Cronicas Macaenses

Blog-magazine de Rogério P. D. Luz, de cara nova

Uma visão de Macau nos anos 50 por Artur Levy Gomes

Na introdução do seu livro editado em 1957, Esboço da História de Macau 1511-1849, Artur Levy Gomes faz uma descrição da Macau de quase no fim da década de 50 com cerca de 170 mil habitantes. O livro foi uma edição da Repartição Provincial dos Serviços de Economia e Estatística Geral (Secção de Propaganda e Turismo). Vejamos:

Esboço da Historia de Macau livro de Artur Levy Gomes.edit

Texto de Artur Levy Gomes

Ao Leitor

Macau, por três séculos, a única possessão europeia na China, o primeiro empório do comércio exclusivo com o Japão e o Celeste Império, o fanal donde irradiou a luz da civilização ocidental por todo o Extremo Oriente, tão pequena em território como grande em tradições, com o seu cunho de Portugal antigo e ressaibos de orientalismo, constitui uma das mais preciosas jóias do nosso património ultramarino.

Territorialmente consta da cidade propriamente dita, que abrange toda a península, e das ilhas adjacentes, contando, presentemente, no seu conjunto, pouco mais de catorze quilómetros quadrados de superfície.

Privilegiadamente situada no delta comum dos dois rios, Chu-Kiang (rio de Leste, ou das Pérolas) e Si-Kiang (rio de Oeste) a oitenta milhas da cidade e porto de Cantão, capital da grande província de Kuang-Tung, distrito de Heung-Shan (1), a 22°-11′-50″ de latitude N., e 113°-33′-30″ de longitude E. de Greenwich, tendo na sua parte peninsular a pequena área de 3,5 quilómetros quadrados, árida e deserta ao tempo da concessão, está hoje repleta de edifícios e de luxuriante vegetação, aumentada territorialmente em quase três quilómetros quadrados de terrenos conquistados ao mar.

É ligada por um pequeno istmo à ilha de Heung-Shan (montes odoríferos) e cercada de ilhas pequenas e agrestes, possuindo um porto natural pouco espaçoso e fundo, mas bastante abrigado.

Colocada quase sob o trópico, na zona semitropical ou de transição, com uma temperatura média de 22°,2 e uma sensível estabilidade térmica, pode dizer-se que tem um clima salubre e invejàvelmente temperado (2).

Tais são as conclusões a que chegou e expôs no seu erudito relatório ao «Quarto Congresso de Medicina Tropical do Extremo Oriente», realizado em Batávia, em 1921, o ilustre clínico do quadro de Saúde de Macau, Dr. António do Nascimento Leitão, conclusões que me permito transcrever na íntegra:

« De l’étude telluro-climatogique et nosologique on conclut ce qui suit :

  1. a) Pendant toute l’année, le climat de Macao est salubre et réfractaire à certaines maladies.
  2. b) Pendant l’époque automno-bivernale ( Octobre -Mars ), Macao a droit à la qualification de station climatique dans la Mer de Chine, puisqu’à cette époque, son climat tempéré a des caractères de climat méditerranéen ».

De ossatura granítica, estão em todo o seu sistema orográfico bem patentes as rochas platónicas, quer em afloramentos mais ou menos degradados, quer recobertas pelos produtos da sua própria degradação ou apreendidos pelas rochas sedimentares.

Possui urna configuração topográfica suavemente ondulada, em declives mais ou menos acentuados, e praias que se esbatem em curvas e recortes grácis, colinas revestidas de pujante vegetação, jardins encantadores pela sua policromia e frescor, plainos coalhados de casario em que se mistura o exotismo da arquitectura chinesa com as linhas sóbrias e pesadas das antigas construções europeias, aparecendo já em alguns edifícios modernos o futurismo arquitectónico importado da América.

Os seus templos cristãos, os pagodes budistas, os hotéis modernos, o característico bairro chinês com o seu bazar e ininterrupto vaivém dum formigueiro humano; os clássicos jerinxás, o tan-tan dos vendedores ambulantes, enfim um mundo exótico em miniatura, prende a atenção do europeu, gravando-se-lhe indelevelmente na retina e no ouvido.

A beleza poética da remançosa «Gruta de Camões», sobranceira ao Patane, evoca-nos, na sua ensombrada solidão, recordações saudosas do nosso poeta máximo.

Para a parte nova da cidade, sobressaem os massiços de verdura da colina da Guia, coroada, a cento e dez metros de altitude, pelo seu majestoso farol, o primeiro que iluminou as costas da China; o campo da Flora e a Avenida Vasco da Gama, com os seus dois monumentos, recordam-nos, na sua modéstia, um deles, a nossa maior glória marítima, e o outro, um dos factos mais brilhantes da História de Macau.

Bem arborizadas estradas talam os terrenos de Mong-Há e, ao fundo, destaca-se a Ilha Verde, emergindo das águas do Porto Interior.

As montanhas do Cathay, as Nove Ilhas aflorando no rio das Pérolas, a da Lapa, a da Taipa, a de Coloane, e mais para o sul as de D. João e Wong-Kam encerram Macau, qual preciosa gema, em escrínio maravilhoso.

Antes da eclosão da última guerra sino-japonesa, tinha Macau uma população que orçava por cento e sessenta mil almas, constituída por enorme  maioria  de  chineses  que  habita,  de  ordinário,  a parte sudoeste da península, por macaenses, europeus e alguns indianos. A população das ilhas da Taipa e Coloane anda por uns dez mil habitantes, na quase totalidade chineses, marítimos de profissão, ou comerciantes.

É sede de uma Diocese, a mais antiga do Extremo Oriente, e tem quatro freguesias: Sé, S.Lourenço, Santo António e S. Lázaro, esta última pertencente à comunidade chinesa católica. Há nela também a freguesia da Taipa e Coloane, sob a invocação de Nossa Senhora do Carmo.

Tem ainda sob a sua jurisdição eclesiástica as Missões de Heung–Shan e Shiu-Hing, em território chinês, Malaca e Singapura em territórios ingleses. É este conjunto que compõe o Padroado do Oriente.

Possui igualmente bastantes pagodes ou igrejas do culto budista, alguns bastante sumptuosos e até anteriores à nossa ocupação, como o da Barra, e, no cemitério dos protestantes, uma capela desse culto.

A título de mera curiosidade julgamos interessante dizer que foi em Macau, quanto ao Extremo Oriente, que se utilizou a primeira imprensa de tipo móvel em vez de blocos de madeira estereotipados que os chineses usavam.

Foi em Macau que se criou o primeiro hospital estrangeiro que existiu na China, e que a vacinação se pôs em prática. Foi ainda a Macau que, em 25 de Novembro de 1840, aportou o primeiro vapor de aço que chegou ao Extremo Oriente, o «Nemesis», do comando do capitão Hall.

* * *

O título que escolhemos para este pequeno trabalho, pobre de literatura e despido de erudição, mostra bem que não pretendemos fazer a História de Macau, para que não nos achamos com fôlego, mas simplesmente divulgar alguns dos episódios da acidentada vida desta nossa tão longínqua, quão encantadora provinda ultramarina.

Não espere, portanto, o leitor encontrar aqui um trabalho completa, mas queira resignar-se a ver nele apenas um sintético esboço dessa História, desculpando-nos, benevolamente, as lacunas que encontrar.

(1) Presentemente este distrito denomina-se Chong-Shan, em homenagem ao falecido Dr. Sun Chong San, mais conhecido por Sun lat Sen, o grande reformador e fundador da República Chinesa, cuja familia é oriunda daquele distrito.

(2) Cf. « Tellerulogie et Climatologie Medicales de Macao» —pelo Dr. António do Nascimento Leitão — coronel-médico — 1921.

Macau estatua Jorge Alvares anos 50.edit

Monumento a Jorge Álvares, o primeiro português que, em 1513, chegou à China (foto do livro)

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Autoria do blog-magazine

Rogério P. D. Luz, macaense-português de Macau, ex-território português na China, radicado no Brasil por mais de 40 anos. Autor dos sites Projecto Memória Macaense e ImagensDaLuz.

Sobre

O tema do blog é genérico e fala do Brasil, São Paulo, o mundo, e Macau - ex-colônia portuguesa no Sul da China por cerca de 440 anos e devolvida para a China em 20/12/1999, sua história e sua gente.
Escrita: língua portuguesa escrita/falada no Brasil, mas também mistura e publica o português escrito/falado em Portugal, conforme a postagem, e nem sempre de acordo com a nova ortografia, desculpando-se pelos erros gramaticais.

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