável, que representava ao vivo os tabulados rios das regiões infernais, cheios de desesperos, de destruições, de horrores sem nome, e principalmente quando, mais tarde, os incêndios da cidade espalharam o seu rubro clarão sobre este assombroso espectáculo.
A escuna Príncipe D. Carlos, abalroada pela massa de juncos, que se despegara como as neves nos mares árticos durante um dêbâcle foi envolvida, arrancada da sua posição, e seguiu a mesma desesperada carreira, indo-se perder por fim, no interior das terras da ilha da Lapa; a Tejo, depois de receber terríveis choques, escapou milagrosamente de perder os seus ferros; a Camões foi parar pelo rio acima, numa várzea de arroz.

casario danificado no Porto Interior

casario danificado no Porto Interior

Estes acontecimentos haviam principiado quando ainda a parte da cidade exposta a Leste pouco sofrerá.
Eram duas da manhã, e o barómetro descia com maior rapidez do que antes, quando de repente o vento mudou de Norte para Leste. Essa mudança foi súbita, quase instantânea; houve um segundo de calma, e logo, com indescritível violência, uma rajada ululante varreu toda a extensão do Mar de Lantau. Foi o sinal.
Encapelando-se em montes sobrepostos, o mar levantou-se numa vaga medonha, e sopesando-se um instante, precipitou-se de chofre sobre toda a parte oriental da cidade, desde o forte de S. Francisco até à Barra. As portas das casas da Praia Grande foram arrancadas, e a água inundou os andares inferiores, as árvores arrancadas, as cantarias dos parapeítos desmoronadas vinham feri r as casas de envolta com as vagas, quais irresistíveis aríetes.

Outra perspectiva da Praia Grande (junto ao centro diocesano)

Outra perspectiva da Praia Grande (junto ao centro diocesano)

Peças de artilharia de muitas toneladas, foram desmontadas, e transportadas a grande distância, pela força da vaga, como depois se verificou, na manhã seguinte com geral espanto.
Entrava o temporal numa fase, em que mal se pode descrever o excesso de furor, com que o vento e o mar se precipitavam sobre esta cidade como se a quízessem eliminar da superfície da terra. Um estrondo constante, furioso, e rugidor, composto das vozes mais temerosas que a natureza pode soltar na sua ira, estrugiam pelos ares: mal se podiam ouvir duas pessoas vizinhas, e de vez em quando, as vibrações mais fortes da tempestade, acompanhando o esforço aumentado dos elementos, infundiam espanto e terror nos infelizes que viam os seus abrigos ameaçando sepultá-los sob as ruínas.
Quando o barómetro chegou a 706 mm, julga-se que o ápice da voracidade do tufão estan» passando por Macau.
Com o ímpeto das rajadas, dos escarcéus e os choques do mar, o solo estremecia como se estivesse sofrendo um terramoto.

A Igreja em 1874 quando foi parcialmente danificada por um incêndio

Igreja de Santo António, parcialmente consumida por um incêndio. Nesta foto, vê-se ainda o edifício que havia no local onde hoje é a entrada para o Jardim Camões

* Veja também a postagem “O Tufão” um texto de obra premiada no IV Concurso de Literatura Colonial de 1932:

https://cronicasmacaenses.com/2014/09/20/o-tufao-um-texto-de-obra-premiada-no-iv-concurso-de-literatura-colonial-de-1932/

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Publicado às 18/09/2014 por em Tufão de 1874 e marcado , .

Autoria do blog-magazine

Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

Sobre

O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

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